Preço, preço, preço

Pronto: fui num pé, voltei no outro. Vi as modas, comi mais do que devia, gastei um caminhão de dinheiro e, como sempre, morri de ódio do governo brasileiro, que determina a prioridade das minhas compras no exterior. Não pelo que posso ou não posso trazer, mas por tornar tudo tão absurdamente caro no Brasil que me pego — como todos nós nos pegamos — comprando itens banais que não deveriam fazer parte das compras de viagem de ninguém.

Quando cheguei a Nova York, há uma semana, uma pilha de caixotes já me esperava no hotel. Eram roupinhas e brinquedos para os meus netos. Reclamei com a Bia de um navio pirata que ocupou meia mala e que ameacei deixar de presente para a camareira: por que ela não comprou aquele trambolho no Rio?

— Esse navio custa quase quatrocentos reais aqui mãe; aí não chegou a quarenta dólares, com frete incluído!

Meia mala ou não meia mala, é claro que o navio veio. A diferença de preço se aplicava a cada um dos outros itens, dos bonecos às fantasias, passando pelos tênis e pelas espadinhas e lanternas que fazem conjunto com o navio.

Essa mesma lógica perversa se aplica a tudo de que um ser humano precisa, de bolsas, jeans, roupa de cama e óculos a sapatos, cosméticos e temperos.

(Tudo, mas tudo mesmo, está mais barato em Nova York do que no Rio. Até os hotéis, que antigamente custavam duas ou três vezes o preço dos nossos, estão mais ou menos iguais, com a diferença que o número de estrelas na hotelaria de lá é levado a sério.)

Alguns vendedores, que ainda estranham que alguém em viagem entre numa loja e peça quatro pares de tênis, me perguntaram se era verdade o que os turistas brasileiros andavam contando a respeito dos preços no país. Numa das lojas, me dei ao trabalho de procurar no celular alguns exemplos dos nossos preços para o vendedor incrédulo.

— Mas vocês pagam tudo isso?!

Pois é, pagamos, otários que somos. Eu, por exemplo, sou refém de uma loja chamada Rudge, a única que conheço, no Brasil, que percebeu que senhoras gordinhas que não querem se vestir como garotas de 25 também têm direito a roupas bem transadas. A Rudge se lembra do que estava na moda quando tínhamos vinte anos e tem uma leve pegada étnica, um jeito late hippie de ser. Suas roupas são mais originais e bonitas do que propriamente bem acabadas, mas isso não impede que os preços desafiem a imaginação. Pois numa ótima loja americana chamada Chico’s, que apesar do nome ridículo destina-se à mesma clientela, comprei uma túnica, uma calça, uma camiseta e um colar lindo pelo preço de uma única veste na Rudge. É como o navio pirata do Fabinho: dá para não trazer?

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É ridículo ir à maior cidade do mundo, ao grande entreposto comercial do planeta, onde se encontra o melhor de cada nação da terra, e voltar com a mala cheia de banalidades que, num país com impostos menos ofensivos, poderíamos comprar na esquina, sem precisar parcelar em dez vezes.

O precioso espaço de bagagem que deveria ser usado para que trouxéssemos peças únicas da África, objetos de design da península escandinava, tecidos indianos e tesouros variados vem ocupado por brinquedos de plástico, roupas para o dia a dia, calçados diversos.

O pior é que, para sustentar sua cáfila de ministros e o maior contingente de cargos de confiança desta e de qualquer galáxia conhecida, dona Dilma ainda vira sócia da economia que fazemos em dólares, e tunga o que gastamos no cartão em 6%.

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Quando passei pela alfândega, a agente olhou para as minhas duas malas imensas e perguntou se eu tinha algo a declarar. Não, respondi — com toda a sinceridade: apenas netos gêmeos e um manequim que a moda brasileira ignora. A agente revirou os olhos, como quem diz “sei bem o que é isso”, e me deixou passar. Agradeço de coração a essa moça compreensiva. Tirando um mini iPad, eu não trouxe nada com tomada, mas se abrisse aquelas malas nunca mais conseguiria fechá-las.

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E não é que os americanos inventaram uma variante do golpe do sequestro por telefone? Funciona assim: uma pessoa que se diz gerente do hotel liga para o quarto do hóspede e diz que o seu cartão de crédito não passou direito na máquina, ou não foi aceito pela operadora. Quando o hóspede se prontifica a descer para resolver o problema, o falso gerente diz que não é necessário, e que basta dar o número do cartão novamente, pelo telefone. Muita gente tem caído no golpe — e, quando volta para casa, tem a desagradável surpresa de receber a cobrança de compras que nunca fez.

