Vida carioca

Há algumas semanas, Laura foi ao Rio Sul com a Manoela, que tinha comido uma coisa esquisita no dia anterior e não estava lá muito bem. Quando elas se aproximaram da praça de alimentação, a Ma foi nocauteada pelo cheiro de comida: teve uma fraqueza, se escorou na parede e já ia caindo, se não fosse por uma moça da limpeza, que largou rodos e vassouras e prontamente a acudiu. A Laura, que ia uns passos à frente, não viu nada; quando se virou em busca da filha, só viu a Ma sentada no chão, sendo amparada pela moça. Levou um susto, mas as duas a tranquilizaram.

— A moça foi perfeita. Nos levou ao banheiro, ofereceu água, foi gentilíssima. E o tempo todo com um sorriso simpático no rosto, e sendo eficiente e doce ao mesmo tempo. Uma graça de pessoa.

Chegando em casa, foi direto para o computador, entrou no site do shopping e mandou uma mensagem para a direção, elogiando o comportamento da funcionária: “Gente assim, que não só é solidária, mas também é tão atenta a seu entorno, merece mais do que elogios e gratidão”.

Ninguém pensou mais no assunto até que, semana passada, ela recebeu um telefonema do Rio Sul. Foi informada que, graças a seu elogio, a moça da limpeza receberia de presente uma geladeira; e ela estava sendo convidada a participar da pequena cerimônia de entrega, no dia seguinte.

— Fiquei tão feliz! Fui dormir com um sorriso pregado na cara.

Laura não pode ir à cerimônia por causa do recital de formatura de uma aluna, mas Mamãe e Manoela foram. Evânia Rodrigues, 30 anos, solteira, quatro filhos, moradora do Jacarezinho, empregada pela Verzani e Sandrini (que presta serviços de limpeza ao shopping), estava toda contente, e ficou muito feliz em ver a Ma plenamente restabelecida.

o O o

Noites de autógrafos são eventos sempre simpáticos: acontecem em livrarias, reúnem gente que gosta de livros e dão aos leitores a chance de conhecer seus autores favoritos. Seu único problema é a fila, tanto maior quanto melhor for a noite; quando os autores são campeões de popularidade, então, fãs e amigos podem se preparar para uma loooooonga espera.

Tivemos dois exemplos recentemente: as noites de autógrafos dos meus queridos amigos Jorge Moreno (“A história de Mora”, da Rocco) e Edney Silvestre (“Vidas provisórias”, da Intrínseca), que juntaram na Livraria da Travessa os cariocas mais descolados e uma legião de colegas maravilhosos. Essas duas grandes festas em potencial transformaram-se, como de costume, em filas enormes. Muito divertidas, com certeza, mas nem por isso menos filas. Ora, não seria mais interessante deixá-las para lá e ficar só no papo e na comemoração?

Expus a situação para os meus camaradinhas de Facebook, pedindo sugestões para resolver o problema. O máximo em que consegui pensar foi numa distribuição de senhas, como nos Correios ou nas operadoras de celular, mas tenho a impressão de que isso não daria certo: os convidados ficariam angustiados, com medo de perder a vez. O que fazer?

Algumas ideias foram boas:

“A pessoa compra o livro. Recebe uma senha, vai para a noite de autógrafos e, depois da confraternização ou quando quiser sair, retira o seu livro já com o autógrafo personalizado, dado pelo autor (dias ou horas) antes da festa, — propôs Sol Psiquinha. — Assim o autor também se diverte em sua noite mais importante.”

Janaína de Melo pensou numa coisa parecida: “Um mês antes do evento a livraria manda convite eletrônico aos amigos do autor, que devem confirmar presença e aquisição do livro. Nesse meio tempo, o autor autografa tudo e deixa prontinho. Na hora é só pegar, e depois partir para a festa e o bate-papo. O autor fica lá autografando somente para o público em geral.”

Adorei a proposta. As pessoas poderiam fechar a compra antecipada através do site da livraria (como sugeriu a Roberta Rizzo) ou pelo telefone.

René Garcia Jr. lembrou que, nos Estados Unidos, os leitores compram os livros já autografados — o que explica porque, tantas vezes, encontramos exemplares assinados à venda por lá. É prático, mas não sei se funcionaria no Brasil, onde gostamos de ter dedicatórias personalizadas.

Flórida Barreiro Rodrigues e Rodrigo Barbosa propuseram aos leitores participar do evento e receber o livro depois, via sedex, devidamente autografado. Assim, tanto autor quanto convidados poderiam realmente aproveitar o momento.

Já a pessoa que atende pelo curioso codinome de Zisk Ksiz sugeriu que as editoras preparem adesivos alusivos ao lançamento com espaço para a dedicatória. Os autores os receberiam antecipadamente, para soltar a caneta com calma e inspiração; na noite de autógrafos, bastaria aos contemplados retirar os adesivos no caixa da livraria e colá-los na folha de rosto do livro.

