Não é ótimo, mas diverte

Ando órfã de “Games of Thrones”, “Downton Abbey”, “Homeland” e “The Newsroom”. Vou para a minha salinha de video — que é apenas o antigo quarto da Bia com um sofá, estantes cheias de DVDs e uma tela de plasma de 44″ — e me queixo, como a perua que não encontra nada para vestir no closet abarrotado: “Não tenho nada para ver!”

Se os céus fossem justos, nessa hora me cairia um raio sobre a cabeça. Ainda não assisti aos novos filmes indianos e coreanos que encomendei, e uma pilha de lançamentos fechadinhos nos seus celofanes espera vaga no player e na estante. Mas percebo que começa a me acontecer, em relação aos DVDs, o que já me aconteceu, há tempos, com os CDs: acho antiga a mecânica de abrir as caixas, pegar os discos e pô-los no player certo. Quero ligar o monitor e encontrar, em alguns cliques, o que estou com vontade de assistir.

Esse processo foi tão radical com os CDs que nem me lembro mais quando foi a última vez que ouvi um deles. Na verdade, nem tenho mais CD player. Tenho, isso sim, dezenas de CDs ainda lacrados — cujo conteúdo conheci pela internet, que é por onde passa a minha música hoje. Descobri toda a extensão do meu comodismo digital quando, um dia, achei mais prático baixar o que estava querendo ouvir do que ir até a sala buscar o CD.

Em tempo: não há incongruência entre essa relação de amor com filmes e músicas em formato digital e a minha resistência aos e-books. Ler é um ato físico que envolve vários sentidos, da visão ao olfato, e algumas das minhas idiossincrasias não cabem num Kindle: dar uma olhada na última página, ler o miolo na diagonal, folhear o livro, saltar capítulos para frente e para trás.

o O o

Olho para a quantidade de bens culturais que me cercam e me censuro pelo momento de tédio. Nenhuma geração anterior à nossa teve tanto saber e entretenimento à disposição. Se eu nascesse na Idade Média e tivesse tido a sorte de ser alfabetizada, teria acesso, no máximo, aos cinquenta ou cem livros que compunham, nas cidades mais progressistas, as bibliotecas acorrentadas — que têm esse nome porque, nelas, os manuscritos ficavam presos às mesas ou estantes por correntes, para não serem roubados.

Para ouvir música quando tivesse vontade, teria que tocar, eu mesma, o meu próprio instrumento. Ou teria que ter nascido numa família aristocrática muito, muito rica, que pudesse se dar ao luxo de manter músicos a seu serviço. Hoje, porém, estou a um clique de uma legião de mestres, muitos inclusive já falecidos — luxo com que nenhum rei, em toda a sua realeza, foi sequer capaz de sonhar.

o O o

A racionalização consola, mas não resolve. Eu queria um capítulo novo, inédito, de alguma das minhas séries queridas. Na falta, caí em “Scandal”, que alguém me recomendara pelos bons antecedentes: ela é criação de Shonda Rheimes (de “Grey’s Anatomy”).

Assisti à primeira temporada sem entusiasmo. A produção (da ABC) é até caprichada, mas o roteiro tem furos risíveis, e os diálogos, sem brilho, tentam compensar a mediocridade pela rapidez em que são ditos. É como se a direção acreditasse que a velocidade pode substituir, ou pelo menos disfarçar, as falhas do conteúdo. A maioria dos atores cumpre o seu papel com a eficiência que se espera de um time de horário nobre — e só.

Mas eis que, ainda sem ter o que ver, emendei a segunda temporada. E não é que gostei? “Scandal” cresce no segundo tempo, talvez porque tenha sofrido alterações de rota, talvez porque as personagens já tenham sido apresentadas, talvez porque a trama se adensa, talvez por todas essas razões juntas. O fato é que, agora, espero a terceira temporada, que acaba de estrear nos Estados Unidos, com curiosidade.

A história gira em torno de Olivia Pope (Kerry Washington), que dirige um escritório de gestão de crises em Washington, e teve um caso com o presidente Fitzgerald Grant (Tony Goldwyn). A cada episódio, seu escritório tem uma bananosa diferente para resolver; o fio condutor de um a outro é a vida na Casa Branca, com seus podres e suas disputas de poder. A CIA e a NSA são apresentadas como as agências sem escrúpulos que são, o que faz com que, volta e meia, a gente se pegue torcendo pelos malfeitores, o que é sempre divertido.

