Castelo de cartas

Frank Underwood, líder do governo no Congresso, é um homem poderoso. Ajudou a eleger o presidente dos Estados Unidos e esperava ser, em troca, o próximo Secretário de Estado.  Pouco antes da posse, porém, foi despachado sumariamente pela futura chefe de gabinete: o presidente eleito estava ocupado demais para dar-lhe a má notícia em pessoa. Grave erro! Naquele momento, Underwood decidiu dedicar toda a sua energia a sabotar a administração.

Frank Underwood é Kevin Spacey, protagonista da série “House of cards”. É um personagem shakespeariano na ambição, na falta de escrúpulos e na capacidade de manipular pessoas. O roteiro não esconde o jogo. Assim que o conhecemos, ele estrangula o cachorro do vizinho, que foi atropelado; antes do fim do primeiro episódio, tantas terá feito que se provará digno do congresso brasileiro. Apesar disso, torcemos por ele. Mérito de Kevin Spacey, que é um ator extraordinário, e da trama, emprestada de uma série inglesa que, com o mesmo nome, fez sucesso há coisa de vinte anos. Para quem tiver curiosidade em conferir: basta procurar por “House of cards + UK” no YouTube. São quatro episódios e todos estão lá.

A nova “House of cards” é uma série original da Netflix, que até outro dia era apenas locadora. Ela foi lançada de forma curiosa: em vez de apresentar um episódio por semana, a produtora disponibilizou logo toda a primeira temporada, composta de 13 episódios. Com isso, confundiu a imprensa especializada dos Estados Unidos, que até agora não sabe muito bem como reagir a uma série em bloco. Como escrever sobre episódios que ninguém sabe quando serão vistos? Como comentar o que acontece ao longo dos vários episódios sem estragar a surpresa de quem ainda não os assistiu?

O resultado é que a forma de lançamento de “House of cards” mereceu tanto espaço nos jornais e nas revistas quanto o seu conteúdo. Ela não representa propriamente uma nova forma de ver televisão, já que assistir temporadas inteiras de uma vez é hábito consagrado por espectadores do mundo inteiro. Mas ela talvez represente uma nova forma de conversar sobre televisão: afinal, quando a turma da maratona chega às coleções completas das séries tradicionais em DVD, cada episódio já foi devidamente destrinchado e analisado a seu tempo. O que fazer, porém, com um monte de episódios sem tempo?

Nós brasileiros, que volta e meia recebemos seriados muito depois do lançamento, já estamos mais acostumados a lidar com uma profusão de episódios. Ainda assim, a título de comparação, o que faríamos se todos os capítulos de uma  novela inédita ficassem disponíveis simultaneamente? Por onde começaríamos a conversa?

Há quem ache que a estratégia da Netflix foi equivocada. Lançando toda a série de uma vez, ela teria perdido a onda que põe as séries tradicionais em evidência na imprensa e nas redes sociais, semana após semana, e, em tese, ajuda a consolidar a audiência. Não tenho tanta certeza disso. Acho que as séries semanais precisam da divulgação para garantir a audiência de um episódio ao outro; já uma que chega em bloco só depende de si mesma.

Ao apresentar os 13 episódios de “House of cards” por atacado, a Netflix ganhou em dramaturgia e em agilidade.  Não precisou de flashbacks nem de resuminhos dos capítulos anteriores, uma vez que tudo estava bem fresco na cabeça de quem assistiu. Como espectadora, só tenho elogios para o sistema: não tenho paciência para assistir séries aos pedaços. Prefiro assim, como se estivesse assistindo a um filme muuuuuito comprido, com um breve intervalo a cada hora.

o O o

Frank Underwood é casado com Claire, uma loura gelada e calculista interpretada por Robin Wright, que me pareceu vagamente familiar. Claro: ela foi a princesa Buttercup em “A princesa prometida”, um dos meus filmes favoritos. A diferença é que no filme ela era péssima, e na série está esplêndida. Kate Mara, que faz a jornalista Zoe Barnes, também está ótima (só não entendi por que mora naquele muquifo: não é uma moça de sucesso?). O elenco é um dos pontos fortes de “House of cards”; a produção é outro. Se a série fosse um filme e eu estivesse escrevendo uma crítica, daria um Bonequinho aplaudindo sentado.

(Se você ainda não assistiu e não gosta de spoilers, pare a leitura aqui: a gente se encontra de novo na quinta que vem.)

Apesar de ter visto os 13 episódios com prazer, impliquei com dois pontos do roteiro. Frank Underwood é bem articulado demais para que a bobagem que diz na entrevista com a CNN seja plausível; ele também não precisaria matar Peter Russo. O assassinato foi uma solução fácil demais para vilão tão inteligente e sofisticado; Underwood não precisaria dar cabo de ninguém com as próprias mãos para que soubéssemos como é mau. O fato de que nada o detém já tinha ficado bastante claro. Sublinhá-lo de forma tão óbvia é subestimar o espectador. Se eu estivesse acompanhando “House of cards” em capítulos semanais, teria desistido aí. Felizmente os dois últimos episódios crescem quando Frank encontra no milionário Raymond Tusk (Gerald McRaney) um oponente à sua altura.  Que venha a segunda temporada!

(O Globo, Segundo Caderno, 16.5.2013) 

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3 respostas em “Castelo de cartas

  1. Oi Cora concordo com você!
    Gosto de dormir bem por isso vejo as series favoritas em maratonas, na TV, DVD, Netflix ou P2P. Salve Jorge eu vejo em maratona no domingo, só que neste caso é porque ela é péssima mesmo. Sem contar que posso dar >> no ingodo.
    Acho uma perda de tempo o pinga-pinga das emissoras, espero que no futuro tudo seja desponibilizado em atacados e de preferencia stream. Existe rádios on line que mostra quantas pesoas estão conectadas no momento e todo mundo post sobre as musicas na hora, rola altos papos.Por que não fazer o mesmo com as series?Um canal mundial se series com legendas opcionais para você ver onde quiser quando quiser!
    Sonhar nao custa nada!!!!

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