Ainda os animais

Nunca li tanto sobre o uso de animais em testes de laboratório, contra ou a favor, quanto na última semana. Pudera não. O assunto provoca paixões violentas nos dois lados. A internet ferveu e, compreensivelmente, não houve publicação que não abordasse a questão depois da invasão do biotério Royal. Por polêmica que tenha sido, ela teve o mérito indiscutível de trazer à ordem do dia um tema da maior importância que muitas pessoas, físicas e jurídicas, não estavam interessadas em discutir. Ou, melhor dizendo, estavam interessadas em não discutir.

Ainda assim, apesar da quantidade de artigos, posts, comentários, links e argumentos, não vi um só caso em que alguém tivesse conseguido convencer um antagonista a mudar de opinião, mesmo nos raros casos em que o debate foi conduzido com inteligência e educação. A relação entre humanos e animais esbarra em sentimentos tão complexos que, ao longo dessa semana, muitas vezes tive a sensação de estar conversando com gente de outro planeta — ou, no mínimo, de outra espécie.

Um dos meus amigos mais queridos, por exemplo, médico sensível e educado, chega a lamentar que as crianças de hoje não possam mais abrir rãs vivas, como ele fazia na escola, para aprender “como funcionam”. Quando observo que isso é imoral, ele me compreende tão pouco quanto eu o compreendo quando ele me diz que, ao contrário, é educativo e necessário. É evidente que, no caso, rodamos sistemas operacionais diferentes, incapazes de se comunicar.

o O o

Tenho discutido muito desde que os beagles viraram manchete. Acredito que a mudança de paradigmas só se faz com alarde e pressão social. O sistema é acomodado por excelência. É preciso sacudi-lo, insistir, chamar a atenção.

o O o

— Eu vou usar não um argumento mas uma reflexão, — propôs Luciano Barbosa na minha página do Facebook. — Imagina que um medicamento para a cura do mal de Parkinson esteja sendo feito nesse momento. E sua mãe ou seu pai sofram desse mal terrível. Aí sai na imprensa que a última etapa antes de liberar o remédio para uso público é a de testes em animais. Você pediria para que essas pesquisas não fossem feitas? Defenderia a espera para testes em outros modelos, prolongando o sofrimento dos seus parentes? Sempre que faço essa pergunta recebo ataques raivosos… só não recebo respostas.

— A questão que você apresenta é complicada, porque parte de uma série de subjuntivos e exige outros tantos como consideração, — respondi. — Além disso, ela propõe uma troca que não deixa margens a dúvidas — a vida dos meus pais ou a vida dos animais de laboratório — em cima de uma suposição: “imagina que um medicamento…” etc. etc. etc.

O que você propõe, no fundo, pode-se resumir a uma pergunta mais simples: você ama mais os seus pais ou os animais? Ora, como eu tive a sorte extraordinária de ter pais admiráveis, e tenho a felicidade de ainda ter a minha Mãezinha a meu lado, a minha resposta é óbvia; mas cuidado! Dependendo da família de cada um, você pode mesmo ouvir respostas surpreendentes.

Em suma, o que eu quero dizer é que você personaliza o argumento clássico dos pesquisadores, que em tese matam animais para salvar humanos, mas parte do mesmo vício original deste argumento, o de que o teste em animais é a única saída de que dispomos para o avanço da ciência.
O que eu questiono, e o que tantas outras pessoas — de boas ou más famílias! — também questionam , é, justamente, a necessidade desses testes: “a última etapa antes de liberar o remédio para uso público é a de testes em animais”. Mas será isso mesmo?

A maioria das defesas de uso de animais em laboratórios que tenho lido e ouvido me passa uma sensação de… comodismo, é isso. Faz-se assim porque sempre se fez assim. Faz-se assim porque, quando alguma coisa der errado (e em geral sempre dá) todos, laboratórios e pesquisadores, poderão dizer que aquela droga maravilhosa, como o Vioxx, digamos, foi exaustivamente testada em animais.

Será que já não está na hora de irmos para o próximo capítulo?

De qualquer forma, tenho uma resposta objetiva para você, que tira o elemento emocional (os meus Pais) da jogada: se eu estivesse com Parkinson, e essa decisão estivesse ao meu alcance, não deixaria testar nada em animais. Mandaria testar em mim mesma. Isso responde à sua pergunta?

o O o

Já um defensor do biotério passou três dias perguntando a mim e a outras pessoas se dávamos atum para os nossos gatos. A provocação implícita dessa pergunta é clara, e vai pela mesma linha dos que acham que qualquer um que se manifeste contra testes em animais e coma carne é incoerente — e, portanto, não tem direito de se manifestar. Cansei. E dei uma patada:

— Meus gatos comem atum sim. Eu como atum. Hoje mesmo abri duas latas para eles. A vida é muito mais complexa do que aquilo a que você quer reduzi-la com esse simplismo de botequim. Estamos cercados de crueldade por todos os lados, da roupa que compramos e que é feita por pessoas que trabalham em regime de semiescravidão à tecnologia que usamos; quem acredita que isso pode mudar, e eu acredito, briga onde pode, quando pode, e vai mudando um pouquinho aqui e outro ali. A alternativa 100% coerente que você quer só tem uma saída: suicídio coletivo.

