Skeumorfismo: que palavrão!

O lançamento do Windows 8, e das suas versões para smartphone, jogaram lenha na fogueira de uma das discussões favoritas do planeta design. De um lado, os defensores das linhas limpas e bi-dimensionais, também conhecidas como “flat design”; de outro, os fãs do skeumorfismo. Skeumorfismo, que derriva das palavras gregas skeuos (ferramenta) e morphos (forma), é o termo que define ornamentos ou detalhes aplicados a um objeto que aparentam ser algo que não são. Por exemplo, os botões realistas de liga e desliga de tantos aplicativos, ou a estante do ícone de biblioteca do iPhone.

O skeumorfismo não nasceu com a tecnologia da informação; ele é bem mais antigo, e todos nós já tivemos incontáveis encontros com ele. A parte do filtro dos cigarros que imita cortiça é um exemplo, assim como os painéis de fórmica se fazendo de madeira, de plástico ou outros materiais. Filha de arquiteta, cresci com horror dessas contrafações, e nunca respeitei materiais que se envergonham de ser o que são. Para mim, há algo de irremediavelmente cafona num produto que não se assume.

O iOS é o triunfo do skeumorfismo, com seus ícones tridimensionais, reflexos e sombras projetadas — para não falar na supracitada estante de madeirinha clara. Note-se que, ao ser lançado, o iOS não estava propondo nada de inédito. Na verdade, toda interface gráfica dos computadores era essencialmente skeumórfica, com suas pastinhas desenhadas como verdadeiras pastas de arquivo, suas lixeiras, seus relógios analógicos. Havia um sentido nisso, como observou Kelsey Campbell-Dollaghan no Gizmodo, essa semana: como a tecnologia era nova, e as pessoas ainda estranhavam os computadores, os ícones tridimensionais eram uma forma de tornar os comandos mais familiares. Tiveram a sua utilidade.

O lançamento do Windows 8, e dos seus primos Windows Phone 7 e 8, reavivou a discussão. Suas interfaces limpas, em que nenhum elemento finge ter três dimensões ou ser feito de algum material “nobre”, é um refresco para quem nunca simpatizou com interfaces skeumórficas. Não deixa de ser irônico que, dessa vez, a Microsoft, que nunca se caracterizou pelo bom gosto, esteja dando as cartas; mas o fato é que a interface do Windows Phone 8 faz com que tanto o iOS quanto o Android pareçam irremediavelmente antigos.

A essa altura, a central de boatos Apple está a todo vapor. É que dizem por aí que o iOS 7, que está a caminho, dá uma virada radical e vem em versão flat, bi-dimensional. Se isso for verdade, o próximo da fila deve ser o Android, que não vai querer ficar para trás.

o O o

Quer assistir ao catálogo da Netflix dos Estados Unidos em vez da Netflix BR? Quer ter acesso ao conteúdo de video da Amazon? Quer aproveitar todo o rico acervo do Hulu? É fácil. Basta recorrer aos serviços gratuitos da Hola.org ou da Unotelly.com, cuja assinatura mensal custa US$ 5. Os dois mudam o DNS da sua conexão internet, ludibriando serviços com restrições geográficas. Tanto um quanto o outro são facílimos de instalar. Eu optei pelo Unotelly porque ele pode ser instalado também na Apple TV e no iPad, de onde passo o material da Amazon para a TV via airplay.  Outros sistemas parecidos são o Mediahint.com (grátis) e o Unblock-us.com (US$ 5 mensais).

Pablo Cerdeira, professor de direito na FGV e subsecretário de proteção e defesa do consumidor no Rio de Janeiro,  faz, porém, um alerta:  todos os serviços anotam os passos do internauta, ou seja, privacidade zero.

— Sabe aquela frase: “quando o produto é de graça, cuidado, porque o produto é você”? Então, é bem o caso, — diz ele. –Na condição de subsecretário de defesa do consumidor, minha dica é: quer usar, ok, mas faça isso sabendo que seus dados serão anotados e você não terá privacidade na navegação enquanto estiver usando os DNSs fornecidos.

(O Globo, Economia, 1.6.2013)

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18 respostas em “Skeumorfismo: que palavrão!

  1. Olá Cora,
    Sou mais um leitor assíduo e admirador de suas colunas desde os tempos remotos do DOS.
    A propósito, nunca vou esquecer o livro do Judd Robbins que você me recomendou
    em telefonema que dei à redação (nem lembro de que jornal foi, JB, talvez) nos idos de 1991.: “Mastering DOS 6.2”.
    Na época eu estava descobrindo um “mundo novo”, o da microinformática, e também o
    li como um romance. Por muito tempo carinhosamente o guardei.
    Bem, agora estou voltado para o MAC e estou apaixonado, embora não tenha deixado o Windows inteiramente de lado. Não, ele continua, ainda, rodando no meu Mac através do Parallels, um software genial que permite que se tenha virtualmente dois computadores em um só, rodando lado a lado Windows e OSX.
    Você falou há poucos dias da Apple TV. Também tenho uma, que adoro. Pois no mesmo dia do WWDC deste ano a Apple TV colocou mais uma opção para nós: acesso direto, sem necessidade do YouTube, aos mais recentes eventos WWDC, inclusive o
    da última 2a. feira. Tive a alegria de compartilhar de toda aquela emoção dos “mac lovers” (acho que sou mais um) ao presenciar os principais executivos
    da Apple apresentando orgulhosamente os lançamentos deste ano: IOS7, OSX X (“no more cats”), agora Mavericks (famoso point de ondas grandes da Califórnia é o nome do OSX 10.9), novos chips da Intel nos MacBooks Air com enorme autonomia da bateria, etc., etc. Enfim, foi um show de alegria e vibração que nao sei se ocorrem com outras plataformas de informática. E tudo quase ao vivo, em alta definição, através da Apple TV.
    Quem sabe em futuros artigos você poderia falar alguma coisa sobre esse evento da Maçã ?
    Atenciosamente
    Gustavo Garcez

