No reino da boçalidade

E aí, um dia, a gente recebe uma carta como essa:

“Peço-lhe desculpas por chateá-la com assunto dessa natureza. Infelizmente ainda há pessoas que acreditam que não pode acontecer com elas passarem por tanto constrangimento quando precisam da “nossa” polícia.

Meu sobrinho vem, há alguns anos, meio perdido na vida. Sou professora, graduada e pós-graduada, crio-o desde os sete anos (hoje está com 29) porque a mãe sumiu no mundo e o pai, meu irmão, morreu quando o menino contava apenas dois meses. Temperamento difícil somado à revolta pelo abandono levaram-no às drogas; para manter o vício, foi levado aos assaltos.

Imagine como sofro, pois tentei dar-lhe carinho e educação. Quando pequeno, levei-o a vários médicos e terapeutas. Crescido, dizia que não tinha problema e vivia a sua maneira. está preso, pela segunda vez. Condenado, aguarda sua transferência para Bangu em uma casa de custódia em Engenheiro Pedreira, distrito de Japeri, interior do Rio de Janeiro.

Cheguei há pouco de lá. Estou arrasada. Não consigo entender por que alguns funcionários (infelizmente, maioria) do Sistema de Administração Penitenciária tratam-nos, parentes dos presos, com tanto sarcasmo e desrespeito. Imagino como os presos são tratados. Sei que violaram as leis, sei que muitos oferecem perigo à população, sei que não devem ter mordomias. Não deveria haver mordomia para ninguém que violasse as leis, inclusive os políticos corruptos, os criminosos de colarinho branco. Apenas acredito que, como cristãos, devemos tentar ajudar essas pessoas a viver de forma diferente. Acredito que educando, orientando para o trabalho, ocupando esses jovens, tornando-os úteis, chegaremos a uma realidade tão desejada, ou seja, construiremos e investiremos em escolas e universidades e não precisaremos construir mais presídios.

Levei para meu sobrinho uma manta de fibra sintética, cor cinza exigida pela casa de custódia. O inspetor disse que não poderia ser entregue. Eu perguntei por quê. Ele, rindo e caçoando, recomendou-me passar pelas ruas à noite, observar bem os mendigos e roubar de um deles um dos cobertores que usam, bem “vagabundinhos”, que é o que pode entrar para o preso.

Você talvez dirá que eu deva procurar a corregedoria. Não é a primeira vez que passo por constrangimentos ou que os testemunhe. Você faz ideia do que pode acontecer ao meu sobrinho se eu fizer a reclamação? Precisa responder? Que país é esse em que não se pode confiar na força policial? Em todo esse tempo de luta (mais ou menos 15 anos) tentando recuperar esse jovem, encontrei apenas alguns poucos policiais que mereciam confiança.

Apenas alguns poucos, Cora. Apenas.

Sou professora. Acredito na Educação. Sou cristã. Não desisto. Perdoe-me o
desabafo. Abraços,

Norma Suely”

o O o

Não sei o que dizer para a Norma Suely. Não sei o que responder a uma carta assim. Não tenho coragem de recomendar que tenha paciência, porque eu não teria. Não tenho como pedir que tenha fé, porque eu não acredito. Não posso insinuar que as coisas vão melhorar, porque eu estaria mentindo: o Brasil que vejo piora a cada dia. Fizemos alguns progressos na área social, dizem que há menos miseráveis e é possível que isso seja verdade, mas nunca tivemos uma população tão mal preparada, tão mal educada, tão boçal. Um guarda que destrata os parentes dos presos é reflexo disso. Uma diretoria de presídio que permite este tipo de achincalhe também.

Não basta o país ter a capacidade de transformar miseráveis em pobres. Mais importante do que isso é pensar a longo prazo, é criar uma escola que funcione, da qual os jovens saiam com ferramentas de real progresso nas mãos, em vez de diplomas que, cada vez mais, valem cada vez menos. É entender que educação é, também, um conjunto de valores que forma pessoas melhores e mais humanas. O guarda que fez troça da Norma Suely aprendeu a ler e escrever, mas não sabe nada.

o O o

Escrevo de Bogotá. Quando o avião decolou do Rio, o comandante da Avianca fez uma homenagem emocionada à equipe de judô que participou do mundial do Rio, e que voltava para casa naquele vôo. Concluiu dizendo que jovens como aqueles reafirmavam o seu orgulho de ser colombiano. O casal brasileiro que ia à minha frente deu uma risadinha: “Orgulho de ser colombiano? Ha ha!”

