O golpe no Egito

Muita gente no Facebook comparando a situação do Egito com a do Brasil, falando em golpe militar, constituição suspensa, e assim por diante. Nada a ver: a única coisa que os dois países têm em comum é o descontentamento evidente nas ruas.

Alguns pontos:

— Morsi se elegeu com um discurso moderado que endureceu depois de eleito, contrariando a população que fez a primeira revolução na Praça Tahrir, em 2011.

— Morsi foi eleito com uma margem mínima, teve 51% dos votos.

— Não faltaram protestos desde então, reclamando do poder cada vez maior da Irmandade Muçulmana: quer dizer, Morsi foi avisado, e bem avisado, de que não estava agradando. Não mudou os rumos da sua política porque não quis, ou não conseguiu.

— As queixas da população não dizem respeito só à questão religiosa; o país está um caos, da falta de policiamento a uma crise econômica sem precedentes. Nunca vi nada parecido com o que encontrei lá em fevereiro.

— A atual constituição, que acaba de ser suspensa, foi assinada no ano passado por Morsi e submetida à população através de um referendo que obteve 64% dos votos. O detalhe é que apenas um terço da população compareceu a este referendo.

— O Egito carece de qualquer infraestrutura social. As camadas mais pobres da população nunca tiveram qualquer assistência que não fosse por parte das mesquitas; daí a popularidade da Irmandade Muçulmana. Mas essa assistência tinha um preço, a crescente islamização do país que, até outro dia, era o mais secular dos países muçulmanos da região. Em Alexandria, por exemplo, quase não vi mulheres sem burca; bebidas alcóolicas só se encontravam nos restaurantes para turistas — e olhe lá.

— Não encontrei um único egípcio que estivesse contente com Morsi. Todos se sentiam traídos pelo homem que se apresentou como liberal e governou como religioso.

— Mohamed El Baradei, o respeitável diplomata, Prêmio Nobel e atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, diz que o golpe é uma espécie de segunda etapa da Revolução de 2011.

— Dito isso, vale lembrar que, no Egito, os militares sempre tiveram a faca e o queijo na mão. Eles são os verdadeiros donos do país.

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5 respostas em “O golpe no Egito

  1. O que aconteceu no Egito foi bom pra mostrar aos governantes o que acontece quando não escutam a voz de seu povo.Caiu!!!! Os presidentes dos outros países vão colocar as “barbas de molho”, mesmo tendo sido eleito democráticaticamente, pensou que nada poderia tirá-lo da presidência…O Egito regrediu e um povo depois de experimentar maior liberdade não se contenta de novamente ser escravo…

  2. Estou muito temerosa com a nossa situação. A de lá nem cogito, pois se trata de tudo diferente de nós e a distância geográfica é bastante grande. Aqui, a senhora presidentA está perdendo muito o rumo e o prumo que, aliás, nunca teve. Como era de se esperar, não será feita mudança alguma, pois já estamos à porta das próximas eleições e ninguém quer perder os privilégios que tem. Com toda essa conturbada situação pela qual atravessamos, o presidente da Câmara se julga no direito de ir do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro com avião da FAB e ainda dar “carona” a mais sete pessoas a fim de ver o final da Copa das Confederações de Futebol. “Ah… errei, reconheço…” e pagou menos de R$ 10 mil para o transporte ao qual não tinha o direito de usar. Aqui, o povo (e muitas ditas autoridades!) não sabe distinguir plebiscito de referendo. E a senhora toda-poderosa está encalacrada por todos os lados e perdida, sem rumo nem controle. É simples figurante da peça que ela mesma escreveu, herdou ou “colou”. Já não aguento mais ler os noticiários pois, a cada minuto, a bolha da incerteza cresce. Realmente, estou temerosa. E muito!

  3. Não teriam “a cimitarra e o queijo, na mão?”
    Muito bom o texto. Estava querendo ler algo escrito a partir do seu ponto de vista, já que esteve lá- e acompanhamos sua viagem- há pouco tempo.

  4. Entre a cruz (os religiosos) e a caldeirinha (os milicos)… Escolha dificil! Esse OM nao tem jeito mesmo, inclusive Israel, um Estado que se diz laico (e nao eh) e militarista por excelencia!

  5. Morsi foi “eleito” democraticamente e o exército tomou o poder. Aqui é diferente, apesar da insatisfação popular, não se pode depor um executivo por falta de competência ou liderança, pode-se protestar nas ruas e nas urnas.

    Se bem que tudo parece caminhar para o desejo dos caciques de seu partido, com o retorno de seu presidente de honra

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