Sequestro na madrugada

E não é que os bandidos continuam ligando dos presídios? Acabei de receber a ligação de uma voz chorosa:

— Mãe… mãe…

Fiquei com vontade de dizer uns palavrões, mas me contive. Estava curiosa em ver como é a conversa dos caras.

— O que foi?

— Eu fui assaltada. Me roubaram tudo. 

— Onde é que você está?

— Estou no carro com eles, eles estão com uma arma…

— Não estou entendendo nada, fala direito!

— Eles estão com uma arma apontada para a minha cabeça.

— Ah, tá. Mas para de chorar porque não estou entendendo nada do que você está dizendo.

— Eu vou passar pro cara que me assaltou e que está com a arma.

— OK.

— Boa noite, senhora. Fica calma

— Eu estou calma.

— Nós estamos aqui com a sua filha.

— Isso eu já entendi.

— Nós fizemos um assalto, a coisa não foi bem para nós e infelizmente tivemos que pegar ela e mais dois rapazes. Posso confiar na senhora?

(Achei o pedido meio esquisito vindo de quem vinha; estava me segurando para não cair na risada, afinal os coitados estavam se esforçando no teatrinho.)

— Depende. Confiar como?

— Nós não queremos polícia no caso.

— Ah, OK. Onde vocês estão?

— A senhora está me perguntando isso para mandar polícia, não é?

— Não, estou perguntando por curiosidade. mesmo.

— Nós estamos com ela e com os rapazes no carro. Precisamos marcar um encontro com a senhora para entregar a sua filha. Nós estamos com ela aqui…

— Sei, isso eu já entendi.

— É a sua filha. Eu estou ligando para a senhora do celular dela, não estou?

— Como é que eu posso saber? Você ligou para o meu fixo, eu não vi o número. Qual é a marca do aparelho?

(Voz ao fundo, aos prantos: “Mãe, socorro mãe!”)

— Minha senhora, eu não estou querendo machucar a sua filha…

— Tá certo, mas qual é a marca do aparelho dela?

(“Mãeeeeeeee… Socorro, mãeeeeeeee!”)

— É a senhora que vem pegar a sua filha?

— Claro que não.

— Quem é, então? É a polícia? Já falei que a gente não quer polícia!

— Não, nada de polícia.

— Quem é que está aí com a senhora? 

— Como assim?

— Quem é que está escutando essa conversa?

— A minha família, ué.

— Mas quem, porra?!

— Ah, você é muito mal educado! Pode ficar com essa moça.

Quando desliguei, vi o número no meu aparelho. Deixei passar um tempinho, peguei um celular que está aqui para teste e liguei para lá. Tocou, tocou e acabou sendo atendido pelo cara que falou comigo. Desliguei. Comecei a escrever este post, e daqui a pouco o tal celular começou a tocar, chamado pelo indigitado número. É claro que não atendi. Em vez disso, telefonei para o 190, onde me informaram que não era com eles (!) e sim com a Polícia Civil. Liguei para a 14ª, expliquei o que houve, passei o número dos “sequestradores” e fui fazer um café.

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19 respostas em “Sequestro na madrugada

  1. Para mim esta é apenas mais uma faceta de uma sociedade que vive dominada pelo crime nos seus mais diferentes níveis – do pequeno marginal que, na base da pirâmide, atua no varejo da delinquência, ao salafrário engravatado que atua no atacado com suas malas e cuecas recheadas de numerário, chantageando a máquina pública em nome do(s) partido(s) que representa(m) no topo da pirâmide dos três poderes.

    Cora, apesar da brilhante descrição, cômica se não fosse trágica, e temperada como sempre com ótima dose sarcasmo, sou cada vez menos motivado a achar graça neste tipo de situação e cada vez mais angustiado ao reconhecer na lendária tolerância e ‘cordialidade brasileira’ o quinhão de responsabilidade que, em parte, ajudou a construir pelo voto obrigatório o que muito provavelmente já é hoje a maior organização sociopolítica do mundo a viver em estado de anomia absoluta.

    Gastamos bilhões em pão e circo para a Copa do Mundo enquanto os nossos hospitais e escolas apodrecem porque há muito convivemos com sistema social que tolera isso tudo numa boa. Que exemplo tem o golpista em um país onde o Executivo corrompe, o Legislativo chantageia e o Judiciário defende e o povo financia compulsoriamente?

    Não tenho a menor dúvida: enquanto o Judiciário estiver aparelhado com o único intuito de assegurar a defesa da impunidade; que o executivo for essa Excrecência que é; e que o povo continuar sendo refém de um sistema eleitoral construído com o único objetivo de garantir emprego à mais abjeta categoria política da humanidade desde a Roma antiga, o Brasil continuará a ser estudo de caso para cientistas políticos e antropólogos de outros países que tenham interesse em conhecer o que é uma nação viver sob o jugo da criminalidade em todos os seus níveis…do golpista de celular ao juiz que vende sentença e ou deputado que troca voto por cargo público…Enfim, só um desabafo.
    Abs

  2. Cora…ontem, caminhando pelas ruas inacreditavelmente limpas aqui em Montreal, no Canadá, eu dizia: que maravilha é estar num lugar onde podemos caminhar tranquilos sem a preocupação de olhar pros lados ou segurar a bolsa. Onde podemos estacionar o carro sem medos, podendo viver em verdadeira liberdade. Que bom é viver num país livre…

    Em Brasília, onde moro, certa vez recebi uma ligação. Do outro lado: “mãe, mãe, fui sequestrada”. Num ímpeto, desliguei o telefone, eu que não tenho filhos. Mas, ainda assim, meu coração de mãe sentiu uma fisgada incômoda e eu passei o resto do dia pensando quão à mercê estamos.

