Leo Drummond

24.9.2013

Hoje acordei com a notícia de que um velho amigo matou a mulher e a filha e se suicidou em seguida. A facadas. Tinha competência, emprego e amigos; era brincalhão e gentil.

Não tenho palavras nem pensamentos. Ou tenho: mas todos juntos, numa torrente que não faz sentido.

Nada faz sentido.

 

25.9.2013

Já perdi amigos de várias maneiras. 

A maioria a vida levou por rumos diferentes, sem que nenhum de nós se desse conta do que estava acontecendo; outros foram afastados por circunstâncias geográficas; outros ainda sobraram pelo caminho por toda sorte de motivos. Não há existência sem a sua cota de traições, desenganos, patifarias.

Alguns morreram, de morte morrida ou matada, e essas foram as perdas mais sentidas.

Quando um amigo morre, leva com ele um pedaço da nossa vida — os momentos que testemunhou, as emoções divididas, a nossa história em comum. É um canal de diálogo que se fecha, é mais uma casa que a solidão ocupa.

Um se matou, há tantos anos que parece ter sido em outra encarnação. Vedou as portas e janelas com fita crepe, ligou o gás e deixou um mistério insolúvel atrás de si, porque não havia nada, absolutamente nada que conseguissemos perceber que pudesse tê-lo levado a isso.

Mas era direito dele. O filho estava criado, a vida estava vivida e ele a julgou de bom tamanho. Na época, admirei-lhe a coragem: a única forma de ganhar da morte é antecipando-se a ela.

Desde ontem, porém, estou tentando me entender com a morte do Leo. Compreendo quem escolhe cair fora: o mundo anda agressivo e mal frequentado. Mas o que leva alguém a matar as pessoas que, em tese, lhe são as mais caras, está tão além do meu entendimento quanto a noção das dimensões do universo, que me tirava o sono em criança.

Millôrzinho dizia que a gente pode treinar um cachorro para ir até a porta e trazer o jornal. Eventualmente, pode até treinar o cachorro a trazer O Globo ou o Jornal do Brasil. Mas não há treino no mundo capaz de fazer um cachorro ler um jornal.

Hoje eu sou esse cachorro diante do jornal.

Anúncios

19 respostas em “Leo Drummond

  1. Cora, como está a filha que ficou? Ela precisa de muito apoio. Nem a conheço, mas não consigo parar de pensar nela. Como ela deve estar se sentindo. O chão saiu debaixo dos pés…

  2. perder um amigo é perder uma peça do puzzle do coração. assim, com ele mesmo jogando a peça fora, deve ser pior.

    []’s

  3. Fico imaginando o tempo que ele levou adiando o suicídio por conta de nao poder deixar sozinhas a esposa e essa filha. No auge da desesperança encontrou solução dessa forma. A herança emocional que deixa pra outra filha e pra quem mais fica é que é a desgraça.
    A gente passa a vida tentando dar sentido à existência mas às vezes isso cansa. Nem todo mundo consegue se ocupar pra não pensar, e ao contrário, se exaure em dificuldade, em dor e vazio e sai assim, num ato cortante, bruto, definitivo, e absurdamente corajoso.
    Escolher viver também é um ato de coragem.
    De qualquer modo, quando a gente não escolhe uma coisa ou outra, o fim é o mesmo.
    Saudade irremediável isso de morrer. A menos que nos encontremos depois. Gosto de pensar e acreditar nisso.

  4. Uma coisa triste e pavorosa ao mesmo tempo….(Por falar no seu Millôrzinho, tenho usado muito a frase – maravilhosa- dita por ele, que li em uma de suas crônicas; “não se amplia a voz dos idiotas”. As vzs troco por “canalhas”, “malucos” , depende da situação) Voltando ao caso, lamento que seu amigo tenha procurado a paz de maneira tão brutal , misericórdia…

  5. Cora, estas coisas me levam ao princípio da minha adolescência. Há não muito tempo eu tentava esconder estas notícias de mim. Não aceitava. Não conseguia tocar no assunto. Quando a Maitê Proença contou a história dela, percebi que não aconteceu só comigo. Levei muitos anos para superar o trauma. Fiz terapia, mas nunca mais consegui chorar. Nunca consegui parar de roer as unhas. Elas até cresceram, mas quando percebo, estão roídas de novo. Foi muito difícil ter fé em alguma coisa, mas com o passar dos anos, acabei me tornando espírita e isto me ajudou muito a entender muita coisa. É tão difícil entender o que se passa na cabeça das pessoas que pensamos conhecer bem e de repente saem fora assim…
    Como sei muito bem o que é depressão, luto muito contra ela, e o melhor remédio é a ocupação: trabalhando, praticando algum esporte, fazendo o que gosta, e nunca se entregando para a tristeza. Ocupar-se o tempo todo é o segredo. Ter um terapeuta para um bom papo nos momentos mais difíceis também ajuda D+.
    O suicídio machuca muito quem fica, pois procuramos entender, mas não conseguimos. Fazemos suposições, mas não encontramos respostas.
    O filho mais velho da minha irmã tinha 19 anos, quase 20 quando se enforcou. Era muito bonito, saudável e tinha um belo futuro pela frente. Não percebemos nada. Depois meu irmão encontrou um diário que não esclarescia nada, mas na última página ele escreveu bem grande: “a única solução é a MORTE!”

