Rónai, por Caetano Veloso

Caetano Veloso escreveu na sua coluna deste domingo sobre meu Pai e o seu “Como aprendi o português e outras aventuras”: uma das mais lindas declarações de amor a um livro.

“Ganhei de Hélio Eichbauer, como presente de aniversário, um livrinho precioso (entre outros cheios de interesse, ofertados por outros amigos, a que talvez venha a me referir aqui um dia): “Como aprendi o português e outras aventuras”, de Paulo Rónai. Conhecia Rónai de fama e principalmente pelas traduções de Balzac, por ele coordenadas, comentadas e introduzidas, que são um capítulo à parte em minha formação pessoal. Mas o pequeno livro que começa contando como ele, já adulto e professor na Hungria, aprendeu, sozinho, a nossa língua — a língua de um país onde ele então nem sonhava que iria parar — é um encantamento de leveza e profundidade. Rónai não contava com a possibilidade de que o crescimento do nazismo e do fascismo, com a guerra que produziu, o empurrasse para este país maluco, que ele tratou com tanta sobriedade, e no qual se entranhou de modo tão natural.

No livro, além da breve narrativa de como ele entrou em contato com a língua de Camões (que, aprendida em livros, não pôde ser reconhecida nos sons lusitanos, quando ele passou por Lisboa a caminho do Novo Mundo, mas foi reencontrada nos primeiros brasileiros que ele encontrou ao aqui aportar, trabalhadores que lhe portavam a bagagem e funcionários da alfândega), há compartilhamento de segredos da língua magiar (desde a informação — que eu já encontrara no “Budapeste” de Chico Buarque — de que todas as palavras húngaras têm acentuação tônica na primeira sílaba, fato que me parece enigmático e que tenho dificuldade de tentar reproduzir na cabeça, até a onipresença do cachorro nos provérbios e ditos húngaros), um artigo sobre a presença mundial de Camões e “Os lusíadas”, e sugestões para o aprimoramento do ensino em nossas escolas. Fagulhas de diálogos com Guimarães Rosa e entusiasmada reiteração da amizade e admiração por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira se distribuem pelas páginas do livro.

Bate em mim de modo forte a informação de que esse livro de Paulo Rónai foi publicado em 1956. Foi o ano que passei no Rio. Foi o ano em que Vinicius e Tom Jobim compuseram e lançaram o “Orfeu da Conceição” (e que me levou a contar, de volta a Santo Amaro um ano depois, por causa de uma entrevista de Haroldo Costa sobre a peça, que entrevi na TV de um amigo dos meus primos em cuja casa eu morei naquele ano, que o então já famoso letrista Vinicius de Moraes, de quem meus colegas falavam no ginásio Theodoro Sampaio, era preto — o que o próprio Vinicius, sem saber, ecoou, anos depois, na afirmação, incluída no “Samba da bênção”, de que ele era “o branco mais preto do Brasil”). Fico imaginando o quanto eu ansiava, em Guadalupe, por algo como o livrinho de Rónai, sem imaginar que isso estivesse ao alcance de minha mão. E, agora, leio as palavras dele sobre nossa língua, nossa cultura e nossa vida estudantil à luz de tudo o que aconteceu nesses anos que nos separam daquele. À luz do que os brasileiros pedem hoje de seu sistema educacional.

Neste exato momento, estou me preparando para entrar no palco e fazer o show “Abraçaço” para que seja gravado em DVD. E tenho na cabeça o livro simples e rico de Paulo Rónai. Quais as nossas possibilidades de não decepcionar o amor de alguém como Rónai pelo nosso país? Como devemos medir nossas responsabilidades? Leio que o ministro Joaquim Barbosa tratou o colega Lewandowski de modo no mínimo inapropriado. E que o dólar subiu mais do que em 2009. Uma manifestação é tida como desproporcional por, contando com 200 participantes, ter parado o trânsito da cidade por mais de sete horas. O Capilé, o Fora do Eixo e mesmo a Mídia Ninja, me contam, vêm sendo linchados nas redes sociais. Quantos esforços temos que fazer para dar conta do que nos é apresentado pela realidade! Precisamos de calma e firmeza, destreza e maleabilidade, tudo num ritmo adequado à capacidade de superação de crises. A leitura surpreendente desse livro pequeno e despretensioso me deu uma lição inesperada de senso de medida, de elegância eficaz, de amor respeitoso e ponderado. Paulo Rónai não saberia o quão grato um semidesorientado menino de 14 anos de Guadalupe se sente, aos 71, à sua inteligência, sua serenidade e sua confiança. Sim, a confiança natural que emana das páginas de seu livro, confiança em nós, é o que mais me marcou nessa leitura. Rónai exala uma confiança instintiva no Brasil. Tentemos viver à altura.”

