Adeus, Old Man Lucas

Eu soube que o fim estava chegando para Old Man Lucas na madrugada do dia 1º de maio, quando fui procurá-lo no seu cantinho da sala, e o encontrei cercado pelos outros gatos: todos muito circunspectos, como se estivessem dando uma força. Ou se despedindo. Os bichos sabem de coisas que nós não sabemos. Ele foi embora à tarde, depois de gastar cada uma das suas sete vidinhas em dois meses de luta. Ao longo desse tempo teve altos e baixos e perdeu peso e força, mas não perdeu nunca o olhar puro, eloquente e confiante.  Era sincero e bom, e não hesitava em expor os seus sentimentos.

Às vezes, quando eu estava trabalhando, ele se metia entre a tela e o teclado, e me encarava com uma intensidade desconcertante. Manda quem pode, obedece quem tem juízo; eu interrompia o trabalho e ele vinha para o colo. Mas não vinha como qualquer gatinho fofo fazendo graça. Vinha espaçoso e abusado, como se fosse direito seu. E não era? Digitar com sete quilos de gato no colo era difícil, mas eu dava um jeito — e até pedia desculpas quando o colo não estava a gosto. A verdade é que me sentia honrada em ser escolhida como almofada.

Nessa época dos sete quilos, aliás, que foi a maior parte da sua vida adulta, ele atendia também por Incrível Capivara Felina, meio por causa da cor e muito pela formosura abundante; ele nunca teve nada do siamês moderno de exposição,  esguio e longilíneo.

A cena romântica da escrivaninha se repetia na cama ou no sofá. Com ciúmes do livro ou da revista que eu estivesse lendo, lá se interpunha ele entre os meus olhos e o material ofensivo, indignado com o fato de papéis inanimados merecerem mais atenção do que ele, tão lindo e cheio de vida. Pronto! Eu largava a leitura de imediato, dava-lhe um abraço apertado e fazia carinho, muito carinho. Ele semicerrava os olhos. De vez em quando, ficava tão emocionado que não se aguentava, e mordia delicadamente o meu nariz. Fazia isso também com a Bia, por quem sempre foi apaixonado. Quando ela se casou com um americano e foi embora, ele ficou tão estressado que perdeu quase todos os pêlos; foi preciso muito mimo para que se recuperasse, ainda que a barriga tenha ficado pelada até o fim.

o O o

Tirando a Keaton, com quem chegou às vias de fato pelo posto de Gato Alfa, Lucas sempre se deu bem com os demais. Tinha a condescendência de um déspota iluminado. Era o primeiro a comer, a escolher lugar, a vir para o meu colo — mas com tanta naturalidade que ninguém se importava. Durante a sua doença, foi comovente ver a atenção e o carinho da turma: ele era de fato querido. Quando já estava muito fraco, Toró assumiu a liderança. Manteve, porém, um grave respeito por ele, e fazia questão de cumprimentá-lo com pequenas cabeçadas e lambidas.

Nos últimos meses de vida, seu melhor amigo foi Fonseca, o gatinho preto e branco que veio do Campo de Santana. Fonseca esteve sempre a seu lado, cuidou, lambeu, prestou atenção. Os dois dormiam juntos na minha cama, no sofá, nos vários cantinhos favoritos do Lucas. Algumas vezes vi o meu véinho andando devagar e sendo acompanhado pelo Fonseca, passo a passo e no mesmo ritmo: um senhor idoso e seu cuidador atencioso.

o O o

Lucas gostava de me seguir pela casa. A qualquer hora do dia ou da noite, para onde quer que eu fosse, ele vinha atrás. Com o tempo, inventamos um truque. Eu dizia “Olho no olho!” e ele me seguia, olhando nos olhos. Não era a forma mais prática de atravessar o corredor — nem para ele, que tinha de olhar para cima, nem para mim, que tinha de olhar para baixo — mas ambos adorávamos a brincadeira.

Como todo siamês, Lucas tinha um quê de neurótico. Ocupava a escrivaninha com a maior sem cerimônia e, quando eu por acaso esbarrava nele com o mouse, batia o rabo de um lado para o outro, furiosamente. Reclamava da vida em altos brados, miando pela casa para ninguém. Parava no meio da sala, olhando fixamente para alguma coisa que só ele via, e soltava o verbo.

