Perfil: Rene Silva

A pessoa certa no lugar certo na hora certa: esse era Rene Silva no dia ocupação do Complexo do Alemão pela polícia. Ele começou a tuitar sobre o que estava acontecendo mais ou menos por acaso, respondendo a amigos preocupados com a sua segurança. Os amigos o retuitaram, gente de fora descobriu que havia um menino no meio do fogo cruzado e logo ele e seu jornalzinho “Voz da comunidade” estavam nos trending topics, índice que mostra quais são os assuntos quentes no Twitter. No dia 29 de novembro de 2010, Rene tinha cerca de 700 seguidores, e o “Voz da comunidade” 180; quando o dia 30 amanheceu, os números haviam saltado para 15 mil e 30 mil, respectivamente.  Da noite para o dia, literalmente, ele virou o queridinho da mídia e o representante mais fiel da  comunidade. Não era nem policial, nem traficante; também não era político, nem “líder comunitário”. Era apenas um menino de 17 anos falando sobre a sua realidade. Qualquer outra pessoa teria tido aí os seus 15 minutos de fama, antes de despontar para o anonimato. Mas Rene, determinado e carismático, não saiu mais de cena.

Tudo começou quando, aos 11 anos, decidiu fazer um jornal. A inspiração veio do jornalzinho que o Grêmio Escolar da Escola Municipal Alcide de Gasperi produzia, e que apontava os problemas encontrados pelos alunos: um quadro de luz quebrado aqui, uma falta de material ali… O jornalzinho ia para a Secretaria de Educação, que com frequência resolvia os casos. Digamos que este foi o primeiro encontro de Rene com o poder da imprensa. Ele gostou do que viu, achou que podia ampliar a sua atuação se ampliasse o foco do veículo, e apresentou a ideia de um jornal comunitário à diretora Thalma Romero, que aprovou o projeto e ofereceu ajuda. Assim, em 15 de agosto de 2005, nasceu o “Voz da Comunidade”, com periodicidade mensal e cem exemplares, copiados na xerox da escola, distribuídos entre moradores e comerciantes.

O novo jornal foi muito bem recebido pela comunidade, que até então só tinha um canal de reclamações, a associação de moradores. O “Voz da comunidade”, ainda que pequenino, era um bom amplificador:

— Uma reclamação fica mais clara se você identifica o problema, entrevista o morador, tira foto — diz Rene. — Havia espaço para um jornal local, porque as pessoas tinham muito medo da grande mídia, que só aparecia quando havia tiroteio e mortes. As notícias que saiam sobre a gente eram sempre notícias ruins, notícias sobre a violência. A vida normal de todo dia era ignorada.

Curiosamente, ninguém estranhava que o editor, o repórter, o fotógrafo e o distribuidor do “Voz da comunidade” fossem um só menino. O que Rene mais ouvia não era “Você é tão garotinho!”. Era “Cuidado com o você vai falar nesse jornal aí!” Aqueles eram tempos pré-UPP, em que as cartas eram dadas por traficantes e em que a cultura local era não ver, não ouvir, não falar. Uma cultura de medo, que sobrevive até hoje e se manifesta, ainda, na desconfiança com que câmeras fotográficas são recebidas.

Assim que o “Voz da comunidade” começou a ficar conhecido, os empreendedores do Alemão passaram a pedir divulgação dos seus estabelecimentos. Tudo era publicado como notícia. Até que, um dia — por causa justamente do jornalzinho, que chamou a atenção dos professores –, Rene recebeu uma bolsa de estudos de uma escola particular, o Educandário Baptista Moraes. Só que lá não era mais possível fazer as cópias que, antes, eram oferecidas pela escola municipal. O jeito foi cobrar pela propaganda, encaixada em tijolinhos de 2,5cm x 2,5cm a 50 centavos por linha. Graças a isso, a tiragem dobrou de um número para o outro. Resultado? Antes da ocupação, o “Voz da comunidade” já tinha uma circulação de cinco mil exemplares. Quer dizer: depois de descobrir o poder da imprensa, Rene descobriu a força da publicidade.

Seu mundo mudou drasticamente depois da tuitagem épica da ocupação. Ele caiu nas boas graças de artistas e de formadores de opinião; reforçada por matérias em jornais, revistas e televisão, sua presença na internet cresceu a olhos vistos. Hoje o “Voz da comunidade” tem quase 120 mil seguidores no Twitter; na sua conta pessoal, Rene (@Rene_Silva_RJ) tem cerca de 55 mil, entre eles gente atenta como Maria Beltrão, Serginho Groisman, Flora Gil e Marcelo Adnet, para não falar em vários secretários estaduais e municipais. Isso sem contar com Facebook, website, Instagram…

Rene foi a São Paulo, onde fez palestra na Campus Party, festa de tecnologia que reúne jovens do país inteiro; na platéia estava Ingrid Zavarezzi, uma das autoras de “Malhação”, que o chamou para uma participação na novelinha. Depois, deu uma entrevista ao “Esquenta”, e acabou convidado por Regina Casé para participar da criação do programa, trazendo ideias e personagens. Não parou mais. Já esteve nas principais cidades do país contando como se faz um jornal comunitário e, em março deste ano, foi a Nova York, a convite do consulado americano do Rio, trocar experiências com jovens comunicadores do Harlem.

