Patroas e empregadas

Na segunda-feira conversei com a minha empregada sobre a nova lei e descobri que estava muito assustada, com medo de ser demitida. É que, do seu grupo de amigas, ela era a única que continuava no emprego. Naquele mesmo dia, soubera de três novas demissões, entre amigas e conhecidas; uma das demitidas tinha 14 anos de casa.

Essas moças estão, compreensivelmente, desesperadas. Muitas têm filhos. Tinham carteira assinada. Os patrões, de modo geral, se propõem a mantê-las como diaristas, vindo duas vezes por semana, mas esta é uma solução ruim para todos, já que perdem os empregadores, que terão eventualmente de lidar com mais gente (ou com ninguém) em casa, e perdem as domésticas, que forçosamente terão de lidar com mais patrões.

Na minha casa tudo continua na mesma, pelo menos em relação à carga horária. O trabalho começa às 10h e termina em geral às 17h, de segunda a sexta, de modo que o problema das horas extras não existe. Reconheço, porém, a dificuldade em determinar o que é trabalho e o que não é na singularíssima relação entre patroas e domésticas, sobretudo quando a empregada dorme no serviço. Caderno de ponto é uma solução bisonha que, na prática, não vai funcionar; o potencial de confusões e de ações trabalhistas que isso pode trazer é incomensurável.

Acho fundamental que as domésticas recebam FGTS. Neste ponto, penso que a nova lei é um indiscutível e necessário progresso (embora muitos dos meus interlocutores no Facebook e no Twitter estejam convencidos de que isso serve mais ao governo, que passará a arrecadar uma fortuna — que não remunera adequadamente — do que às empregadas). Não tenho, no entanto, tanta certeza em relação ao resto, sobretudo em relação à burocracia que se está criando e que, provavelmente, assusta tanto ou mais do que o aumento das despesas. Já há contadores oferecendo pacotes mensais para cuidar da papelada: tem cabimento isso?

o O o

Tenho lido muita coisa a respeito do assunto por esses dias — contra, a favor e muito antes pelo contrário. Só não encontrei ainda quem veja o lado das patroas com isenção, sem tratá-las como milionárias frívolas ou vilãs a priori.

Há, sobretudo na internet, uma mal disfarçada animosidade contra a classe média, o que não deixa de ser curioso, já que a maior parte das críticas vem de gente da classe média. Mas faz sentido. Demonizada por sucessivos governos demagógicos e populistas, ela é rejeitada pelos panfleteiros que, provavelmente, nunca pararam para pensar no assunto, e que imaginam que ser ou não ser classe média é questão partidária, mais ou menos como ser ou não ser Flamengo. Eles decidem que não são, e isso lhes basta para julgar o mundo.

Para essa turma rancorosa, ter empregada passou a ser, se não um crime, uma tremenda falta de consciência social e de modernidade — como se o cargo de doméstica fosse invenção de uma classe ociosa, antiquada e perversa, e não fruto da série de circunstâncias que conhecemos tão bem. Há uma generalização surrealista que pinta um mundo de patrões que trocam de carro importado todo ano e vivem de champagne e caviar enquanto exploram os seus empregados. Não sei quantas vezes li, essa semana, que “Acabou a escravidão!”

Será? Eu daria uma olhada pelo campo e pelas fábricas clandestinas antes de fazer uma afirmação dessas.

o O o

Sim, é verdade que vivemos, no Brasil e em outros países em desenvolvimento, o rescaldo de uma época em extinção — mas ainda é preciso mudar muita coisa para chegarmos ao ideal da vida doméstica, digamos, “sustentável”. Precisamos de alternativas viáveis para as babás e para os cuidadores de idosos. Precisamos de produtos e de serviços mais práticos. E precisamos, acima de tudo, de uma educação que dê boa qualificação a todos, para chegarmos a um mercado de trabalho mais equilibrado e mais justo, tanto para empregados quanto para empregadores.

