Nem todo mundo quer smartphones

O sonho de todo fabricante de celular é por o máximo de funções num mínimo de espaço. Mesmo os aparelhos mais simples são, hoje, pequenos canivetes suiços: acessam a internet, mandam torpedos, tem câmera, rádio, uma quantidade de aplicativos. Parece que todo mundo se esqueceu de que há uma parcela de consumidores que não querem mais dos seus telefones, mas menos, muito menos: são aqueles, justamente, que só querem falar.

Quem não tem um parente que ignora as principais funções do seu celular e não está nem aí para o sistema operacional? Tenho amigas que ganharam iPhones ou outras maravilhas de Dia das Mães e, tirando a câmera e o telefone, praticamente não usam outra coisa. É um desperdício de dinheiro e de tecnologia. Eu mesma sinto falta de um aparelho básico e super barato que possa me acompanhar em situações nas quais os meus sofisticadíssimos smartphones correm risco, como feira, praia ou manifestação. E há um contingente de velhinhos e velhinhas que ficariam realizados com celulares sem frescuras, simples de usar, cuja principal atração fossem números suficientemente grandes.

O mundo está cheio de aparelhos descartáveis, fones que atendem às demandas do público minimalista, mas eles são em geral desenvolvidos e comercializados — tipicamente entre 10 e 30 dólares — como quebra-galhos pré-pagos, com validade limitada. São ruins de usar e são, sem exceção, horrendos. Nunca entendi isso. Se uma escova de dentes ou um barbeador descartável podem ter um ótimo design, por que um celular barato não poderia ter um look no mínimo aceitável? Por que todos precisam clamar aos céus a sua qualidade chinfrim? Hoje barato deixou de ser sinônimo de feio em todas as áreas do consumo; que o digam as Havaianas.

Ao longo do tempo existiram, claro, exceções notáveis. A que mais me chamou a atenção, illo tempore, foi o F3 da Motorola, mais conhecido Motofone. Você se lembram dele? Era uma barrinha preta, fina e elegante, lançada em 2007, com uma característica muito curiosa: visor em E-Ink. Infelizmente a interface, apesar de bonita, era rudimentar, e ele não chegou a fazer carreira.

No começo do ano, em fevereiro, no Mobile World Congress de Barcelona, a Nokia apresentou um aparelhinho modesto que chamou atenção. Era o Nokia 105, na típica faixa dos US$ 20, mas singularmente bem acabado e com toques de Lumia no design, da versão em cor (o clássico azul da casa) aos cantos arredondados. Fofo!

Este pequeno sedutor tem uma imensa vantagem sobre os seus rivais: é bom de olhar e de pegar. Fino e leve, com um display de números grandes e bem visíveis, ele pode vir a ser, afinal, o quebra-galho que tantos de nós estamos esperando, e o telefone com que tantas avós e avôs sonham — um objeto básico, fácil de usar, que não relembre a elas e a eles, a cada chamada, de como estão defasados em relação à tecnologia.

Por enquanto, o Nokia 105 está sendo vendido na África, na China, na Índia, em alguns países árabes do Oriente Médio e em meia dúzia de países europeus, como Rússia e Azerbaijão. A estratégia por trás dessa distribuição geográfica é clara: conquistar a fatia majoritária do mundo que não tem recursos, nem financeiros nem educacionais, para smartphones. Como luz elétrica constante é luxo na maior parte desse mundo, ele aguenta dias em standby e pode funcionar como lanterna; como vai enfrentar condições climáticas das quais os iPhones são poupados, é resistente a água e poeira. Se tudo der certo, pode vir a ser o sucessor do Nokia 1100, que até hoje detém o recorde de celular mais vendido do mundo, com 250 milhões de unidades comercializadas.

(O Globo, Economia, 27.7.2013)

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39 respostas em “Nem todo mundo quer smartphones

  1. Minha mãe utiliza um Samsung Duos E1182L. Foi o mais simples que consegui encontrar. Depois de uns ajustes nas configurações, ela consegue fazer, receber ligações e utilizar o rádio sem maiores problemas. De vez em quando ela me pede ajuda para desligar a lanterna do aparelho, que ela aciona sem saber como. Rsrsrs.