    Que ruim é viver prisioneira em um país tão cheio de belezas e espaços.

  3. Há uns 5 anos ligaram para mim dizendo que a minha filhinha, que estava quietinha lá na sala de aula do Colégio Santo Agostinho, tinha sido sequestrada. Falei para os sequestradores que eu era duro, mas o avô dela podia resolver o problema deles. Eles perguntaram qual era o telefone do avô. Eu disse: – Pergunta para ela, não está aí do lado de vocês ? ( ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ) Não ligaram mais……….

  4. Minha única filha estava na Europa e tinha acabado de falar comigo pelo Skype. Tocou o telefone dez segundos depois e eu atendi. “Mãe, mãe, fui assaltada…”. E eu fiquei firme: “U[e, como assim?”. A voz imediatamente mudou o choramingo: “Tia, tia, fui assaltada…”. Hahahahaha.

  5. É que a esse pessoal cheio de saude e imaginação (mas não para o trabalho, que trabalho faz calos), o saque das bolsas-familias não é suficiente.

  6. Pra cá já ligaram com uma versão diferente. Como aqui na serra tem muito motoqueiro ligaram dizendo que era um bombeiro, que tinha atendido um motociclista acidentado e que nosso telefone foi encontrado com o acidentado.
    Eles vão adaptando o golpe mas acho que a essa altura todo mundo já sabe e acho que não acreditam mais!

        • Sim ! Minha tia avó,bem idosa,que é diabética e cardíaca recebeu um telefonema desses,falando que o filho dela tinha sido sequestrado e iria morrer se ela não fizesse o que eles iriam instrui-la a fazer,e ela,cambaleamdo,passando mal,saiu na rua e comprou créditos para um número de celular,depois falaram que ela aguardasse novas instruções,ela chorava e tentava ligar para o filho,mas o telefone só dava caixa postal,mais ou menos uns 40 minutos se passaram nesse estado de desespero,com eles,os bandidos,torturando-a psicológicamente e lhe impuseram tal terror que quando o filho chegou a encontrou semi desfalecida,ela teve
          um princípio de infarto,sobreviveu porque foi socorrida a tempo …

          • Pois é, Iluska… Onde estão os famosos bloqueadores de celulares ?
            Casos como os de sua tia avó ficam por isso mesmo. Se
            ela não tivesse sido socorrida a tempo, iria, também, ficar
            por isso mesmo.
            Vera

  7. telefone bom deveria vir com um botãozinho que a gente apertasse e explodisse o aparelho do outro lado da linha. seria útil para esses casos e os de ligações do telemarketing. (ok… não explodisse, mas, pelo menos desse um bom choque.)

  8. Ha duas noites atrás , também fui premiada com uma dessas jóias sem imaginação.
    Sonada, mandei-o às partes , mandei matar a menina , desliguei o telefone e comeecei a contar carneirinhos. Não consegui dormir mais… Alguma ele conseguiu…

  9. Cora, você tem sangue gelado e pavio longo. Já recebi três vezes a tal ligação. Na primeira, acabei logo com a brincadeira. Era noite, mas não tarde, e eu estava ocupada, vi que era trote e desliguei o telefone. Na segunda, me telefonou uma voz de rapaz, me chamando de tia e pedindo para eu depositar um dinheiro na conta dele, pois estava na rodoviária, havia batido seu carro num táxi e precisava pagar o conserto. Achei a voz parecida com a de um sobrinho e disse o nome. Ele confirmou. Como eu estava com sono, era cedo e eu acordo muito tarde, disse-lhe para esperar que iria anotar número da conta e banco. Demorei alguns segundos e, claro, o fulano desligou o telefone. Na terceira, era por volta de meia-noite. Aí começou a imploração com o rapaz, que me chamava de “mãe”. Quando outra voz veio falar comigo, disse-lhe que matasse o rapaz, pois ele não prestava mesmo e só dava trabalho. Claro, o bandido desligou.

  10. Prezada Cora. Acompanho faz muito tempo seu trabalho.
    Achei engraçado este relato do tal “sequestro”. Agora eles não estão pedindo mais dinheiro. De fato agora querem que alguém vá ao encontro deles para ai sim consumarem um sequestro e realizar o pedido de resgate. É isso que você quer deixar destacado?

    Um forte abraço.

  11. qd recebo envio a informação com o numero pela Delegacia Legal, via computador. Acho q todos se chateia menos, não anoyam em papeizinhos fáceis de perder e , se quiserem, print. \\ tb vou no http://quemperturba.inerciasensorial.com.br/ e informo q tal numero foi utilizado para este fim. E se estiver mt a fim de ser legal, descubro a operadora (tem 1 site q informa qual atende esse numero hoje) e tb os informos, via fale conosco ou tuiter. Enfim, faço direitinho meu papel de cidadã, me aborrecendo o mínimo, \\ mas na conversa, depois de escutar tudo, esculacho “minha filha” dizendo q ela escolheu essa vida qd foi namorar funkeiro e q agora se vira, oq eu desisti! —-> vc precisa ver a liçao q os bandidos me dão por ser péssima mãe!!! \\ sobre estarem presos, informo q ainda são do “Seguro”, grupo sem facção, sem envolvimentos diretos, mts estupradores,… Enfim, marginalizados pelas facções. @snowing

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