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15 respostas em “Rónai, por Caetano Veloso

  1. Meu avô tinha alguns livros do Paulo Rónai na sua biblioteca;quando fiz 9 anos ele me presenteou com o livro “Os meninos da Rua Paulo”,e quando ele faleceu,herdei grande parte dos seus livros,entre eles,esse que está sendo “redescoberto”,visto o que tenho lido ultimamente sobre ele … meu avô tinha a edição de 1956,e que agora é meu,com muito orgulho !

  2. A crônica da semana de Matthew Shirts também foi sobre este livro, o que me fez ir até a livraria para comprar o meu.

    • e a versão para quem tem o Kobo ou outro e-reader com arquivo ePub: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=60422407&sid=01291747215419803716756074.
      “Sinopse
      Paulo Rónai fez da vida um trabalho permanente de tradução. Não apenas de línguas, mas também de culturas, literaturas, linguagens. Neste livro, Rónai se revela memorialista e testemunha de seu tempo, especialista na cultura oral e literária de povos e países, latinista e educador e interlocutor de nomes fundamentais das letras no Brasil – país que escolheu como lar e também como objeto de seus estudos, suas leituras e traduções. Mostra-se, antes de mais nada, um mestre da língua portuguesa e do ensaísmo, um humanista capaz de conciliar temas e tempos e de criar uma produção que se mantém instigante e atual.”

  3. É lindo o texto do Caetano.
    Mas, gostaria de aqui deixar destacado, que receber um presente de Hélio Eichbauer é, sempre, uma benção. Como mestre das Artes e homem culto e sensível que é, sempre acerta na mosca o símbolo necessário para emocionar profundamente o Outro.
    Parabéns ao Caetano pelo texto, ao amigo Hélio pela escolha do presente e, claro, ao autor do livro, Paulo Rónai.
    Não li este, vou comprar correndo.

  4. Cora, li hj pela manha e fiquei emocionada pensando na sua emocao…q lindo! Bjo!

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  5. Fiquei feliz. É preciso de quando em vez, sacudir o pó do busto, iluminá-lo feericamente e renovar a informação e incentivo ao estudo da obra. E o Cae fê-lo até com emoção!

  6. “Tentemos viver à altura.”
    Belo texto do Caetano que seduz e praticamente nos impõe a leitura de Paulo Rónai!
    Fica aqui então registrado 🙂 : lerei com enorme prazer, e já antecipo o privilégio do convívio (virtual) com sua família. 🙂 🙂

  7. Ganhei o meu da Laura na 6a feira! Fiquei muito feliz e o grande livrinho vai viajar comigo hoje. Pelo visto e pelo que sei, impossível melhor leitura pra me acompanhar.

    Liiinda a fala do Caetano. Comovente!

  8. Cora, lembro-me do fascínio deste ‘livrinho’ quando o li (isso há muito tempo), bem jovem, garimpando a única (e escassa) biblioteca pública em minha cidade, guiado mais pela intuição que por rigor ou método – aliás minhas leituras ‘pecam’ por essa desorganização ou falta de método, entretanto foram muitas e inúmeras vezes as surpresas e o prazer em descobertas como a do referido ‘livrinho’, nunca esquecido… Somente muito mais tarde vim a saber a importância e tudo mais de Paulo Rónai. Mas já o respeitava há muito… desde o feliz encontro com “Como aprendi o português e outras aventuras”. É isso. De alguma forma, somos todos devedores desse apreço.

  9. Olá,
    Para quem se interessar em ler (já tenho o meu), há seis exemplares na Estante Virtual. O preço varia (R$22,90 – R$75,00) devido ao ano das edições, de 1975 a 2013.
    É emocionante.

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