  2. Nossa Cora, vc escreveu esta crônica pensando em mim ?
    Detesto ter que ” escorregar ” o dedo pela tela, e adoro o meu dumb phone Motororola Razr V3, bem jurássico, ( o melhor da tecnologia de 2004) ! rsrsrs

    • Acho que você vai adorar, Milton! Eu estou sem o meu (mandei pro conserto), voltei ao Android e estou sentindo uma falta louca…

      • Cora, desculpe, não entendi : pq / do quê vc sentiu falta do 920, comparado ao Android ? (Pergunto pq o meu cel morreu, e “penso arrumar” um mais alentado, mas já pesquisei tanto e não consigo chegar a conclusão alguma : uns dizem que o Nokia “sai caro” (?), outros defendem o baixo custo de downloads de aplicativos pros Android via Google , enfim, ´tô sem saber pra quais requisitos
        devo atentar mais. Se puder dar uma luz nesse sentido a uma alma ignorante,agradeço !…rsrs )

  3. Não me lembro se foi a Gradiente que lançou um celular voltado aos idosos, com grafia grade e botão de emergência para pedir socorro a um familiar.

  4. Casos de estupro no Rio aumentaram 56% em quatro anos
    E a Cora Ronai está preocupada com smartphone. Que moral tem essa pessoa pra depois vir comentar as manifestações ocorridas no Brasil?

  5. Tenho um Nokia C2-06, 2 chips. Prefiro 1 aparelho com 2 chips (são 2 números corporativos a que sou obrigado usar) do que 2 aparelhos me infernizando ao mesmo tempo. Junto com 1 palmtop zire 72. Sim, há ainda os que tem palm. Sou um deles. Adoro essa combinação de aparelho simples, pouco atrativo para bandidos, com o palm. Mas, pergunto, o que há de smartphone que substitua essa equipe?

  6. sou um dos que não querem um smartphone. enxergo mal, não me agrada fixar o olhar em telas minúsculas, só de pensar a cabeça dói. internet, pra mim, só sentado, numa tela confortável, com teclado idem. portanto, quando penso em telefone, quero telefone e, no máximo, admito associá-lo a uma câmera fotográfica e mais nada. todo o resto, pra mim, é inútil, não acrescenta diferencial nenhum, mesmo. um telefone bom, com bateria que durasse, e, talvez, uma boa câmera fotográfica, eu quereria… mas, como não colocam câmeras boas em telefones que sejam só telefones, eu as dispenso também.

    (off-topic:

    muito obrigado, Cora, pela ajuda na divulgação do porteiro Zé no facebook. foi muito bom. infelizmente, ainda não conseguimos hospedagem para ele. teve alta, veio para casa, está aqui ainda finalizando o tratamento e se recuperando.

    continuo procurando abrigo ou adoção para o Porteiro Zé. mando fotos pra você ver como esse velhinho é do bem:

    Mahatma Zé: http://on.fb.me/1byqXmP.

    Boy Zé: http://on.fb.me/1byrbu9.

    de novo: muito, muito obrigado, Cora!

    beijos.)

      • sofrido mesmo, mas todo zen. adora colocar a coleira e sair pela rua, precisa ver a alegria. e agora já vai de passinho firme, sem ficar caindo toda hora, como antes. rabinho balançando, vai na boa. ontem passeamos com ele e as outras 3 meninas da casa; precisava ver o ânimo dele no meio das fêmeas, todo orgulhoso… e não ficava pra trás não!

        adora brincar de pega-pega. fica todo contente quando alguém sai correndo atrás dele. 🙂

        difícil está sendo mesmo fazê-lo tomar as medicações; é muito comprimido pra um cachorro só. e agora que ele já descobriu que os colocamos no meio da salsicha, deu para catar um por um. vamos ter de apelar pras bolinhas de carne moída crua por enquanto. com 5 dias, 6 comprimidos já caem fora da receita. 🙂

        o bichinho é bacana. mas precisa de um cantinho sossegado. por enquanto está alojado na lavanderia de casa. não é o melhor lugar pra ele. à noite, vai pro banheiro. ainda fica meio isolado, por conta das escadas – temos medo que ele caia, então deixamos fechado.

        ainda está magro, mas não come ração seca o suficiente, nem come qualquer ração. ainda bem que pelo menos a latinha de Pedigree com pedaços de frango ele aceitou. já não sabia mais o que oferecer a ele. a ração hepática nem pensar… ele cospe.

        no mais, parece um boneco de pelúcia… é… com a pelúcia meio judiada, tá certo… mas é fofo do mesmo jeito. 🙂

        • comemorando. depois de várias tentativas, descobrimos: o Zé gosta de comer: carne e frango em pedaços, na latinha, da marca “pé de grilo”. voltou a comer e agora as fezes estão durinhas. uh-huuh!

          cachorro é assim: rabinho agitado, focinho molhado, xixi cristalino e cocô durinho = boa saúde.

