O conselho dos ThinkPads

Quando a IBM lançou os primeiros ThinkPads, no início dos anos 90, criou uns comitês de avaliação multidisciplinares muito interessantes. Ela reunia pessoas das mais diferentes áreas em blocos regionais para se encontrar com gente como os legendários Tom Hardy, Richard Sapper e o mestre Kazuhiko Yamazaki, designers daquelas máquinas maravilhosas, e dar pitaco no que estavam vendo.

A coisa funcionava assim: a equipe IBM fechava uma ala de um hotel, e passava uma semana conversando com os comitês da Europa, da Ásia, dos Estados Unidos e da América Latina. Cada um deles passava dois dias intensos com a equipe: as reuniões começavam no café da manhã e iam até o jantar. Participei durante três anos do comitê da América Latina, com gente de todo o continente e de formação muito diversa.

Um dos maiores orgulhos que tenho, até hoje, foi ter sido responsável pela troca de posição do cabo da tomada num dos modelos ThinkPad. A porta deste cabo, localizada na traseira da máquina, do lado esquerdo, ficava antes da porta do mouse. Como a maioria das pessoas é destra, o cabo do mouse acabava passando por cima do cabo de alimentação. Perguntei se não seria mais prático trocar a posição das duas portas, e tive a emoção de ouvir de Yamazaki San que aquela era uma grande observação; na nova geração, as portas vieram como eu havia sugerido.

As pessoas se orgulham das coisas mais esquisitas, e eu não sou exceção.

O que eu mais gostava nas reuniões era um exercício de mercado. Nós recebíamos um orçamento hipotético de mil dólares para montar uma máquina, junto com o custo de vários componentes: memória RAM, processador, disco rígido, gabinete e assim por diante. Usando apenas os componentes mais parrudos, a conta não fechava. O que considerávamos essencial? O que achávamos supérfluo?

Era o máximo ver como o essencial variava de pessoa para pessoa e, curiosamente, de país para país. Nós brasileiros costumávamos escolher os chips mais poderosos em detrimento dos HDs; os argentinos preferiam HDs maiores em detrimento da velocidade dos processadores. Nunca me esqueci disso porque acho que havia, aí, uma revelação interessante sobre a alma dos dois países.

Quando a jornada acabava, ganhávamos placas que atestavam que éramos membros do Conselho da IBM. Nossos colegas de comitê que moravam em países menos idiotas do que o Brasil, onde existia uma aberração chamada reserva de mercado, podiam  também comprar ThinkPads via IBM com o mesmo excelente desconto dado aos funcionários.

Uma noite nós, brasileiros, fugimos do hotel para comprar equipamento. O José Ramalho havia descoberto que numa dessas BestBuys da vida estavam sendo vendidos ótimos notebooks da Toshiba por US$ 900, preço imbatível na época. Na volta, tivemos um trabalho enorme para disfarçar as caixas; não queríamos magoar nossos anfitriões, mas a triste verdade é que não tínhamos bala na agulha para comprar ThinkPads.

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15 respostas em “O conselho dos ThinkPads

  1. Não, isso não foi traição, não! Foi apenas a tendência de mercado. Tudo estava ‘escrito nas estrelas’… basta olhar para as décadas seguintes!!! A IBM fez escolhas erradas… talvez, começando por estes membros destes “conselhos”, néh!

        • PREVEJO GOLPE quando leio coisas dos tipo:
          “…não conseguimos mais perceber qualquer ligação entre civis e militares como algo positivo.”

          E isto:
          “Longa vida ao Egito e aos nossos grandes líderes militares!”

          E O ZUENIR VENTURA – hoje em sua coluna – também parece ter o QI tão ruim quanto o meu:

          “Por tudo isso é que já se ouvem aqui e ali indignados desabafos do tipo: “chega!”, “já está demais!”

          “Como já vi um filme parecido, em que a “violência revolucionária” levou à prisão, ao exílio e à tortura uma parte do que havia de melhor numa geração, acho que esses jovens de agora, pelo menos os que acreditam na “violência como expressão política…”

          • Zuenir escreveu sobre a situação no Brasil, mais especificamente no Rio. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu concordo 100% com o Zuenir.

  2. Bem à época do protestão de junho por aqui, me lembro da Cora Ronai festejando, com um de seus colaboradores do blog, a tomada do Egito. O que o amiguinho da blogueira e a própria blogueira almejavam naquele momento de efervescência era que o mesmo – aproveitando a selvageria que se via nas ruas nossas – se desse entre nós.
    Era essa a legitimidade que você queria para o seu país, Cora? Um exército brutal massacrando seu povo por causa de uma briguinha entre PSDB/PT, ou melhor, por causa do já enfadonho flaxflu entre seus patrões e blogueiros sujos?
    Tome tento, mulher: o Brasil já não é pra você, sessentona – é pra nova geração.
    Ah, o post em que a Cora festeja a BRUTALIDADE no Egito sumiu. Desafio a ela postar aquela indecência de novo.

  3. Confesso que a IBM passou, no meu conceito pessoal, a ser uma coisa do passado desde o evento OS/2. Nunca fui atraído pelo eventual “brilho” do Think Pad. Se eu tivesse dinheiro sobrando naquele tempo para um N.B., teria também comprado um Toshiba.

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