Ontem, hoje, amanhã ou A pizza metafísica

Terça-feira, chuvinha fina, cheiro de terra, acordei contente por não precisar ligar o ar refrigerado. Resolvi umas coisas pela internet, outras pelo telefone, fiz carinho nos gatos, li o jornal. O eletricista veio, constatou que a situação das instalações elétricas da casa não é tão calamitosa quanto eu imaginava, começou o trabalho.

Dois ovos mexidos, suco de laranja, mamão. Café forte.

Terminei a arrumação de uma das estantes da sala, que havia sido esvaziada por causa das obras, já há alguns meses, e que desde então estava um caos, com tudo misturado e fora da ordem.

Na segunda-feira, Bia passou para pegar o celular que tinha esquecido aqui em casa e trouxe Fábio e Nina, que me ajudaram com o começo da arrumação, fazendo pilhas com os livros e pondo numa caixa de papelão os que serão passados adiante.

Mais tarde o Fabinho, sempre fascinado com o globo terrestre que veio de Londres e com as dezenas de moedas de diferentes lugares do mundo que guardo numa caixinha, inventou uma nova brincadeira: descobrir de que parte daquela bola iluminada vem cada um dos dinheirinhos.

Gosto de explicar o globo para os meus netos. Gosto de mostrar onde estive e de traçar as distâncias que separam o Rio de cada um desses destinos. É que eu gostaria que, no futuro, eles venham a ter o mesmo prazer que eu tenho em viajar e em descobrir novos lugares. Eu gostaria que fossem para perto e para longe e, especialmente, que voltassem (ao contrário do Paulinho, que foi e ficou); gostaria que gostassem tanto do meu país quanto eu gosto, e que cada vez que o avião venha a pousar no Galeão com um deles a bordo, eles sintam a paz e a felicidade de voltar para casa.

o O o

Quando cheguei de Bogotá e saí do aeroporto para a rua, o cheiro de maresia me abraçou com uma força enorme, como se eu tivesse ficado meses longe de casa. Foi uma sensação intensa e inesperada, porque, afinal, não passei nem cinco dias fora. Para mim, não há perfume que se compare com esse cheiro quente e familiar.

o O o

Depois de por todos os livros no lugar, achei um cantinho para uma vaca sagrada que trouxe da viagem. Esta vaquinha, sentada em posição de lótus, cheia de colares e com quatro braços saindo das costas como se fosse um Shiva, fez parte da Cow Parade de 2007, em Istambul. Quantos pontos diferentes do mapa: uma ideia americana que foi ao ar na Turquia, representando uma crença indiana, comprada por uma brasileira numa loja colombiana: ufa!

A estante ficou bonita. Tem estatuetas egípcias, animaizinhos indianos feitos de osso de camelo, um pequeno cavaleiro medieval inglês em estanho e um Danbo, aquele robozinho japonês feito com caixotes da Amazon. E os livros, claro, sua principal razão de ser — vida de quem vive com livros é passar o tempo carregando livros de cá para lá, arrumando livros, limpando livros e imaginando onde mais se pode instalar uma estante na casa. Os ebooks dão menos trabalho mas, em compensação, não nos fazem tanta companhia, nem nos acolhem tão física e calorosamente.

Vejo as centenas de livros que me cercam, percebo o espaço que tomam, compreendo o seu impacto ambiental e, racionalmente, entendo que os ebooks fazem mais sentido do que os meus velhos amigos de papel. Não adianta. Gosto do objeto livro: é um vício como qualquer outro.

o O o

Quando terminei de arrumar a estante, me espichei no sofá para ver, no tablet, o que ia pelas redes sociais. Aproveitei e joguei um pouco de Pet Rescue. Desenvolvido pela mesma empresa que criou o Candy Crush, Pet Rescue é o game mais chantagista que existe: o pobre do jogador é responsável por salvar bichinhos fofinhos que podem acabar em gaiolas ou despencando do alto de pilhas de blocos. Cada vez que um animalzinho cai, dá um gritinho angustiado que faz com que o usuário se sinta a pior criatura do mundo por ter deixado que aquilo acontecesse. Muito cruel.

E aí vim para o computador escrever, perdida, sem saber o que dizer, antes, do que aconteceu depois. Hoje, quinta-feira, dia da circulação deste jornal, depois de amanhã de onde estou no tempo, já sabemos, todos, se o país tem ou não tem salvação moral; mas hoje, terça-feira, dia em que digito essas mal traçadas, a histórica sessão de quarta-feira do STF ainda não aconteceu.

Enquanto eu resolvia as pendências da casa, arrumava a estante e, sobretudo, brincava com os meus netos, pensava no ministro Celso de Mello. E pensava em como o destino de Fábio e Nina, ainda tão inocentes das safadezas do mundo, pode depender do voto deste único homem, transformado em fiador da autoestima do país.