Várias pessoas propuseram mesinhas espalhadas, pelas quais o autor circularia fazendo as dedicatórias, mais ou menos como fazem os noivos nas festas de casamento. A ideia é boa, mas não funciona: livrarias não são salões de festas, e não têm espaço para isso.
Jayme Charlab, sempre sábio, acha que o problema se resolverá sozinho: “É uma questão de tempo. Com a concorrência dos e-books, o leitor de livros de papel se tornará tão raro que ele é que ficará sentado, e os escritores farão fila para autografar os seus exemplares.” E Fabiano Vianna pensou ainda adiante: “Compra o livro em e-book e recebe o autógrafo pelo instagram.”

(O Globo, Segundo Caderno, 22.8.2013)

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11 respostas em “Vida carioca

  1. O fato da Laura ter formalizado o agradecimento por escrito foi o ponto alto,
    pq sem esse gesto não teria havido o devido reconhecimento do mérito e a
    recompensa da solícita funcionária. Num mundo em que as pessoas erguem
    tão apressadamente seus indicadores, ora pra acusar ou criticar ou reclamar,
    é lindo ver pessoas sensíveis que sabem ser gratas, e usam alguns minutos
    de seu tempo pra enaltecer as qualidades de outrem.

    Já das noites de autógrafos não sei o que imaginar a médio/longo prazo,
    mesmo porque já compactuei do sentimento do Nelsinho (“Eu acho o máximo ter um livro
    com o autógrafo autêntico, a tinta de caneta, feito na hora e com dedicatória!”), mas, é
    como Marise citou do que disse Da.Nora : “Qual o sentido daquilo?”.
    Ora…Em tempos de valor da imagem (e em que ao invés de autógrafos os jovens sacam de seus celulares e pedem foto COM seus ídolos), talvez a resposta seja “por aí” , mas não ouso sugerir coisa alguma em substituição ao momento fugaz do encontro escritor/leitor. Seja como fôr, e fique como ficar no futuro, espero que criem o aroma “livro recém-saído do prelo”, imprescindível,rs

  2. Sobre as filas, confesso que furo todas. Chego por trás da estrela da noite e entre um autógrafo e outro dou um beijo-abraço-parabéns só para que o autor, amigo ou não, me veja, saiba que fui, ora! Afinal, a importância de quem escreve já está no livro, mas a noite só tem graça por nossa causa. Deixo o autógrafo pra depois de eu me divertir, ou pra outro dia.
    Mas isso não é lá uma dica útil, né?! 🙂

    A história da Laura na Lauro Müller é uma delícia e eu passei adiante feliz da vida também.

  3. Um dia, em tempos remotos, eu fui operado e estava lendo um livro de Jorge Amado no meu quarto da Clínica. O médico que me operou veio fazer a visita e disse-me que conheceu o escritor em pessoa, de quem obteve o autógrafo no “Tenda dos Milagres”. No dia seguinte trouxe-me o livro autografado, que li de um só fôlego e com uma espécie de orgulho! Eu acho o máximo ter um livro com o autógrafo autêntico, a tinta de caneta, feito na hora e com dedicatória!

  4. Parabéns, Laura, excelente iniciativa ! Agora mesmo fui ao DETRAN aqui na Gávea para fazer a renovação da carteira de habilitação. Marquei às 8 da manhã. Voltei para casa às 8 e 15, com tudo resolvido. Atendimento absolutamente cortês, extremamente amáveis e educados com todos ! Imaginei um inferno, similar ao que sofri há 5 anos, quando da outra renovação ! ( havia 3 funcionários para um monte de gente e eles eram lentos, mau humorados.. uma droga )

  5. Também fui extremamente bem atendida no Rio Sul quando, anos atrás, meu filho mais moço prendeu o pé na escada rolante. Rapidamente, um funcionário do Shopping desligou a escada e fomos levados para o ambulatório do Shopping onde meu filho foi atendido. Serviço de primeiro mundo!

  6. Dª Nora, perguntada durante o Sem Censura sobre o que tinha achado de dar autógrafos no lançamento de seu livro, respondeu, com um delicioso candor que achava uma coisa meio sem sentido, o que escrever pra um desconhecido, qual o sentido daquilo? Concordo com ela. 😉

    • É vero, Marise. Lembrei-me de um tempo quando garimpava mais em sebos e adquiri vários livros autografados. Morto o dono, a família mandava brasa na biblioteca do falecido e lá se iam os livros, com autógrafos ou não. Em especial , me recordo de um; “A lua na poça da calçada” de Lasinha Soares Luis Caldas de Sousa Brito (não sei se está correto,mas é quase assim, não recorri ao” tio Google”). Guardei na memória, pois adorei o título (acho que até mais do que o conteúdo) e também o nome da autora , pois gosto de nomes e sobrenomes grandes assim.

  7. Bacana a atitude do Shopping em valorizar o bom nas condutas pessoais. É recompensador a quem faz e quem recebe a atenção.

  8. Em casas ( apartamentos) cada vez menores e com pouco espaço para os livros , e com os e books, a sugestão de adesivos , parece boa, compra se o e-book, e o adesivo com a dedicatória. e uma copia da folha de rosto do livro e dependendo do autor eu enquadraria e penduraria na parede, ou quem sabe um álbum com as dedicatórias e primeiras folhas, apesar de eu preferir os livros em papel.

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