        • Que sorte a dele que encontrou você, Claudinho! No fundo, o que esses bichinhos maltratados mais precisam é mesmo amor e dedicação, e isso é tão raro…

          • olha, Cora, acredito mesmo que quem tem sorte sou eu, por encontrar esse bichinho e poder ajudar de alguma forma. sabe, se fosse mais fácil encontrar um modo de ajudar a mais animais abandonados, se fosse mais fácil falar às pessoas que os ajudam, se fosse mais fácil estabelecer leis e metas públicas de proteção… mas tudo é tão difícil, tão complicado, tão desesperador que, realmente, tenho sorte de ainda poder ajudar a esse cachorrinho. é tão pouco, tão insignificante, mas, ao mesmo tempo, olhando pra ele e vendo cada pequena recuperação, vendo como ele se esforça para melhorar todo dia, só posso mesmo é agradecer pela ajuda que ele me dá. e não há aí nenhum exagero ou figura de linguagem.

            hoje de manhã, cheguei à casinha na lavanderia com a coleira na mão e o vi lambendo as patinhas (imagina… todo cachorro faz isso… não… só os cachorros felizes, só os que estão bem têm esse cuidado e essa alegria em lamber os próprios pêlos, lamber as patinhas) e você não imagina a alegria com que ele, quando me viu com a coleira na mão, levantou-se, saltou e começou a pular feito qualquer cachorrinho filhote, de alegria, com as patinhas da frente pro ar, porque era hora do passeio… ah… não dá pra qualquer um entender uma felicidade dessas, se nunca passou por ela.

            depois, no segundo passeio, no fim da tarde, ele já saiu puxando, indicando o caminho que ele queria, abanando o rabinho pras pessoas, olhando pra algumas…

            tudo isso é avanço, tudo isso é recuperação, tudo é esforço dele, um passinho de cada vez, e é muito bom poder acompanhar uma coisa dessas.

            como hoje foi um dia relativamente quente e seco, sem vento frio, deu para ele ficar até as 21 h na lavanderia, curtindo o anoitecer. só depois foi pro banheiro, praquele cochilão. e, de quebra, hoje, o doutor cirurgião ainda tirou quase todos os remédios – ficaram 4, quase nada. ou seja: esse Zé tá que tá! 🙂

            beijos!

  7. Tenho uma tia que não consegue usar nenhum celular principalmente porque quer um celular que apenas faça ligações. Há anos que ela fala isso, e sempre respondo: tia, isso não existe mais, agora os celulares até fazem ligação.

  8. eu uso algum parente distante desse Nokia 105 há uns bons 3 anos já (ou mais)… me facilita a vida, claro. a bateria dura, às vezes, 7 dias (incrivel) e também tem lanterna. mas, claro, sempre fico por fora de muitas coisas; visto que as pessoas do meu círculo social nao se dão mais ao trabalho de enviar sms e fazer ligações: apenas usam seus smartphones para se comunicar uns com os outros.

    • Mas existe uma explicação exemplar ‘na ponta do lápis’, para este aparelho não ser vendido aqui. Vamos lá:

      O preço de US$ 20 é o chamado MSRP (Manufacture Suggested Retail Price – Preço de Varejo Sugerido pelo Fabricante).

      Ou seja, estes R$ 40,00 foram devidamente calculados para cobrir os custos de Desenvolvimento, Produção, Embalagem & Transporte, Distribuição, Custos do Lojista, Lucro do Lojista e, é claro, o Lucro da Nokia que, digamos, embolsa uns R$ 30, dos quais uns R$ 10 é o Lucro Líquido pelo produto vendido.

