Que livro!

Não gostei do título. É fácil. Acho que só foi original em “Of mice and men”, “De homens e ratos”, e mesmo assim não tenho certeza, porque isso faz muito tempo e não sei como o título de Steinbeck foi recebido em 1937. Todos nós que vivemos de escrever já usamos variantes disso, em geral quando não nos ocorre nada melhor. Mesmo assim, dei aquela folheada básica que se dá num livro desconhecido. Também não gostei da epígrafe. Ou, por outra: não gostei da forma como as epígrafes (duas) foram apresentadas. A primeira, de Theodor Adorno, no original alemão, seguida da sua tradução. A segunda, uma citação bíblica, em português. Não gosto de epígrafes em línguas estrangeiras, salvo uma ou outra exceção — um verso tão conhecido que de alguma forma se incorporou ao nosso idioma, uma expressão popular, um recorte da cultura universal. Mas pouca gente fala alemão no Brasil. E, se é para usar o original pelo original, por que a citação do Levítico não está em aramaico? E por que a nota final, tirada de Dostoiévski, não ficou em russo?

Sou horrivelmente implicante, eu sei. Mas preciso contar a vocês como é o meu processo de leitura, e como me aproximei deste livro, para dar a exata dimensão do quanto gostei dele. Porque a verdade é que, depois do título e das epígrafes, que me encheram de má vontade, não houve mais nada — nada! — de que eu não tivesse gostado, e muito, em “De gados e homens”, de Ana Paula Maia. E olhem que esta é uma história que se passa num matadouro.

Li quatro ou cinco páginas de pé, ao lado da mesa onde ficam os livros recém-chegados. Eu tinha acabado de vir da rua, de um monte de aborrecimentos burocráticos, e estava exausta. Queria um banho, um café, um tempo espichada na rede olhando para o teto, sem fazer nada. Mas ali mesmo tirei os brincos e o relógio, chutei os sapatos e fui direto para o sofá, de onde só me levantei horas mais tarde, depois de terminadas as 127 páginas da edição da Record.

Ana Paula Maia escreve sem frescura. Não faz “Grande Literatura”, o que é uma benção num meio em que as pessoas adoram
inventar modinhas formais que nada acrescentam ao texto. A sua escrita é enxuta e direta, como o mundo áspero que descreve. É violenta também, mas de uma volência que vem das circunstâncias, sem alarde, como parte de um processo natural.
Edgar Wilson, o personagem principal, é atordoador num abatedouro, ou seja, aquele sujeito que dá as pauladas na cabeça dos bois para que estejam inconscientes ao serem mortos e esquartejados. Mas Edgar Wilson é, dentro de suas possibilidades, uma boa pessoa. Ele olha os bichos nos olhos e faz um pequeno sinal da cruz nas suas testas.

“O que Edgar Wilson faz é encomendar a alma de cada animal que abate e fazê-lo dormir antes de ser degolado. Não sente orgulho do trabalho que executa, mas se alguém deve fazê-lo que seja ele, que tem piedade dos irracionais.”

Edgar faz parte de um universo de homens rudes, plausíveis e magistralmente apresentados pela autora. Há Bronco Gil que tem um olho de vidro, Santiago que abatia renas na Finlândia e usa óculos de esqui, Burunga que consegue ficar com a cabeça debaixo d’água por um tempão. Ninguém leva vida mansa, nem bípedes nem quadrúpedes; a morte não é nenhum bicho de sete cabeças, é só algo que sucede, naturalmente ou não, a quem está vivo. Um dia coisas estranhas começam a acontecer no matadouro. Vacas abortam. O gado pasta voltado para a direção errada. Uma das vacas atravessa a cerca e se suicida, dando com a cabeça na parede. Apesar desses acontecimentos estranhos, o mundo do abatedouro é pequeno. Suas preocupações são pragmáticas e objetivas, mesmo quando lidam com o que não se pode explicar. A vida é uma vida de movimentos restritos e realizações miúdas, dias e noites de roça.

