O verdadeiro pulso da nação

O melhor ponto de observação para as manifestações são as redes sociais, notadamente o Facebook. Nelas é possível não só acompanhar a reação das pessoas em tempo real, mas também ver a pouca, ou nenhuma, penetração do governo, em suas várias instâncias, na internet — o que talvez explique porque os protestos surpreenderam tanto os políticos, afastados da verdadeira opinião dos seus súditos por camadas de mordomias e de ocupantes de cargos de confiança.

Mesmo os políticos com presença mais assídua na rede nem sempre entendem os seus mecanismos. O senador Roberto Freire, por exemplo, passa a maior parte do tempo que dedica ao Twitter respondendo a ofensas e dando trela a provocações. Lamento, mas esse ruído — que afasta as pessoas interessadas em conversar e atrai os baderneiros virtuais — não pode ser confundido com diálogo.

A presidente, por sua vez, em plena época de descontentamento geral, passou os dois últimos dias recebendo representantes de movimentos sociais… ligados ao governo! Ora, não é com eles que ela tem que se entender, como deixa claro a gritaria na rede, e sim com as pessoas que estão de fora das boquinhas. Os movimentos sociais governistas, que nunca viveram tão bem, estão muito satisfeitos com Dilma e com o PT.

Em pleno ano de 2013, não é assim que se faz. Se a presidente está mesmo a fim de ouvir a população, o melhor a fazer é dar um bordejo pela internet. Ela nem precisa perder seu precioso tempo navegando os mares da insatisfação pessoalmente; basta pedir um bom clipping a seus assessores. Se fizesse isso, evitaria o gol contra de “rezar para os convertidos”, que é como os angloparlantes dizem “chover no molhado”.

E o governador? No meio da semana, fez uma reunião com meia dúzia de gatos pingados que pertenceriam, supostamente, ao grupo de manifestantes acampado em frente à sua casa. Saindo do palácio, o tal grupo criou uma página no Facebook modestamente intitulada “Somos o Brasil” e postou um texto melancólico, em que se apresentava como voz das massas e alardeava uma próxima visita a hospital público em companhia do secretário de saúde. Vergonha alheia total!

Ontem à noite, o grupo, que se quer representativo, ostentava pouco mais de cem míseras curtidas.

O governo errou feio, errou rude. Na internet, a ordem dos fatores altera o produto: para dar a impressão de que está ouvindo a sociedade, um governador deve procurar um grupo que a represente, e não uma entidade da qual ninguém jamais ouviu falar. Em outras palavras, deve procurar quem tenha presença representativa na rede, reconhecida e eventualmente respeitada — e não juntar alguns amiguinhos que, depois do encontro, fazem página no FB.

A farsa não demorou a ser desmascarada. Desde que botou a página no ar, a turminha do Cabral não tem feito outra coisa a não ser apagar críticas — ou seja, todos os comentários, sem exceção — e os seus próprios posts. Há muito tempo eu não via um desastre de relações públicas tão explícito.

o O o

Não acredito em teorias conspiratórias, mas algo de muito estranho aconteceu na minha própria página do Facebook: o post em que eu falava da criação dessa página de amiguinhos sumiu sem deixar vestígios. Tenho testemunhas: quando o vi pela última vez, ele tinha mais de uma centena de curtidas, dezenas de comentários e vários compartilhamentos. Fui dormir; quando acordei, não estava mais lá.

Gostaria muito que algum representante do Facebook me explicasse o que aconteceu, ou vou ter que concordar com os alarmistas que dizem que a rede está sob censura.

(O Globo, Economia, 29.6.2013)

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14 respostas em “O verdadeiro pulso da nação

  1. Cora, brilhante seu raciocínio. Texto de uma lucidez admirável. Para além de todas as discussões correntes, vejo o atual momento como um divisor de águas, um choque de gerações (que nada tem a ver com idade) entre quem entendeu e quem não entendeu as manifestações, as agitações (nas ruas, nos bares, na internet). Quem ficou pra trás tentando enxergar tudo através de velhos óculos e de quem admirou por uma nova perspectiva.