  2. Oi Cora!
    Achei muito interessante a sua dica para assistir ao Netflix e Apple TV americanos. Uma duvida, nao consigo comprar nada ja que minha Apple ID é brasileira. Ja tentei criar uma americana com meu cartão de credito e não consigo.
    Alguem pode ajudar?
    Obrigado!

  3. Discordo totalmente. Na vida real, alguns skeumorfismos costumam mesmo ser cafonas, como as placas de fórmica, mas no mundo virtual acho muito bem vindos. Adoro o skeumorfismo do iOS, acho muito bem feito, e até mesmo o do Windows. Simplificar, nesse caso, é enfeiar. Não entendo de que forma tornar os ícones mais simplórios possa ser considerado uma melhoria, uma evolução. O calendário do iOS para iPad, por exemplo, ao perder seu aspecto de agenda verdadeira, vai perder muito o pitoresco, e se tornar algo mais frio e insosso. Já é tão frio o mundo virtual, onde não se sente o cheiro do papel, da textura dele em nossos dedos, já é tão frio digitar numa tela de vidro… O skeumorfismo traz um pouco mais de humanidade e vida ao ambiente virtual, mas infelizmente, parece que sou minoria vencida ao pensar assim…

    • Não é minoria não, concordo com você. O que eu acho é que a Microsoft é tão sem imaginação , de um mau gosto insuportável, que mais uma vez quer enfiar goela abaixo seus produtos sem graça. Achei lindo o skeumorfismo do iOS, bem feito, caprichado. Não sei sua idade, mas sou do tempo do TK85, MS-DOS e Apple //e . Quando descobri os ícones do computador AMIGA, fiquei maravilhado (isso em 1988, e ele funciona até hoje !!!) ! Só em 1995 é que a MS veio com a “novidade” do Rwindows95. E só faz piorar ! Já viram que feios os ícones do Win7 ? Comparem com os PNG Icons ! FORA MICROSOFT !!!

      • Complementando, skeumorfismo em excesso pode ser cansativo, mas nunca feio. Exemplo inútil e feio: o processo de cópia do Rwindows, aquela folhinha de papel voando loucamente de um lado pra outro….

  4. Li sua publicação passada sobre o W8 e fui comprar um novo celular para minha mulher, que viu o Lumia 900 na novela e achou lindo. Na loja vimos os Lumia 920, Nexus 4 e o Iphone 4S e ela ficou indiferente, disse que ficaria com o meu IOS e que eu poderia escolher um para mim. Fiquei em dúvida, gostei na interface do W8, mas a tela do Nexus 4 me fez experimentar o Android. Passada a curiosidade, bate uma pontinha de arrependimento de não ter comprado o Lumia 920. Parece que o Android puro um clone do IOS, ou vice versa.

  5. Corinha querida, mais uma coluna dessas e eu compro um Windows phone 🙂
    Passarei a conviver c/ mais um OS alem do IOS e Android,
    E viva a diversidade ! Bj.

    PS: Optei por Skydrive tambem pela beleza da interface, passivel de melhorias como tudo na vida.

  6. Verdade, Cora, sempre me incomodou bastante essa tendencia meio pueril de se skeumorfizar a interface dos computadores pessoais. Como se nos, usuarios, fossemos um bando de retardados. Aos poucos fui me acostumando…
    Mas, lendo o teu texto de hoje, tive um insight: afinal, nao estamos todos metidos nesse mundo absolutamente virtual, numa realidade fantastica na qual TUDO nao passa de ornamentos e penduricalhos para dourar a pilula e a tornar mais palatavel? Ou teremos que caminhar para a abstracao pura, para a essencia do chamado mundo digital? Matematica, algoritmos? Mas o que entao dizer dos executivos tipo da IBM, que trabalham em cenarios do Second Life para receber clientes e subordinados – um bando de retardados?
    Quanto a “materiais que nao se assumem”, concordo plenamente contigo. Cafonice. E como estamos rodeados deles!

  7. Cora, amo seus artigos…tanto, que acabei comprando um WindowsPhone (estou que nem criança, tipo 1º celular). Obrigada pelo artigo e pela dica do maravilhoso celular!

  8. Skeumorfismo. Interessante! Gosto de coisas simples mas práticas, sem enfeites, sem rifofoques (como diz mami). Provavelmente meus próximo celular será com Windows Phone. O meu antigo está pedindo outro. Muito boa a matéria.

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