E quando eu viajava? Aprendeu cedo na vida que mala era sinônimo de bípede sumido; assim, bastava me ver fazendo as malas para se recolher amargurado ao sofá da sala, de onde me lançava olhares cheios de reprovação. Na volta, era preciso  esconder a bagagem rapidamente: sua vingança era imediata. Com o tempo, compreendi o que ele queria dizer. Não fazia pipi nas malas para marcar território, mas para dar a sua opinião sincera sobre a viagem. Na sua cabeça, a minha ausência era culpa exclusiva daqueles volumes pretos. Lógico: quando eu saía sem eles voltava logo, quando saía com eles demorava muito. Equação óbvia, não?

o O o.

Várias pessoas que conheceram o Lucas diziam que ele só faltava falar. Engano. Ele falava, e nunca foi de meias palavras. O que faltava era entendermos o que dizia.

(O Globo, Segundo Caderno, 9.5.2013) 

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38 respostas em “Adeus, Old Man Lucas

  1. sou apaixonada pala minha gata sasha e por isso sinto profundamente o qu voce esta sentido..quem ama os gatos tem muita sensibilidade…a ESCRITORA GLORIA PEREZ,,O MANOEL CARLOS,,AGUINALDO SILVA, E GUIMARAES ROSA.

  2. Texto perfeito, sensível, doce, cheio de saudades, de amor. Tenho cães e gatos, e cada um tem seu lugar no meu coração, e quando um se vai a falta é grande. Olhar pro lado e saber que não veremos mais aquele que na verdade foram eles que nos adotaram. Abraços Cora.

  3. Cora, fiquei muito triste com a notícia, desde a semana passada eu queria deixar meu comentário aqui, mas não sabia o que escrever. Você sempre escreve tão bem. Suas palavras são sempre cheias de emoção e nos tocam o coração. Quando o meu amado Garfield partiu, você me deixou muito emocionada com suas palavras. Jamais vou esquecer o quanto você tocou o meu coração. Temos tantos gatos especiais e cada um deles tem seu cantinho muito especial em nosso coração. Cada um tem suas particularidades que são únicas.

  4. Cora, li o artigo no Jornal O Globo e me emocionei com sua história e me encantei com o seu falecido bichano. Que Old Man Lucas descanse em paz e te garanto que ele foi muito feliz ao seu lado durante todos esses anos perto de uma pessoa tão admirável como você.

  5. Cora, obrigada pelo lindo texto de despedida. Lucas certamente está feliz com as palavras de carinho com que foi descrito. E eu aqui, sensibilizada, pois vivencio o mesmo com o Fellini e sua doença renal crônica. Obrigada.

  6. Cora,
    Também aguardo o MELHOR E MAIS INSUPERÁVEL livro sobre gatos..
    Seu texto é insuperável, tanto na forma como no conteúdo. A ponto de nos constranger a postar um simples comentário…
    bjs.. sei que hoje estará melhor!

    • Nao somente um livro sobre gatos! Embora se arrependa de ter publicado (meio sem querer) o seu primeiro e unico romance – “O Terceiro Tigre” (Nova Fronteira, 1986), que pretendo em breve ler –
      Cora estah nos devendo uma nova incursao no genero. Afinal, ja se passaram quase trinta anos, agora nao tem mais desculpa!
      Cora Ronai com certeza eh uma das grandes escritoras deste pais.

  7. Cora, me perdoe a expressao – mas va escrever bem assim na puta que pariu! Que texto elegante, simples, sensivel, que inveja de saber escrever assim!
    Uma grande homenagem a teu velho amigo, imagino o quanto de saudade voce deve estar sentindo…
    Beijo carinhoso – e minha reverencia!
    Joao Resende

  8. as pessoas que não convivem com cães e gatos não sabem que têm personalidade e se comunicam conosco como seres únicos que são. Sei como você se sente, Cora, já tive muitos cachorros que viveram muito, mas quando partiram deixaram um buraco enorme na minha vida, como parentes fossemos.

  9. Uau Cora ! Me senti quase uma intrusa,de tão perto que fiquei através do seu relato,com a intimidade entre você e o Lucas;a maneira de conviver,os códigos e tudo o mais,que nós,os amantes de gatos,sabemos tão bem como é … parecia algo “só muda o endereço”… de tanto que me tocou.E me reconheci em situações idênticas (tirada as proporções,de que,cada gato,é uma entidade única e inigualável !) e seguindo a linha de raciocínio de todos os comentários postados,aqui vai a pergunta que não quer calar : quando você pretende publicar o seu livro,com todas essas crônicas (e fotos,claro) para o nosso deleite ?

