Candy crush, o vício

Eu era uma senhora produtiva e bem posicionada na sociedade, com uma sólida vida cultural. Escrevia, lia, estava atualizada com as séries de televisão, ia ao cinema, fazia as refeições nas horas certas e tentava usar a internet com moderação. Sempre resisti aos apelos das amigas que queriam que eu jogasse Farmville, Pet Rescue ou Words With Friends. Eis que um dia, porém, começaram a aparecer na minha mailbox uns convites para jogar uma coisa chamada Candy Crush.

— Que bobagem! — pensava com meus botões, um tanto irritada com aquele spam interminável. — Um jogo chamado Candy Crush: isso lá é nome?!

Eu apagava as mensagens sem ler e sem prestar atenção. Uma tarde, no entanto, absolutamente entediada na sala de espera de um consultório, resolvi dar uma olhada no que era aquilo. Tragédia! Com aquele gesto inocente apertei o botão da bomba atômica, abri a caixa de Pandora, entrei na pirâmide amaldiçoada pela múmia. Minha vida virou pelo avesso. Os livros passaram a se acumular na  mesinha de cabeceira, perdi o fio das séries e não sei mais quais filmes estão em cartaz.

Candy Crush Saga, nome completo do game inventado pela britânica King, é absurdamente viciante. Segue a clássica fórmula do alinhamento de três ou mais pedrinhas iguais (no caso “vestidas” de balas, daí o “candy” do título), mas é superior aos seus semelhantes pela quantidade de fases e pela sofisticação do seu desenvolvimento. Enquanto Bejewelled, um game semelhante, torna-se cansativo pela repetição, Candy Crush alterna problemas diferentes — jogo em velocidade, missões a cumprir, estratégia — em cenários sempre variados.

O número de fases está em constante expansão: hoje são cerca de 400, mas já há outras tantas prometidas. Ao mesmo tempo, nos níveis mais avançados, o jogo fica cada vez mais complicado. Nada acontece por acaso: há psicólogos envolvidos no desenvolvimento de cada etapa, para que ninguém desista. Assim, entre jogadas difíceis, aparecem, de vez em quando, fases muito fáceis, que restauram a auto-estima e o fôlego dos viciados. Outro trunfo de Candy Crush é a presença multiplataforma. O usuário que começou a brincar no computador pode passar para um tablet ou para o smartphone; o seu progresso é registrado online, de modo que os resultados estão sempre atualizados, onde quer que ele jogue.

Candy Crush, que foi lançado no ano passado e hoje tem 45 milhões de usuários mensais ativos — só no Facebook são 16 milhões — virou uma mina de ouro para a King, sua desenvolvedora. O jogo é gratuito, mas para obter mais vidas, mudar de nível ou obter balinhas especiais que resolvem alguns impasses deve-se pagar. Nos smartphones o dinheiro sai em espécie, em aportes de um ou dois dólares. No Facebook, porém, o sistema é dissimulado: o usuário compra pacotes de pontos, e faz os pagamentos através deles. Assim, em tese, sente-se menos culpado por estar gastando. O fato é que, via pontos ou dólares, US$ 633 mil caem diariamente no cofrinho da King.

É muito fácil cair na armadilha das jogadas pagas. Eu mesma já deixei o preço de um bom jantar na conta do game — há sempre um momento em que a gente está quase limpando o tabuleiro e precisa só de mais dois ou três movimentos, ou de uma extensão para a vida das bombas, ou de uma balinha listrada, ou…

lovechocolate

Felizmente, há truques para evitar toda essa despesa. Na semana que vem, eu volto ao assunto.

(O Globo, Economia, 10.8.2013)

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61 respostas em “Candy crush, o vício

  1. já estou no 414, vai ate 500! =O
    kkkk estou muito viciada… pretendo parar, mas está dificil…eu não compro nada, apenas jogo, e vou até o fim ¬¬.
    bjos.

  2. ah, eu to na fase 241, e só vai até a 455!!! Quando acabar as fases, será que vai tocar a campainha da minha casa e vão me entregar uma caixinha bem linda com aqueles brigadeiros e balas?
    …rs…

  3. O candy crush saga é muito malicioso, só quer que as pessoas paguem para ter vida, o valor pode ser baixo 0,89 mas sabe-se lá quantas mais vezes teremos de pagar.