Espero que, ao desembarcarmos, tenham mordido a língua com bastante força: o aeroporto internacional Eldorado bota no chinelo o patético Galeão, cada vez mais deprimente. E não é só a porta de entrada que impressiona. Os anos negros da guerrilha ficaram para trás (FARC e governo estão em negociações para por fim ao conflito), a produção de drogas caiu drasticamente e o país, que vive um bom momento econômico, é uma grata surpresa: Bogotá é uma cidade ao mesmo tempo sofisticada e acolhedora, que sabe preservar a sua cultura. Tem museus de padrão internacional, bibliotecas públicas de cair o queixo e ruas limpas e seguras, patrulhadas por duplas de policiais e lindos cães de todas as raças.

Acima de tudo, porém, tem uma população super gentil e educada, que capricha na cortesia como estilo de vida. Eles tem mais é que ter orgulho, muito orgulho, do seu país.

 

(O Globo, Economia, 5.9.2013)

Anúncios

52 respostas em “No reino da boçalidade

  1. Como disse Elizabeth Bishop, “o Rio é uma cidade horrorosa, num cenário deslumbrante

    E aí temos esta beleza espetacular (vídeo de tirar o fôlego; assista em HD e Tela Cheia), com uma urbanização horrível

  2. Ola Cora,

    Eu estive na Colombia e gostei muito. Cartagena eh lindissima. Agora quero voltar e conhecer a rota do cafe, Medellin e Santa Marta. Eh uma Pena a falta de informacao de muitos brasileiros.
    um abraco, Eny

  3. Cora,mais uma vez adorei seu texto! Foi ótimo ter notícias positivas de Bogotá,provavelmente será minha próxima viagem…bjs,

  4. Cora! Voce esta na Colombia!!?
    Cora obrigada pelas tuas palavras
    Sou Colombiana, sigo teu blog desde que fiz mestrado e logo doutorado no Brasil
    Agora sou professora da Universidade de Antioquia moro em Medellin, sim em Medellín
    Se voce precisar de alguma coisa este é meu numero celular 3012300776
    Um forte abraco

    • Ximena! Não sabia que você era colombiana! Estou apaixonada pelo teu país, pelas ruas limpas, pelas pessoas gentis e educadas, pela competência dos empresários que entrevistei; bibliotecas maravilhosas, museus, o poeta José Asunción Silva na nota de 5000 pesos, a comida deliciosa.

      Dessa vez fico pouco, vim a trabalho e já estou fazendo as malas, mas quero muito voltar um dia a passeio. Aí vou a Medellin (“Medejín”, agora eu sei a pronúncia). Um beijo grande para você!

      • Cora, eu também sou colombiana (bogotana) e moro no Rio. Adorei seu texto. Muito obrigada, Beatriz.

      • Oi Cora!!
        Que bonita que você é, teria gustado muito ter lhe mostrado Medellín
        Que prazer seria conversar e sair de passeio com você
        Fica a divida! 🙂
        Bom retorno
        Beijo e carinhos para a famiglia gatto
        Ximena~

        • Ainda vamos fazer esse passeio, querida Ximena!

          Estou encantada com a Colômbia, e quero voltar a passeio, para conhecer também Medellin e Cartagena.

          Um beijo grande!

  5. Maravilhoso texto, Cora!
    Os comentários da turma “habitué” do blog, como sempre, arrasaram!!!
    Pelo visto, pior do que ser brasileira é morar na cidade do Rio de Janeiro…

    • Muito pior ! Tá bom… morar em Recife é pior ? ô se é… ruas esburacadíssimas, um inferno, mas todos são simpáticos e solícitos ! E Macaé ? Também é comparar o roto com o esfarrapado, aí não vale ! E Campinas ? Nossa ! Campinas é muito limpa, o serviço é ótimo mas é ultra-violenta ! E Belém ? A cidade mais imunda do Brasil, mas lá não tem moleza para bandido, todos acabam na vala ou na cadeia, quando dão sorte… Ou seja, nem vou entrar pelo norte do país, onde há capitais comO Macapá e Porto Velho, que nem tem calçamento e nem asfalto decente… Mas se comparar o nosso RIO com alguma cidade com um nível de urbanidade decente, o RIO perde sempre !