  10. Sinto de verdade por sua perda, principalmente porque era de fato um membro querido de sua família. Mas o que me fez querer comentar foi a literatura. A forma como escreveu foi maravilhosa, e me fez realmente me emocionar como toda a vida mostrada. o texto é todo muito sensível e rico, mas a primeira parte é sublime. Amaria ler um livro que tivesse exatamente esse início…

    Enfim: parabéns pela vida que compartilharam, parabéns pelo presente de sua escrita

  11. Parabéns pelo sentimento tão bem expressado. Amo gatos, ontem fez 7 anos que perdi o meu lindo Spot e dia 16/04/13 perdi meu “afilhado” Jack. Sei a dor que causa. O amor deles é incondicional e mesmo sua ausência só nos traz boas lembranças. Felicidades.

  12. Hoje de manhã ao ler a crónica no jornal , vc me fez chorar mais uma vez.Que o Old Man Lucas repouse em paz.O tempo foi necessário para que vc conseguisse contar como tudo se passou.
    Um texto maravilhoso, aonde podemos saber algumas particularidades de Lucas.
    Nunca será esquecido, fiquem bem,
    Um Abraço,
    Cristina

  13. tenho certeza que foi um gato lindo! e amigo! tenho uma siamesa,Agatha, a gata, uma siamesa que fará 18 anos em julho. adora as barrigas para deitar e mia loucamente pela casa(digo que vê espíritos) e adota cada gato que chega e cuida como se fosse mais um filhote. Siameses são adoráveis. Lamento tanto pelo Lucas, mas se que está em uma nuvem cor de rosa miando para vcs!

  14. Só quem tem gato idoso, doentinho, exigente sabe como é isso…
    Sinto muito. Aqui em casa temos a Dalila, que fará 18 anos, tendo vencido 3 cirurgias e 2 quimio, na luta contra o câncer.

  15. Lindo texto.
    Com certeza, Lucas ainda está aí.
    Passou na frente de algum outro texto que você faria.
    Bjs

  16. Emocionante. Para quem ama e convive com gatos, ler este texto é um pouco como pensar em voz alta. Deveras, emocionante.

  17. Sou fã de suas cronicas e vi algumas fotos do lucas em uma delas. Sou louca por gatos e de todos quadrupedes, tanto q tenho em casa um pouco de cada. Nesse momento de tristeza e missão mais do que cumprida , desejo força e meus sentimentos ( afinal, eles são nossos filhos peludos e são anjos fantasiados!!!), parabens pelo amor que demonstra por todos os animais.

  18. Cora, que homenagem linda, tocante e que muito descreve os relacionamentos, sempre tão carregados de intenso afeto, de cada um de nós com os animais de estimação.
    O incrível valor da vidinha deles nas nossas.
    Beijo grande no coração.

  19. Sensibilizada com a perda do ‘parceirinho’. Stisfeita por teres vivido tanto carinho e pelo Lucas ter sido esse cuidadoso doador. Belo texto. Mexeu comigo, pois tb tive um peludo Lucas (canino) e nunca mais consegui substitui-lo.

  20. que bela homenagem ao querido companheiro, vou tentar anexar uma foto que postei no face no dia que soube da partida do Lucas. Era de um gatinho dentro de uma caixa, escrevi que ele dava as boas vindas ao Lucas e convidava para entrar na ‘grande caixa’…
    (ele não aceitou anexos… vou colar o endereço do face)

  21. Ah, Cora! Vc escreve de uma forma que nos toca profundamente! Sempre que leio suas palavras, elas ecoam tão profundamnete e de forma que parecem que foram ditas para mim, entende? Não são todos os escritores que tem este dom…. Sinta-se duplamente abençoada: pelo dom da escrita e por ter a companhia destes anjos de 4 patas! Bjs. Cris-RJ

  22. Muito lindo, Cora.
    Minha gata também faz xixi na mala… Tenho que guardar ou esconder – na ida ou na volta – para evitar transtornos… Claro: eles não entendem nada…

  23. Lindo texto Cora. Tenho certeza que o Lucas foi um gato muito feliz. Esses bichinhos sāo incríveis mesmo e alegram tanto nossa vida. Que vc e a turma toda fiquem bem.

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