A grande festa de Belém

Ouço falar no Círio de Nazaré há muitas e muitas luas. Não pela mídia, mas pela fonte mais privilegiada no que lhe diz respeito, minha amiga Fafá de Belém, que vive, como ninguém, a maior festa religiosa da Amazônia. Há anos ela me diz que o Círio é algo que se tem que ver pessoalmente, que filmes e fotos não conseguem transmitir o que acontece no Pará quando todo mundo vai para a rua ao mesmo tempo, homenagear a sua santa padroeira. Pois este ano aceitei o desafio, e fui lá, conferir a grande romaria.

Fafá está certa. Não dá para explicar o que é o Círio de Nazaré; não dá para se ter ideia do que é aquela quantidade compacta de gente junta, numa festa de paz. Acomodada na varanda de uma casa antiga, eu olhava para a multidão que passava e não conseguia ver uma fresta entre os corpos. Às vezes havia um empurra empurra, às vezes pessoas caiam desmaiadas e eram socorridas por padioleiros que iam e vinham afobados, cercados por gente encarregada de abrir caminho.

A primeira impressão — e a segunda, e a terceira — é de pânico. No sábado à noite, a procissão reuniu quase dois milhões de fiéis; no domingo pela manhã, foram cem mil a mais. Uma multidão dessas, num calor daqueles, está sempre a um passo da calamidade. Se alguma coisa der errado, dará muito errado — não há para onde correr. Não há Plano B.

Felizmente, ano após ano, entra Círio sai Círio, nada dá muito errado. Como no nosso Réveillon, a energia geral é positiva, com a diferença de que ninguém vai ao Círio para beber. Cada uma daquelas pessoas está lá movida por um bom sentimento, pedindo alguma coisa, agradecendo uma graça alcançada, vivendo a sua fé.

É um mar de brasileirinhos que ainda não perdeu a esperança.

Puxando a famosa corda vem uma garotada implorando para passar no vestibular, ou agradecendo por ter passado. Aqui e ali se vê alguém trazendo o pequeno modelo de uma casa, um carro, um barco, uma lojinha. Há ex-votos clássicos também: braços, pernas, cabeças. E velas. Muitas velas.

Não sou uma pessoa religiosa. Não me impressiono com multidões. Mas tive vontade de abraçar cada uma daquelas pessoas que seguiam a santa com uma oferenda na cabeça, puxar para o canto e pedir que me contasse a sua história.

O Círio de Nazaré é uma antologia de lutas, trabalho, conquistas, alegrias e sofrimento.

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Fafá, que caiu no caldeirão de poção mágica quando era criancinha, é a grande animadora da festa. Sua varanda é o ponto alto da procissão, o epicentro de um engarrafamento de fiéis que ela dispersa entre uma música e outra: “Vamos andando, gente! A santa tem hora!” Suas canções embalam o cortejo noturno até a passagem do último peregrino e, poucas horas depois, animam o da manhã. Isso sem falar que, na sexta à noite, ela fez show com Teresa Salgueiro, Wagner Tiso e Marcio Malard até tarde e, já no sábado, aos primeiros raios do sol, foi para o rio, participar da romaria fluvial. Ufa.

Já vi muitos shows da Fafá em teatros e espaços abertos, mas nada que se compare à sua atuação durante o Círio, o encontro perfeito entre uma artista e seu público. Os fiéis adoram Fafá, mas curiosamente não há distância entre eles e ela: o que se percebe nas pessoas que passam encantadas diante da varanda é um misto de intimidade e de orgulho, como se alguém da família tivesse ido para o mundo e voltado em triunfo. E, no fundo, é disso mesmo que se trata.

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Sinal dos tempos: foi desenvolvido pela organização da festa um ótimo aplicativo sobre o Círio de Nazaré, que contemplou todas as plataformas de smartphones. Traz informações úteis, telefones de emergência, notícias, a história do Círio, orações e músicas. Seu ponto alto, porém, foi a localização da santa em tempo real, durante o trajeto, feita por GPS, através de um módulo chamado “KD a berlinda?”. Berlinda, fiquei sabendo, é aquela caixa de vidro na qual se transportam as imagens religiosas.

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Quanto mais a gente viaja por aí, mais se aflige com o que espera os incautos turistas que vêm à Copa. No aeroporto de Belém um ímã de geladeira dos mais feios sai a R$ 13. Não sei a quanto saem os bonitos porque não se encontram. Uma camiseta básica custa R$ 60.

O Pará tem um dos artesanatos mais ricos do Brasil. Tem cerâmica marajoara, que quando é bonita é muito bonita, tem cuias pintadas, tem palha, tem brinquedos encantadores feitos de miriti, tem bijuterias de sementes e penas coloridas, tem esculturas de madeira e o que mais se possa imaginar.

Fui a Belém num pé, voltei no outro, e supus que, no aeroporto, poderia encontrar algum desses tesouros. O que as lojas oferecem, porém, é triste, caro e importado. Não havia um só barquinho de miriti à venda.