  6. Também não sei direito o que dizer a ela, como você.
    O sobrinho é um marginal, mas ela não o é; não se deve levar nada para alguém preso, mas também não precisa achincalhar, quem o faz talvez não saiba, nem precisa sorrir, só falar calmamente e explicar, mas ao mesmo tempo penso que várias revistas e tiradas de celular e drogas de lugares “cresipuos” esgotam e matam qualquer traço de humanidade no tratar; civilidade, urbanidade, isso existe? Só vejo selva, grosseria, achincalhe, falta de educação doméstica, de trato, mas hoje tudo traumatiza as criancinhas, casa vez com mas tempo de adolescência, de menino, se antes era de pequenino que se torcia o pepino hoje até o pepino jogaram fora, se enterra mendigo vivo, se atira no pé porque a vitima não tem o celular que o bandido quer, se defende algo torto só porque o partido que o faz é o seu, se quer ir mascarado na manifestação só para quebrar sei lá porque, nem eles sabem, só querem destruir, bando de rebelde sem causa, a droga comeu o juízo de muitos, é muita coisa errada, por tudo agora aqui na minha terra se põe pneus na estrada e tocam fogo, e ninguém passa e nada se faz e onde já se viu lei que não pega em outro lugar do mundo?
    “Somos uns boçais”
    Todos nós!

  7. Todos escreveram. Concordo com a grande parte de comentaristas, exceto um que pensa que estamos na Dinamarca e acha que seu maldito partido é o esteio desta Nação. E ele é, na realidade, a desgraça que nos cerca de nojo por todos os lados. Nos últimos tempos, mal consigo ler tudo o que ocorre, e não é por causa de não querer saber dos problemas, mas, como tenho estômago fraco para tudo isso, corro ao banheiro para “descomer”… Perdão, mas é assim por enquanto porque, pelo visto, “isto” aqui vai piorar e muito! Que pena… Não merecemos.

  8. Cora, boa tarde. Li sua coluna de hoje n’O Globo, e gostaria de fazer meus comentários:

    Sobre a carta de Norma Suely, em primeiro lugar eu arriscaria dizer que o sobrinho dela deve ser portador de algum distúrbio psiquiátrico, como alguma doença da classe dos transtornos de humor, o que o leva ao comportamento autodestrutivo, agravado pela morte precoce do pai e o abandono da mãe. A tia sofre, mas infelizmente há casos além de qualquer esperança, independente de grau de educação, afeto recebido ou classe social. Freud cunhou os conceitos de “Pulsão de Vida” e “Pulsão de Morte” (Eros e Tanatos), e creio que todos nós tenhamos, em qualquer família, um caso similar.

    Quanto à prisão, ela é uma sucursal do inferno em qualquer lugar do mundo. Exemplos não faltam: “O Conde de Monte Cristo”, “O Expresso da Meia-Noite”, “Carandiru” ou um documentário qualquer da National Geographic ou Discovery Channel mostram a mesma realidade, em diferentes épocas e locais do mundo. Quanto ao cobertor, pense bem, pela descrição a peça seria “de luxo”, comparada ao restante dos presos. Muito provavelmente o sobrinho seria atacado e roubado por algum outro detento.
    O escárnio do agente é injustificável, MAS talvez haja algum tipo de preservação por trás disso tudo. Veja, os “códigos invisíveis” que regem as prisões são implacáveis, outro dia mesmo, em São Paulo, os bandidos que mataram aquele garoto boliviano foram mortos pelos companheiros de cela. Bandido também tem família, então matar uma criança é assinar a própria sentença de morte. Estuprador? Vira “mulher” na mão dos outros prisioneiros, e provavelmente morrerá de aids.

    Agora, sugiro estes dois pequenos vídeos que encontrei vagando pelo Youtube, da impagável Odete Roittman (pouco mais de seis minutos no total):


    Vamos descartar o fato de serem uma peça de ficção do final dos anos 80, e também os excessos (como a defesa da pena de morte) usados para exarcebar a vilaneza da personagem. De duas cenas feitas há 25 anos, podemos extrair:

    – O Galeão já era um lixo.
    – A gente feia, ou seja, a grande maioria da população que mal tem como sobreviver.
    – Os ônibus caquéticos. Bela correlação com as passeatas e quebra-quebras. O povo (o lúmpen, a choldra, a malta, como diria outro certo colunista d’O Globo) finalmente se cansou de ser tratado como escória. Não sabe direito como reagir, mas decididamente começou a reagir.
    – O culto à ostentação e ao desperdício do dinheiro: se espalhou da nossa classe alta para a classe média e chegou às classes mais baixas. Um exemplo simples, minha faxineira tem dois “smartphones”. Eu disse dois. Movidos à crédito pré-pago. Os dois aparelhos são mais sofisticados que o meu.
    – A milionária vende suas roupas bastante usadas. “Meu dinheiro eu ganhei com o suor do meu rosto”. A frase é sensacional. “Neste inverno as peruas…” mostra o capachismo e a boçalidade de uma parte considerável da nossa população.
    – “As pessoas aqui não trabalham”, “é um povo preguiçoso”, “o fato é que as pessoas aqui não querem trabalhar”. Sabe o agente penitenciário? O garçon do restaurante? O gerente do banco? Pois é, desconfortável, não? A primeira coisa que deveriam fazer é extinguir a estabilidade vitalícia no emprego público, exceto para cargos como juízes, procuradores, promotores e alguns outros. Funcionário público deveria estar sujeito à todas as condições da iniciativa privada. É incompetente, preguiçoso, grosseiro, prepotente? Rua! Demissão por justa causa. Agora, se você vai numa repartição como o Detran ou o Inss, tem sempre um cartaz a informar que o “desacato” pode ser punido com prisão.
    – Agora, desconfortável mesmo é o comentário que a Odete Roittman faz sobre os imigrantes. Eu ja me fiz essa pergunta antes. Eu já fiz essa mesma pergunta uma vez numa mesa de bar lotada, para a esposa de um-chefe meu, ela é professora de sociologia na Uerj, e o local quase foi abaixo, felizmente todos tinhamos não só educação formal, mas principalmente pessoal, e os ânimos felizmente se acalmaram.

    A pergunta é: “por que os imigrantes alemães, japoneses, árabes, italianos e afins, que aqui chegaram com uma mão na frente e outra atrás*, prosperaram, foram aceitos, prosperaram e por fim inseridos no tecido social brasileiro, enquanto quem já estava aqui continuou no mesmo lugar? Alguém poderia me explicar, por favor?”

    * Meu avô paterno emigrou da Síria para o Brasil durante a Primeira Guerra Mundial. A sogra da minha irmã, italiana, veio criança para cá, como refugiada ao final da Segunda Guerra Mundial. Meu avô nunca pôs os pés numa escola, vendeu flores até o dia em que morreu, e teve seis filhos e filhas. Todos foram para a faculdade. Na geração seguinte, eu e meu irmão mais velho nos graduamos respectivamente nas melhores faculdades do país, eu depois fiz mestrado e ele chegou ao doutorado. Somos milionários? Não. Nem creio que cheguemos um dia a ser, mas isso não importa.
    Aliás, seu pai era um imigrante do leste europeu, não?

    Um racialista/racista, me chamaria de “branco”. Quem? Eu? Descendente de árabes por um lado, e alemães por outro. Isso é ser branco? Onde estão escritas essas definições? Parafraseando o saudoso mestre Mussum, “branco é a tua mãe!”. E sabe a minha faxineira? Ela também é “branca”. Tem o tom da pele idêntico ao meu. Tem a mesma idade que o meu irmão mais velho (45 anos). Nascemos, fomos criados e vivemos na mesma cidade, a 5 quilômetros um do outro. Ela é minha faxineira. Enquanto isso, minha cunhada rala na Cultura Inglesa, para alcançar a fluência/proficiência necessária e eles dois poderem ir para o exterior fazerem juntos um pós-doutorado.

    Para terminar, a Colômbia, um (ex-?) narcoestado, devastado por décadas por uma guerra civil, caminha aceleradamente para a “civilidade”. A sensação de segurança, de poder andar pela rua sem sobressalto. Tia Odete Roittman já fazia cometários devastadores sobre nossa violência ainda na década de 80, depois piorou! E a Coréia do Sul? Um país pobre/miserável no início dos anos 50. Agora conte quantos eletrônicos “Samsung” ou “LG” você tem ou já teve. Compare com os mesmos “produtos de alto valor agregado” que tenham sido projetados e fabricados aqui no Brasil. Sem bairrismos, mas a conta não fecha, não é mesmo.

    Um abraço,
    Cláudio

  9. Mais uma vez, Excelente, Coríssima!

    Sempre que viajamos, voltar para o Rio é uma BOFETADA!

    É a capital da Boçalidade, da Indisciplina e da Incivilidade

    As bandalhas são tantas, que criei esta cartela de joguinho:
    Bingo Carioca
    Divirta-se!

    • Não se aplica apenas ao Rio. Provavelmente esta cartela poderia ser adaptada a cada cidade do Brasil sil sil. A maioria, contudo, teria muito mais itens relativos a trânsito, como aqui onde moro, onde ninguém se dá ao trabalho de acionar a seta do carro para fazer qualquer manobra ou ultrapassagem.E jamais alguém para para dar passagem a um pedestre. Enfim são inúmeros casos.

    • O absurdo emblemático do Rio é que se trata da cidade [literalmente] ‘Cartão-Postal’ do país. Aquela que deveria ser cuidada nos mínimos detalhes, dos bairros mais pobres, aos mais ricos.