O momento de maior emoção, porém, aconteceu no ano passado quando, a convite da Coca-Cola, ele foi um dos quatro brasileiros que carregaram a tocha olímpíca em Londres.

— Os ingleses têm uma energia muito boa, — lembra. — Estavam  empolgados, me davam os parabéns, uma festa. E eu nervoso, emocionado, pensando na quantidade de pessoas que estava representando.

o O o

Ainda em 2010, o “Voz da comunidade” ganhou uma redação completa no Caldeirão do Huck, equipada com computadores, laboratório, ar refrigerado. Ela está instalada em duas salas do AfroReggae, mas como o imóvel em que estão localizadas vai virar pousada, Rene busca uma casa no Alemão para realizar o sonho da redação própria. O jornal é feito atualmente por seis pessoas e tem 20 colaboradores em outras comunidades. Por causa do sucesso de Rene na internet, a versão impressa andou meio sumida em favor da edição online; mas volta em junho, mais bem estruturada.

Pergunto a Rene onde ele se vê daqui a cinco anos; não há nenhuma hesitação, nenhuma demora na resposta. É claro que ele já pensou um bocado sobre isso:

— Quero expandir o “Voz da comunidade” para outras comunidades e, quem sabe, até para outros estados, — diz. —  Já estou me organizando para isso: quando viajo, não fico só nas palestras. Também vou conhecer as comunidades, levo umas ideias daqui, trago outras de lá. Penso em outros canais, sobretudo na internet. Acho que podemos fazer uma grande central de comunicação das favelas. E quero continuar morando aqui, talvez numa outra casa. Quero manter a minha identidade. Quem sabe ajudo a fazer um museu do Alemão, contando a nossa história para as crianças?

Conversamos na sala dos seus avós Nanci e Luiz, no Morro do Adeus. Com os irmãos Renato, de 17 anos, e Raquel, de 10, Rene vive meio lá, meio na casa da mãe, Cristina, que mora em frente. É preciso subir uns degraus e atravessar uma passagem entre outras construções para chegar à casinha modesta, onde a televisão está ligada em “Salve, Jorge!”. Na mesa de jantar, os “brinquedos” de Rene: três notebooks (que ele começa a deixar de lado porque, como todo mundo, faz tudo pelo celular), um iPad, dois iPhones. No alto da estante da televisão, a coleção sempre crescente dos prêmios que vem conquistando, entre eles o nosso “Faz diferença”, dado pelo O Globo às personalidades cariocas de destaque. Como qualquer adolescente, ele não se desconecta nunca; o smartphone é extensão do seu pensamento, parte central da sua vida.

O Complexo todo acompanha com o maior interesse a novela de Glória Perez, cujo núcleo do Alemão, gravado lá, tem ativa participação dos moradores. Glória descobriu Rene no Twitter antes mesmo do famoso dia da ocupação, e o contratou como consultor. Além de participar de várias cenas como ele mesmo, Rene se encarrega de orientar autora, atores e diretores para que as cenas da comunidade sejam representativas. Quando uma personagem diz que vai comprar carne para o churrasco, por exemplo, ele sugere que ela diga que vai comprar carne na Nova Brasília, uma área famosa pelo açougue que tem. A turma do Alemão vibra e, durante alguns dias, o açougueiro é celebridade: todo mundo vai ao seu estabelecimento para dizer que ouviu a referência. É uma alegria miúda, mas é desse tipo de tratamento que a área precisa para reforçar a sua auto-estima e para ser percebida como um bairro qualquer da cidade.

No que depender de Rene Silva, isso vai acontecer muito antes do que se imagina.

(O Globo, Rio, 12.5.2013)

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7 respostas em “Perfil: Rene Silva

  1. As vezes se vê uma luzinha no fim do túnel. E vem o governo dizer que a violência é questão de pobreza. Uma rapaz desses escolhe esse caminho bacana e toda hora se lê menor pegando Audi de pai e cometendo crimes. Por necessidade é que não é!

  2. Excelente ! Tinha tudo para ser um seguidor dos leleques da vida e se tornou um expoente da midia ! Parabéns para a Cora, mais uma vez, por este excelente relato. ( e ao jovem, claro, sem duvida alguma )

  3. Esse rapazinho é um iluminado. Muitos estão com ele e muitos outros o seguirão. E pode escrever, Cora, que tudo o que você disse acontecerá. Salve, Rene!

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