Tobias

Tobias

A história do Tobias não é exatamente a história do Tobias — é meio que a minha história também. Sempre tive siameses na famiglia. E, como sabe todo mundo que já conviveu com um deles, os siameses têm um jeito todo especial de ser: são conversadores, possessivos, carinhosos, neuróticos, autoconfiantes, coleiros, curiosos, mandões. Eles sabem que são donos dos donos e tiram o maior proveito possível disso.

Fiquei muito mal quando Old Man Lucas morreu, em maio. Muitos casamentos não duram o que durou a nossa relação de 16 anos. Nós nos entendíamos, aliás, como os velhos casais — ninguém precisava dizer ou miar nada, bastava nos olharmos para saber o que um ou outro queria.

Comentei então com a Bia que precisava de outro siamês. De certa forma, a famiglia não me parece completa sem um deles. Bia entrou em contato com todas as nossas amigas que cuidam de gatinhos, pôs mensagens na rede, e nada. Não havia um único siamês disponível no Rio.

A busca foi interrompida com a chegada inesperada da Frida Gahto, a tuxedinha que havia sido chutada e estava entre a vida e a morte. Acolhi a bichinha temporariamente, até encontrarmos dono para ela — mas logo me encantei com o seu jeito marrento e a sua fibra de guerreira. Frida ficou, e eu deixei a ideia do siamesinho de lado. Não tinha mais vaga em casa: sete gatos é muito gato.

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Eis que um dia a Ju, minha sobrinha, viu o anúncio de dois irmãozinhos para adoção, e me marcou na foto. Eram tão bonitinhos! Não resisti, falei com a Christianne Duarte, da Quatro Patinhas, e fui visitá-los na Clínica Maxwell, onde estavam internados para os exames de praxe.

Eles eram filhotes da gata da Mulher Sem Noção, que se recusa a castrar a bichinha e que, a cada nova ninhada, pede socorro às protetoras. A Kika me disse que esta era a última ninhada que ela ajudava: ou a Mulher Sem Noção lhe dava a mãezinha para castrar, ou adeus ajuda. Três dos cinco gatinhos, que eram brancos, já haviam sido adotados; os dois sialatinhas ainda aguardavam quem os quisesse.

Não que faltassem candidatos. Faltavam candidatos bons: doar siamês é arriscado, me explicou a Kika, porque muita gente os pega pelas razões erradas, seja porque são “de raça” e dão status, seja para pô-los para procriar e fazer comércio.

Quando entrei na sala onde eles estavam, vi vários outros animaizinhos em gaiolas: uma mãezinha com bebês muito pequenos, uns amarelinhos que miavam e esticavam as patinhas para que eu lhes fizesse carinho, uma cadelinha amistosa. Havia até um ouriço.

Os dois siamesinhos estavam entretidos um com o outro, no fundo da gaiola, e não vieram falar comigo. Abri a porta, tentei atraí-los mexendo com um pedacinho de papel, mas nada: estavam cabreiros e não queriam papo.

Que decepção! Pelo visto, eles tinham todo o jeito de siameses no visual, mas não no temperamento. Além disso, eu acredito em amor à primeira vista.

— É assim mesmo, — disse a Kika. — Eles estão estranhando, depois se acostumam…

Mas percebi que ela percebeu o meu desapontamento; e não senti muita firmeza no que ela disse — acho que nem ela, tadinha! — até porque, naquela sala mesmo, havia vários outros gatinhos que nunca tinham me visto antes, e estavam loucos para brincar comigo.

Que fazer? Adotar por adotar não faria sentido. Com sete gatos, eu já tinha mais gatos do que o bom senso recomenda. Iria a oito por extravagância, se encontrasse um bichinho com a personalidade que estava procurando.

Olhei para um, olhei para o outro… eram iguaizinhos. Um, com os olhos mais escuros, era levemente mais saidinho do que o outro. E decidi que o traria comigo para casa, a título de experiência. Dei tchau para a Kika como quem diz até logo.

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Eu não precisava ter me preocupado. Tobias já me impressionou no caminho para casa: veio tranquilíssimo, muito na dele, sem dar um pio. E nem fugiu da minha mão quando abri a caixa de transporte e fiquei fazendo carinho na sua barriga.

Quando chegamos, ele saiu da caixa movido pela curiosidade. A Cláudia tinha deixado uma suite pronta no banheiro de visitas, com cama, comida, água e brinquedos. Ele comeu e bebeu, mas quando fechei a porta começou um escarcéu: não queria ficar sozinho.

Deixei que saísse.

A Famiglia o recebeu catatônica. Os gatos não acreditavam no que viam: como assim, mais um gato?! E uma porcaria pequena, ainda por cima? Onde vamos parar?

Tobias manifestou apenas um vago interesse pelos grandões, e saiu trotando pela casa explorando os ambientes, cheio de atitude, com o rabinho espetado para o alto.

Naquela noite mesmo descobriu sozinho como subir na minha cama e dormiu colado na minha cabeça, ronronando altíssimo. Em consequencia disso, durante três ou quatro dias os outros recusaram-se a dormir na mesma cama, “contaminada” com o cheiro do recém chegado, e me cobriram de gelo e desprezo.