Kerry Washington, que foi indicada ao Emmy e faz um sucesso enorme nos Estados Unidos, não me diz nada. Faz tantas caras e bocas que chega a ser caricata. Goldwyn também não convence como presidente. Mas “Scandal” tem uma primeira dama perfeita, a morena gelada Mellie (Bellamy Young), um advogado fantástico, Harrison, braço direito de Olivia (Columbus Short) e o melhor casal homossexual da televisão, disparado, composto pelo chefe de gabinete Cyrus Beene (Jeff Perry) e pelo repórter James Novak (Dan Bucatinsky, que ganhou o Emmy de ator convidado pelo papel).

Os dois funcionam lindamente juntos, se entendem e desentendem com naturalidade e passam, com sucesso, a sensação de uma cumplicidade ma non troppo que, aqui e ali, esbarra nos limites impostos pela ambição.

“Scandal” não se compara a “West Wing” ou a “House of Cards”, duas séries políticas de maior densidade atômica, mas acaba sendo, afinal, uma boa diversão.
(O Globo, Segundo Caderno, 10.10.2013)

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14 respostas em “Não é ótimo, mas diverte

  1. peço licença para fugir do assunto…

    … e convidar os interessados que estiverem disponíveis para participar, amanhã, do debate online, via videochat, promovido pela Câmara Federal, com o deputado Roberto Tripoli, sobre o Projeto de Lei 2833/2011: Dos Crimes contra Cães e Gatos, que criminaliza condutas praticadas contra cães e gatos e estabelece:

    “pena para quem provocar a morte de cães ou gatos: de 5 a 8 anos de reclusão.

    pena para quem provocar a morte de cães ou gatos com emprego de veneno, fogo, asfixia, espancamento, arrastamento, tortura ou outro meio cruel: de 6 a 10 anos de reclusão.

    se o crime for cometido por duas ou mais pessoas ou pelo proprietário ou responsável pelo animal: aplicação da pena em dobro.

    deixar de prestar assistência ou socorro a cão ou gato, em vias e logradouros públicos ou propriedades privadas, em grave e iminente perigo, ou não pedir o socorro da autoridade pública: detenção de 2 a 4 anos.

    abandonar cão ou gato à própria sorte em vias e logradouros públicos ou propriedades privadas: detenção de 3 a 5 anos.

    promover luta entre cães: detenção de 3 a 5 anos.

    valer-se de corrente, corda ou aparato similar para manter cão ou gato abrigado em propriedade particular: detenção de 1 a 3 anos.

    expor cão ou gato a situações que coloquem em risco a integridade física, a saúde ou a vida: detenção de 2 a 4 anos.”

    o debate ocorrerá amanhã, dia 15 de outubro, das 11h às 12h. qualquer pessoa poderá participar, bastando acessar a página da Câmara Notícias (link: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/) onde haverá um link para entrada no bate-papo.

    cães e gatos não podem se defender. se alguém puder participar e fazer isso por eles, será muito bom.

    abraços!

  2. Em serievidesobb há tudo, inclusive a última temporada de Dowton A. – estou a colocar aqui por não ter conseguido acessar, mas aqui?! só tem criaturas geniais tecnologicamente, né? Ah, se conseguirem fico na maior das felicidades! Acima, Ana Clara cita algo e como logo depois vem um sorriso………… não entendi e sequer tentei, ah, sou jurássica aqui, hi hi hi….. Abs!

  3. Estrou me atrevendo a indicar Wallander, Antes de Dowton&T.Newsroon foi a melhor de todas, para mim. Kenneth Branagh! Nos ”extras” há a cidadezinha do Autor, que vendeu mais que todos os Harry Potter na Alemanha, talvez na Escandinávia toda. Obrigada à Ana Cristina, não conheço ”omelhordatelona” mas tenho algo que ñ sei se é defeito: adoro rever!
    Saudações!!!!!!!!!!!!

    • Eu também adorei Wallander. Li que a 2ª temporada – que eu nem imaginei que existiria – já está sendo filmada. Se a série não fosse maravilhosa, valeria pela fotografia!

      • Nos ”extras” Kenneth afirma que quer continuar, mas sua agenda não permite, sempre. O Autor dos 9 livros policiais que Branagh conheceu numas férias é casado com uma filha de Bergman……e a casa deles é de uma simplicidade encantadora! I.é. – há um tanto de (para mim) antropologia, rsss……inclusive uma insuspeitada violência, na Suécia. Inúmeras descobertas são possibilidades maravilhosas. Agradecendo à Cora ( sempre um pleonasmo!) também à ELIANA, pois que é muito gostoso saber que alguém também viu e gostou.Abs!

