Os vinte anos da web

Um dia, Cristina De Luca, que era subeditora do Info etc., chegou de um seminário em Los Angeles com uma novidade: o endereço de um sensacional espaço de egiptologia na internet. Anotei e, à noite, tentei chegar lá. Usei as ferramentas que conhecia, como o gopher ou o telnet, mas não fui a parte alguma. Busquei maiores informações, mas não havia nada em lugar nenhum que me desse a menor pista do que deveria usar para acessá-lo. O endereço, que começava com http://www, continuaria a ser um mistério durante os próximos meses — até que, aos poucos, o mundo da tecnologia começou a falar em browsers e numa forma revolucionária de se usar a rede, chamada World Wide Web (ou W3, nome que se perdeu com o passar dos anos).  Ela era invenção de um certo Tim Berners-Lee, que trabalhava no CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire), e nasceu da sua frustração com a Babel que havia se instalado entre os computadores da época.

O CERN recebia pesquisadores de todas as partes do mundo, e cada um vinha com um computador diferente, rodando programas proprietários que produziam documentos ilegíveis por outros sistemas. Era de enlouquecer. Berners-Lee resolveu, pois, fazer alguma coisa a respeito. Conversou com a chefia do CERN que, embora não tenha compreendido muito bem como ele se propunha a unir todas as máquinas, deu-lhe o tempo necessário para estudar o caso. Isso foi em 1989. Em 1990, ele já tinha todas as ferramentas de que o sistema precisava: servidor, páginas (a descrição do projeto) e um browser chamado WorldWideWeb. Em 30 de abril de 1993, a W3 foi, finalmente, apresentada ao mundo. Ela rodava no computador do próprio Tim Berners-Lee, um Next. O resto, como dizem, é história.

Em 31 de julho de 1993 eu já sabia chegar ao site de egiptologia que a Cristina trouxe; mas nunca fui até lá porque, entre anotá-lo e descobrir o Mosaic, tive tempo suficiente para perdê-lo. Lembro da data porque, por algum motivo, guardei na cabeça o fato de fazer 40 anos e de navegar na rede. Vivíamos num mundo muito diferente. Programas não eram baixados, mas vinham em disquetes; por isso demorei tanto a conseguir um browser.

Naqueles tempos, a web era habitat de engenheiros e de nerds em geral. Sobrava técnica, mas faltava senso estético. Os sites eram medonhos e usavam fontes pavorosas; os webdesigners ainda estavam por nascer. Às vezes, porém, apareciam coisas bonitas. Capturei muitas telas que me pareciam interessantes. De todos os dados que já perdi na vida, os que mais lamento são essas telas primitivas: seria tão divertido ver, hoje, o que me chamava a atenção há 20 anos!

Aliás, a web é curiosamente mal documentada. O primeiro de todos os sites, o que explicava o projeto de Tim Berners-Lee no CERN, só foi reconstruído agora, por ocasião do vigésimo aniversário, a partir de uma cópia feita em 1992; parece que existem cópias anteriores, mas ninguém sabe onde foram parar. Ele está em http://info.cern.ch/hypertext/WWW/TheProject.html. Nem preciso dizer que, na época, não existiam abreviadores de URL.)

A rede era tão pequena que era possível catalogá-la toda. Várias pessoas aproveitaram a oportunidade e lançaram guias da web, moda que durou até a coisa sair de controle poucos anos depois.

Acho seguro afirmar que nunca o mundo mudou tanto em tão pouco tempo. A internet, como existia antes da web, era rica e divertida, mas estava longe de ser fácil e, consequentemente, popular. Mas não foi apenas a facilidade de uso do sistema inventado por Tim Berners-Lee que popularizou de tal forma a rede; o fato de ele e o CERN a terem oferecido ao mundo grátis e livre de direitos também ajudou muito.

(O Globo, Economia, 4.5.2013)

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13 respostas em “Os vinte anos da web

  1. O meu primeiro acesso foi com um disquete da MTEC que recebi numa feira de informática em 1996. Bons tempos ! Continuei fiel por muito tempo, até o dia em que um amigo meu virou para mim e perguntou quem era Alvaro.
    – Alvaro ? É o nome do meu sogro..
    E ele respondeu que era também a minha senha no MTEC que ele havia raqueado, junto com milhares de outras senhas. Fiquei meio receoso e mudei de provedor ! ( risos )

  2. para minha primeira conexão (centroin), o kit veio pelo correio, num disquete, e eu comprei um guia. e eu sempre te lendo.
    []’s

    ps – gostaria de me lembrar do primeiro site que acessei.

  3. Coríssima, para matar sua curiosidade de revisitar antigos sites, existe uma página:
    Wayback Machine
    http://archive.org/web/web.php

    basta digitar a url de um site, que lá fizeram caches históricos, selecionáveis num calendário.

    Eis a página dos Web Pioneers:
    http://web.archive.org/web/20100720190248/http://web.archive.org/collections/pioneers.html
    (entre eles, ‘The Well’, no pé da página)

    Ou, por exemplo, seu blog; o mais antigo cache lá armazenado é de 07.09.01
    http://web.archive.org/web/20010907171055/http://cora.blogspot.com/

    obrigado, Corinha, por nos iluminar o caminho por todos estes anos

  4. Eu só passei a me interessar por computadores, depois do ano 2000.
    Desconheço, portanto, tudo destes primórdios. Porém, até hoje, não gosto de muita coisa do “padrão-visual-Internet”.
    Mas, lembro bem como um livro de Arte custava uma fortuna, que eu não tinha, quando era jovem, e como tinha que recorrer à biblioteca do MAM-RJ, onde era monitora, para ver os desenhos de Paul Klee.
    Hoje em dia, basta clicar no Google e abrem-se incontáveis imagens e páginas.
    Claro que informação e cultura são coisas distintas, mas ambas estão interligadas.
    ☆★Parabéns pra WEB nesta data querida… ☆★

  5. Não entendi muito bem o que era exatamente essa internet pré-W3. Quais programas existiam? O que se fazia nela?

  6. eu te acompanhava no globo (vc e o B, Piropo)…sobre games…de la pra ca muita coisa aconteceu…mas continuo seu seguidor

    • B.Piropo, que saudade ! ( além do jornal, ele tinha um programa nas manhãs de sabado, onde explicava coisas da internet e respondia perguntas do pessoal )

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