      Mas não esta mentalidade de nivelar por baixo, favelizando o pouco que tínhamos, como política-oficial de todos os governantes, desde o fim do Estado da Guanabara, resultando nesta Capital da Boçalidade instituída. Não dá para nos depararmos com praticamente todos os itens da cartela do ‘Bingo Carioca’ todos os dias!

      Historinha:
      Encantado — com os moradores, as lojas, os prédios, a arborização, o trânsito, as calçadas, as… tudo, enfim, o ‘clima’ local –, eu passeava pelos arredores da Kollwitzplatz (use o StreetView, para passear pelas ruas), em Berlin, ou Kentish Town, em Londres, e minha mãe comentou “mas estes são bairros muito especiais“.

      Ironicamente, respondi: “Ah Bom! e eu pensava que eu morasse em… Ipanema” (pano rápido) 😉

      (but the joke is on me) 😦
      ps: toda minha vida, sonhei em morar na Ipanema mítica da minha adolescência. Mudei-me para cá no ano 2000. E me descubro morando nesta bandalheira favelizada, onde impera a incivilidade

      • 1 – Berlin é espetacular. Só tem um problema: A língua alemã é difícil de falar e entender, não é ?
        2 – Se mude para o Leblon, que é melhorzinho ! ( e menor )
        Abraços,
        CASS

        • grato, mas…
          2 – não é lamentavelmente patético que sua sugestão para quem mora em Ipanema seja cair fora de I-PA-NE-MA, que está no imaginário de meio-mundo? Para algo apenas melhorzinho? É sinal do desalento de não mais acreditarmos que as coisas possam ser consertadas

          1 – Kentish Town seria então melhorzíssimo 🙂
          []s

          • Ipanema não está no imaginário de meio-mundo. COPACABANA é que está no imaginário de meio-mundo ! Todo mundo, no mundo todo, quer conhecer Copacabana e só ! ( graças a Deus, poucos conhecem o meu querido Leblon ! )

            • Copacabana, que faça juz a sentimento igual ao “orgulho de ser colombiano”, só se for a Copacabana original: na Bolívia, às margens do Titicaca

            • Basta viajar um pouco mais, conhecendo muitos e muitos países e dizendo-se brasileiro, para todos perguntarem sobre Copacabana.
              Incrivelmente em Portugal, eles querem conhecer Fortaleza !
              Há muitos portugueses por lá !
              Ipanema não é conhecida fora do país, talvez por um ou outro que goste de bossa nova – que é muito chata – pode talvez saber que Ipanema é um bairro.
              Os turistas – e eu conheço muitos, do mundo todo, que vem ao Brasil a trabalho e depois a passeio – querem e desejam conhecer Copacabana e o Copacabana Palace !

      • Tonzinho querido, não fale mal do Rio por agora não, meu coração vai ficar tão miudinho, meu coração de mãe fica picadinho com isso, meu filhotinho mais velho (34, mas para uma mãematilda isso né nada, tô com sessenta), enfim, meu menino está de mudança para o Rio, foi promovido, transferido, todos os idos e lá vai ele ido, tô em crise, criei os meninos bem demais, vou ficar só, um já foi para sunpaulo, ensina na USP (minha irmã diz para eu encher a boca e sibilar para falar, ussssp, porque é a melhor faculdade da américa latina, mas eu encho é o olho d’agua), meu bebe uma hora dessa tem um bebe castigando nos porrrrta, porrrrretão da vida, eu eu sou baiana quinhentona, é duro, agora vou perder outro para o Rio (ese desde menino adora o Rio, nasceu com isso), é solteiro, vai que casa com uma funkeira que vem dançar o quadradinho de oito na minha sala, na minha sala, é duro, na próxima encarnação nada de ensinar línguas, cultura geral, falar o baianes já tá de bom tamanho, assim os pintinhos ficam todos na minha asa; gente, eu tô em crise!
        (já tô ouvindo funk, quanto ao resto, aqui também tem o jeitobrasil de ser, ele nem vai estranhar)

  10. Não deixem de ler o texto – crônica de Cora Ronai, é incrível. Tão real, verdadeiro. E uma das melhores frases do texto: O guarda que fez troça da Norma Suely aprendeu a ler e escrever, mas não sabe nada ou ainda é entender que educação é, também, um conjunto de valores que
    forma pessoas melhores e mais humanas. E óbvio, mas que precisa ser dito: os pais na vida dos filhos é tão importante como o pão que alimenta, e cartas como essa reafirmam e me absolvem de certa forma, que abdicar da profissão, em alguns casos é recompensa.
    Mais uma vez, parabéns à Cora e Norma Suely!
    Andreia Baltasar

