Páginas da revolução

“Há 20 anos Norberto Bobbio dizia que nunca existiria uma democracia absoluta e de fato porque nunca inventariam uma máquina onde o cidadão publicasse na hora sua opinião, sua escolha e sua vontade. Mas essa máquina já foi inventada, e estamos usando ela agora.” Isso foi escrito numa das áreas de comentários da minha timeline do FB ontem à tarde, pelo Júlio Silveira. A máquina é nova e está mostrando a que veio, embora interpretar os seus sinais ainda não seja fácil. Na terça, Carlito Azevedo resumiu, também no Facebook, a perplexidade geral: “Quem não estiver confuso, não está bem informado”.

Estamos vendo, no Brasil, o que já se viu em alguns lugares do mundo: a insatisfação popular vindo à tona sem precisar pegar carona em comícios, em atos partidários, em convocações formais. Ao contrário do que imaginavam os críticos da rede, o ciberativismo não se esgota em si mesmo. As manifestações da semana mostraram que há um ponto de interseção entre a “vida virtual” e a “vida real” — embora, hoje, já seja antigo distinguir uma da outra. “Saímos do Facebook”, dizia um dos cartazes empunhados pelos manifestantes.

A rede foi o ponto de ligação entre as várias tribos. Ficou tão sobrecarregada que mal conseguia se mover e chegou a cair algumas vezes em alguns lugares. No Largo da Batata e na Candelária, a rede 3G foi para o brejo, dando origem a boatos e teorias conspiratórias. “Cortaram o 3G!” tuitavam os mais tensos. Nada. Era apenas gente de mais para serviço de menos.

o O o

O Facebook, o Twitter e, numa escala menor, o YouTube, estão sendo os pontos de observação ideais para acompanhar o movimento. Não há forma de mídia tradicional que consiga ficar de olho em tantas paisagens simultaneamente, ou ecoar tantas vozes ao mesmo tempo.

O espetáculo é fascinante. Pela primeira vez, a política domina as timelines, de alto a baixo. Como num passe de mágica, sumiram as frases de efeito, os convites para joguinhos, as intermináveis discussões sobre futebol, as fotos de gato (nada é perfeito!). Gente que ainda ontem parecia impermeável à política não fala em outra coisa e discute os custos da Copa, a PEC 37, a ação dos vândalos, a reação da polícia, o caráter suprapartidário das manifestações. Salvo um ou outro tópico mais controverso, nunca nada do que postei nas redes sociais teve a repercussão que estão tendo os meus posts sobre as manifestações. Não é só comigo que isso acontece; o fenômeno é geral.

Os índices de ruptura têm sido altos. Quando opiniões mais densas e reveladoras vêm à tona, descobrem-se diferenças, por vezes irreconciliáveis. Isso também faz parte do processo.

o O o

A experiência é nova para todo mundo. É como se a moçada tivesse se politizado do dia para a noite — e é como se os mais velhos vissem renascer, em si, uma esperança há muito adormecida.

— Eu estou me sentindo mais jovem — me disse uma amiga que já passou dos 70 mas adora a internet. — Era como se a vida tivesse parado naquela mesmice, naqueles assuntos mornos que há tantos anos tomaram o lugar das grandes discussões.

Verdade. De repente o Facebook, que até outro dia parecia um manual de auto ajuda, virou um romance extraordinário, que não se consegue parar de ler.

Mesmo que as manifestações se desmanchem no ar, elas já deixaram um efeito muito positivo na internet, onde muitos aprenderam, e alguns estão relembrando, que a política é assunto sério demais para ficar só nas mãos dos políticos.

(O Globo, Economia, 22.6.2013)

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3 respostas em “Páginas da revolução

  1. Oi Cora
    Apenas para dizer obrigada pelos seus textos e opiniões. Não preciso concordar com tudo que vc escreve para me sentir bem em ler coisas inteligentes, coerentes e sobretudo bem escritas. CAT PEOPLE!
    Continue assim,
    Adriana

  2. Cora
    Eu já tinha pensado nisso quando do plebiscito das armas. Lembra ?
    A net é impermeável à censura.Por isso as ditaduras não a admitem.
    Uma notícia ou boato tem repercussão imediata.
    Pensa que a República foi proclamada em função de um boato espalhado por 3 oficiais ,que o Imperador mandara prender Deodoro.Lá se foi o Imperador.
    As cartas falsas de Artur Bernardes,devidamente exploradas pelo Correio da Manhã provocaram a revolução de 1922,dezoito do Forte,etc.
    A esperteza do pessoal de Brasilia que não quer largar o osso convocou para negociar os lideres de um movimento sem lideres .Estão chamando Netuno para negociar um tsunami
    Netuno não vai aparecer e eles vão baixar o pau pois estão com medo
    .Basta ver os ataques injustos ao Nelsinho, ao Kamel e a você.
    Acharam que fazendo algumas concessões a coisa esfriava.Não esfriou.Tentaram voltar a ser donos do urso com suas bandeiras,não deu certo
    O pessoal do governo tem treinamento em agit-prop e sabe que a coisa fugiu do controle.
    Os garotos de São Paulo,sabiamente já tiraram o deles da reta.
    A frase do governo vai ser : “Movimento sem liderança é baderna”
    .Os antigos terroristas vão agir contra uma manifestação popular como se fosse uma tentativa de golpe.(O pior é que os imbecis da extrema direita já estão fazendo petições para impeachment da Dilma) .Nazistas e Comunistas são feitos do mesmo material fecal.
    Espero não ser Cassandra mas acho que depois dessa primavera vem o inverno,sem outono.
    Vamos cuidar de nossos gatos e lamentar a estupidez dos radicais.

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