No umbigo do mundo

Estou há dois dias em Nova York e, além de andar abestada olhando para cima e para os lados, ainda não fiz nada. Tenho a maior admiração pelos amigos que vêm para cá com a agenda pronta, com restaurantes reservados, entradas para óperas e concertos compradas, exposições anotadas no caderninho. Já tentei fazer isso algumas vezes e nunca deu certo: caí em refeições pantagruélicas com boca de saladinha, fui a musicais quando questionava o sentido da vida, vi uma exposição cubista no auge da minha paixão por Tiziano. Claro que, mais tarde, por ocasião da retrospectiva do velho veneziano, senti saudades dos cubistas. Decidi, então, que Nova York seria para mim, dali para a frente, um dia de cada vez.

Dá certo e não dá. Dá porque nunca mais fiz nada que não tivesse vontade de fazer naquela hora. Não dá porque porque a cidade é tão divertida em si mesma que, na maioria das vezes, não tenho vontade de fazer outra coisa a não ser andar pelas ruas. Pego o primeiro ônibus que passa, desco, pego outro, exploro áreas que não conheço, traço um cachorro quente numa barraquinha, ouço músicos nas praças e no metrô. Acabo zanzando sem destino até à exaustão e chego ao hotel no bagaço, pronta para um bom banho, um bom livro, uma boa cama. O teatro fica para as calendas, o cinema para a volta, os museus e as galerias para os dias de chuva.

Dessa vez há uma exposição dos desenhos de Edward Hopper no Whitney que não quero perder; vai ser uma forma indireta de me encontrar com o Millôrzinho, que gostava de Hopper e que teria ficado feliz em ver esses desenhos quase desconhecidos.

o O o

A minha agenda nova-iorquina se complica ainda por outro fator: adoro hotéis. Gosto de ler e escrever sabendo uma cidade que não é minha lá fora; gosto de pedir comida no quarto; gosto de acordar tarde no meio de uma montanha de travesseiros.

Uma vez, na Índia, sentou-se ao meu lado, no trem, uma americana mais ou menos da minha idade, ou seja: uma senhora mais para avó do que para mochileira. Conversa vai conversa vem, caímos no assunto hotel. Eu estava encantada com os ótimos negócios que vinha fazendo pelo Rajastão, onde conseguia quartos das mil e uma noites em antigos palácios de marajás pelo equivalente a cinquenta dólares.

— Cinquenta dólares?! — exclamou a minha interlocutora, genuinamente chocada. — Mas você consegue quartos com banheiro por menos de quinze dólares em qualquer lugar! Hotel é só para dormir!

Não para mim. Foi difícil explicar a ela as viagens incríveis que aqueles palácios me inspiravam; mais difícil ainda foi convencê-la de que não fumo, não bebo nem uso drogas que não sejam vendidas em farmácia. Ela também não conseguiu me convencer das vantagens de economizar numa das melhores partes da viagem; mas o mundo é assim, vasto, variado, com gente de todo o tipo.

o O o

Meu hotel favorito em Nova York costumava ser o Algonquin, em cujo restaurante se reunia a turma da New Yorker em meados do século passado. Localização ótima, móveis elegantes, ambiente aconchegante. E, illo tempore, preços razoáveis. Esse último detalhe mudou drasticamente depois que o Algonquin passou por uma reforma milionária e reabriu como parte da cadeira Marriott. Mas, na época em que a diária ainda estava ao alcance de jornalistas, o que me atraía de verdade era Matilda, a gata da casa. Por causa dela eu nem me incomodava com o tamanho dos quartos, minúsculos, já que sempre descia para ler ou trabalhar no lobby, onde tirava casquinhas do quadrúpede mais mimado da hotelaria mundial.

Todo mundo que chegava da rua trazia uma coisinha para a Matilda, que aceitava os mimos e as festinhas como uma rainha aceita a reverência dos seus súditos. Ela tinha sua própria mobília miúda muito engraçadinha mas gostava mesmo era dos sofás e das poltronas: escolhia sempre o melhor lugar, e não era fácil convencê-la a abrir espaço, até porque os outros hospédes do salão viam essa ousadia de cara feia.

O Algonquin sempre teve gatos. Reza a lenda que, em 1930, um bichinho esfomeado entrou pedindo comida. Acabou ficando e fazendo amizade com os famosos frequentadores da casa. John Barrymore sugeriu que se chamasse Hamlet e, desde então, sempre que o felino em residência é macho, tem este nome; sempre que é fêmea, é xará da minha branquinha. Não conheci nenhum Hamlet, mas as duas Matildas que peguei eram muito tranquilas e altivas. Uma ainda está lá, mas foi vítima da burocracia: algum idiota reclamou com a vigilância sanitária e hoje a pobrezinha não pode mais circular pelos salões: fica restrita à recepção.

O mundo está ficando muito chato, sinceramente.

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Os dias estão quentes e ensolarados. No fim da tarde, como em Belém do Pará, bate uma chuva, mas é só para dar aos turistas a oportunidade de fotografar o entardecer com o asfalto molhado, refletindo o vermelho dos freios dos carros e as primeiras luzes das lojas e das ruas, que começam a se acender. Hoje, lá pelas oito, oito e meia, quando os últimos raios de sol pintaram de rosa umas nuvens que estavam de bobeira sobre o Hudson, eu senti um aperto enorme no peito e me dei conta de como estava com saudade daqui.

I love New York.

Mesmo.


(O Globo, Segundo Caderno, 11.7.2013)

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25 respostas em “No umbigo do mundo

  1. Cora,
    Eu adoro ler sua coluna, amo o jeito simpático e sensível como escreve sobre tecnologia, livros, viagens ou sobre gatos.
    Obrigada por dividir suas opiniões com os leitores.