  4. Estou revoltada. Cheguei na fase 455 no computador e na 410 no iphone, com muito suor, horas perdidas, pedidos para me destravarem, etc, etc, etc…e acabou. Não existem mais fases.
    O que vou fazer quando estiver na sala de espera dos meus médicos (e eles nunca atendem na hora marcada)? Para não ficar estressada com esperas, sacava da bolsa o iphone e jogava candy, que é o meu favorito. Agora acabou. Será que virão mais fases?

  5. Estou na fase 396 e nunca gastei um centavo com o jogo… daqui a 10 fases acaba a expansão do celular e com certeza vou dar uma descansada…

    • É viciado em Candy Crush? Já gastou quanto em dinheiro pra quebrar esses docinhos? eu tenho uma preciosa dica que você poderá usar para passar todas as fases de maneira muito fácil. Quer saber como? mande um e-mail para vivi_carsil@hotmail.com com o assunto Dica – Candy Crush e conversaremos!

  6. Para os que disseram gostar do Letroca sugiro baixarem o Letris & Friends. Neste jogo você joga contra adversários na rede e é bem emocionante. O ponto negativo é que o jogo é no português de Portugal e existem muitas palavras que não são usuais aqui, mas isto não chega a tirar a graça do jogo. ALERTA: É VICIANTE!!!

    • Eu jogo o Words with Friends (palavras em inglês) e o Apalavrados, em português, que tem uma opção de português do Brasil. 🙂

      • P.S. Mas são jogos tipo Scramble, um jogo de tabuleiro, onde se colocam as letras, formando as palavras e fazendo pontos.

  7. Pois eu nunca joguei , não tenho a menor paciência ou o menor interesse para esses joguinhos…Duvideodó que algum dia vá ter…

  8. Sou viciada na vida do dia a dia, nas coisas da poesia do tempo e das manhãs azuis. E nas oportunidades de DEUS que nos chegam a toda hora. O meu jogo é esperar pelo metrô das surpresas embrulhadas entre as mãos dos amigos e seguir nos trilhos até a próxima estação
    do viver em paz.

  9. Oi, Cora,
    Adoro e sigo todos os seus artigos e posts e me identifico muito com você em relação à causa de proteção aos animais! Agora, lendo seu post sobre o Candy Crush, vejo que sua descrição do vício é exatamente a minha! No meu caso foi minha filha que começou a jogar e me apresentou – fiquei encantada com o barulhinho… e aquela musiquinha meio sa, às vezes, semanas em uma fase mas me recuso a pagar.
    Ouvindo você falar em mais de 400 fases me apavorei… estou ainda na 86…. Vou acompa
    Beijos!

    • Faltou um pedaço no meu texto> Segue:
      … e aquela musiquinha meio que hipnotisa, né? Só não caí na armadilha de pagar por mais jogadas, às vezes fico semanas em uma fase mas me recuso a pagar.

    • kkkkkkk, eu ainda estou na 79, caraca, 400 é demais… mas nunca paguei pra passar de fase e fico semanas sem jogar, o que melhora muito meu desempenho quando volto a jogar… Bjs
      Valeu Cora!

  10. Mesma história, Cora Querida. Nunca dei bola para nenhum joguinho on-line, até que entediada nas férias resolvi ver “que jogo é esse que todo mundo fala”, certeza que não vou ficar igual a esse pessoal que não consegue parar de jogar… ledo engano, já era!! Estou viciada, não consigo parar…

  11. logo que minha primeira filha nasceu, comprei um atari. era viciado totalmente, virava noites, fiz calo nos dedos com aquele joystick. os consoles foram se sofisticando e eu fui perdendo o interesse, hoje não jogo nada. mas me lembro demais da sensação, e entendo o vício.
    []’s

  12. Pingback: Candy Crush pode nos ensinar muita coisa de marketing! | Marketing e moda!

  13. Meu vicio é a fazendinha Hay Day, no iPad, não resisto e fico disputando o uso do aparelhinho com meu neto de 5 anos que é o dono do mesmo. Vergonha total…

  14. Estou resistindo…já recebi e continuo recebendo convites pra essa praga, o autocontrole está impecável. Agora vem você falando que foi contaminada…até tu Cora? rsrsrs

  15. É viciante mesmo, mas dá para controlar e é gostoso, principalmente para passar aqueles momentos de espera.