    • Layla querida, fiquei comovida com suas linhas aqui. De verdade.
      Cora, fica difícil encontrarmos palavras nesse momento, mas a sua crônica aponta que é difícil a qualquer pessoa. Um afago em teu coração.

  6. Complicado falar alguma coisa. Assim como você eu consigo entender o suicídio, mas não quando é precedido de homicídio da família. Fico pensando se foi um gesto altruísta, querendo livrar os que ama de algum tipo de sofrimento horrível, ou um gesto egoísta, de alguém que quer ir embora mas não quer se separar dos que ama. Como eu comentei no facebook espero que ele tenha deixado algum tipo de explicação em algum lugar, carta, bilhete, mensagem no computador, na caixa postal de alguém, para que os amigos e os demais familiares possam encontrar uma resposta e algum tipo de consolo.

    • Deixou um e-mail para outra filha. Ele tinha duas.
      Que eu vi, chorando, na portaria do edifício, antes mesmo dos bombeiros chegarem, para arrombar a porta.
      E, se a Cora se sente como um cachorro diante do jornal, eu não posso nem imaginar o que esta moça está passando.
      Lamentável, tudo.
      Meus sentimentos: que os envolvidos, de alguma forma, consigam superar esta tragédia.

  7. sou voluntária do cvv(centro de valorizaçao da vida) damos apoio emocional ,prevençao do suicidio e valorizando a vida,respeitamos sempre o direito de quem quer tirar a propria,mas damos um espaço para a pessoa desabafar ,se esvaziar e ter a oportunidade de repensar antes de cometer este ato .tem ocorrido muitos casos , que tem nos assustado. o cvv atende em todo BRASIL e alguns postos atende 24 h como é o caso de onde eu faço atendimento.sei que nessas horas nao adianta muito mas, é sempre bom ter essa informaçao.nao temos a soluçao para todos os problemas,mas temos salvo algumas vidas, afinal estamos completando 51 anos em 2013 . -(141)tridigito ou 22339191 rio- ou cvv.org.br atendemos tambem na web.

  8. Não faz sentido, nem é para fazer sentido, se assim fosse seria banal, é, talvez, para ser sentido, sentido numa dor surda, uma culpa assim fina, como nunca percebi, como, como, como? Ecoa na mente, dói.
    Nunca conheci ninguém que matasse a todos e se matasse depois e espero não conhecer; conheci suicidas.
    E o primeiro foi um colega do científico da minha irmã, um menino ainda, inteligente, maravilhoso quando normal, chato quando excitado, sumido quando depressivo, era PMD (como se chamava na época), me fez pensar tanto…
    Depois uma tia minha, meia-irmã do meu pai, também PMD, gostava tanto dela, sabia que ela era doente, mas mesmo com todo cuidado que se tinha se enforcou no fecho da janela com um pedaço do vestido; aprendi que não se pode fazer muito, é algo tão de dentro das pessoas que só psiquiatras podem detectar.
    Uma irmã dom meu cunhado (bipolar) também se matou, trocou de cidade e de médico, que resolveu tirar o lítio e ela se matou, que loucura…
    Eu também compreendo quem escolhe cair fora, quem leva uma ruma junto não compreendo, é para não ir sozinho? Ir para onde? Por possuir um sentimento de possessão forte sobre outros? Ou por ter alguma falha desconexa nos neurônios do cérebro que ainda desconhecemos? Aposto mais nisso, uma falha nalguma conexão cerebral, um desses exames de ressonância mais avançado um dia mostrará, pesquisadores cientistas são a salvação do mundo, a ciência é a salvação.
    Lembro que quando menina minha mãe tinha uma amiga que tinha ulcera nervosa e só comia leite e chuchu, mas eu dizia a minha mãe: ela não é nervosa, isso não combina e minha mãe dizia que devia ser nervosa por dentro, mas eu não me conformava até que um dia, a ulcerada já tinha morrido faz tempo, descobriram a tal bactéria piloro sei lá das quantas eu logo pensei nela, ela tinha uma bactéria e passou por nervosa, coitada,
    Ainda não deciframos o corpo todo, mente é um mundo a desbravar,
    Só sei que muito padece quem sofre nesse mundo de mundéu…

  9. numa ótica religiosa, “um atentado contra a vida não é um atentado exatamente contra Deus, mas contra todos os seus amigos”. ou julgamos, ou perdoamos.

    numa visão materialista, “na Natureza, nada se perde, transforma-se”, ainda que tenha sido em dor, uma amizade.

    diante do que não compreendemos, serenidade.

    deixo meu carinho.

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s