Oito ou oitenta

E lá ia eu pela Velha Delhi, assuntando, olhando as lojas e os passantes. A Velha Delhi não é para os fracos. É suja, barulhenta, cheia de ruazinhas que desembocam em outras ruazinhas e ainda em outras, num emaranhado onde até indianos se perdem. É a prova viva de que há uma explosão demográfica no planeta, e dependendo do dia e da hora, pode ser um tanto ameaçadora. Eu amo a Velha Delhi com fervor.

Hoje é feia, embora aqui e ali se vislumbrem os restos de um passado de esplendor: foi fundada pelo imperador Shahjahan em 1639 e, até a Partição, era cheia de havelis, as harmoniosas mansões indianas. Naquele fatídico ano de 1947, boa parte de seus antigos e sofisticados habitantes, que criavam pombos, cultivavam jardins e falavam urdu foram para o recém-criado Paquistão; suas casas abandonadas foram ocupadas por levas de retirantes empobrecidos que vinham da direção oposta. Espaços que antes serviam de moradia para uma única família foram divididos entre dúzias de pessoas e incontáveis lojinhas de dois metros quadrados.

Encontra-se de tudo na Velha Delhi, que tem o mais lindo hospital de pássaros que já vi e o maior mercado de especiarias da Ásia, o que não é dizer pouco. Encontram-se bijuterias de dois tostões e jóias sérias, pesadas, que as indianas compram como investimento. Há poliéster e seda, há plástico e bronze. Há restaurantes fantásticos, ainda que humildes na aparência, e há comidinhas de rua deliciosas, que todos os guias de viagem recomendam evitar. Há barbeiros, limpadores de ouvido e vendedores de pan, uma espécie de protochiclete feito com folhas e especiarias.

Há, sobretudo, milhões de boas fotos esperando no limbo das imagens. Para qualquer lado que se aponte a câmera ou o celular, há algo interessante. Vi uma única vaca sagrada na Velha Delhi: o governo da capital tem se esforçado para tirar as vacas das ruas, não por falta de devoção, mas porque atrapalham o trânsito que, por si só, já é um capítulo à parte. Mas vi muitas cabras lado a lado com automóveis de luxo, vi uma cabra dentro de um tuk tuk sendo levada ao veterinário e, um dia, às vésperas do Eid al-Adha, o grande feriado muçulmano do sacrifício, em que os animais são mortos, vi bem uma dúzia de camelos, alheios, coitados, ao que o destino lhes reservava.

Mas, enfim, como eu dizia na primeira frase, lá ia eu pela Velha Delhi, numa ruazinha particularmente estreita, quando dei com um vendedor empurrando um carrinho. Ele tomava toda a largura da rua; mal havia espaço para alguém passar de bicicleta a seu lado. Atrás, uma fila de carros e de tuk tuks que só fazia aumentar. Às vezes, todo o cortejo parava, porque pessoas saiam das lojas para comprar um pedaço do que o homem vendia: uma espécie de pudim de claras cercado de bastões de incenso para espantar (sem sucesso) as moscas.

Adorei a cena. A luz já estava indo embora, mas fiz algumas fotos do vendedor, que por sua vez adorou a atenção: quando acabei, ele me chamou e me deu de presente um pedaço do doce, servido numa folha. Cortou a fatia no capricho e, com a patinha mais imunda do mundo, salpicou uma dose generosa de pistaches moídos por cima. Agradeci, dei uma dentada com gosto e estava me regalando com aquela delícia quando a ficha caiu:

— Cora Rónai, você está louca!!! Você não viu o grau de sujeira da mão do cara? Não viu as moscas? Não sabe que comida de rua só cozida ou frita na hora? Você viaja amanhã, como vai ser isso?!

Passei o resto da noite com o coração pesado. Que irresponsabilidade, comer aquele doce de alto risco justo antes de embarcar numa viagem de trinta horas! Não costumo passar mal em viagens, mas já vi tantos amigos abatidos por comidas suspeitas que mal consegui dormir.

Apesar do susto, no dia seguinte acordei inteira, sem sombra de problema. Fechei as malas, voltei para o Brasil e vivo morrendo de saudades da Índia, o país mais fascinante que conheço.

Corta.

Estava comprando pão no outro dia quando notei que as moças do balcão usam luvas de plástico. Logo ali, os canudos embrulhados e o sal naqueles saquinhos patéticos, que só usamos pela metade.

Ver toda essa higiene suíça em pleno Rio de Janeiro me trouxe à lembrança o moço das patinhas sujas da Velha Delhi.

Será tão difícil encontrar um meio termo?

o O o

Um livro postado na internet, em capítulos, com direito a prêmios: “Amor, traição e sashimi”, de Claudio Gavish, começa a ir ao ar hoje, em is.gd/sashimi. Quem acertar as respostas aos desafios terá chance de ganhar diárias em pousadinhas charmosas e descontos em restaurantes em Visconde de Mauá, Tiradentes e no Rio, cidades onde se passa a história.

Não sei se “Amor, traição e sashimi” é bom ou não; ainda não li. A ideia, porém, me pareceu simpática, e gostei do empenho do autor e de seus amigos em criar um site competente e em convencer os donos das pousadas e restaurantes a embarcar como parceiros na aventura.

Boa sorte!