  16. Pois é, resisti bravamente a todas as notificações de jogos, até que caí no Candy, já gastei dinheiro com ele, mas atualmente, na fase 72 agarrei e resolvi não gastar mais nada, está sendo um exercício de treinamento anti-consumismo e imediatismo e estou adorando: fiquei uns 7 oito dias entalada na fase 70, mas resisti bravamente a me valer de qualquer coisa que não fosse a sorte até chegar ao Sugar Crush liberador, kkkk. Agora espero as vidas e agradeço os movimentos extras!

  17. Nem lembro se a culpa é sua ou não. Sou viciada em alto grau. Jogo em 2 Ipads, 1 IPhone, peço vidas e sacrifico o resto da minha vida social. Ah, tb dou vidas de montão.
    E, faço minhas as suas palavras.

  18. O bom é que não ocupa espaço! Parece mais interessante que ser viciada em Anthropologie. Os vestidos já estão saindo pelas janelas… (não vou assinar pq morro de vergonha… e todo mundo que interessa já sabe quem eu sou mesmo…)

  19. Estou na fase 140 sem ter nunca gasto um real . O jogo é totalmente viciante. Eu estava achando que era a única viciada e fico feliz em encontrar parceiros….

  20. Já viciei em Farmville. Durante dois anos jogava todo dia. Mas nas minhas últimas ferias, que passei sem computador, sem TV sem nada mais que livros, amigos, passeios, museus e tempo pra dormir, esqueci o jogo. De volta em casa com meu computador na mesa. deixei o jogo para sempre e nunca mais comecei outro!!!! Foi um alívio!!!!

  21. Parei na fase 135 ha uns 3 meses desisti, parei, nessa fase me irrita por ser dificil a combinacao sugerida e pela falta de paciencia…uma pena. Oh vicio, entendo total, a nao ser que um amigo ajude na fase, podia ter um esquema desse de ajuda mútua em algumas fases. E penso que se fosse infinita as vidas ninguém dormia, trabalhava, seria o fim rs.

  22. Acabei de baixar! A “patroa” adora este tipo de jogo! Agora vou dar uma dica, para quem de repente (sei que vai ser praticamente impossível!) não tem a possibilidade de baixar para o celular em função do sistema operacional!(o meu ainda roda o velho Symbian) Baixe o BlueStacks, e emule o Android dentro do Windows! Aqui: http://www.bluestacks.com/

  23. Não consigo mais me viciar em jogos eletrônicos … já tive minha fase,na época do Master System … eu era craque,junto com as minhas filhas,comprava todos os cartuchos … rsrsrs

  24. Comecei este meu inferno astral, criticando minha esposa, “que joguinho chato/ quanto tempo você perde nele”. Um dia ela pediu ajuda e rapidamente explicou como funciona, passei fácil por já estar acostumado com jogos parecidos, dali para o meu pc foi um passo, p/ o tablet um pulo, ainda me nego a instalar no meu smartphone.
    Se existem 400 fases, em quase 2 meses eu disparei e estou na metade, meus amigos me ajudam sempre (meu muito obrigado a eles). O problema é que você se vicia por inúmeras situações, tais como ficar esperando o tempo das vidas, pedir mais vidas aos amigos, passar uma fase complicadíssima, ouvir o “sugar crash”, ver o quanto você está cada dia mais longe e passando mais e mais amigos, mas o que torna isso muito viciante (na minha opinião) é você estar sempre buscando aquela sensação inicial que te despertou para o vicio, você nunca terá novamente. #fato.
    Bom jogo a todos…rs