A nova lei erra ao equiparar casas de família a empresas, e ao pôr todos os tipos de empregados domésticos na mesma categoria. Erra também ao se meter, sem suficiente estudo e debate, numa relação profissional tão delicada. Por causa disso, seu primeiro efeito está sendo um terremoto. Dizem que, com o tempo, a situação vai se ajustar. Não acredito, porque não acredito em soluções milagrosas.

A situação só vai se ajustar — de verdade — no dia em que, neste país, educação for coisa levada a sério, e que as pessoas que hoje trabalham em serviços que não exigem qualquer qualificação tenham formação suficiente para se colocar no mercado. A situação só vai se ajustar no dia em que todos os brasileiros souberem ler, escrever e exercer um ofício com competência.

(O Globo, Segundo Caderno, 4.4.2013)

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65 respostas em “Patroas e empregadas

  1. Achei muito sábios e oportunos os comentários acima!!!!gostaria de mais detalhes em relação a empregada que dorme no emprego e se ela tem que bater ponto!!!!obrigada!!!!Samira

  2. Na França e em outros paises, talvez, o governo desconta metade dos gastos com empregadas domésticas, no imposto de renda. No Brasil , o governo , que deveria atender às necessidades da população, “desvia” o dinheiro e transfere os encargos totalmente para o cidadão, já tão sobregarregado de impostos. Por que não fala sobre isso, Cora? É muito injusto a patroa “virar ” empresa e arcar com tantos impostos! Não sou contra a PEC mas os encargos pesam muito e deveriam valer mais descontos no imposto de renda! Neusa Gama 08/04/2013

    • Olá, Cora!
      Fiquei com muitas dúvidas. Relação patrão x empregada doméstica ão é apenas uma relação objetiva de trabalho. Há relações afetivas.. Como fica a questão da empregada que dorme no trabalho? O patrão cobra o quarto? E as refeições? Cobra da empregada? Esse é um ponto. Tive uma empregada por 34 anos.Suas duas filhas se formaram pela UnB, até porque ajudei, inclusive pagando cursinho. Hoje, quando vou ao Brasil, ela me oferece um almoço e é, sem a menor dúvida uma grande amiga e confidente. Inclusive cvem aos EUA me visitar. Nós duas escapamos da lei. Ela jamais trabalhou mais de seis horas, mas, o que poderia ter acontecido com nossa harmonia se vivéssemos sob essa lei? É uma lei que desconhece completamente o lado afetivo da relação.
      Que regulamentassem o FGTS, até entendo. No mais, me parece uma lei que será fraudada com muita facilidade. Ou, na pior das hipóteses, desempregar milhares de pessoas com quem criamos vínculos de amizade.
      Abraços
      Memélia Moreira

      • Oi Memélia, pelo que soube, não se pode descontar itens como aluguel de quarto, refeição, etc das empregadas. Totalmente injusto, não acha? E além disso configura hora extra tipo plantão se a empregada acorda de noite para atender aos patrões (imagina nos casos das babás e cuidadores de doentes!). Agora eu fico imaginando… a empregada trabalha até as 16h, 17h, aí a patroa chega em casa e tem que preparar o jantar e depois lava a louça de todos enquanto a empregada assiste TV. Que legal!

        Um ponto que questiono é: como saber se sua empregada tirou realmente 1 hora de almoço? Instalando câmeras? Afinal ela pode marcar o ponto e voltar a dormir, ver tv, conversar ao telefone… e aí?

  3. Tenho visto muitas empregadas sendo dispensadas, apenas porque os empregadores não tem condições de arcar com esse aumento. As dispensadas que sustentam família e provavelmente tem crediários não tem capacidade para nenhum outro tipo de emprego. Como disse uma amiga ” A minha empregada é ótima, mas em nenhuma loja, por mais simples que seja ela tem condições de trabalhar” .

