Saudades de Bogotá

Gosto de viajar com o dever de casa bem feito mas, dessa vez, o convite veio em cima da hora e não tive tempo de ler sequer o mais simples dos guias de viagem. Quando embarquei para Bogotá, na segunda-feira da outra semana, tudo o que eu sabia sobre a Colômbia se resumia a meia dúzia de nomes, nem todos necessariamente recomendáveis: Gabriel Garcia Marquez, Botero, Pablo Escobar, FARC, Cartel de Medellin, Bogotazo… Pouco, vergonhosamente pouco, sobretudo para alguém que acha que o mundo inteiro tem a obrigação de saber que a capital do Brasil não é Buenos Aires.

A surpresa começou já no aeroporto. Para quem está habituada aos aeroportos brasileiros, o El Dorado é um sério choque de humildade. É o terceiro da América Latina em movimento, atrás apenas de Guarulhos e do aeroporto da cidade do México, mas nem se compara com Guarulhos nos demais quesitos. Novo, espaçoso, bonito, tinindo de limpo, é também tudo o que o Galeão não é. E isso é o que a gente vê na chegada; na saída, ainda descobre um free shop de primeiro mundo, daqueles de torcer pelo atraso do avião.

No caminho para o hotel, entrevi parques, árvores, prédios de tijolinho, calçadas limpas. Poucos outdoors, letreiros discretos nas lojas, pouca propaganda de modo geral. Quando cheguei, já estava convencida de que ia gostar muito mais daquela cidade do que jamais teria imaginado; quando parti, cinco dias depois, vim cheia de saudades, com muita vontade de voltar logo a Colômbia, dessa vez como turista, para passear com calma por Bogotá, ir a todos os museus e bibliotecas, conhecer as outras cidades e provar as muitas comidinhas que não tive tempo de experimentar. A capital que entrevi é sofisticada, bonita e orgulhosa das suas tradições culturais.

o O o

Bogotá é enorme. Tem quase oito milhões de habitantes, e todos os contrastes daí decorrentes. Mas tem uma característica toda sua, muito especial, que deu grande inveja a esta carioca: a educação das pessoas. Nos restaurantes é impossível saber sobre o que conversam as mesas ao lado; nas ruas, as pessoas que trocam ideias estão, em geral, do mesmo lado da calçada, e próximas umas às outras; ninguém fala aos berros, muito menos pontuando a conversa com palavrões.

Os colombianos com que entrei em contato, sem exceção, foram atenciosos e gentis num grau que eu já não me lembrava que existia. Logo no primeiro dia, deixei as malas no quarto e saí para passear pela vizinhança. Não levei mapa e me perdi. Perguntei a três rapazes que conversavam de pé numa esquina se sabiam onde ficava o hotel. Os três imediatamente se dispuseram a me levar, e lá fui eu, escoltada pelos meus novos amigos. Andamos cerca de um quarteirão. Quando chegamos, eu já tinha dicas de restaurantes, lojas e barzinhos para um mês inteiro.

Um rapaz me ofereceu o lugar num ônibus lotado; uma menina me ofereceu o lugar no ônibus do aeroporto que conduziu os passageiros para o avião, parado em posição remota.

o O o

Até outro dia, a Colômbia era dada como um caso perdido. Era uma das principais produtoras de drogas do mundo e vítima de uma guerrilha que transformava a vida das suas cidades em autênticos pesadelos. Custa crer que, cerca de uma década depois, esse cenário é (quase) passado. O governo de Álvaro Uribe fechou o cerco contra o narcotráfico, isolou as FARC (que hoje têm rejeição de mais de 90% dos colombianos) e, paralelamente, criou programas sociais para as crianças e os jovens que, antes, eram recrutados pelos traficantes.

Ainda há violência em Bogotá, como em toda grande cidade, mas nada que se compare com o que enfrentamos no Rio ou em São Paulo. É claro que, para não correr riscos desnecessários, valem as regras básicas do bom-senso: não sair com jóias pesadas, vigiar os seus pertences, evitar certas zonas à noite. Coisas naturais que qualquer turista esperto faz em Londres, Nova York ou Paris. Parece também que não se deve pegar taxi a esmo, na rua; só telefonando ou chamando através de um aplicativo para smartphone. Mas quando precisei de taxi, sozinha, peguei mesmo os que iam passando e não tive problema, a não ser fazer os motoristas entenderem aonde eu queria ir. Portunhol não é a opção ideal de comunicação com os taxistas locais.

