A TV do futuro, em cartaz há anos

Quando comecei a escrever esta coluna no Segundo Caderno, lá se vão muitas luas, era relativamente fácil saber quais assuntos vinham para cá e quais iam para a tecnologia (à época chamada de “informática”). Havia uma regra simples: se o assunto tivesse tomada ou bateria, ia para o Info etc. Mas o mundo mudou mais rápido do que poderíamos imaginar, e tudo se misturou. Todos nós, nerds ou não, passamos a precisar de mais tomadas, e gastamos pequenas fortunas com pilhas e baterias. Hoje nossa vida cultural depende tanto da tecnologia que chega a ser difícil lembrar como vivíamos antes da internet, dos celulares e dos tablets.

Agora, depois de um período de resistência, passei a fazer parte também do grupo que divide o tempo em antes e depois dos midia centers. Como ouço música no computador, quase não assisto TV e compro DVDs em quantidade, achei que este era um produto de que não precisaria nunca; mas estava enganada, como ficou claro desde que ganhei uma Apple TV de Dia das Mães.

E aí volto àquelas primeiras linhas. Onde escrevo sobre midia centers, na coluna dos sábados, na Economia, ou aqui? Midia centers têm tudo para se encaixar em tecnologia mas, ao mesmo tempo, são fontes inesgotáveis de conteúdo — ou seja, assunto perfeito para cá. Dúvida cruel! No fim da discussão que travei de mim para comigo, venceu o argumento de que, como os mídia centers não chegam a ser novidade, não há por que discuti-los em tecnologia. Por outro lado, ainda há muita gente que não travou contato com eles — e não sabe o que está perdendo.

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Um midia center é, basicamente, um computador para a televisão. Ele fica ligado à rede wi-fi e ao aparelho de TV, de modo que o que se assiste no tablet, no notebook ou no smartphone se pode assistir na televisão. Ao mesmo tempo, oferece um cardápio variado de entretenimento, transmitido pela internet. Falando assim, não parece muita coisa. Para que assistir ao YouTube na TV? Há, porém, muito mais diversão num midia center do que imaginamos a princípio — até porque  ele permite que o usuário assista ao que quiser, na hora em que bem entender. E sem propaganda para atrapalhar! O lado bom é que passamos a ter absoluto controle sobre o que consumimos na televisão. O lado ruim é que isso vicia, e passamos a perder um tempo incalculável de olho na tela.

Há alguns meses, por exemplo, fiz uma assinatura do Netflix. É barato, e achei que seria interessante ter uma locadora à minha disposição no iPad. Assisti a meia dúzia de filmes e a uns poucos capítulos de seriados, e nunca mais. Tablets são bons quebra-galhos, mas estão longe de ser o ideal para cinema em casa.  Só voltei a me relacionar com o Netflix quando o Paulinho me deu a Apple TV — e estou feliz da vida.

Minha experiência com TV aberta e TV a cabo é frustrante, em parte por causa do meu relógio biológico, que é uma perfeição na Austrália mas um atraso de vida no Brasil. Adoro o Discovery e a NatGeo, mas no horário de que disponho eles só mostram casos policiais e bizarrices. Tenho uma boa cinemateca, rica sobretudo em filmes indianos e coreanos, mas já vi quase todos os meus três mil e tantos filmes. Ora, por mais que eu goste de reprises, também gosto de novidades. É aí que entra o Netflix, que me permite escolher entre uma quantidade de filmes, séries e shows, sem me punir pelo fuso horário.

O seu grande defeito é a navegação, que é péssima. Em nenhum lugar há a opção de se ver a íntegra dos títulos disponíveis. Mesmo quando selecionamos gêneros e sub-gêneros, a filtragem apresenta apenas seleções, volta e meia mal classificadas. Tudo, em suma, foi feito para dizer ao usuário o quê assistir, em vez de deixar que ele decida. Isso é muito chato para quem, como eu, gosta de olhar o bufê inteiro antes de fazer o prato. Ainda bem que a comida é boa e o preço é baixo.

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A Apple TV é apenas um dos vários midia centers do mercado, mas é o mais elegante e fácil de usar. Tem o serviço de compra e aluguel de conteúdo da Apple Store e uns poucos canais no Brasil, mas lá estão o Netflix, o YouTube e algumas opções de esporte, mais incontáveis podcasts e estações de rádio. A caixa não tem entrada USB, o que significa que não pode ler pendrives ou discos rígidos; em compensação, tem um airplay que é uma maravilha. Em outras palavras, ela se conecta com o iPad ou com o iPhone via wi-fi, passa a ter acesso a todo o seu conteúdo do iTunes e reproduz, na televisão, o que quer que se mostre nos aparelhos, inclusive videos baixados da internet. Ela também aceita sem problemas o teclado Apple, o que é vantagem para quem já tem um em casa.

Sei que tudo isso pode soar intimidador para quem não tem familiaridade com computadores e similares, mas acreditem: instalar e usar a Apple TV é o que há de mais fácil. Usar um processador de alimentos feito o Cuisinart é muito, mas muito, mais complicado.

(O Globo, Segundo Caderno, 23.5.2013)

 

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8 respostas em “A TV do futuro, em cartaz há anos

  1. Também assinei a Netflix e no início me entusiasmei…vi alguns filmes, daí o povo do site começa a “sugerir” os filmes, daí eu quis ver uns seriados que todo mundo comenta , daí que não vi nada, daí que “cadê tempo” , daí que não tem vários filmes que eu tb queria ver…e quem sabe se eu ganhar a TV que vc ganhou, eu volte a ficar entusiasmada? Bjs , Cora.

  2. lá no site da apple store aparece um tal de airport express como acessório. não consegui entender para o que ele serve… é acessório mesmo, ou é daqueles que só depois a gente vai descobrir que tem que ter?

    []’s

  3. Continuo preferindo baixar os filmes em HDMI via torrent e assistir na minha TVzona conectando o meu ultrabook Samsung através de um simpático cabo com 2 metros de extensão ! Nada de depender de ninguém, muito menos de corporações ultra espetaculares !

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