Memórias de papel

Petrônio Portella foi ministro da Justiça entre 1979 e 1980, época do reinado de um general de quem me esqueci. Eu era uma jovem jornalista cheia de empolgação e de ingenuidade, e fiquei orgulhosíssima quando, um dia, consegui uma exclusiva com ele. Os macacos velhos da redação acharam o meu entusiasmo muito bonitinho, mas me alertaram que a entrevista seria pura perda de tempo.

— Ele não diz nada.

Não dei bola para aquele bando de pessimistas e toquei para o palácio. Velha raposa nordestina, o ministro, que foi deputado e senador a vida inteira, me recebeu com toda a cortesia. Ofereceu suco, café e biscoitinhos, elogiou uma matéria que eu escrevera alguns dias antes e respondeu às minhas perguntas longa e detalhadamente.

Voltei para a redação com o coração disparado. Duas horas de conversa com o ministro da Justiça em pleno regime militar! Material de capa! Vale lembrar que o ministro anterior, Armando Falcão, era conhecido pelo mantra “Nada a declarar”.

Meu entusiasmo, porém, foi murchando à medida em tirava a entrevista do gravador. Estava tudo lá — uma longa conversa, um monte de palavras… e um enorme vazio. Para minha humilhação, os macacos velhos estavam certos: Petrônio Portella não dizia nada.

o O o

Algumas matérias de comportamento são clássicos do jornalismo. Todo começo de verão, por exemplo, é de lei uma reportagem sobre a praia da moda — ou, em não havendo uma, sobre as modas da praia. Uma vez, durante uma reunião de pauta do velho Caderno B do Jornal do Brasil, alguém disse que ouvira falar de uma praia quase secreta, bem pra lá da Prainha, que seria o grande point do momento. Sobrou para mim, que no fim de semana saí cedo com um fotógrafo e um motorista em busca da tal praia.

Naquele tempo, o Rio era uma cidade muito mais vazia do que é hoje. A Barra era um bairro de futuro, diziam, mas, no presente, tinha uma casa aqui, um prédio acolá e muito espaço vazio. Recreio nem se fala. Só os surfistas sabiam que Macumba não era necessariamente um despacho na esquina.

Rodamos horas a fio em busca da tal praia. O motorista estava determinado a chegar a São Paulo, o fotógrafo começava a se preocupar com a luz e eu já estava histérica. Não havia nada no nosso caminho além de praias desertas. E a mim não bastava descobrir a suposta praia da moda: eu tinha também que sacar qual era a do lugar e entrevistar seus frequentadores, antes de voltar para a redação e escrever a matéria, para a qual estava reservada a capa do B. Detalhe: a gaveta estava vazia, não tínhamos nada para por no lugar.

A única coisa remotamente interessante que encontramos foi um pequeno grupo de ciganos acampados numa praia que já nem sabíamos se estava ou não dentro dos limites geográficos do município. Voltamos para a redação, aonde chegamos, exaustos e derrotados, no fim do dia. Tínhamos saído em busca da praia do verão e, pelo visto, ela continuava onde sempre esteve, ali pela altura do Posto Nove. Fazer o quê?

Eu tinha duas opções. Ou sentava no chão e começava a chorar, ou dava um jeito de sair pela tangente. A primeira, que eu estava inclinada a adotar, era muito pouco profissional. Fui para o banheiro, lavei a cara com água fria e saí determinada a não me deixar vencer pelo contratempo (ou pelo ataque de nervos). Tomei um horrendo café de garrafa térmica, fui para a máquina de escrever e, depois de começar e recomeçar uma quantidade de vezes, acabei descrevendo as aventuras de uma equipe de reportagem em busca da praia do verão. No dia seguinte, ao ver o jornal impresso, achei que estava diante de um pequeno milagre.

Anos depois, chamada por Evandro Carlos de Andrade para fazer o caderno de informática do Globo, entrei em desespero semelhante quando soube, assim que aceitei o desafio, que o caderno tinha que estar nas bancas na primeira segunda-feira de março. Estávamos em princípios de fevereiro, eu tinha que inventar um caderno, aprender a usar o sistema do jornal e formar uma equipe do nada: jornalista de tecnologia era especialidade inexistente. Pedi um adiamento da data, mas o Evandro, que sabia das coisas, disse que tinha certeza de que o caderno circularia na data aprazada:

— Nunca vi jornal deixar de sair.

Hoje, quando tenho o tempo de trabalho que ele tinha na época, só posso concordar: eu também nunca deixei de ver jornal sair.