  11. Agora me dei conta de que tenho o mesmo prenome da senhora que escreveu a carta para à Cora. (Lamento muito por sua situação. Sou sua homônima) Norma

  12. Oi Cora
    Como sempre texto perfeito! Prazer vir aqui sempre.
    Nosso País está largado, destruído, desmoralizado e nosso povo está ou sedado numa bolsa qualquer ou vidrado num crediario de 60 meses, feliz de salvar a cervejinha do fim de semana. Os que não estão assim estão como nós , vendo a erosão constante dos valores mais fundamentais e deteriorização de tudo, serviços e patrimônio públicos. Não andamos para frente em nada, ouso dizer mesmo no tão propalado social ou é ganho da sociedade a capacidade que as pessoas tem de se endividarem nas Casas Bahia ? É ganho social poder comprar qualquer coisa num supermercado ou mercantil (no Nordeste/Norte) e de repente obesidade virar epidemia ou doença tipo calamidade pública? É ganho social a quantidade de carros ( e motos) no transito das cidades, poluindo, matando, destruindo enquanto nossos transportes publicos ora estão desmantelados, ora estão superfaturados ou simplesmente não estão ( não existem).É ganho social trazer médicos (quaisquer nacionalidade) para o nada:nada de hospital, nada de material, nada de equipe de apoio, etc)? Somente gente que está anestesiada ou não quer dar o braço a torcer não percebe que o ganho social atual está igual aqueles espelhinhos que os portugueses trouxeram pros indios a 500 anos atras.
    São 12 anos , 12 anos onde se não se podia consertar tudo podia sim ter melhorado de verdade aquilo que era fundamental: educação, saúde e segurança. O Japão saiu de uma guerra, de duas bombas atomicas e hoje é reconhecidamente uma potencia. A Coreia do Sul fez a revolução da educação e hoje é uma potencia. A Colombia, e especialmente Bogota que eu conheci na decada de 90 e era perigosa, violenta, cheia de favelas, mudou tão radicalmente que ler a sua coluna só confirma a minha visão. Enfim, entendo a sensação de impotencia e mesmo depressão que dá receber uma carta como a da Sra Norma e fico abismada como tem gente que ainda defende essa quadrilha instalada e vem aqui , no seu espaço , bancar a ofendida com a carapuça enfiada até os bagos!
    Perdão pelo destempero no final !
    beijos e aproveita o conselho da Marisa e vai a Cartagena, uma graça de cidade
    Adriana

  13. o sistema penitenciário e carcerário, no Brasil, é tratado pior que uma latrina, pior que uma lata de lixo, pior que uma caixa de esgoto… pela sociedade e pelo Governo.

    é triste.

    *****

    se existem animais mais desprezados pela sociedade do que cães e gatos de rua, esses animais são os internos da Fundação Casa e os presidiários.

    explico:

    mudar a condição de vida dos “sub-humanos” em questão depende de mais do que de boa vontade e isolamento (sim: contraditória a forma com que são “atendidos”); resumindo muito bem e chegando à base de tudo, para transformá-los em “humanos” seria necessário muito – mas muito mesmo! – muito dinheiro, na forma de investimentos diversos, em infraestrutura, em desenvolvimento profissional, em requalificação, em alimentação, em treinamento etc.

    mas, responda sinceramente: você está disposto a pagar por isso?

    sim: você.

    (minha resposta eu conheço bem.)

    é seu dinheiro que paga o atendimento a internos da ex-Febem e presidiários. você está disposto a apoiar “mais dinheiro” para o atendimento digno e necessário a essas pessoas? principalmente sabendo que esse “mais” para eles significaria, provavelmente, “menos dinheiro” para outra coisa como… hospitais, praças, estradas, ruas, creches… você concordaria com “mais dinheiro” para eles e “menos dinheiro” para idosos, doentes, crianças abandonadas etc.?

    pois é… precisa de muito mais do que “imagens chocantes” (http://glo.bo/14gf7Zs) para “a sociedade” (“o contribuinte”, “o legislador”, “o governo”, … você [?] e eu [?!]) sair do discurso escandalizado e conformista e tomar uma atitude, sobretudo porque isso custa mais dinheiro.

    se existem animais mais desprezados pela sociedade do que cães e gatos de rua, esses animais são os internos da Fundação Casa e os presidiários (e, por extensão, “os profissionais” que os “atendem”).

    pense nisso com carinho.

    o mundo, infelizmente, é feito de gente que acredita que se ajudar “mais” um cachorro, é porque vai ajudar “menos” uma criança abandonada; gente que pensa que se ajudar “mais” um interno infrator (um criminoso), é porque vai ajudar “menos” da saúde ou “coisas mais importantes e urgentes para gente honesta”.

    esse mundo dividido assim não vai bem. se fosse esse o caminho certo, estaríamos melhorando.

    pense. e pense com carinho. ou não pense.

    simples assim.