Aqui no Rio, no Pão de Açúcar, onde por acaso estive no começo da semana, umas bonequinhas de pano de Carmem Miranda custam nada menos de R$ 180. As lojas nas quais são vendidas, aliás, têm um repertório de lembrancinhas paupérrimo, e uma atitude ainda pior: os turistas não podem fotografar em seu interior, mania antipática que, no resto do mundo, já saiu de moda até nos museus.

(O Globo, Segundo Caderno, 17.10.2013)

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18 respostas em “A grande festa de Belém

  1. Cora
    Entendo perfeitamente seu sentimento em relação à emoção de ver, ao vivo, multidões em movimento propelidas por uma fé inquebrantável! No caso de Fátima, onde está o nosso caro The Coach, sempre me surpreendo de respiração restringida por um novêlo entalado na garganta enquanto observo seres como eu e você, de carne e osso, se arrastando de joelhos por uma fé que estamos a anos-luz de entender!

    • Emoção incomparável.
      Mas apenas um comentário ( lamentavelmente negativo ) Havia grupos de brasileiros que estavam na missa para fotografar, tuítar, conversar, contar piadas e sempre, sempre, falar alto, muito alto !
      O que é que este pessoal estava fazendo numa missa solene, cercados por quase 500.000 pessoas ?
      Nem imagino !
      Seriam os vândalos querendo manchar a nossa imagem ? ( risos )

  2. Desculpe-me Cora, mas como aqui é a única forma de contacto com você lhe dou ciência do que postei hoje, 17 de outubro no Facebook, aonde você dentre outros é citada:

    Depois de ler chamada super-mentirosa de Capa do Jornal O Globo, deste 17 de outubro, “Crime e Castigo-Lei Mais Dura Leva 70 Vândalos para Presídios”, através do 102 de auxílio a lista de telefones, tentei obter alguns para conversar diretamente com vários jornalistas de O Globo. Com exceção de Zuenir Ventura, para o qual consegui telefone de sua casa, deixando mensagem sobre a capa mentirosa, narrando brevemente o que de fato aconteceu, não consegui nada de outros jornalistas e cronistas. Os telefones ora não apareciam, estando indisponíveis, ora eram claramente tidos como sigilosos, sendo seus números impedidos de divulgação, pública, só podendo ser obtidos através do jornal, mas como telefone deste só tem para propagandas ou assinaturas….

    Enfim, isto me lembra de imediato “O Castelo ” de Franz Kafka, onde um homem não consegue entrar de modo algum num castelo desejado. A ideia que tinha era que mesmo que o jornalista não fosse da área política, ele encaminhasse a matéria para jornalistas investigativos, sobre as dezenas de pessoas presas, para onde foram enviadas, o tratamento desrespeitoso em relação a advogados, enfim seres humanos com seus direitos aviltados criminosamente, que de vândalos não tinham nada.

    Simplesmente estavam, no seu direito, em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Lugar público. Isto eu não fiquei sabendo de uma fonte só. Acompanho várias pessoas no Facebook e os relatos eram os mesmo.

    Os jornalistas inacessíveis foram:

    Francisco Bosco
    Arnaldo Block
    Cora Rónai
    Zé Miguel Wisnick
    José Casado
    Elio Gaspari
    Cacá Diegues ( colaborador de tempos em tempos, se não me engano mês a mês)
    Merval Pereira
    Caco Barcelos (este trabalhando na Tevê Globo)
    Ricardo Noblat

    Pode haver outros que não me ocorrem agora.

    Não quero aqui promover uma caça às bruxas, mas simplesmente mostrar como os jornalistas tal como políticos estão tão distantes do cidadão comum.

    Quem os tiver como amigos aqui no Facebook, lhes envie este meu texto, que reflete mais uma vez minha insatisfação com o Jornal. Já escrevi e repito: não só gosto como preciso do Segundo Caderno, para questões de ordem cultural. Infelizmente é o único jornal de grande circulação no Rio de Janeiro, de vulto. Os demais, como “Extra” e “O Dia” promovem uma enorme diluição das matérias para consumo imediato das grandes massas. Assim preciso comprar O Globo. Não fosse este fato, já teria cancelado a assinatura há muito tempo. Mas mesmo com tudo que escrevi, isto não indica que não haja artigos e posicionamentos bem interessantes e importantes aqui e ali, bem como matérias nestas condições, como a que postei sobre o caso Amarildo e o estado atual das investigações. É o que salva também o jornal. E os inacessíveis também fazem boas matérias e/ou colunas, algumas até excelentes.

    Esta questão das mentiras da Rede Globo, mais do que as do Jornal, são realmente sérias pelas desinformações que promovem. Trago aqui só um exemplo: minha diarista chegou em casa hoje, só falando em atos de vândalos. Vivemos um momento muito perigoso.

    Tentei conversar com o jornalista Jânio de Freitas da Folha de São Paulo, mas o telefone que me passaram não estava correto.

