Viagem ao redor da internet

Um dia, a internet de Andrew Blum saiu do ar. Ele fez o que pode para consertar, não conseguiu e chamou um técnico. Olhando daqui, procurando dali, o homem chegou a uma caixa cinza e empoeirada no quintal, onde descobriu que os esquilos haviam roído os cabos. Blum, que é colaborador da Wired, não é nenhum inocente tecnológico; mas a tosqueira da qual a sua conexão com o mundo dependia o impressionou tanto que ele resolveu ir atrás da internet. Não a internet etérea da nuvem, que chega misteriosamente aos nossos computadores e smartphones, mas a internet física, de ver, cheirar e pegar. Resultado? “Tubos”, um livro de 270 páginas interessantíssimas (Editora Rocco, tradução de Ryta Vinagre), deliciosas de ler, que considero um dos dois mais originais livros de viagem que já li — e olhem tenho cancha no gênero, que é dos meus favoritos.

(A quem interessar: o outro é ” Attention all shipping: a journey round the shipping forecast”, de Charlie Connelly, que, inspirado pelo aviso aos navegantes da BBC, foi em busca de todos os pontos geográficos regularmente mencionados pela emissora — uma sucessão de lugares remotos e ilhas inóspitas, salpicada aqui e ali por uma cidade de verdade.)

Andrew Blum vai em busca das principais Internet Exchanges (conhecidas como IX ou IXP), os pontos onde as redes se encontram, em Amsterdam, Frankfurt e Londres; da vasta malha de cabos submarinos que ligam os continentes e da teia de cabos subterrâneos de Nova York; dos bancos de dados; dos magos do Vale do Silício e de engenheiros nos quatro cantos do globo. Ele visita até o Museu Telegráfico de Porthcurno, na Inglaterra.

É sempre bem acolhido: todos tem o maior interesse em mostrar a ele como é a internet, e como é o seu trabalho. O único lugar onde não consegue entrar é num banco de dados do Google, onde é recepcionado por uma RP que foge às suas perguntas enquanto fazem um patético tour entre estacionamentos e prédios fechados. Para não passar uma impressão inteiramente hostil da empresa, seus anfitriões o convidam a almoçar e a conversar com alguns funcionários, instados a dizer como gostam de trabalhar para o Google. A experiência é, no mínimo, orwelliana:

“A mensagem nem tão subliminar era de que eu — e por extensão, você — não merecia confiança para entender o que acontecia dentro dessa fábrica — o espaço em que nós ostensivamente confiamos nossas perguntas, correspondência, até ideias a essa empresa. (….) Essa era a empresa que comprovadamente sabia muita coisa sobre nós, mas estava sendo a mais reticente possível a respeito de si mesma.”

“Tubos” não é, obviamente, um livro de viagem típico. As instalações que Blum visita tem muito pouco de castelo encantado e, em geral, ficam em áreas distantes do burburinho turístico. Mas o que ele encontra, com a sua curiosidade, sua inteligência e senso de humor, não fica nada a dever às melhores atrações do mundo.

É claro que este é um livro que vai ser particularmente apreciado por geeks, mas recomendo a sua leitura para todo mundo, mesmo para pessoas que se mantém distantes da internet. Sim, elas existem: minha Mãe é uma delas, e já está na fila para ler o meu exemplar.

(O Globo, Economia, 6.6.2013)

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10 respostas em “Viagem ao redor da internet

  1. Eu escrevi aqui um post sobre o Marco Regulatório da Internet Brasileira (ou seja lá que nome essa estrovenga tenha). Sumiu ! Foi excluído ? Socorro !!!!

  2. Querida Cora,

    Tenho lido sobre essa nova lei que ELES querem aprovar a toque de caixa (lembra dessa expressão ?). Típico dessa gentalha. Criam um fato jornalístico (suposta espionagem americana, há !) e eles, que são incapazes de planejar qualquer coisa que não seja prá ganhar eleições, aparecem com uma lei prontinha querendo fazer o que países civilizados não fizeram: enquadrar a internet.

    É um tal de Marco Civil da Internet Brasileira, que mais parece aquele nome que inventaram prá ressuscitar a censura à imprensa.

    Você está acompanhando isso ? Gostaria muito de saber sua opinião.

  3. não achei em ebook em português, pelo menos para kindle.
    []’s

    ps. isso foi mais para aparecer algum comentário que tenha a ver com o assunto. ;¬)

  4. Pingback: Substantivo Plural

  5. Pedestres andam na rua Enquanto obra ocupa toda a calçada da rua Farme de Amoedo quase Prudente de Morais, naquele endereço onde nada dá certo, o restaurante nem abriu e já está dando errado. Os pedestres sem segurança alguma na rua.

    Marlene bandeira de Mello
    Rua Prudente de Morais 552/501
    Ipanema
    Tel. 22672882

    Marlene

    Enviado via iPhone

  6. De Boris Casoy a Augusto Nunes:
    As dez bandas mais perigosas do rock segundo pastor americano:
    1. AC/DC
    2. Rolling Stones
    3. Led Zeppelin
    4. Mötley Crüe
    5. KISS
    6. Twisted Sister
    7. Judas Priest
    8. Black Sabbath
    9. Ozzy Osbourne
    10. W.A.S.P.
    Os dez BLOGUES mais perigosos segundo Augusto Nunes, o bafo de gala e caçador de comunistas da Veja:
    1. Eduardo Guimarães
    2. Nassif
    3. PHA
    4. Janio de Freitas
    5. Luis Fernando Verissimo
    6. Hildegard Angel
    7. Mino Carta
    8. Tijolaço
    9. Luis Carlos Azenha
    10. Ricardo Kotscho
    OBS.: A Veja já escolheu até o seu novo herói – o BOMBADÃO das passeatas – para dar sumiço nos 10 comunas mais nocivos, segundo o bafo de gala.

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