Como diz o Ancelmo, deve ser terrível… vocês sabem.

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Beijo para a dona Lúcia, mãe da minha amiga Bia Bruno, que adora uma novidade.

(O Globo, Segundo Caderno, 18.7.2013)

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17 respostas em “Preço, preço, preço

  1. Cara Cora, acho que já disse isso aqui em outra oportunidade…. por favor não ajude a perpetuar o mito de que “no Brasil tudo é caro por causa dos impostos”. A melhor prova disso são os iPhones e iPods que ganharam benefícios fiscais e continuaram caros como sempre. É preciso entender – e divulgar – que os preços altos são uma questão cultural, brasileiro “gosta de pagar caro” porque é questão de status, não deixa de comprar por causa do preço, e tem as facilidades do crédito. Aí as empresas deitam e rolam.

    • Desculpe amigo, mas concordo em parte com você. É verdade que brasileiro otário gosta de pagar caro para se achar superior, pois supõe que isso lhe dá um verniz que deveria ser conseguido com cultura e conhecimento para não ficar eternamente preso à sensação de ser um vira-latas. Porém concordo com a Cora que os impostos são absurdos, sobretudo em itens essenciais, como remédios, equipamentos para saúde ou científicos ou de engenharia. Esses impostos acabam criando uma espécie de ” reserva de informática” ( para quem não vivenciou este período, Google ), de modo a nos manter longe da última palavra da tecnologia e do avanço.

      • Este Rafael deve trabalhar na portaria do meu prédio. É o José Carlos usando pseudônimo. Até hoje somente vi o meu porteiro e ele dizerem a mesma coisa ! É inacreditável a falta de bom senso, ou quiçá estudo, para falar uma barbaridade destas ! A unica diferença é que o meu porteiro tem só o primário e redige com alguns erros, e o “Rafael” redige direitinho. José Carlos, você está usando corretor ortográfico ? Confessa ! Ô “Rafael”, confessa… Você é o José Carlos aqui da portaria ? Aliás, vou até lá para ver o que ele anda fazendo agora ! ( deveria estar sentado na sua cadeira vigiando tudo… )

  2. oi, menina. que bom que voltou feliz da viagem. um beijo!

    (posso aproveitar o espaço para pedir uma ajuda bem fora do assunto? estou procurando abrigo, ou lar provisório, para o porteiro Zé, http://on.fb.me/16OAXA5.

    se alguém souber de uma pessoa ou família que queira um cão bem educado, mas que está triste por causa do abandono, e que procure um bom amigo, independente da pelagem mal tratada e da idade (ele deve ter uns 8 anos, pela avaliação médica), é provável que com 2 meses de carinho, boa comida e uns bom tratamento das feridinhas na pele, o Zé se transforme no cachorro mais bonito do mundo da casa dele.

    obrigado!)

  3. Eu hein, o que é que tem a ver preço com nome de rua , Brizola e ditadura ?
    É cada um !!!!
    Haja saco !!!

    • Detonei. Agora é modinha falar mal da Globo. Que, aliás, fica na Lopes Quintas. O que fica na Irineu Marinho é O Globo…

      *suspiro*

      • sempre foi moda falar mal da globo, cora. preguiça… aliás, estou ficando sem saco de ler comentários, principalmente depois das passeatas, ops, manifestações… esse negócio de ler fascista me chamando de “facista” está cansando, e você falar do tempo e neguinho dizer que não tem nenhuma nuvem negra no céu.

        []’s

  4. Entendo, como brasileira que sou, o fato das pessoas comprarem fora do país (E.U.A), pois além dos preços por aqui serem exorbitantes, as mercadorIas são de péssima qualidade.
    É muito difícil resistir, mas, eu não compro nada quando viajo, pois detesto perder tempo em lojas e tenho horror a malas. O preço que pago é alto: meus notebook/tablet e smartphone são pré-históricos… Rsrsrs
    Quanto ao vestuário, sem comentários… há muito não sei o que é usar roupas novas e bonitas. Faz parte do “custo ser brasileira”.
    Uma dica: você já visitou a “Le Lis Blanc”? As roupas são bem acabadas, muitos modelos são para as mais gordinhas e os preços são melhores do que as da “Rudge”, além de ter um excelente atendimento.
    Adoro seus textos, Cora!

      • Também sou gordinha e também era cliente assídua da Rudge. Comecei
        a comprar na Le Lis Blanc há algum tempo e não quero outra vida. Acho que talvez você tenha ido lá em dias ruins. Tente mais um pouquinho, pois vai achar coisas lindas e adequadas. Beijinhos ! Vera

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