    • ah, se todos os empregadores tivessem o carinho, a atenção, o cuidado de capacitar seus empregados, antes que chegasse o dia de ter de dispensá-los… como seria bom trabalhar num mundo assim, não?

      o problema é que poucos empregadores (domésticos ou não) efetivamente se preocupam com o momento de devolver o empregado ao mercado; vale o mesmo raciocínio quanto aos poucos empregados (domésticos ou não) que têm a mesma preocupação. e menor ainda é o número dos que vão além do preocupar-se e partem para a ação.

      deve ser muito triste dispensar alguém a quem se enxerga profissionalmente como um bagaço, uma vez que até um bagaço pode ter um destino diferente do de tornar-se lixo na economia.

      se alguém presta o serviço social de empregar um indivíduo mentalmente alienado ao ponto de não servir para mais nada no mundo, deveria pleitear na Justiça o direito de receber uma verba pública a título de reembolso.

      mas é triste ver que muitos empregadores (domésticos ou não) efetivamente enxergam seus contratados como incapazes, incorrigíveis, inúteis favorecidos por seus bons corações patronais, por mais que possam ter feito por merecer.

      ser visto como um excluído encostado não deve ser muito gratificante e deve, de fato, mais que humilhar, detonar a auto-estima de qualquer cidadão nesse mundo.

      enfim… tomara que sejam poucas as pessoas tratadas assim. tomara que tomem um choque e acordem para o fato de que têm capacidade, de que podem sim encontrar uma ajuda, um caminho, com um mínimo de dignidade a acrescentar às suas condições de vida.

      tomara.

      • Pois é, Cláudio Rúbio. Existem pessoas e PESSOAS. Sempre fiz mais do que podia para tratar bem a todos, não importasse quem fosse. Se minha Mãe ainda estivesse conosco, não sei o que poderia ocorrer, pois “tomar conta” de 5 pessoas empregadas numa simples casa, não é nada fácil. Já me deparei em casa e profissionalmente com pessoas tanto maravilhosas quanto inescrupulosas. Pela minha vivência, conheço bastante todos os lados dessa moeda que não tem apenas dois, não. Estou realmente preocupada com o que poderá vir, tanto por parte das ditas domésticas quanto das patroas. Essa situação somente terminará quando uma for capaz de entender o lado da outra, coisa que acho difícil, porém não impossível. Essa nova lei ainda dará panos pra manga e – creia! – a informalidade vai grassar solta. Se vai…

        • Lilly, informalidade, quando há lei trabalhista, é uma ilusão do empregador. um risco muito grande de perder mais dinheiro do que deveria.

          a partir do momento em que há a lei, o empregado está com faca, queijo e goiabada nas mãos. empregador que aceitar informalidade poderá arrepender-se muito lá na frente.

          pensemos num futuro não muito distante, quando a lei já estiver plenamente em vigor… bastará algum espertinho conversar com uma empregada e descobrir que ela não tem… por exemplo… registro de ponto formal. ou seja, trabalhou numa boa por… 3, 5, 10, 20 anos sem registro de ponto formal. veja o detalhe: trabalhou numa boa, com todo o respeito do mundo por parte da patroa, sem nenhum abuso, tudo certinho, mas… sem registro formal. bingo! o espertinho encontrou um furo no dique. aí ele joga uma conversinha na empregada, faz umas continhas, mostra o quanto a empregada poderá ganhar numa ação trabalhista alegando que era obrigada a fazer horas extras jamais pagas e que, além disso, nos últimos tempos, recebia menos por hora do que no começo. ela, ambiciosa mas com uma pontinha de ambição descarada, aceita. e a patroa (por que patroa? sei lá, fiz o exemplo com uma patroa… vamos em frente) dança.

          informalidade, quando há lei trabalhista em vigor, é tiro no pé do empregador. caberá a este provar que o empregado mente e, sem documentos, vai ficar difícil. afinal, testemunhas aparecerão de todos os lados.

