Um grande catálogo de games

Reza a lenda que, um dia, no final dos anos 70, o designer japonês Toru Iwatami pediu uma pizza para o almoço. Cortou uma fatia, começou a comer e, ao contemplar o círculo desfeito, teve uma ideia genial para um jogo. Assim teria nascido o Pac-Man, um dos maiores sucessos da história dos videogames, clássico por excelência da modalidade. Lançado pela Namco em 1980, o guloso disquinho amarelo continua na ativa, e é universalmente reconhecido. A tal ponto que ilustra a capa de “1001 videogames para jogar antes de morrer”, novo volume da série da Sextante que já catalogou filmes, músicas, livros, carros e até cervejas. Como os outros, “1001 videogames” é um volume alentado: tem 960 páginas e é tão pesado que corresponde, sozinho, a um verdadeiro manifesto a favor dos e-books. A organização é de Tony Mott, ex-editor da “Edge” (uma revista especializada em games), que acumula cerca de 30 anos de experiência na área.

Não gosto do título desta série desde o lançamento de “1001 filmes para assistir antes de morrer”. Na época, um amigo cinéfilo estava internado, e este seria o livro ideal para distraí-lo no hospital — mas quem tem coragem de levar para um amigo hospitalizado um livro que recomenda coisas a serem feitas antes de morrer? Não eu, que optei por um romance bom, mas muito menos adequado ao paciente…

O título atrapalha mais uma vez o que é a melhor antologia de games já lançada no Brasil. Dessa vez não por associações mórbidas, mas pela pura impossibilidade de se voltar no tempo para curtir a trilogia de “Zork”, por exemplo, ou “The Hitchhikers Guide to the Galaxy”, adventures que se jogavam via texto numa época em que ainda não existiam telas gráficas. Passei horas incontáveis mergulhada nesses jogos, mas eles ficaram, definitivamente, nos anos 80.

“1001 videogames” é, também, um catálogo de nostalgias. Em suas páginas encontramos velhos conhecidos como “Space Invaders”, “Donkey Kong”, “Frogger”, “Asteroids”, ou “Q*Bert”. Os gráficos dessas antigas delícias eram tão primitivos que, hoje, chega a ser difícil imaginar como nos divertíamos com eles; por outro lado, tenho a impressão de que a própria precariedade do visual fazia com que os desenvolvedores caprichassem mais na “jogabilidade”: afinal, alguma coisa tinha que atrair o usuário! Quando melhores monitores começaram a chegar ao Brasil nos anos 90, as animações (ainda toscas) de jogos como “King’s Quest” e “Leisure Suit Larry” nos pareciam autênticos desenhos animados.

Aliás, nenhum desses dois games está no livro. Eu sei que cada um faz a antologia que quer, mas “King’s Quest” foi, a meu ver, um jogo pioneiro, no sentido de empolgar também as meninas, até então um pouco afastadas do que se via, essencialmente, como atividade de meninos.

De qualquer forma, em “1001 videogames” estão “Myst” (o jogo mais bonito de todos os tempos até 1993, quando foi lançado, e também um dos mais chatos), “Civilization”, “The Sims”, “Quake”, “Tetris”, “Grand Theft Auto”, todas as variantes do “Super Mario”, “Street Fighter” — enfim, uma longa lista, bem escolhida e muito representativa do desenvolvimento do setor. A entrada para cada game se abre com uma ficha com ano de lançamento, plataforma, desenvolvedor e gênero ao qual pertence; um pequeno texto conta em seguida a sua história e o seu destino através do tempo.

Apesar de ter acabado de chegar ao mercado brasileiro, “1001 videogames” foi lançado na Inglaterra em 2010, o que explica uma lacuna importante: os passarinhos zangados que tanto rebuliço causaram foram soltos no mundo no mesmo ano. “Angry Birds”, portanto, só na próxima edição.

(O Globo, Economia, 16.10.2013)

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3 respostas em “Um grande catálogo de games

  1. Cora, é possível sim jogar Zork e Hitchhiker’s Guide, basta ter um interpretador de Z-Machine como o WinFrotz, e os arquivos de dados originais, que você encontra facilmente na internet, inclusibe em sites da Infocom (ou do que sobrou dela…).

    Quanto a quem gosta da história de jogos antigos, recomendo o blog “The Digital Antiquarian”, de Jimmy Maher (http://www.filfre.net/), onde ele faz uma retrospectiva da evolução dos jogos tipo Adventure e dos computadores pessoais, desde sua origem. Os posts mais recentes estão cobrindo o ano de 1984, e ele já fez artigos sobre o King’s Quest

  2. o game de que eu mais gostei foi river raid, no atari. perdi noites… depois, perdendo não noites, mas horas de trabalho, tetris. atualmente, enjooei, jogo mais nada.
    []’s

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