Essa frase passou a ser um dos motos da minha vida. Ela me tranquilizava quando eu precisava fechar o Info etc. na sexta-feira e aparentemente não tinha nada pronto na quinta à noite, e continua me tranquilizando hoje quando, na terça à noite, não tenho ideia do que sairá nesta coluna, que fecha cedo na quarta.

Ela teria feito muita diferença para os meus nervos em frangalhos se eu já a conhecesse naquele remoto domingo em que saí em busca de uma praia que não existia.

(O Globo, Segundo Caderno, 25.7.2013)

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16 respostas em “Memórias de papel

  1. Creio que seja apenas uma questão de dar um upgrade no seu mecanismo de busca.
    Haja vista a excelente série “Diários da Motocicleta”, a mim parece que vc tem várias crônicas prontas arquivadas em sua memória, apenas algumas vezes não consegue localizá-las.

    • mas, no caso, esta crônica citada está nos baús do extinto (e saudoso) Jornal do Brasil, muuuuuito pré-blog

      Terá que ser encontrada lá no link do GoogleNews que postei abaixo. Mas encontrada ‘página-por-página’ ou data, pois o conteúdo do arquivo digitalizado (apenas páginas escaneadas, imagens das páginas) não foi — aparentemente — indexado via OCR.

      • Tom, meu comentário foi a respeito da Cora ter dito: “na terça à noite, não tenho ideia do que sairá nesta coluna, que fecha cedo na quarta.”
        Tomara que vc consiga encontrar a crônica do JB que anda procurando.
        bjs saudosos

        • hehehe! agora que entendi: um mecanismo de busca para crônicas futuras, ainda não-escritas, mas incipientes nos recônditos cognitivos da Cora…

          script ‘Pre-Cogs’ digno de Philip K. Dick 🙂

  2. Adorei , Cora! mas queria que você tivesse conversado mais… 😦 A história do “sofá” foi hilária…

  3. Não sei se você gosta do programa CQC. Até que tem umas poucas coisas boas lá. E uma delas são as perguntas aos políticos em Brasília. Tá certo que eles tentam ridicularizá-los, se é que eles já não o fazem sozinhos, mas dá pra ver em animação rs que eles só enrolam em suas respostas. Às vezes por ignorância e outras para enrolar o meio de campo mesmo, achando talvez que somos idiotas e cairemos nesse papinho de cerca Lourenço.

    Sabe, demorei pra descobrir a Cora Ronai, você. Mas estou adorando desde então. Eu sou apolítica e nunca falei e comentei tanto sobre política na minha vida. Claro que devo escrever muitas baboseiras sobre, mas acho que de vez em quando eu acerto, pois você curte. Hahahahaha Foi você com seus ótimos textos e posts que despertaram isso em mim. Até quando discordo de algo eu curto, por tão agradável leitura. Obrigada! =)

  4. Cora, tô aqui “radinho embaixo do braço” como naquela música do Chico, esperando sua entrevista na Globo, eba!

  5. Você sabe fazer uma limonada Cora! A propósito, continuar falando de como os políticos conseguem falar sem dizer nada já seria interessantíssimo. Sinceramente é preciso ter nervos para aguentar discurso de político e, pior, discurso de político que sabe que nunca soube de nada e sequer sabe falar.

    • E que delíciosa limonada! de ‘nada’, uma limonada 😉

      André: “discurso de político que … sequer sabe falar”, nada mais exemplar que o discurso da Dilma recebendo o Papa, exibindo sua pequenez, mediocridade e falta-de-educação (‘senso lato’, sequer sabe ler fluentemente), com aquele sempre-embaraçoso cacoete dos sem-noção, que recebem o homenageado louvando a si próprios: “eu também fiz, eu também faço, eu também, eu também, eu também…”

      Foi de dar vergonha…

      • Sabe o que e isso, acima de tudo? Falta de assessoria. Um discurso desses nao se redige sozinho. Sera possivel que, entre aqueles aspones todos, nao exista UM com um minimo de mancometro para dizer que aquilo era uma bosta?? Ate o Lula, com seu primarismo, se sairia melhor e de improviso. (Caso nao resolvesse soltar perolas do tipo “o Brasil e a Nigeria sao os dois paises com o maior numero de AFRODESCENDENTES”…)

      • Concordo. O Papa, no entanto, já está acostumado… afinal, não esqueçamos que ele é argentino e a Cristina Kirchner compete com a Dilma em matéria de pequenez, mediocridade e falta-de-educação!

        • (oi Eliana, bem-lembrado! e aqui baixinho, para que ninguém me ouça: confesso que, comparada com a Kirchner, a Dilma até parece uma estadista respeitável… [ênfase no ‘parece’])

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