          quem entrar nessa de aceitar a informalidade agora – até para ajudar a empregada, o empregado – sinceramente, estará passando um grande atestado de ingenuidade.

          não vivemos mais nos tempos da Tia Nastácia. não dá para confiar numa amizade em que rola diferença social e diferença de poder econômico.

          sim, há gente boa, fiel, digna, incapaz de dar um golpe? claro que há. mas como saber? como identificar? não vem escrito na testa. e mesmo alguém muito fiel, muito honesto, poderá ser enredado por um desses artífices do direito que bem conhecemos e dos quais já cansamos de ouvir falar.

          não creio em bruxas, mas… pois é.

          cá entre nós, se conhecer qualquer pessoa que, pelo mais humano instinto de solidariedade, resolver dar uma oportunidade a uma pessoinha muito gentil e muito precisada de uma ajudinha na vida através de um empreguinho informal de ajudante em casa e tal… dê-lhe uns tapas na cara para que essa pessoa acorde e caia na real: o crime não compensa. e, se compensar, poderá terminar em disputa trabalhista logo, logo, ganha certamente pela pessoinha que era muito gentil mas descobriu que tem seus direitos.

          vivemos na terra da esperteza. quem não quiser perder dinheiro, registre tudo, documente tudo, tenha contrato formal, controle de ponto, registro de pagamento, inclusive de vales e adiantamentos, desconte atrasos, pague ou evite exigir horas extras, não dê presentinhos que poderão ser incorporados aos direitos adquiridos se não puder ou não estiver a fim de pagar para sempre.

          você não pode sequer tirar, a partir de agora, aquilo que dava ao empregado por liberalidade, sob pena de ter de responder por isso.

          bom… acho que ficou claro, né? jeitinho com empregado é furada. vai ter muita dona-de-casa e aposentado tendo de se humilhar diante de juiz e de pagar ao empregado do mesmo jeito. isso é inevitável, aos que optarem pela informalidade.

          é hora de pensar e agir com a razão. acabou a brincadeira de casinha, a história de estou ajudando essa pessoa… a coisa agora se chama trabalho, emprego, profissão. não é mais favor, nem ajuda.

          • Cláudio Rúbio, como aquela “figura” já estampava na sua camiseta, veremos que “o tempo é o senhor da razão”. Se você for analisar aquilo que cada pessoa daqui escreveu, verá que todas têm razão. Ou não! Vamos dar tempo ao tempo, pois o fruto ruim cai do pé. Informo: não sou nem a favor nem contra nada sobre esse assunto. Vou esperar pacientemente aquilo que for determinado. Até agora, meu intuito foi julgar as lei sobre as pessoas e não apenas as pessoas. Abraços.

          • Lilly, razões todos as temos, por isso, volta e meia, nós as perdemos. não as tivéssemos, não as perderíamos, certo?

            só não recomendo ficar do lado de lá da lei, nunca, muito menos nesse caso.

            organizados fôssemos, as leis seriam como nós as quiséssemos; quando não o são, certamente há alguém mais organizado do que nós. fato.

            a chamada PEC das domésticas é só a cereja de um bolo que já está pronto para ser servido há tempos.

            meu intuito é não julgar, nem as leis, nem as pessoas, porque aí, certamente estarei fazendo a coisa errada, já que nem juízo sei se tenho, muito menos habilitação para julgamentos assim.

            estou no blogtequim apenas dando meus pitacos masculinos não muito lhanos e passando o tempo. já que nem empregada nunca tivemos em casa. mamãe sempre nos ensinou a fazer tudo, colaborar e dividir as tarefas. em casa sempre funcionou. mas, enfim, não somos mesmo deste mundo.

            🙂

            beijos.

  4. Cora, na correria eu nem teclei te parabenizando pela crônica arguta e questionadora. O penúltimo e o último parágrafos, retratam bem essa situação.
    Nenhuma “patroa” pode ser vista como empresa.