    Enfim, dado a falta de contato possível, divulguem ao máximo este post aqui.

    Nelson Souza- 17 de outubro

    • Não é por nada não, mas usar sua evidente incompetência pessoal em comunicar-se com a Redação de O Globo e deduzir disso a existência de uma barreira kafkiana é por demais ridículo.

      Nas páginas 10 e 11 da edição d’O Globo desta quinta-feira, tem o nome e e-mail dos jornalistas responsáveis pela citada matéria sobre as prisão dos vândalos.

      Além do mais, bastaria telefonar para o jornal e pedir para falar com a Redação, qualquer Editoria, ou direto com um dos jornalistas (profissionais encontráveis no seu lugar de trabalho). Lembrarmos também que, muitos dos citados têm blogs abertos a comentários dentro do site d’O Globo. Além da tradicional Cartas do Leitor, outro canal de comunicação

      A Cora, por outro lado, tem este blog independente e pessoal, fora do site d’O Globo

    • Gente,
      Aproveito a dica para dizer que cansei de me revoltar com tantas cenas nada mentirosas constantes em videos que explicitam a violência gratuita, estúpida, retrógada, de grupos que, aproveitando o ensejo dos protestos contra a administração pública seja ela qual for, detroem tudo o que vêem em explosões animalescas que em nada, absolutamente nada, têm ligação com democracia e civilidade. O momento é, sim, muito perigoso e ameaçador para os valores democráticos, os quais não podem em absoluto, sobreviver sem disciplina.

  3. Morei em Belém com meus meninos ainda novinhos, boas lembranças: do Círio, da Santa (ainda tenho uma imagem dela aqui no oratório, ainda sei cantar os hinos), da berlinda florida, do almoço do Círio, do pato no tucupi, do açai, do cupuaçu, do pirarucu, do tacacá, dos brinquedos de miriti que decoravam o quarto dos meninos pendurados no teto (não resisti, eram lindos), da minha sala de jantar decorada com pratos de barro por toda parede, nenhum igual ao outro, do cheiro bom das ervas, do Instituto Goeldi (meu filho do meio adorava ir lá ver tudo e hoje é cientista, biólogo, Belém deve ter parte disso, com certeza), dos últimos dias ensolarados de outubro, antes das chuva e das cheias, do calor, das arvores enormes, das plantas lindas, nunca tive samambaias tão viçosas como lá, da baia que via da janela num castanho esparramado diante dos meus olhos; muita, muita saudade desse tempo, de mim nesse tempo, de lá…

  4. Então, o artigo está tão bem escrito que cheguei a tirar uma casquinha virtual da grande festa, com direito a show da Fafá e tudo mais. Infelizmente, a desvalorização do nosso artesanato é lamentável – o custo então é um absurdo.

  5. Quanto assunto Cora!
    a) Fafá é uma força da Natureza!
    b) Todos os dias milhões nesse Brasil desfilam sua fé, seja a caminho da Igreja, novena, romaria. Como eu gostaria de ter essa fé e acreditar nisso…
    c) O Brasil tem um artesanato riquíssimo, uma música excelente, que quando é boa é muito boa. Nada disso entretanto é explorado turisticamente como deveria ser. O Norte e o Nordeste tem coisas surpreendentes que o brasileiro do sul não sabe, sobretudo tem uma gente excelente, maravilhosa, que ainda preserva um pouco daquilo que os daqui perderam.

  6. Estou agora em Fátima, onde no ultimo domingo, dia 13 de outubro é celebrada a data da ultima aparição de Nossa Senhora para os pastorinhos, em 1917.
    Aqui também estiveram presentes milhares de pessoas, e tal qual acontece em Belém, há uma união muito grande o que evita brigas e encontrões antipáticos.
    Todos com o mesmo ideal, louvar a Nossa Senhora !
    E por aqui tudo é baratinho ( afinal, o titulo de país dos ixpertos não nos pode ser tomado ! )
    A comida é excelente ( recomendo o Tia Alice e a Grelha ) e tudo corre na santa paz de Deus.
    Abraços !

        • Pois venha.
          Anote aí um hotel excelente: Hotel Santa Maria, pertinho do santuário e com atendimento de primeiro mundo !
          Abraços,
          Carlos Alberto

          • Anotei…agora é rezar pra Nossa Senhora de Fátima e pedir à ela que logo eu e minha bichinha estejamos em plagas portuguesas, rs Obrigada, Carlos Alberto 🙂

  7. Estou lendo na madrugada, emocionadamente….. tendo que confessar que não conhecia nada da festa, apenas o que casualmente se vê pela TV….. Admirável texto que nos aproxima mais do nosso Brasil…….. no maravilhoso que ele é………. e no sinistro que acontece, como o exemplo dos aeroportos e as artesanias das quais somos afastados…..Irados, diriam os jovens. Causando……….. como nessa matéria esplêndida! Grata!

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