Por falar em táxi: eles são baratos, mas dispensáveis. Bogotá tem um ótimo sistema de transporte público, o TransMilenio, em que ônibus articulados funcionam em faixas seletivas com a rigidez e a regularidade de trens de metrô. Não cheguei a usá-lo, mas os bogotanos são unânimes nos elogios, e gostam de apontar que a ideia foi exportada, com sucesso, para diversas outras cidades, de Amsterdam a Seul. Já os ônibus comuns são tão indisciplinados quanto as nossas vans: não têm pontos fixos e param em qualquer lugar, o que é prático para os passageiros mas desastroso para o trânsito que, sobretudo no Centro, é uma calamidade. O que salva o direito de ir e vir dos bogotanos são os mais de 350 quilômetros de ciclovias, amplamente utilizados.

O espaço da coluna termina, e eu nem falei ainda da comida deliciosa, do artesanato irresistível, das lojas de sucos, das frutas que só eles têm e do tanto que há para ver, comprar e provar. Fica para outro dia. E, sobretudo, fica a dica: a Colômbia é logo ali.
(O Globo, Segundo Caderno, 12.9.2013)

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21 respostas em “Saudades de Bogotá

  1. ah, Bogotá!

    isto é São Paulo.

    passeio com 4 cachorros, 2 comigo, 2 com minha irmã. normalmente, saímos juntos, os 6, para evitar escândalos e estresse nos bichos. tentamos não ocupar toda a calçada, conseguimos isso boa parte do tempo, mas há os momentos em que os bichos se espalham, cada um farejando um ponto, e aí, é o trabalho de reuni-los todos e voltar à marcha. há, também, claro, os momentos em que um pára para o xixi, outro para o cocô e, como não são de circo, ninguém garante que serão pausas sincronizadas. naturalmente, as cadelas procuram a guia da rua para o xixi, o cachorro procura um murinho ou poste, mas na hora do aperto, qualquer lugar serve. invariavelmente, recolhemos o cocô, procurando deixar a calçada limpinha.

    aqui é São Paulo. sujeito tem medo de cachorro, fecha a cara e passa rosnando, uns partem para cima, como se lhes fosse dado o direito de pisotear cachorros. sujeito não gosta de cachorros, passa resmungando coisas do tipo “só serve para sujar a rua, só presta pra sujar a frente da casa dos outros, duvido que vão recolher a sujeira” ou bobagens como “sai pra lá com esse bicho”. e há também aquela gente insana que passa se jogando contra as paredes e dando escândalo de verdade com “ai, ai, ai, ai, ai… ai, moço! olha esse cachorro!”. ah, tem também aquela gente maluca que tem cachorro no quintal, que naturalmente late quando vê outro passeando na rua, e que sai de casa berrando, batendo no animal que deveria ser de estimação, mas ofendendo quem passeia na rua… um horror.

    vivemos num mundo de gente doida. gente que julga o que não conhece e não faz o mínimo esforço para ativar a mente diante de algo que já pre-julgou. gente triste, burra, feia, mas cheia de razões.

    cada passeio com os cachorros é um exercício diferente, não raras as vezes em que voltamos pra casa tristes com a insensatez dessa gente maluca, que não sabe tratar seus medos, que não sabe se comportar diante dos fatos porque vive chafurdando nos julgamentos que fez preconceituosamente no laboratório do inferno de suas mentes, que não está preparada para conviver.

    cachorro late, porque é natural, mas tem gente que vê um cachorro quieto e reage como se seus ouvidos estivessem sendo agredidos por latidos. cachorro faz xixi, ele escorre pela calçada e evapora, um pouco de água e só outros cachorros vão saber que ele passou por ali. cachorro faz cocô, um saquinho de supermercado some com a prova do crime… enfim, um pouco de civilização resolve. mas há mentes atormentadas que vêem calçadas cheias de cocô de cachorro
    e – estupidamente – resolvem reclamar de cada cachorro que vê passeando com o dono; sem falar naqueles que acham que é obrigação de toda pessoa que passeia com cachorro e recolhe o cocô de seu animal, recolher também todo o resto – a gente até ajuda e faz o que pode, mas obrigação não é só de quem passeia com cachorro, mas de todo mundo que se incomoda e tem um mínimo de consciência de que a coisa tem de ser recolhida…

    eu me preocupava com essa gente. mas parei de me atormentar quando percebi que gente que reclama do cachorro passeando com o dono por causa da rua suja de cocô é gente que não enxerga os 2 milhões de cachorros e gatos abandonados nas ruas de São Paulo. não há o que dizer pra essa gente, pelo menos enquanto permanecerem na fase insensível do game.