(O Globo, Segundo Caderno, 31.10.2013)

Anúncios

13 respostas em “Ainda os animais

  1. Um caso exemplar para incluirmos nessa reflexão. A talidomida esteve ao mercado pela primeira vez na Alemanha em 1 de outubro de 1957. Foi comercializada como um sedativo e hipnótico com poucos efeitos colaterais. A indústria farmacêutica que a desenvolveu acreditou que o medicamento era tão seguro que era propício para prescrever a mulheres grávidas, para combater enjoos matinais.

    Foi rapidamente prescrita a milhares de mulheres e espalhada para todas as partes do mundo (46 países), sem circular no mercado norte-americano.

    Os procedimentos de testes de drogas naquela época eram muito menos rígidos e, por isso, os testes feitos na talidomida não revelaram seus efeitos teratogênicos. Os testes em roedores, que metabolizavam a droga de forma diferente de humanos, não acusaram problemas. Mais tarde, foram feitos os mesmos testes em coelhos e primatas, que produziram os mesmos efeitos horríveis que a droga causa em fetos humanos.

    No final dos anos 1950, foram descritos na Alemanha, Reino Unido e Austrália os primeiros casos de malformações congênitas onde crianças passaram a nascer com focomelia, mas não foi imediatamente óbvio o motivo para tal doença. Os bebês nascidos desta tragédia são chamados de “bebês da talidomida”, ou “geração talidomida”. Em 1962, quando já havia mais de 10.000 casos de defeitos congênitos a ela associados em todo o mundo, a Talidomida foi removida da lista de remédios indicados . Os Estados Unidos foram poupados deste problema graças à atuação firme de Frances Oldham Kelsey, farmacologista encarregada pelo FDA (Food and Drug Administration) de avaliar os testes clínicos apresentados pela indústria.
    Cientistas japoneses identificaram em 2010 como a talidomida interfere na formação fetal. Eles descobriram que o medicamento inativa a enzima cereblon, importante nos primeiros meses de vida para a formação dos membros.

    Por um longo tempo, a Talidomida foi associada a um dos mais horríveis acidentes médicos da história. Por outro lado, estão em estudo novos tratamentos com a talidomida para doenças como o cancro, câncer de medula e, já há algum tempo, para a lepra.

    Útil em doenças como lúpus, alívio dos sintomas de portadores do HIV, diminuição do risco de rejeição em transplantes de medula e artrite reumatóide, a talidomina é indicada em cerca de 60 tratamentos.

    Em 2012, a Gruenenthal, empresa produtora da talidomida pediu desculpas pelos danos causados.

    Se eu aceitar as desculpas, eles prometem que não fazem mais isso?

  2. Cora, não concordo que a invasão e o roubo dos beagles, seguida por nova tentativa de invasão e incêndio de três carros, tenha muito mérito. Ao que parece, foi uma sucessão de crimes, já que há uma investigação policial sobre o caso. E foram cometidos na esteira de uma série de outros, por diversos ramos de “ativistas”, até agora com poucas prisões e punições (e ainda há atores globais convocando passeatas pedindo a libertação desses poucos). Em relação a São Roque, não é um debate filosófico, é, no máximo, jurídico, com argumentos do tipo “a pena pode ser convertida em trabalho social pelas razões tais e tais”.
    Aceite que aconteceram crimes em São Roque. Repudie esses criminosos, ainda que eles tenham boas intenções. Havia uma investigação do Ministério Público sobre o tal Instituto Royal, mas os próprios promotores alertam que eventuais provas foram comprometidas com a invasão. A partir dessa aceitação, você poderá começar a sensibilizar pessoas que pensam de maneira diferente, e a conversa ganhará um tom mais civilizado.
    Eu, a princípio, acho mais seguro tomar um comprimido que já tenha sido testado em um rato ou um beagle, e até onde sei TODOS os países que se prezam adotam procedimentos semelhantes na liberação de medicamentos. Se um determinado local não funcionava corretamente, polícia, MP, multa, prisão. Não conheço esse Instituto Royal para ser advogado deles. Mas, por favor, não seja advogada desses criminosos, colocando o que eles fizeram no patamar do “alarde” e da “pressão social”.

  3. E, mais uma vez, George Orwell foi presciente: “All animals are equal, but some animals are more equal than others” (Animal Farm – 1945)

    Só não podia ele imaginar que 68 anos mais tarde, a frase não é mais metafórica, mas literal.

  4. Eu acho que todas as ações devem ser regulamentadas, para evitar abusos. Ainda não temos soluções para muitas coisas – devemos nos esforçar para ter, sem muitos arroubos emocionais que dificilmente nós conduzem a resultados satisfatórios. A natureza como um todo, agradece.