        • Olha só o que eu acabei de ler em http://veja.abril.com.br/blog/temporadas/tag/wallander/
          ……………………….
          A terceira temporada inicia alguns meses após a morte do pai de Kurt. Ele mantém uma relação com Vanja, mãe de um garoto chamado Peter. A relação levou os dois a tomarem a decisão de morar juntos, formando assim uma família. Mas, ao longo da temporada, vemos que Kurt ainda não conseguiu superar os traumas pessoais e profissionais que definiram sua personalidade.

          Intercalando questões pessoais com o trabalho de investigação de Wallander, a temporada abre com um episódio que mostra a relação que ele criou com Vanja, a qual é testada pela obsessão do detetive com o trabalho. Aparentemente realizado, ele é logo jogado de volta à realidade da qual não consegue sair. O segundo episódio afasta Wallander de seu ambiente e das pessoas que ele conhece. Ao auxiliar a polícia da República da Látvia a investigar um crime, ele enfrenta o choque cultural e político. O terceiro episódio volta a dar um toque pessoal à trama, quando Wallander se reconcilia com a filha.

          Não é uma maravilha? Abs

          • Eliana, obrigada, li tudo – e sim, é uma maravilhaaaaa! Também é valioso nos ”extras” entrar em contato com a perda da inocência de um país que…….. era crédulo e cândido…. como deve ter doído, não? o assassinato de Olaf Palmer que nunca foi desvendado…..e suas consequências, inclusive por homicídio, às claras, de uma ministra que teria tudo para também assumir o poder. Lancinante História!
            ****************************************************************************************************
            Ao ler os comentários em blogs um deles afirmava não ser possível gostar de um policial que certamente cheira mal, não faz a barba nem toma banho (SIC) mas interpretei isso como resultado ao que o Ator dá ao papel. Repito o obrigada, sabe o que saiu outro dia no Estadão? a criação de um Museu da Empatia… lendo Você concluo que certamente sua presença seria indispensável! Abraço grande!

          • LEMBREI MAIS UMA, ELIANA! ”O último policial”, +Globosat/HD, todo sábado às 22 hs. O policial do título entra em coma por 20 anos e quando volta, adapta-se a GPS, DNA etc. com facilidade. Porém…….. não entende mais as mulheres! As tramas não são o forte, mas essa questão é abordada aos poucos, então há descobertas cheias de suspense, quer dizer, no território amoroso/comportamental…….. não sei definir com precisão. Ele custa a entender etc. e tal, mas seus gestos e atos são delicadíssimos para com elas. Um gôzo! Já ”Homeland”, abandonei, e não entendo como é elogiada, me pareceu óbvia demais, remake de tantas outras! e aquela atriz tendo surtos…… achei insuportável. O elenco é maravilhoso e gostaria que Morena Bacarin fosse melhor aproveitada, uma brasileira tão doce, tão linda….. num papel pouco explorado. Mas de todas as séries uma que os jovens sentem falta é ”Veronica Mars” que falou diretamente a eles e também é instigante e poderosa. Li que talvez da série saísse um filme mas….Escrevi demais, mas sou….. sôfrega!!!! ABS!!!!!!!!!

  4. Oi, Cora. No site a que se refere uma leitora acima, “omelhordatelona” já tem o segundo episódio de Homeland – imperdível. Vc já assistiu a Breaking Bad? Maravilhoso.

  5. Enfrento essa mesma orfandade quando não encontro um texto bom para ler. E aí corro para o seu blog, feito um cachorro sequioso.

  6. Seus textos são sempre deliciosos.
    Eu também estou, assim como você, órfã de séries, mas já encomendei a 2ª temporada de Homeland que foi lançada no Brasil no último dia 9.
    Gosto de comprar os CDs e passá-los para o iPod; quanto aos livros, estou me esforçando para me acostumar com o formato ebook. Comprei um Kobo e, sempre que acabo de ler um livro no e-reader a minha vontade é correr para a Livraria da Travessa (a minha preferida – sou capaz de passar um dia inteiro na do Shop. Leblon… acho que ela me lembra a “Rubaiyat” da minha infância…) e comprar o mesmo título em papel.
    Obrigada por mais esta leitura!

  7. Cora no site “omelhordatelona” você pode ver online a 4ª temporada já tem 4 episódios assim como outras series muito boas e com essa opção online não é necessário baixar, você vai adorar esse site.Se for possível poste uma foto dos seus gatinhos , adoro eles.
    Um abraço,
    Cristina

  8. Cora, já baixei os dois primeiros capítulos da nova temporada de Downton Abbey e o primeiro de Homeland. Vai lá no torrenz…rs

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