  2. O momento que vivemos é realmente histórico. Equipamentos de tecnologia de ponta, projetados nos USA e fabricados na China, hoje disponíveis a qualquer cidadão brasileiro, possibilitam a maior mobilização de massa, ESPONTÂNEA, que já ocorreu no nosso país. Esses equipamentos permitiram com que, todos, descobríssemos que há um monte de gente sentindo o mesmo que nós: ou seja, (1) que nós não nos sentimos representados pelos que deveriam ser nossos representantes e (2) que esses falsos representantes estão levando nosso país para o buraco! O inconsciente coletivo brasileiro, graças à tecnologia moderna, tornou-se consciente! E não é somente o governo, em suas várias instâncias, que está perdido e não consegue perceber o que está ocorrendo na sociedade. O mesmo ocorre com instituições que deveriam representar partes da nossa população: refiro-me aos sindicatos. Na sexta-feira, dia 28 de junho, a manchete de um jornal carioca informou que as centrais sindicais e os sindicatos do estado não haviam aderido à paralisação de 1º de julho. Ora ora! A informação só confirmou o que já era óbvio: as manifestações nada tem a ver com NENHUM TIPO de representação política oficial e formal. Nem a sindical. Os sindicatos estão tão alheios e perdidos quanto ao que se passa quanto o governo! Esta é REALMENTE uma imensa e profunda crise de representação!

  3. Estou recebendo vários emails repassando a mensagem de um dos organizadores do Ocupe Delfim Moreira que diz estar sofrendo ameaças de morte, em virtude das 3 reivindicações apresentadas pelo grupo:
    “1 – a reabertura da investigação do caso da Delta Construções (do empresário Fernando Cavendish);
    2 – uma audiência para investigar os gastos excessivos na obra do Maracanã (orçado em R$ 500 milhões, mas que custou mais de R$ 1 bilhão e 500 milhões)
    3 – uma explicação da relação que a mulher do Cabral tem com os grandes empresários do setor de transporte público (já que ela é advogada de empresas como Metro Rio e Super Via, ambas por concessão, o que seria ilegal).”

  4. também vi o post à noite e, no dia seguinte, quando chega a notificação por email, o link estava quebrado. pensei que você o houvesse removido. não sei se é conspiração ou calhou de, numa coincidência, o facebook dar mancada bem naquela hora. pior que isso é possível. 🙂

    quanto à bajulação de governantes a “representantes” do “movimento”, se Cabral conseguiu ser o mais escandaloso até agora, não foi o primeiro. aqui em São Paulo, quando tudo começou, Alckmin e Haddad pareciam combinados, de tão semelhantes que eram seus discursos. bastou a PM lesa e mal orientada cometer aquela estupidez para que, no dia seguinte, o prefeito mudasse o discurso e passasse a proclamar o enorme respeito que sempre teve pelo Movimento Passe Livre, nascido há mais de uma década na forja do fogo da juventude petista. talvez seu erro, a partir de então, tenha sido considerar que a tal juventude petista, enquanto maioria militante do MPL, fosse facilitar as coisas para ele… mas… será?… hummm… pensando bem… nem foi um erro, só não foi algo tão escancarado quanto no caso carioca.

    fato é que, depois do leve flerte com a juventude petista do MPL, Haddad os convidou para um chá com a imprensa, ou algo assim, e, naquilo a que eu assisti como uma farsa muito bem montada e bem dirigida, costuraram, ao vivo, para toda a imprensa, um acordo de bagunça com prazo marcado. saíram de lá cada um representando ainda seu papel e deu no que deu. Haddad procurou o governador, e o resto todos já sabem.

    essa história ainda vai ser contada e recontada muitas vezes em futuras propagandas eleitorais, das mais variadas formas. e muita gente vai se espantar – eu não – com a maneira que o PT há de contá-la.

    é triste, mas, esse joguinho de manipulação é bem maior do que parece. xiiii… acho que ando muito bitolado.

    beijos!:)

      • não sei se vem de antes ou depois do Lula, nem sei se são só os políticos juramentados que compartilham os mesmos métodos, nem sei mesmo se sempre usam os mesmos, mas o de que não duvido é que há tanta gente se movendo sempre pelos fins, quaisquer que sejam os meios utilizados, que não vejo perspectivas de mudança sustentável no sistema político nacional, apesar do período tumultuado.

        aliás, é só isso, o tumulto, que diferencia o momento atual do momento anterior.

        generalizando, apesar das honrosas exceções que certamente ainda há, continuamos num país em que os fins justificam todos os meios, e nisso não há Justiça nem Progresso. e não é mesmo, motivo de orgulho para ninguém.

  5. Depois de tudo que se viu, ouviu e discutiu. Só uma coisa tenho a pedir: TRANSPARENCIA DE NOSSOS GOVERNANTES!!! Que dificuldade…

  6. Vc já devia estar acostumada com esse tipo de gente!! Eles querem calar a sua voz!! Tudo q vc escreve faz diferença,na hora de formarmos a nossa opinião ! Muitas vezes vc leu meus pensamentos!! Bjs

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