Também rosnaram e fizeram fu! para o Tobias, mas como ele não se deixa intimidar por nada, acabaram desistindo. Hoje ele brinca muito bem com o Toró, com a Flor, com a Frida e com o Fonseca; foi meio que adotado pela Lolinha; e irrita o coitado do Tiziu, que só quer paz e sossego. Matilda detesta o Tobias, mas isso é normal: ela detesta gatos em geral.

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Tobias só tem dois tempos: ON e OFF. Ou está elétrico pela casa inventando bobagens e correndo feito um maluco, ou está desmaiado, de preferência no meu colo ou perto de mim. Tudo é brinquedo para ele.

Adora comida, e ainda não descobriu que é carnívoro. Come melancia, mamão, alface, abacaxi, feijão, papel toalha, macarrão, bolo e sorvete. Bebe leite, suco de maracujá e de laranja. Teve taquicardia quando provou atum pela primeira vez, e ficou rouco de miar quando sentiu o cheiro do presunto de Parma do meu sanduíche. Ganhou um pedaço e se achou muito injustiçado por não ganhar o pacote inteiro. Já se espantou com gelo e queimou a língua com sopa.

Ouve o barulho da porta da geladeira de longe e, claro, já conseguiu ficar trancado lá dentro. Quando a Cláudia ouviu os seus miados e abriu a porta, ele estava encarapitado na prateleira superior, entre potes e garrafas. Nem desconfiamos como fez para chegar lá.

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Uma das melhores coisas da integração do Tobias à famiglia foi perceber que, a partir da sua chegada, a Frida Gahto voltou a brincar. Ela sofreu tanto quanto era bebê que se esqueceu das brincadeiras. A partir da observação do Tobias, porém, descobriu de novo para que serve uma bolinha, e inventou um jogo com que se distrai durante horas: pega um ratinho de pano pelo rabo, joga para o alto com a boca e agarra com as patinhas antes que chegue ao chão.

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Quem descobriu o nome do Tobias foi a Mamãe.

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15 respostas em “Tobias

  1. Ohhhh ! Fazia um tempo que não dava as caras por aqui,mas quando comecei a ler o post,degustei cada palavra,bebi toda a emoção que está embutida nesse relato lindo,que só você Cora tem o dom e a maestria em fazer e é por essa e por outras (outros posts sobre gatos) que volto a implorar,para que você reuna e publique suas crônicas felinas,para o deleite de todos nós,gateiros … Benvindo Tobias !

  2. O Tobias é uma graça!
    Acho que ele tava com calor e procurando cerveja na geladeira 😀
    Estava com medo dele e do Toró estarem se estranhando por causa da rede mas, pelo visto, isso não aconteceu. Que bom!

  3. Lindo texto, maravilhosos os comentários dos seus amigos que sempre frquentaram seu blog! A famiglia ficou melhor ainda com a chegada do Tobias (para mim, amor à primeira vista, digo, primeira foto). Um grande abraço.

  4. Cara Cora,
    Finalmente voltamos ao assunto principal – Gatos!!!!
    Seguinte: minha chefe tem 9 gatos, todos resgatados, sendo 8 fêmeas e um macho. Uma das fêmeas se chama Cora em sua homenagem e o único macho, de 10 quilos, chama-se Tobias. Tobias foi achado há alguns anos em uma caixa de papelão enquanto a minha chefe corria na Chácara Sto. Antonio, aqui em SP.
    A Cora foi achada pelo porteiro na escadaria do prédio às 6 horas da manhã – era um espirro de gato. Continua pequena mas domina todos os outros, inclusive o Tobias.
    Parabéns pelo novo morador da sua casa – tudo de bom para o Tobias, para os outros gatos e para você!!!!
    Um beijo!
    Damarcord

  5. Em homenagem ao Tobias (vc já viu?)
    O que têm de fofos esses ‘peludos’. tem de arteiros. Uma delícia!
    Semaninha boa, Norma

  6. Cora, seu discorrer me faz redescobrir os prazers de ter algo bom para ler todos os dias. Esta crônica do Tobias vale um Pulitzer “awarded” pelo “Felines Association of the World”. Parabéns. E muito, mas muito obrigado mesmo. “Never enough”.

  7. Finalmente voltou a falar de gatos ! Ufa ! Chega de assuntos polêmicos ! Parabéns pelo novo filhote !

  8. Heheheh! Ai Cora… ri muito com isso “Come melancia, mamão, alface, abacaxi, feijão, papel toalha, macarrão, bolo e sorvete” porque o Nelson, meu primogênito até hoje não sabe que é um ser felino… come tudo!!!!
    Amei o Tobias.
    Amei o post!
    Salve Famiglia!!!!

  9. Amor e coragem para manter uma família assim tão numerosa. As boas vindas para o novo membro da famiglia!

  10. Awnnnn…O Tobias lindo, Cora! Eu tinha que responder este post, com lgrimas de tanto rir e compartilhar a sua felicidade e alegria. Ningum nunca havia captado o jeito de ser dos siameses- sialatas to bem como voc!!! Eu tenho um sialata chamado Puka ( exatamente porque era uma “PUCALA” quando chegou). A histria dele muito parecida com a do Tobias e entendi muuuito bem cada vrgula do que vc escreveu! Eles chegam na casa da gente e tudo se alegra e se ilumina, at os gatos residentes ganham vida nova! Parabns pelo Tobias! Um abrao da Katia.

    Em segunda-feira, 4 de novembro de 2013, "cora rnai |

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