Da semana passada para cá, a palavra do ministro adquiriu uma dimensão épica. Ele deixou de ser um homem comum para se transformar na personificação da Justiça brasileira, na extensão de carne e osso da bela estátua do Ceschiatti que fica em frente ao STF.

A essa altura, vocês já sabem se é hora ou não de substituí-la pela de um pizzaiolo; eu, nesse fim de noite de terça-feira, ainda não sei.

(O Globo, Segundo Caderno, 19.9.2013)

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15 respostas em “Ontem, hoje, amanhã ou A pizza metafísica

  1. Gostei tanto dessa crônica, Cora…tem uma vibe a la “Rosana Hermann”, que tb escreve coisas sobre seu cotidiano…sobre política nem quero opinar, tenho cá minhas opiniões, mas não à toa saí do Facebook; nem todo mundo quer (ou sabe) ouvir o que pensamos, então deixa pra lá…que fofos seus netuchos, já aprontando na casa da vovó , duplinha inteligente, Deus os abençõe, sempre! Bjs!

  2. Ingenuidade é um desses defeitos de nascença que a gente, ingênuo, pensa que a idade resolve. Nasci assim, sem conseguir fazer com que o tempo corroesse essa nódoa de criança em adulto quase senil… E, em minha ingenuidade, julgava que a medida de uma sociedade democrática era o reconhecimento da validade e aplicabilidade das normas legais até para nossos inimigos. Mas não, o que todos parecem querer é sua pequena dose de vingança. Mesmo que para isso precise fazer de conta que aquela regrazinha do Regimento Interno do STF tenha caído no oco do mundo. Que o Congresso Nacional tenha deliberadamente decidido por mantê-la vigindo, isso não passa de tecnicalidade absolutamente desprezível. É chato ser ingênuo. Eu gostaria de ter um pouco mais de malícia.

  3. apesar de um pouco triste, já esperava e até torcia para que fosse assim. do que adiantaria o celso mello (parece até que sobrenome é destino) dar o voto decente se daqui a pouco o pt vai indicar mais dois advogados, ops, juízes para o stf? é melhor ficarmos no estado natural de esculhambação do que viver falsas esperanças.
    quanto aos livros aderi definitivamente ao kindle e, inclusive, passei a ler bem mais.
    []’s

  4. o desânimo, ou melhor, o desalento com o que vemos triunfar à nossa volta é estarrecedor. Pobre país…

    x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
    um pequeno reparo: a Cow Parade não é americana, surgiu em Zurique em 1998

  5. Estava no dentista na hora do falatório do Ministro, pensando “Como é que eu fui marcar consulta justamente na hora dos embargos infringentes?” Saí correndo para casa (peguei um táxi) pois o meu lado Pollyanna (como disse a Marise Caetano) ainda existia e cheguei ao “lar doce lar” ainda a tempo de ouvir bastante blá-blá-blá…
    Pena não ter o “curtir” no seu blog, pois gostaria de CURTIR seu texto e os comentários abaixo: eles me representam. Estou com o mesmo sentimento do André…
    Acabou!

  6. Que pena, Cora, que pena que o destino dos inocentes Fabio e Nina e de todas as nossas crianças estavam nas mãos do ilustre Sr. Celso de Mello. Eles mereciam coisa melhor.

  7. Muito triste, Cora. Mesmo antecipando o que aconteceria, meu lado Pollyanna queria crer que seria diferente. Infelizmente, o Brasil não nos permite ser Pollyanna. Talvez tudo que possamos é ser avestruzes, cabeças enterradas na areia, para não ver e não sentir o cheiro pútrido de nossos políticos e juristas. São todos farinha do mesmo saco 😦

  8. Tá tudo dominado Cora. Uma grande, enorme, inexprimível rede tentacular de máfias interligadas. Todos vendidos ( ou comprados ), locupletando-se, jogando a última pá de cal na pouca fé que nos restava. Os bandidos estão eufóricos, o crime compensa nesta república de banana, onde se compra e se mata, esfola ou escraviza quem ousa tentar ser correto. Decididamente, acho que perdi qualquer traço de otimismo. O Brasil é um país que não só não quer como não pode melhorar. Simplesmente não deixam.

  9. Estamos todos decepcionados pela pequena porção de fé que nos restava. Vamos ao pizzaiolo – é o que nos resta. Quanto aos livros, não tem preço sentar diante deles admirando suas capas coloridas, arrumando as prateleiras – inventando novas arrumações. Mas, eu vou aderir ao livro virtual – pode-se carregar uns 15 dentro da bolsa…

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