  5. Olha Cora, a situação vai entrar nos eixos, é a tendência de tudo. Como? Simples: num primeiro momento muitas empregadas domésticas perderão o emprego, daqui a alguns meses os empregos estarão de volta, mas com salários bem mais baixos.

    O que o legislador esquece é que a maioria dos empregadores de domésticas também é ele próprio um empregado. A maioria das pessoas que tem empregada hoje em dia, pelo menos aqui em SP, é porque precisa de alguém que cuide da casa e de alguém não tem condição de cuidar de si próprio: um idoso, filhos, etc. Raros são os empregadores domésticos que são de classe rica, a maioria paga a empregada com bastante sacrifício porque precisa.

    Prevejo um aumento na compra dos produtos da chamada “linha branca” e na entrada de muitos homens e filhos nas lides caseiras. E também das brigas familiares porque “hoje é o dia do papai arrumar a cozinha”, “eu já disse que passei o aspirador de pó”, “por que eu tenho de arrumar a cama?”, entre outros tópicos semelhantes.

    O que acho que os legisladores não pensaram é que de agora em diante os patrões ficarão muito mais exigentes do que antes, e se não faziam questão de descontar do salário da empregada coisas como a parcela da previdência ou o valor do transporte (que a maioria por aqui paga a parte), com a nova legislação passará a fazer.

    Por mim tudo bem, como advogada trabalhista já sei que vou ganhar dinheiro com isso.

  6. Cora, muito boa sua crônica, só não foi perfeita pela frase “Já há contadores oferecendo pacotes mensais para cuidar da papelada: tem cabimento isso?”. Ora, nós contadores somos profissionais, assim como a senhora, e nossos honorários são regulamentados por Lei. Infelizmente neste nosso país temos leis tributárias absurdas e qualquer deslize pode prejudicar (e muito!) o bolso do contribuinte. Se ainda hoje encontramos empresas que desconhecem ou não se atentam aos problemas tributários e trabalhistas, imagine o que pode acontecer no caso das Patroas/Domésticas?

  7. Olha, muito bem comentado. A análise de quem escreve as leis parece ser sempre superficial.
    O problema está longe de ser solucionado. Outro vi a chamada de um artigo a favor desta lei, de autoria de …. Renan Calheiros. Eu tenho que estar nas fileiras inimigas!

  8. Cora, só tem um probleminha pendente, que eu dei tratos à bola e não consegui solucionar, aqui comigo, referente ao final do seu texto.
    Eu ia acrescentar esta observação no Face, mas acabei ficando por aqui.
    A minha pergunta é- e não necessariamente para você:
    Se a maioria dos professores deste país são mulheres, classe média, que ganham quase tanto ou menos que uma empregada, quem vai ensinar o que e aonde para que, no futuro, o problema da educação seja solucionado?
    Fiquei sem saber.
    São os homens que vão, todos, afluir à carreira do magistério, tão “promissora”, na medida que as mulheres ficarem em casa, desempenhando os afazeres domésticos e cuidando dos idosos e bebês da família, por ser mais viável para o orçamento?
    Porque, claro está que um erro não justifica o outro e as empregadas merecem um bom status, mas prevejo uma debandada em massa do magistério, principalmente no ensino básico, neste Brasil composto por tantas injustiças e anacronismos.
    Inclusive, e principalmente, naquilo que se refere e afeta as mulheres.