    *****

    para “o sistema” é bom que o cidadão aceite pagar mais por segurança e, ao mesmo tempo, se recuse a pagar mais por recuperação de detentos – é assim que “o sistema” se mantém firme e inalterado. um cidadão que compreendesse que só haveria mais segurança se houvesse cada vez menos gente sendo detida destruiria “o sistema” e não contribuiria tanto financeiramente para sua corrupção. só com mais insegurança é que o cidadão aceita pagar mais pela “proteção” dos corruptos. enquanto o cidadão que despreza a questão da recuperação dos detentos e internos for maioria na sociedade, haverá crescimento no clamor por “mais segurança” e, portanto, haverá mais maneiras de tirar dessa mesma sociedade “mais dinheiro” para sustentar um sistema prisional corrupto, podre, em nada orientado para recuperação de quem quer que seja, análogo a uma escola do crime, formadora de marginais, alimentadora do que houver de pior no espírito humano. enquanto houver gente que “a sociedade” não quer ver, haverá quem se esforce para aumentar “as trevas”, quem se dedique a trabalhar “nas sombras”. é simples. mas a maioria ainda quer, simplesmente, “jogar o lixo fora”, não se importando com o que isso possa significar.

    *****

    para “a sociedade” (eu? você? nós? os outros?) o “lixo” tem de ser recolhido. “ela” não quer “ver lixo” se acumulando, nem saber aonde vai; quer descartá-lo e só. essa tal “sociedade” fica “chocada” quando “vê”, “no Fantástico”, quem deveria “cuidar do lixo” espalhando-o… o “problema” da “sociedade” não é “o lixo”, nem “a falta de profissionalismo”, mas “enxergar”. o que “ofende” a “sociedade” é “ver”. infelizmente, há, sim, quem prefira simplesmente “não ver, não ouvir, não saber, não pensar”… até para poder continuar acreditando que “lixo some”. mas, afinal, o que poderíamos esperar de “uma” “sociedade” que “trata” (“descarta”) “gente” (“ruim”) como “lixo”? ah… suscetibilidades… como não as ferir?

    *****

    o que revolta muita gente não é “a realidade”, mas “a imagem”.

    *****

    talvez, o único recurso que sobre à senhora que escreveu a carta seja apelar para a “imagem”, tornar-se uma “mulher-câmera”. mas, dado o horror que ela sente por saber que nessa imagem há seu sobrinho – e que ele não é uma imagem -, possivelmente nunca o faça, paralisada pelo medo que sente de perdê-lo (ainda mais irremediavelmente).

    *****

    falta sangue nas veias do nosso povo.

    • “o que revolta muita gente não é “a realidade”, mas “a imagem”.”
      (Cláudio Rúbio)

      Você definiu!
      (e me fez chorar. muito) Norma

        • Por favor, não se preocupe. 🙂 Foi a constatação de que se não é visto, – não incomoda -, não existe …
          Reparou no ponto de exclamação ?
          Motivo do encontro da definição perfeita para uma sensação/um achismo inominado até àquele momento. Obrigada

  14. Há um problema no serviço publico, qualquer que seja: Não há controle sobre a qualidade do serviço ! ( aliás, em qualquer serviço, mas no particular é simples: Reclama com o patrão )
    Dou um exemplo pueril, mas interessante, precisei tirar meu passaporte, pois estava vencido, e somente havia posto rápido em Palmas, no Tocantins.
    Como eu viajaria para lá, tirei lá.
    A atendente é uma senhora, linda, magra, fina, educada e super atenciosa, espetacular.
    Minha esposa preferiu, porque tinha tempo, tirar aqui no RJ.
    Fomos ONTEM lá.
    O atendente é um senhor mais idoso, absurdamente grosseiro com todos e todas, inclusive com os colegas. ( deu patada em todo mundo… o senhor da razão do universo )
    Não chamei a sua atenção, pois o objetivo era sair correndo dali com o passaporte embaixo do braço. ( o que não acontece, porque fica pronto em n dias depois da entrada )
    Se não fosse o caso, teríamos um sério problema.
    E, olha… eu acho que se eu puxasse um fundamento qualquer ali, a coisa ia complicar…
    Tinha um negão forte do meu lado, que estava a um passo de partir para a porrada…
    Eu o acalmei, falando baixinho, e dizendo do que poderia acontecer com o seu passaporte…
    Ele aquiesceu e ficou calminho.
    Ele e eu, ficamos quietinhos. ( mesmo porque o passaporte era da minha mulher, já pensou se eu resolvo ter uma ataque de She-Ra na repartição e eles enrolam com o passaporte dela ? Ia ser uma loucura para o resto da vida ! )