      No Brasil, a Nokia continuaria lucrando os mesmos R$ 10, mas o Governo (na forma de múltiplos Impostos) — que não fez, nem faz p* nenhuma… — embolsa uns R$ 40,00 limpinhos, direto no bolso; levando o aparelhinho a ser aqui vendido ao ‘precinho camarada’ de R$ 80 a R$ 100

      A Nokia (assim como todas as demais empresas), que teve todo o trabalho de criar, produzir e vender o produto, no final das contas embosa um mínimo Lucro Líquido, enquanto o Governo mafiosamente se regala embolsando uns 100% do MSRP original (ou uns 50% do Preço de Varejo nacional).

      E assim é com todos os produtos que compramos no Brasil. Quer comprar um carro? Pague dois (um para o Governo) e leve um

      Aaaaargh!

    • Disclaimer: não sou Economista e, evidentemente, outros fatores e conjunturas podem ter sido levados em conta, no cálculo do MSRP, o Preço de Varejo Sugerido pelo Fabricante.

      No entanto, é um FATO que a Nokia considera R$ 40,00 suficientes para cobrir todos os custos do fabricante e dos varejistas, todos os impostos (de países normais), todos os lucros dos varejistas e ainda embolsar algum lucro, para desenvolver e fabricar novos aparelhos.

      Mas o governo se outorga a prerrogativa de ganhar a bolada total de R$ 40,00 ‘limpinhos’, adicionais ao preço sugerido, para ______

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  10. Olá Cora. Mesmo seguindo e admirando você há mais de 20 anos, nunca tinha tido tempo para lhe escrever. Agora terei mais disponibilidade, pois acabo de me aposentar(48 anos sem parar…ufa).
    Você tem razão sobre celulares modernos e é por causa do assunto da sua coluna de hoje no Globo que lhe escrevo.
    Já faz tempo que uso no meu dia a da 3 celulares:
    1 – Meu top => Sansung Note 2 (maravilhoso);
    2 – Meu chamego => Nokia N95 (nunca vou deixá-lo…)
    3 – Meu sem frescuras => ZTE-G S302 (fantástico)
    Em matéria de celular simples não tem igual. Números enormes, visor com caracteres preto sobre fundo laranja, 2 teclas de ligação com um toque e o principal: uma tecla vermelha de emergência no verso que envia uma mensagem urgente de auxílio para 5 pessoas ao mesmo tempo. Funciona 48 horas sem recarregar e é espetacular. Pena que ele não é vendido no Brasil. Comprei-o em Lisboa e custou na época cerca de 40 Euros. Ele usa tecnologia da Nokia e seu carregador é idêntico ao do N95.
    Um achado!
    Os fabricantes estão comendo uma grande barriga não aproveitando este nicho sempre crescente de mercado.
    Há propósito você este modelo da ZTE?
    Concordo com você em tudo sobre o N95e não gosto de APPLE…eheheheh
    Um forte abraço do admirador Eurico

  11. Nossa, quero um Nokia 105 para minha mãe! E mais dois para minha filha e para mim! No meu caso, teria a mesma função que o meu saudoso e falecido ‘Vivo-Assalto”, que era ótimo para levar andar na praia ou cuidar dos animais da proteção lá nos cafundós da cidade.

  12. Pingback: Nem todo mundo quer smartphones | ❝Pukka´s Journal❞

  13. Oi, Cora, voce levantou uma questao importantissima! Por que cargas d’agua sao tao raros os “burrofones”, simples, praticos, COM ALGARISMOS E CARACTERES GRANDES, com a finalidade basica de discar, falar e ouvir BEM?
    Conheci o F3 da Motorola. Fantastica, a ideia de se utilizar a tela em e-ink (como no Kindle). Vc ja experimentou usar um iPhone no sol, ou mesmo na sombra em um dia claro? IMPOSSIVEL! So que o F3 era realmente muito rudimentar. Consultar a lista de contatos, por exemplo, era uma complicacao. Por que o e-ink em celulares nao emplacou?
    Os idosos sao os que mais sofrem com smartphones. A grande maioria dos velhos nao tem desenvoltura para lidar com menus e submenus e, claro, de enxergar coisas miudas. Eu mesmo, que tenho presbiopia e uso lentes de contato multifocais, muitas vezes sou obrigado a recorrer a oculos para enxergar os caracterezinhos…
    A propos, o Nokia 105 nao utiliza a e-ink, ne nao?

Diga lá!

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