  2. ao contrário de (quase) todo mundo, não gosto de viajar. acho que me acostumei em não poder. assim, como você está fazendo, acho que gostaria. mas continuo não podendo. mas te ler já é uma meio-viagem. o hopper eu gostaria de ver.
    []’s

      • Isso está parecendo um amigo meu aqui do Leblon.
        Ele diZIA que o máximo de viagem era ir do Jardim de Alah até o fim do Leblon e voltar.
        Aí, casou pela segunda vez, e ganhou de lua de mel uma viagem pela Europa, com uma parada estratégica na Oktoberfest, que é a melhor e mais bem organizada e mais ordeira festa do mundo e é espetacular, e adorou ( aliás, adorou a viagem inteira ) !
        Mudou de opinião na hora !
        O negócio é começar, Nelson !
        Vai gostar, quiçá adorar !

        • eu sou mais aventureiro do que seu amigo era: vou muito a lumiar ;¬).
          casar novamente não vou, mas aceito um presente desses para testar minha vontade. alguém?

          []’s

  3. Cora, como gosto de voc! Da sua personalidade, do seu jeito de escrever, dos seus temas, de tudo da sua coluna! H muito tempo queria te escrever e dizer isso: como eu gosto…um abrao carinhoso da sua f e leitora Mnica Medeiros

  4. Q lindo, Cora – I love NYC too e me encheu de saudade! Have lots of fun – bjo! C

    Sent from my iPad

  5. Quem me apresentou Hopper foi o Millôr. Também fiquei fã. O Whitney tem um acervo legal deste pintor e já tive a felicidade de estar aí para ver de perto. Foi emocionante. Que bom que a exposição fica até outubro. Pode ser que em setembro eu possa ir. Escrevo aqui e logo a minha a frente, acima do meu monitor, olho “Summertime”, um poster que trouxe de minha visita ao museu. Fico feliz de ver você aproveitando muito bem as suas férias.
    Abraço

  6. Cora, estive ai a pouco e gostaria de recomendar-lhe um dia no HIGH LINE. O parque é lindo e com uma energia incrível. De quebra, ao fim da tarde, uma voltinha no Chelsea Market. Recomendo fortemente e aproveite esta cidade maravilhosa e cosmopolita.

  7. Ai, Cora… somos 2.
    Eu amo de paixão NYC. De verdade!
    Nem sei dizer o que é isso, que sentimento é esse, mas adoro NY.

  8. “O mundo está ficando muito chato, sinceramente. ”
    “Saída estratégica pela direita!”, diria o Leão da Montanha. Ainda bem temos você. Vá para saída que eu a seguirei …

    1) Engraçado essa familiaridade com hotéis. Eu tb tinha (tenho?) e só ao ler o teu texto me dei conta.. Gosto até de olhar pelas janelas. Lembro-me de um em especial, em Salvador, onde uma cômoda vermelha compunha a decoração do quarto, de uma rede famosa, na época. Não pelo móvel em si. Pela tonalidade do vermelho. Quando a revia, parecia que eu estava reencontrado algo por mim possuído. Ou do aquecimento de um outro em Curitiba. Se eu morasse no frio, era desse tipo que compraria… Por maior que fosse a ostentação, nunca intimidada. Sempre inserida, agregada ao contexto. Interessante isso.

    2) Ora, ora, todas as Matildas são rainhas! ( inclusive essa, por nascimento: Matilda = Maud Queen of Scotland – King Henry I and his Queen, Edith of Scotland). Algumas incorporam, outras não. :). Como sei? Sou filha de uma Maud, por batismo! rs.rs.rs.
    Aproveite NY do seu jeitinho, Norma

  9. Eu que o diga Cora ! Sou aeronauta aposentada,e viajei durante muitos e muitos anos para New York,tinha pernoites que variavam de 2 até 6 dias (hotéis 5 estrelas + diárias,claro,tudo pago pela companhia) e com frequência de 2 à 4 vezes por mês,somando tudo …
    Eu tinha um roteiro traçado,que eram (isso nos anos 70/80/90) as livrarias,as feiras de antiguidades,os herbolários chineses em Chinatown (com direito a receitas personalizadas) de
    médicos (?) chineses bem velhinhos,geralmente com um filho ou neto ao lado para traduzir;e eventualmente,exposições e peças teatrais.
    Quantas e quantas vezes,eu tinha que ser convidada
    a me retirar da Strand do Vilage,porque me quedava tão absorta lendo e folheando livros,que não percebia que já estava fechando … e na Tower então …
    Uau ! Bons tempos,mas não sou saudosista,até porque tenho uma filha americana,que mora por ali,e tenho sempre um bom pretexto para retornar …
    And last,but not least,Yes ! I do love New York !!!

  10. A vida foi feita para aproveitar !
    Ida e volta de executiva ( primeira classe andam raras ), pois como dia Danuza Leão, depois dos 40 ninguém deve andar de economica, e ficar num ótimo hotel.
    Também adoro hotéis, onde se possa ficar em paz.
    Preferencialmente sem café da manhã, pois senão cria-se outra obrigação: a de acordar cedo para não perder o desdejum !
    Gosto muito do “The Benjamin”, muito bem localizado, quartos enormes com banheira e muita água quentinha ! Minha mulher e filha adoram !
    Boa viagem !

  11. Ah que saudade, cheguei daí dia 4 e estou morta de saudade, só não suporto o calor, é diferente do Brasil. É queimante, ardido, sei lá. Nunca mais volto aí no calor.

  12. tente assistir o woody allen tocando no café carlyle. só acontece às 2as., 20h45… vale cada dólar!!!!

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