Microsoft on my mind

Volta e meia jornalistas de tecnologia são sondados por assessorias que fazem pesquisas para saber como esta ou aquela empresa é vista pela imprensa. Respondo de bom grado. Acho que quem encomenda uma pesquisa dessas mostra vontade de acertar e de melhorar a comunicação. Mas detesto quando as pesquisas são “cegas”, ou seja, quando não nos informam quem as pediu.

A ideia por trás disso é, imagino, evitar qualquer interferência que possa desvirtuar o pensamento do entrevistado. Mas, na minha modesta opinião — ou IMHO, como eu escreveria se estivesse mandando um email — o nosso pensamento não está livre de interferências nunca. Nas poucas vezes em que fico sabendo, ao fim do questionário, quem o encomendou, percebo, com frequência, que dei respostas que não refletem a minha opinião.

Explico. Uma pergunta típica é: “Para você, quais são as três empresas mais inovadoras do setor tal?” A minha resposta, porém, vai depender do que eu estiver fazendo, do último lançamento que tiver analisado, das notícias que tiver lido imediatamente antes de atender ao telefone — em suma, do que estiver na minha cabeça, de forma inteiramente ocasional. Ao passo que se me perguntarem se acho que a empresa X está ou não entre as mais inovadoras, vou pensar com mais objetividade.

Há alguns dias recebi um telefonema desses da Microsoft. Só fiquei sabendo que era da Microsoft no final. E, quando soube, fiquei com a sensação de ter sido injusta. Não sei exatamente por quê; não houve uma pergunta A ou B que me desse essa sensação, apenas o conjunto da obra, digamos assim. Fiquei com a impressão de não ter dado à empresa os louros que ela merece, já que tem se mostrado singularmente criativa e inovadora.

A minha relação com a Microsoft, assim como a da maioria dos usuários que a acompanham desde o tempo da tecnologia a vapor, é muito complexa. Houve um tempo em que ela era a mais odiada de todas as empresas de informática, termo pelo qual se chamava a TI naquela época, e por justa causa: era inacreditavelmente predatória, destruía a concorrência, comprava lindos produtos e projetos só para matá-los sem propósito.

Com o tempo — e com a ajuda de incontáveis processos movidos em todos os cantos do globo — ficou menos agressiva e destruidora. A transformação de Bill Gates em filantropo também ajudou muito a melhorar a sua imagem. Ainda assim, fiquei arrasada quando comprou a Nokia, uma das companhias mais corretas e criativas que já conheci. A fusão das duas é um choque de culturas corporativas tão brutal como não se via desde que a IBM comprou a Lotus, em 1995.

Ainda não posso dizer que “gosto” da Microsoft — como “gosto” da Nokia e da Motorola, por exemplo — mas reconheço que a empresa, ultimamente, tem feito um bonito em termos de criatividade. Seu Windows Phone é, disparado, o mais elegante e funcional dos sistemas operacionais para dispositivos móveis. Quando uso um iPhone ou um Android ao lado do Lumia 1020, tenho a sensação de estar na fronteira entre o passado e o futuro das interfaces.

O Skydrive, sua solução de trabalho e armazenamento na nuvem, é sensacional e, em alguns aspectos, superior ao Google Drive, sobretudo para usuários Windows. E, apesar de ser um fracasso de vendas, o Surface, tablet que nem cheguei a ver, é, com certeza, um passo numa nova direção, e não mais do mesmo, como tendem a ser os tablets em geral.

Enfim, os tempos mudam, e a gente muda com eles. Eu nunca teria imaginado que, um dia, olharia para a Microsoft com curiosidade e — vale a palavra — admiração.

(O Globo, Economia, 9.11.2013)

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7 respostas em “Microsoft on my mind

  1. Finalmente um grande autor contemporâneo na FLIP ! Millor Fernandes ! Parabéns, Cora ! Nos veremos na FLIP do ano que vem !

  2. Falar mal da Microsoft se tornou algo da moda depois que ela quase acabou pelo processo antitruste… que começou no governo Clinton! O tempo passa….
    Os programas do Office são hoje a “vaca leiteira” da microosft, e fazem por merecer isso. Estão bem à frente da concorrência, e o Excel está anos-luz à frente das outras planilhas. O Numbers é bom para fazer gráficos bonitos e o Libre Office pode quebrar um galho, mas a qualidade do Excel é que faz ele ser a escolha da maioria.

  3. eu admiro, por princípio, as pessoas que ganham dinheiro a partir de uma idéia que é, depois, desenvolvida com muito trabalho. acredito que, apesar de alguns erros, o bill gates fez basicamente isso. o ódio que alguns sentem pela microsoft tem um pouco, acredito, a ver com a velha inveja do sucesso.
    []’s

  4. Olá,
    Antes de mais nada gostaria de expressar minha decepção pessoal com o texto da coluna de hj.
    Sempre que posso leio sua coluna no jornal. E foi tamanha decepção com a coluna de hj, q fiz uma conta no WordPress só para comentar.
    Como entusiasta GNU/Linux e usuário, confesso que a MS, fundada por Bill, já não é tão escrota como foi. E tu até investe em Linux. Mas continua com aquele projeto de monopólio enraizado na sua concepção.
    Enfim, acredito que projetos abertos (open source) ainda tem muito mais para contribuir à humanidade do que as facilidades e inovações que a MS oferece, de forma fechada.
    Att.,
    Wilson Valente (leitor O Globo)

  5. Cora, certamente V. escreve em aramaico – não sou plugada, apenas inquieta mas preguiçosa, só sei é batucar umas linhas e adoro isso – mas curto demais seus textos, sobretudo um como esse porque…….. a vida inteira de computer ouvi falarem malíssimamente mal da Microsoft.Agradecendo, vai pro FB.

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