  9. Pessoas, há um pormenor mais do que importante que não foi exposto aqui. Falo não por suposições, porém por fatos reais, que estão ocorrendo na minha família. Dois dos membros dela, que têm empregadas – seja cozinheira, arrumadeira ou babá – vieram do Nordeste. Pois bem: elas não querem registro. A razão? Simples: elas têm, ainda lá, morando, prole numerosa e recebem o famigerado bolsa família. Se houver registro aqui, naturalmente, perderão a “abençoada gorjeta-prodígio” do (des)governo. Mas minhas parentes estão firmes: SEM REGISTRO, NÃO HÁ CONVERSA! Tem de ser tudo dentro da lei. Vai perder a notável bolsa? Cobre “lá de cima”, que, para continuar a mandar e desmandar na Terra Brasilis, está criando uma porção enorme de, digamos, “folgados”, que vivem mal, porém não querem nada com o batente. Infelizmente, este é o governo que o povo elegeu, mesmo sabendo das falácias e promessas

    • (não sei a razão de o texto ter subido, mas continuo…)
      … que sentem não serem cumpridas, mas acham que vale a pena. Vocês ainda verão quanto isso será desgastante para as empregadas, as famílias, ao governo e para o progresso desta terra.
      (Obs.: Não tenho nada, absolutamente nada contra nordestinos, ao contrário, pois já fui casada com nordestino que era fantástico!)

  10. Prezada Mme. Cora – acho que doravante todas as empregadoras domésticas recebem este título, já que andam de carro importado, bebem champanhe e beliscam (madames não comem!) caviar:
    Eu, pobre Procuradora da República que não tem empregada, como a senhora tenho lido as Pec, votações e toda sorte de opiniões acerca da polêmica matéria.
    Sinceramente, ainda não tenho uma opinião formada mas, a despeito disso, tenho uma certeza: livro de ponto é uma falácia.
    Provavelmente os Srs. Congressistas e domésticas não o sabem justamente porque não estão a ele submetidos, para o bem ou para o mal.
    Há priscas eras fui estagiária e depois advogada na área trabalhista. Naquele tempo de informatização zero e tecnologia quase, a jornada de trabalho mesmo nas grandes empresas era registrada em um papel que se chamava livro ou cartão de ponto No primeiro caso se tratava de um caderno de capa dura vendido em papelarias, onde a data era preenchida manualmente pelo preposto do empregador, assim como os horários de entrada, intervalo e saída, sendo que o empregado se limitava a rubricar a lacuna que lhe era destinada. No segundo, o cartão ficava na posse do empregador e era preenchido pelo empregado, na frente do empregador. Mais tarde surgiu o relógio de ponto, onde o cartão era inserido e saia carimbado com os dados relativos a data e horários.
    Nem vou falar das inúmeras reclamaçōes trabalhistas em que o empregado alegava cumprir hora extra mas ser obrigado a assinar o livro nos moldes em que preenchido pelo empregador. Eu mesma tive de interromper meu trabalho – de advogada trabalhista, pasme! – para bater o ponto nos horários corretos, leia-se, contratual, raramente cumprido, a fim de não dar causa a pagamento de horas extras…
    Seria trágico, não fosse cômico! O problema era contornar o relógio quando estava em audiência na Justiça do Trabalho: como bater o ponto de tão longe? Solução: liberaram todos os advogados do cartão de ponto! Não preciso dizer que jamais recebemos horas extras – e tem alguns ex-colegas meus no FB que podem confirmar.
    Ora, se nós, componentes da Diretoria Jurídica da grande empresa – agora finada – conhecedores de nossos direitos nos submetíamos a isso, o que dizer dos outros?
    Pior: com a cara mais lavada íamos para a justiça defender a empregadora, dizendo que a empresa SEMPRE pagava as horas extras na forma da lei e fazíamos verdadeiras acrobacias matemáticas a fim de conprovar isso. Infelizmente, muitas vezes vencemos.
    Por outro lado, muito pequeno e médio empregador pagando horas extras jamais laboradas.
    Conclusão: a solução é, a par de bizantina, de todo questionável, gerando insegurança jurídica para todas as partes envolvidas.
    Não vou me estender em consideraçōes acerca da confecção de contrato de trabalho, porque pode algum aventureiro entender que estou prestando assessoria jurídica, o que seria de todo inconveniente às portas da aposentadoria, na soleira da vida ióguica.
    Sua crônica apenas me fez lembrar de um tempo que parece estar sendo ressuscitado… Não deixa de ser irônico em tempos tão tecnológicos.
    Obrigada por seus escritos sempre tão pertinentes e que dão tratos a bola – para combinar com livros e cartões de ponto.