    • Fim de semana em Sampa. Andamos para cima e para baixo de táxi e TODOS, TODOS, os taxistas foram simpáticos e muito profissionais. Além do atendimento nos restaurantes, tudo perfeito ! Que diferença com o nosso desserviço do Rio de Janeiro…. ( a vantagem é que no RJ, o cara já fica sabendo o que o espera ao pegar um dos nossos maravilhosos táxis onde o motorista ora fala no celular, ora no intercomunicador… e se acham os reis do pedaço ! )

  15. Pois é, né, cara Cora… Muito bonitinho escrever: “Não basta o país ter a capacidade de transformar miseráveis em pobres. Mais importante do que isso é pensar a longo prazo, é criar uma escola que funcione” e mais outros clichês e bla-bla-blás… Mas e o que dizer dos governos anteriores, que nem isso fizeram? E será que os miseráveis que ganharam dignidade estão tão insatisfeitos como você? Muito fácil botar o dedo na cara do governo atual, o único que fez alguma coisa pelo Brasil nos últimos tempos, e querer que ele sozinho pague a conta que todos os outros anteriores deixaram em aberto!… Não nego os infinitos problemas que o Brasil ainda tem, mas tudo o que foi feito nesses poucos anos é admirável e quase milagroso se pensarmos na estrutura podre da política. E os governos anteriores, o que fizeram de bom para o povo? A tendenciosidade mal-camuflada dos seus textos é assustadora!

  16. Por favor, Cora, não se cale!
    Norma

    Rolando no FB ( mentalidade-Michelinne – que parece ser jornalista – grassa, infelizmente, rasgado no país sem termos vislumbre do ridículo que somos, aos olhos de muitos):

  17. Muito triste pela situação de tantas Normas. Não basta o sofrimento de ver um familiar na criminalidade, não podem ter nenhuma esperança de recuperação. É quase melhor receber a notícia da morte. Muito triste mesmo.
    Se você está encantada com Bogotá, não deixe de ir a Cartagena, se tiver oportunidade. É uma linda cidade, com belos monumentos, museus e ainda fantástica para um bom mergulho 😉

  18. imaginando que o centro do rio seja a barbárie e copacabana o declínio, o brasil escolheu o caminho do aterro: a vista é bonita, mas não passa pela glória.
    []’s

  19. Às vezes acredito na teoria conspiratória de que existe um grupo global que decide quais países devem controlar e manter na ignorância. Dez anos de PT foram suficientes para fazer o país voltar muitos anos atrás em que pese a, dizem, melhor distribuição de renda e consumo. Consumo não educa. Somos a nata da mediocridade mundial e vejo apenas um vórtex descendente no meio de tudo isso. Tudo ficou medíocre.

    • Nós estamos medíocres.A maioria da população é corrupta , nos mais diversos níveis . Quando ascende ao poder , apenas fica mais visível ,Os valores morais , éticos , estão cada vez mais degradados .Reproduzir o que a Globo e a revista sensacionalista Veja dizem é voz comum pois é mais fácil do que procurar fontes mais sérias , compará-las e chegar a uma conclusão própria e mais próxima da realidade A nossa Idade Média -a Ditadura Militar-em muito contribuiu para esse vórtex descendente .Temos a cultura de procurar culpados quando a culpa está presente no nosso dia a dia , nas nossas mínimas ações..È tudo um grande teatro,no qual os holofotes estão agora sôbre o PT -propositalmente -para que não se veja o que está se passando nos bastidores.Aguarde .Já vi esta filme várias vezes .

      • Cora,
        Parabéns por este texto. É de uma lucidez impressionante. Precisamos de pessoas que ainda se revoltam com as coisas de errado que acontecem em nosso país.
        Sou catequista de adolescentes de 10 a 13 anos e na próxima oportunidade lerei o texto para conscientização dos meninos.
        Falar de sistema, partido e sociedade corruptos é muito importante, mas não nos esqueçamos da responsabilidade invididual para mudarmos isso tudo.
        Não é hora de dividir e sim de unirmos por um mundo melhor.

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s