(O Globo, Segundo Caderno, 15.8.2013)

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18 respostas em “Oito ou oitenta

  1. Ai … que delicia de relato isso sim ! Com o estilo inconfundível da Cora ! Me vi como que dentro de um filme … o momento de tristeza ficou por conta da menção do grande feriado muçulmano e do sacrifício de animais inocentes (são degolados,esfaqueados),vi cenas terríveis na internet do sofrimento desses animais;mas com o clamor de várias entidades mundiais para que esse costume bárbaro termine,livre esses animais de tamanha crueldade;torço para que um dia isso tenha fim !

  2. Acho que é por isso que algumas (?) cidades americanas têm aquele cheiro enjoativo de hospital: tanta esterilização, que a comida não tem gosto de nada…
    E nas nossas casas? A gente separa os panos, as esponjas de várias cores para os diversos ambientes e a faxineira mistura tudo; a gente explica o motivo, diz que não é “frescura”, que trata-se de higiene – blá blá blá – vira as costas e … Hahaha!
    Eu cansei. Cheguei aos 60 e conclui que tanta preocupação só serve para que escrevam no nosso túmulo: “aqui jaz uma senhorinha limpíssima, que ganhou o prêmio dos panos de chão mais brancos do planeta”…

  3. Dizem que na Índia não tem civilização… eu penso diferente, lá podemos ver os dois lados da moeda. A ausência da modernidade, uma sociedade quase primitiva, e uma Índia moderna… Viva!!!

  4. Eu adoro cocada e já notei que em lojinha de doces não tem esse doce. Não deve ser “chic”, sei lá eu…Mas, continuando , cocada gostosa é a vendida naqueles carrinhos com vidro, empurrados pelos seus vendedores. Não consigo resistir , mesmo geralmente sendo um poço de açucar -de amarga já basta a vida- ai, meu Deus. Um dia , acompanhada de um ranzinza em potencial, este me “alertou” para a sujeira dos pés do vendedor. E ainda me fez visualizar a “feitura ” das tais cocadas; uma banheira mal lavada, com o ralo enferrujado, perdida num cantão desse Rio de Janeiro de São Sebastião. Resultado? Quando as roupas tão folgadinhas, larguinhas como agora, compro e como as cocadas com gosto, sem culpa ou mea culpa, me regalo mesmo. E nunca passei mal (nem vou passar) . O que faz mal mesmo nessa vida é gente chata que só faz apontar os “defeitos’ das coisas…

    • Vá na Feira Hippie da praça General Osório, aos domingos, e saia com uma sacola cheia de cocadas, branca e marrons, das diversas barracas de baianas que há por lá ! Todas deliciosas !

      • Já vi e já comprei muitas quando lá fui…boa lembrança a sua ; amanhã – se não chover- pegarei minha cesta de Chapeuzinho Vermelho e vou enchê-la de cocadas…mas só das branquinhas.

  5. Cora, queria ter sua coragem nas viagens e sair abocanhando tudo que gosto. Não rola…
    Passei muito mal quando comi salada de cogumelos em um restaurante badalado em NYC e ainda levei bronca do meu médico pela audácia (que me exigiu só comer em casa alimentos crus) e uma dica preciosa, anotada em meu moleskine:
    Salmonela de 6/72 horas apos ingesta; Staphylococcus de 1/6 horas; E Coli de 5/48 horas e Botulismo de 12/36 horas.
    Ele me disse que os médicos sabem do que se trata pela hora que o paciente comeu e que passou mal. Interessante isso.

    E a foto do vendedor? Estou curiosa!

    • Tambem fiquei super curiosa… estive na India em janeiro e não tive essa poetica visão que vc tem… Do jeito que vc conta, Cora… da até vontade de voltar!! ❤

  6. Pois eu também como de tudo durante as viagens e nunca tive problemas. A gente faz essa cara de nojo com a sujeira visível da India, mas quem sabe o que está dentro das cozinhas dos melhores restaurantes? Acho esse excesso de luvas, plásticos, embalagens, muito mais nocivo à sociedade do que uma eventual mão suja.

  7. Sou de uma época em que se derrubava o sanduíche no chão, pegava de volta e comia, sem dramas, e ainda sapecava: o que não mata, engorda.

    Faz tempo que acho que essa mania de higienizar tudo o tempo todo acabará causando mais mal que bem. Alguns médicos, especialmente pediatras, concordam comigo. Já vi vários dizendo que as crianças precisam se sujar, e conviver com algumas bactérias, para que o sistema imunológico se desenvolva a contento.

    É claro que isso não significa viver na sujeira, banho todo dia, dentes escovados depois das refeições, mãos lavadas antes de comer, entre outros cuidados básicos são necessários e bem vindos. Mas, não é necessário gastar mais em sabonete bactericida se a pessoa não é profissional da saúde, nem está com problemas que exijam esse tipo de sabonete. Estamos ficando cada vez mais neuróticos com questões bastante simples. Menos é mais em muitas coisas, nisso também.

  8. Minha tia é nutricionista, e eles não usam luvas no restaurante. Depois que um cliente reclamou, ela explicou que era mais limpo manter as mãos livres e limpar o tempo todo numa solução de álcool, do que usar luvas e continuar se sujando e contaminando a comida! A luva sozinha não evita a contaminação, e são poucos lugares que trocam de luvas o tempo todo. 😉

  9. Estou morando na Índia atualmente Bodhgaya-Bihar) e poderia “ilustrar” tudo que você narrou com fotos…rsss…tenho muitas, cada uma melhor que a outra. Não falo de qualidade fotográfica, mas de momentos muito especiais.
    Eu também amo a Índia
    ieda

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