  25. Eu brinquei com Candy Crush até a fase trinta e tal e depois de morrer e ficar de castigo umas cem vezes desisti. Meu sangue judeu gritou e eu me recusei a pagar pra superar desafios que a minha inteligência e destreza não conseguiram por si. E ademais, gastei muito tempo enlouquecida nas fases mais moleza do jogo. Imagina se continuasse! Caí fora e entrei no ‘Dots’ e no ‘Letroca’. Dois joguinhos deliciosos, na medida pra distrair e exercitar sem fazer raiva!
    O Candy Crush me frustrou. Muito mala!
    🙂

    • E tem mais uma coisa: eu nunca estou na sala de espera! Como é que eu vou dizer pros meus pacientes, ‘peraí que eu vou ali e volto daqui a pouco..’?

      E eu nao sei tratar de dentes e brincar com balas e docinhos ao mesmo tempo!

    • Isso aí Monca. Letroca é meu anti-stress diário. Tenho horror a qualquer coisa que se pague a fim de jogar, ou de se continuar jogando..

  26. Como joguei Farmville intensamente por vários anos, resisti a seu convite de entrar nessa fria. Jogo Criminal Case, que é um cruzamento de procurar objetos – entendo que isso seja um bom exercício pra prevenir demências futuras – com investigar crimes, meio CSI. Tem a enorme vantagem de só te dar energia pra jogar poucas vezes por dia e logicamente a oportunidade de pagar pra jogar mais. Como não há nenhuma chance de eu pagar pra jogar, jogo poucos minutos por dia. Newm quando ia anualmente a Vegas a trabalho, arriscava jogar. Acho que a única vez que joguei num casino, estava com marido e ao ganhar 200 dólares, confisquei a grana e sai correndo, antes que as maquineta tomasse tudo e mais algum rsss

  27. Rs… Eu até tentei, Cora. Mas, nada… Acho chatíssimo o visual e aquela voz “estimulante” de fundo. Está no meu IPhone, junto com o Bejewelled, mão na roda para salas de espera, realmente, e minha salvação quando de pé quebrado e ócio compulsório. Mas, eu ainda prefiro editar imagens e vídeos a jogar.
    Não entendo o que leva as pessoas a viciarem, mesmo com a sua explicação.
    Ainda mais alguém como você, com tantas outras opções de lazer.

  28. Quando você perguntou aos amigos do Facebook a quem poderia pedir vidas, quase fui ver o jogo, resisti! Na semana passada , depois da enquete ” levanta a mão quem joga candy crush, aí resolvi experimentar. No momento estou esperando os minutos que faltam até a próxima vida.Até agora só gastei$2, 50 mas estou só ênfase 14!

  29. O negócio é moderação. Morreu com as 5 vidas? Aguarde mais algumas horas e não pague nada para resolver as situações difíceis imediatamente. Creio que deveria haver uma melhor compreensão de como são as chances de cada jogador versus o componente aleatório (se é que existe) do jogo. Como você mesma disse, as fases têm uma forte componente psicológica e de repente pode-se descobrir que para além da simples intercalação de fases difíceis e fáceis, dentro de cada fase também pode haver uma manipulação para que o usuário gaste mais. Poderíamos, no extremo, até dizer que existem ferramentas capazes de definir um perfil comportamental do usuário frente às situações apresentadas e a partir daí controlar suas reações. É uma possibilidade, mas eu não iria tão longe. Repetindo o disse no começo, creio que o limite das 5 vidas já seriam suficientes para eliminar os gastos por impulso.

  30. Pois é Cora, você me iniciou nesse jogo, rsrs Nunca havia experimentado e com aquela enquete que você fez, chamou minha atenção. Agora estou empacada na fase 23 e todas as vezes que mandam eu comprar mais vidas, lembro de você, com carinho, rsrs…

  31. Eu mesma me viciei ao tentar descobrir porque até aquela senhora, cujos escritos eu acompanho sempre que posso, estava viciada também. Afinal, eu só queria entender o porquê!!
    Bem, agradeço-lhe, agora meus serviços perdem para a saga dos docinhos!!

  32. Confesso meu vício, no entanto me recuso terminantemente a pagar por jogas extras, vidas e etc… Aí já é demais! Mas sigo jogando.

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