Ana Paula Maia, que nasceu em Nova Iguaçu, tem 36 anos e, ao longo da última década, escreveu outros cinco romances, foi uma descoberta extraordinária para mim. Vou atrás dos seus outros livros, nos quais, me informa a internet, Edgar Wilson é personagem recorrente. Leiam “De gados e homens” e depois me digam se não valeu cada palavra, cada vírgula.
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Estive na Bienal da Bahia, em Salvador, no último fim de semana. Foi movimentada, alegre, com uma garotada esperta e participativa: o melhor público possível. Não foi surpresa. Eu amo a Bahia. Gosto do sol, da simpatia das pessoas, da comida, da recepção invariavelmente carinhosa que encontro por lá.

Gosto sobretudo das minhas amigas baianas, que são senhoras mais ou menos da minha idade que não pintam o cabelo, não usam botox, não vestem manequim 38 e aceitam, plácidas e belas, o fato de que já têm a idade que têm. O que não significa que sejam acomodadas, pelo contrário: são batalhadoras e criativas, inteligentes, sensíveis. Gente com G maiúsculo.

O narcisismo exacerbado do Rio às vezes me cansa. Cada vez mais acho um tédio visual ir a uma festa e só encontrar pessoas com a mesma aparência, o mesmo manequim, as mesmas bolsas e a mesma tonalidade de tintura de cabelo, tenham 30 ou 80 anos.

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9 respostas em “Que livro!

  1. Dizer o quê?
    Fiquei comovida.
    Eu não pinto mais o cabelo, sou gordinha, não uso botox, sou baiana, tento ser plácida e quanto ao bela, sim, por vezes o espelho me retorna uma beleza nova, não nova no sentido da idade, mais no sentido da transformação, estou diferente, mais não feia, enfim, concordo com D. Nora, estou ficando é velha mesmo, e isso nem é bom nem é ruim, é a minha realidade atual.
    E quanto a tudo igual, todas iguais, eu percebi isso no começo da minha adolescência, numa festinha, olhando do alto de uma escada verde, nas mesinhas todas iguais, cabelo liso repartido do lado, cores pasteis nas blusas, minissaias retas, sapatos de verniz colorido, argolas de pérolas compradas em Paris, a imagem, a ideia, tudo ficou guardado, seu escrito me fez lembrar, era noite, era verão, um flamboyant avermelhava tudo, a velha de hoje reflete um pouco aquele momento…
    Deixou saudades, viu, Flor?!

  2. Ai, que crônica boa…adoro quando vc deixa as “polêmicas de lado e retoma o jeito gostoso que “prende” o leitor à primeira letra. Só não concordo com o despojamento das baianas…gosto não…”quem não se enfeita a si mesmo se enjeita”…fico fula se minhas roupas preferidas ficam apertadas e não consigo usá-las quando quero. Claro que narcisismo exagerado é ruim , mas “vaidade de menos” também. Não gosto de mulher saudável que não pinta o cabelo, engorda demasiadamente , se veste como quem vai à feira full time, acho feio, deselegante. Eu trabalho, cuido de filho, não tenho um séquito de aias a me servir, o cabo da Boa Esperança já se insinua nel mezzo del camin,tenho mil urubus chatos me “arrodeando”,mas tô sempre arrumadinha, como não?

  3. O Kindle tem essa vantagem- o imediatismo na aquisição. Este é o segundo livro de autor brasileiro que adquiro por indicação e recomendação em pouco mais de uma semana. O “Fim” de Fernandinha Torres, mexeu comigo uma barbaridade. Ainda estou com a impressão de que, maugrado o tanto que tenho escrito sobre finitude, a minha ficha de septuagenário ainda não havia caído. Todas as minhas mazelas emergiram e, de forma tragicômica, me apontaram o tão pouco que resta…http://mukandasdonelsinho.wordpress.com/2013/11/10/fim/

  4. Como sou “uma mulher mais ou menos da sua idade” e não visto manequim 38, fiquei rendida de ternura pelo seu comentário. E vou sim, procurar o livro dessa moça Ana Paula Maia que “escreve sem frescura (…) num meio em que as pessoas adoram inventar modinhas formais que nada acrescentam ao texto.” Eu ando brigada com os tais “beletristas”… (Já sigo você no Twitter.)

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