    outro dia, uma senhora voltava do mercado acompanhada da filha de 3 anos. a menina ia solta, caminhando ao lado da mãe. passou no portão de casa e a Mel, nossa cachorra maior, estabanada, que volta e meia pede pra ficar na garagem, de olho na rua, com o focinho colado no chão, levantou-se fazendo aquele barulhão de portão automático sacudido. resultado, a menina que andava solta quase foi parar na rua, tropeçou, caiu na sarjeta e começou a chorar.

    o vizinho da frente, mais do que automaticamente, atravessou a rua e disparou a campainha de casa, berrando que o cachorro havia atacado a criança e lá ficou, tresloucado, sacudindo os braços, cantando o mantra “o cachorro atacou o nenê, o cachorro atacou o nenê”.

    a mãe da criança, claro, socorreu a filha, conferiu que estava bem e pediu ao meu vizinho que parasse com aquilo, porque na verdade ela que estava errada por andar na rua com a criança solta, sem segurá-la pelo menos pelas mãos, que a cachorra havia apenas levantado, e o portão fez o barulho natural. mas, quem disse que o vizinho desistia? ele precisava dar vazão ao julgamento que ele fizera, independentemente dos fatos. e continuava o escândalo, mesmo quando a mãe e a criança se acabavam de passar a mão na Mel e ganhar lambidas. doido de pedra.

    ah, Bogotá! quer meu vizinho pra você? 🙂

    e por que eu escrevi isso tudo aqui? inveja. inveja de Bogotá, que não conheço, mas guardei na memória como um lugar com gente mais e melhor civilizada que os de cá.

  2. Fiquei feliz com o post, pois estou com passagem marcada para Bogotá e Medellin .Se puder, publique mais dicas.Bjs

  3. Uma pequena observação: o sistema de ônibus TransMilenium, elogiado no texto como se fosse colombiano, nada mais é que um projeto do Jaime Lerner, bolado e criado em Curitiba, cujo ‘embrião’ começou na época em que eu morava lá (os “ligeirinhos”). Com o tempo essa idéia foi sendo melhorada pelo próprio Jaime.

    O Jaime (e equipe) implementou esse sistema em várias cidades da América Latina (tem exatamente o mesmo projeto no México DF, Quito, Guayaquil, Santiago, Cali e Bogotá, claro) e inúmeras outras cidades ao redor do mundo.

    E mais: a maioria das pessoas nestas cidades sabem que isso é um projeto do Brasil, e quase todos sabem inclusive que foi criado em Curitiba

    Como “santo de casa não faz milagre”, ele foi convidado ao Rio (na época do Brizola), mas não conseguiu implementar seu projeto. E aí está a ‘maravilha’ do transporte público carioca e a excelência das cidades estrangeiras que adotaram o projeto.

  4. Olá, eu sou Bogotana, agora moro no Rio e fico orgulhosa de algumas coisas que você fala, porém recomendo muito se informe melhor sobre o expresidente Alvaro Uribe quem tem vínculos muito forte com o paramilitarismo, por isso o “debilitamento” das FARC.

  5. Agora, nesse momento, estou a ver no +Globosat matéria sobre a cidade………. beleza de tudíssimo! uma transformação tão imensa que Sampa também poderia passar por ela. O primeiro prefeito tachado de maluco afirma lá pelas tantas: ”sagradas são as pessoas”. Gostaria que todos Vocês estivessem a ver!

  6. Tenho um grande amigo,que era um dos diretores da Pan Am,e se casou com uma colombiana de ascendência alemã(aliás,a Colombia tem uma grande comunidade alemã) e se mudou de mala e cuia para lá,
    pelas fotos que ele posta no facebook,dá para ver como ele circula por lugares lindos,sofisticados e de bom-gosto,fiquei deveras surpresa,pois imaginava uma cidade bem mais provinciana …

  7. Olá,
    Já estive na Colômbia e adorei Bogotá. Cartagena das Índias também é
    um encanto com suas praias.
    Abraços,

  8. Quando uma amiga foi morar lá, fiquei pensando “poxa, pq morar numa cidade como esta?” Hoje vejo as fotos e comentários dela no facebook e fico realmente surpresa. E agora com seu relato, fiquei com vontade de visitá-la.

  9. Cora vou com meu marido e filhos para Bogotá e Cartagena em janeiro.
    Tenho ótimas referências de lá.
    Já sei que ir ao Museu do Ouro é obrigatório.
    Agora se você puder faz um post com dicas de restaurantes e outros coisas imperdíveis.
    Como é o nome do lugar de artesanatos que você foi?
    Quero muito ir!
    Sou sua fã!
    Tatiana

  10. Cora, boa tarde,
    Tinha informações de Bogotá como uma cidade interessantíssima, clima bom, cultura rica e “pueblo” educado, em suma, será minha próxima viagem. Obrigada pela dica.

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