O que eu teria discutido com a mídia ninja

Adoro documentários sobre a vida selvagem, mas não entendo como os fotógrafos e cinegrafistas consegue assistir impassíveis a cenas de caça, seja por bichos ou por humanos, especialmente quando a caça é um filhote ou um animal em extinção. Conheço a teoria do distanciamento crítico muito bem, mas a prática me confunde.

(No seu ponto mais extremo temos a famosa foto da criancinha que agoniza, no Sudão, enquanto é espreitada por um abutre: “Child with vulture” rendeu o Pulitzer a seu autor, Kevin Carter, que não conseguiu, porém, conviver com o peso das memórias da guerra, e se matou aos 33 anos.)

Sinto a mesma sensação de que algo está fora do meu campo de compreensão quando vejo a mídia ninja filmar os jornalistas da mídia tradicional sendo agredidos e covardemente enxotados das manifestações sem fazer um gesto em sua defesa. É fácil fazer uma cobertura exclusiva quando a concorrência é expulsa do campo.

Este é o assunto que eu teria gostado de ver abordado no Roda Viva de ontem, mais do que modelo de negócios, custos, origem do dinheiro: já passei da idade de acreditar em imparcialidade e em boas intenções.

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19 respostas em “O que eu teria discutido com a mídia ninja

  1. Você resumiu aí tudo o que eu penso sobre esse episódio. Parece que falta a essa geração a capacidade de “usar os sapatos” de seus semelhantes.

  2. Acharia muito interessante assistir a esta sua discussão com as Ninjas.
    E, lembrei dos belíssimos desenhos da série “Minha Mãe Morrendo”, de 1947, de Flavio de Carvalho.
    Está claro que você, por temperamento, não poderia ser correspondente de guerra de nenhum jornal. Nem eu. Mas, no meu entender, isso não significa que os que tem este ofício sejam insensíveis ao que se passa, ou mesmo menos comprometidos com a dor humana do que nós.
    Idem quem sai na rua e filma. Ou fotografa a morte de uma criança, ao invés de passar a tarde na praia- só para fazer uma comparação bem tosca.
    Realmente, o assunto é longo, muito emotivo e adoraria ver esta discussão…

  3. A mídia e todos os seus jornalistas que só pensam em encher a geladeira levaram um ‘Capilé’ no Roda Viva.

    • Desculpe, Renata, mas você propõe que a gente viva do que? Esse conceito de “casa coletiva” é anos 80 demais pro meu gosto.

  4. Cora, antes de tudo, meus respeitos. Acompanho a Mídia Ninja (as transmissões) com bastante frequencia, e posso atestar que eles algumas vezes tentaram, e até conseguiram, manter representantes da mídia tradicional por perto.

    Entretanto, fiéis que são ao espírito de horizontalidade que toma cada vez mais conta das manifestações, não podem fazer muita coisa além de se renderem à maioria, o que acaba por limitar a participação desses veículos no centro dos acontecimentos.

    Essa molecada que está transmitindo, por questão de justiça, não deve ser considerada nem mesmo suspeita de fomentar esse dissenso.

    Registro ainda que não sou nem tenho simpatia pelas idéias de esquerda. Mas como sou testemunha de muitos dos fatos captados pelas transmissões, fico obrigado, por senso de justiça, a me manifestar a favor deles.

    Não é impossível que um ou outro(a) menino ou menina (já que toda twitcam hoje está sendo denominada de “ninja”) que em determinado momento estava empunhando o celular/câmera da transmissão se deixou contagiar por um repúdio qualquer dos manifestantes à mídia tradicional, mas isso não é regra geral, longe disso.

  5. Preciso e direto texto. As midias precisam urgente refletir sobre a atuacao de quem detem e de como expoe a informacao, no caso jornalistas e editores. Quanto a premios jornalisticos, questionaveis….sabemos das politicagens na qual estao envoltos. Canseira…..Bom dia!

  6. grupinho oportunista – mais um.

    essa pode ser mais uma de minhas opiniões equivocadas (e se o for, desculpem-me pela ignorância e petulância ao publicá-la aqui), mas é a única que tenho sobre eles até o presente momento. e não discutiria muita coisa com eles, porque não demonstram, para mim, até agora, no que e em como fazem, relevância.

    • É como o papa disse:
      …Há pessoas que buscam a exploração de jovens, manipulando essa ilusão, esse inconformismo que existe. E depois arruínam a vida dos jovens. Portanto, cuidado com a manipulação dos jovens…

  7. Isso me lembra um pouco o “só muda o nome e o endereço”porque,assim como os políticos,sempre tem um proclamando sua própria honestidade,mas quando estão LÁ,fazem igual
    (às vezes mais,às vezes menos)ao que estavam LÁ anteriormente,nesse caso,até os ninjas querem abocanhar esse filão,do furo jornalístico,condordo Cora,essa de imparcialidade fica um tanto difíicil de acreditar …

  8. Não seria o caso de perguntar, antes, por que a imprensa tradicional está sendo hostilizada? Não são apenas os “mascarados”, os “arruaceiros”, os “vândalos” que estão botando a velha mídia pra correr. A maior parte das vaias e dos gritos de “fora!” estão saindo da boca de uma rapaziada jovem, bronzeada e que foi pra rua de cara limpa e peito aberto. E não vamos nos enganar: os profissionais que estão (ou estavam) nas ruas, muitos deles simpáticos à pauta de reivindicações, não são o alvo. O que está em xeque são os veículos e seus barões. Gente que tá no alto da cadeia alimentar da economia nacional e, sinceramente, parece muito pouco preocupada com o jornalismo, o jornalista e a qualidade da informação. São os veículos que, como diz a piada, têm, hoje, no Brasil, toda a liberdade que precisam… inclusive para ignorar os fatos.

  9. Eis algo que eu esperava que acontecesse, nas manifestações brasileiras, sobretudo agora que todo mundo tem um celular que filma/fotografa nas mãos:

    Há uma nítida diferença entre os que protestam e a minoria que vandaliza. Foi por muitos lembrado que, nas manifestações de 1968, o pessoal pacífico sentava, para que fossem identificados os arruaceiros, (“são eles, não somos nós!”).

    Vamos lá:
    Quando em Junho de 2011, a cidade de Vancouver foi tomada pelas manifestações, também havia esta nítida diferença, entre a multidão de manifestantes e a minoria de vândalos e arruaceiros.

    Muitos manifestantes fizeram, espontâneamente, cordões-de-isolamento protegendo lojas, vitrines e veículos. Os que mais tarde foram chamados de ‘Heróis de Vancouver’ salvavam aqueles que estavam sendo espancados (inclusive policiais!). Nos dias seguintes, voluntários varriam e limpavam as ruas, ajudando os comerciantes a reerguer suas lojas.

    E vários sites e páginas tipo Flickr surgiram exibindo fotos e filmes, mostrando o rosto destes vândalos e arruaceiros, para futura identificação. O cara mascarado quebrava uma vitrine era fotografado e alguém ia atrás, até ele exibir o rosto; ambas as imagens eram postadas. Aqui, então, ia ser muuuuito interessante o resultado.

    E definiria a postura: nós [que protestamos] não somos eles [que vandalizam] !

    Tenho todos os links, pois, na época, fiquei encantado com esta demonstração de Cidadania. Aqui vai um exemplo:
    PublicShamingEternus

  10. Ah, também a venda do jornal aquele……… por uma miséria, né? me abalou demais. A autobiografia de Katherine Grahan foi dos melhores livros que li. Um jornal que fez História………………………..

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