  5. Fiz ujm comentário rápido no post anterior e gostaria de expandi-lo aqui: vamos imaginar que todos os testes de remédios humanos com animais sejam proibidos.

    Mas e os remédios veterinários? Não serão testados em laboratório? Nesse caso, a cobaia será o seu animal de estimação, quanto tomar o remédio pela primeira vez!

    Digo isso porque passei pela situação: há 12 anos atrás meu cachorro chegou lá em casa com doença do carrapato, diarréia e anemia. Teve que tomar uma série de antibióticos fortíssimos de última geração para ficar bom (e felizmente ficou, e me acompanhou por esses 12 anos até morrer mês passado).

    Conversando com o veterinário ele apontou esse dilema: se não houvesse testes com animais, este antibióticio provavelmente não estaria disponível, ou não saberíamos seus efeitos colaterais.

    Todo remédio veterinário é “testado em animais”. A dúvida é se ele será testado em laboratório (em condições controladas), ou nos nossos bichos de estimação (sem estas condições).

    O que não quer dizer que eu apóie indiscriminadamente todo e qualquer teste – os laboratórios devem ser fiscalizados e todas as experiências previamente aprovadas para garantir as melhores condições possíveis para as cobaias.

  6. vou me repetir:
    desde que surgiu essa polêmica sobre testes de remédios em animais, tenho pesquisado e lido sobre o assunto, até postei alguns links no facebook, que, aparentemente, quase ninguém se preocupou em acessar. de tudo que li, cheguei à conclusão de que ninguém gosta de fazer testes em animais, porém, a curto e médio prazo, o método ainda tem que ser mantido. mas o que mais me marcou nisso tudo foram alguns (muitos) comentários de defensores de animais que, sinceramente, me dão medo de viver num mundo em que suas idéias fossem preponderantes, ou seja, eu, que já tinha medo de gente “má”, passei a ter medo de gente “boa”. grande parte desses cometários preconizam a morte (de preferência dolorosa) dos que pensam diferente deles; e sugerem que estes passem a ser as cobaias dos testes pré-clínicos de remédios, no lugar dos cachorros (vamos ser francos, eles gostam *mesmo* é de cachorros). eu até topo ser cobaia de remédios feitos para salvar minha vida, desde que estes remédios tenham sido criados pelos cachorros.
    []’s

  7. Corinha, vc tb é das minhas amigas mais queridas, mesmo em campos opostos; e apreciei muito vc não deixar de considerar-me sensível e educado, ainda que eu não tivesse conseguido lhe passar a sensação de maravilhamento naquele meu primeiro contato com a Anatomia num laboratório escolar de Biologia (no ‘científico’, eu não era mais uma criança).

    um beijo carinhoso,

  8. Adotei e sou guardião de CINCO gatos e TRÊS cães (já foram CINCO cães, mas a idade levou dois deles) – todos eram abandonados e foram acolhidos em minha casa. Ninguém pode dizer que não amo os animais. Mas comparar trabalho humano escravo com pesca de atum, está fora do alcance da minha imbecilidade.
    Estamos vivos, Cora, eu e você, 60 anos, cheios de saúde, às custas dos resultados positivos de pesquisas científicas, muitas (talvez a maioria) feitas com o uso de animais.
    Abrir uma rã viva é uma prática que deveria ser incentivada, mas com alguns UPGRADES, por exemplo, depois de abrir, SUTURAR e levar para a UTI escolar, acompanhando a rã até a sua completa recuperação.
    ESTOU FALANDO SÉRIO: Será que alguém se coloca no lugar de um estudante de medicina, que tem que cortar um ser vivo, para aprender a arte e o ofício de cirurgião?
    Vocações aparecem e se perdem, enquanto futuros cirurgiões são ameaçados de agressão, por estarem praticando com suínos vivos, durante o curso de medicina (basta pesquisar as notícias recentes).
    Enquanto isso, seres humanos são atendidos ou não atendidos em hospitais públicos, por médicos que nunca tiveram a oportunidade de cortar uma rã e se vêem na obrigação de usar um bisturi em um ser humano, para salvar uma vida.
    Concordo que devem existir e serem cumpridas leis que regulem o uso de animais em pesquisas científicas, de modo humanitário. Mas se os beagles não fossem tão fofos, ou se o instituto Royal usasse urubus, no lugar dos belos cachorrinhos, ninguém estaria reclamando.
    Jorge
    .

    • Argumento perfeito. Casos mais radicais, como o da aula de cirurgia paralisada por ativistas, torna mais clara a questão. Afinal, qual o valor da vida humana? Vale a pena colocar em risco vidas humanas paralisando todas as pesquisas animais? Vale a pena deixar um cirurgião fazer sua primeira traqueostomia em uma pessoa? Ou é melhor deixar ele treinar em um porco? Vale a pena testar um medicamento em si mesmo ou na sua filha, ou é mais seguro tomar um medicamento que já foi testado em culturas de células, ratos, e, depois, beagles?

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s