O lemingue do Leblon

Aos poucos, o Facebook recomeça a dar sinais de normalidade: um vídeo engraçadinho aqui, um poema ali, umas fotos de viagem, uns retratos dos filhos, convites para aulas e espetáculos. Tudo ainda muito espaçado; na minha timeline, pelo menos, a política continua sendo o prato do dia, a vingança que a sociedade está adorando comer bem quente.

(Timeline é, como vocês sabem, aquela palavra brasileira que designa a linha do tempo, a área onde vemos, no nosso Facebook, o que amigos e conhecidos andaram postando.)

Não que esteja tudo resolvido; longe disso. É que a política parece, enfim, se incorporar ao cotidiano. Tomamos posse da *nossa* política, durante tanto tempo sequestrada e violentada por sarneys e renans. Na rua, exposta ao sol, ela perdeu o ranço dos gabinetes, o encardido dos conchavos, e se expôs, eletrizante, até para quem achava que ela não lhe dizia respeito. Desconfio que descobrimos, enfim, o prazer da cidadania plena e, como uma criança que ganha um brinquedo novo, levamos um tempo sem olhos para outras coisas.

A descoberta foi espantosa demais, importante demais: qualquer outro assunto se tornava irrelevante diante da força das manifestações. Eu mesma passei vários dias adiando as notícias da Frida Gahto — que está linda, gordinha e quase boa da pata quebrada — por falta de clima: gato numa hora dessas?! Agora, porém, já sabemos que não somos uma nação de zumbis anestesiados. Já sabemos que temos sangue correndo nas veias e capacidade de nos levantarmos do computador para ir às ruas. Aprendemos que, se gritarmos alto o suficiente, os nossos funcionários relapsos nos escutam. Podemos, enfim, seguir em frente.

Assim, é normal que, aos poucos, outros assuntos voltem à pauta. Não acredito que o ímpeto das manifestações tenha arrefecido, ou que os manifestantes tenham se desmobilizado. O gênio saiu da garrafa definitivamente e, na internet, sempre haverá alguém para invocá-lo quando necessário. A diferença de duas semanas para cá é que ficamos íntimos: o gênio, que antes causava comoção e espanto, hoje passa o tempo jogando Candy Crush com a moçada.

o O o

Enquanto isso, os políticos continuam metendo os pés pelas mãos. O governador Sergio Cabral, por exemplo, não acerta uma. A meia dúzia de gatos pingados que apresentou como representantes do movimento que ocupou a sua calçada não conseguiu nem 200 curtidas numa página moribunda criada no Facebook depois do encontro, ao passo que a remoção dos verdadeiros manifestantes — feita, covardemente, na calada da noite — mobilizou gente de toda parte: o primeiro veículo a noticiá-la, por volta das quatro da manhã, foi a Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, que, por acaso, tinha uma repórter online.

Na própria madrugada de terça-feira, uma ideia foi tomando corpo e pipocando em várias páginas; de manhã, já era evento registrado e, à noite, tinha presença confirmada de quase seis mil pessoas: #dezmilnaruadosergiocabral. A manifestação foi marcada para as 18hs de hoje, na esquina de Delfim Moreira com Aristídes Espínola, à altura do CEP 22440-060.

Enquanto isso, os jovens domesticados que foram ao encontro no palácio percorriam o Facebook denunciando os posts em que eram criticados. Com isso conseguiram, efetivamente, eliminar uma quantidade de críticas, já que a administração do Facebook reage de forma automática a qualquer denúncia — primeiro tira do ar o item denunciado, depois investiga. A manobra, no entanto, longe de ser um sucesso, apenas reforçou o caráter atrabiliário da administração e aumentou a má vontade geral contra o governador. Mais gol contra, impossível.

o O o

Ainda anteontem, o jornalista e escritor João Ximenes Braga fez uma ótima análise do que está acontecendo no Rio. O texto merece ser lido. Vejam só:

“E a Ocupação da Delfim Moreira foi desmantelada na madrugada. Cabral não muda de atitude, cometendo suicídio político à vista de todos. Não lhe faltaram máculas nesses dois mandatos: Cavendish, Eike, Adriana Ancelmo, Fifa, educação, saúde. O que ele tinha de mais precioso para os palanques futuros eram as UPPs e a melhoria nos índices de segurança. Desde que começaram os protestos contra a demolição do Museu do Índio até a escalada absurda de violência nas últimas semanas, porém, a PM do Rio só põe a perder a melhoria que conseguira na sua imagem e na do governador. Cabral está destruindo seu próprio patrimônio político, está perdendo a única moeda forte que tinha para eleições vindouras. Não é possível que ele não tenha visto sua vertiginosa queda de popularidade na pesquisa do Datafolha de ontem. Não é possível não haver alguém na equipe dele capaz de explicar que, na era das redes sociais, coisas feitas na calada da noite não são esquecidas. Não é possível que ninguém da sua equipe perceba que, do Complexo da Maré ao Leblon, há um clamor por mudança. Não é possível que seja só arrogância. Muita gente pode estar falando em ditadura, mas ele sabe que vai enfrentar as urnas em breve. É o suicídio político mais esquisito que já vi.”

(O Globo, Segundo Caderno, 4.7.2013)

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9 respostas em “O lemingue do Leblon

  1. Cora, o protesto aconteceu, e alguns manifestantes usaram a tática Black Bloc. Rostos cobertos ou mascarados, provocaram a polícia, arremessando pedras portuguesas, provocaram incêndios nas ruas, etc. A policia fez das suas, com gás lacrimogêneo, spray pimenta, etc.
    Cabral está metendo os pés pelas mãos. E o manifestante que adere a um Black Bloc também. Para conhecer os organizadores dos Black Blocs no Rio de Janeiro, recomendo uma visita à página deles no Facebook. https://www.facebook.com/BlackBlocRJ

  2. que bom que a Frida tá bem, não te esquece da minha proposta artística de colocar tinta em potinhos estrategicamente colocados para ela fazer umas obras no chão… pisando em cima…(tá… se sujar o resto da casa encara como difusão da arte)

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