    • Sem falar que não é obrigatório o controle de jornada de empresas com menos de 10 empregados.
      Como poderemos controlar a jornada das empregadas?
      E o intervalo para refeição? Elas almoçam, e geralmente já arrumam cozinha na sequência. Como aliás qualquer dona de casa que não tenha empregada faz, em geral.

  11. Fantástico o seu texto Cora ! Como sempre,bota o dedo na ferida …
    E também os comentários excelentes da Marise,da Matilda,do Claudio Rúbio … fico deveras maravilhada com o nível das pessoas que compartem esse espaço !

  12. As minhas empregadas acabaram de sair, cheirosas e belas e o neto mais velho dorme, anda gripadinho e nem está indo as aulas e não tomou o banho de de tarde, com esse calor baiano, toma dois por dia e eu vou dar o banho e eu vou por e lavar a louça e a mesa do jantar e não morro por isso, faço todo dia e o pai dos meus filhos nem um copo d’água pega, espera alguém passar pelo corredor e pede descaradamente quando Janete já foi, um estresse total, mas quero salientar que madames e donas de engenho nunca irão fazer isso, elas tem dinheiro para comprar força de trabalho e vão comprar, com todos os encargos pagos, se era alguma vingança contra a classe A, foi mal, ela não será atingida, ela pode, sempre pode e sempre poderá, mesmo em regimes ditos comunistas existiam dachas e empregadas, ou Fidel lavava seus pratos e cuecas?
    Enfim, graças aos orixás minhas avós me educaram aprendendo a fazer ‘de um tudo’, pois para se mandar se precisava fazer…

  13. Ops!… Foi notícia, aqui.
    Veja http://www.publico.pt/n1590098
    São as chamadas “dores de crescimento”, algo por que teriam de passar, tal como passámos, aqui, também. Faz parte do processo evolutivo de qualquer País.
    Claro que há sempre incoerências, mas tudo se vai ajustando, aos poucos, porque a realidade acaba por obrigar a práticas que a vã filosofia se esqueceu de contemplar.

      • Marise, para os retirados (aposentados) que tenham um excelente “retiro”, até existem boas casas de repouso, mas esse cidadãos são minoria. Os restantes, seja o que deus quiser. Aliás, alguns vão sendo retirados dos lares de 3.ª idade, pelos filhos, porque, apesar da fraca pensão que recebem, sempre é uma ajuda para o orçamento familiar.

  14. Cora, finalmente um post sensato a respeito do assunto. Curioso como a maioria dos pitaqueiros homens discorre com tanta, digamos, isenção e lhanura sobre tal assunto.Até parece que eles, em massa, lavam as próprias roupinhas, passam, cozinham, levam e buscam meninos na aulas, reunião de pais,, correm para o emprego, etc. Vai ser uma imensa revolução de costumes, com repercussões e desdobramentos imprevisiveis ainda. Esperemos que os senhores congressistas votem leis que obriguem a usar melhor nosso dinheirinho suado: creches de primeira, horario integral com onibus de graça; esperamos tb comida congelada e semi-pronta sadia, balanceada e barata, eletrodomésticos inteligentes, etc. Agora, os idosos….o governo vai dar um salario-cuidador, ou bolsa cuidador? Devia dar. Pois os crimnosos na cadeia recebem…. A forma com este assunto vem sendo tratada é irresponsavel e inconsequente.
    Mas vem eleição aí, não é? então….e por falar nisto, e a tal associação das donas de casa, existe para que?Todo mundo caladinho, que culpa é essa? Como comparar uma empresa com uma familia? e como fazer justiça social a ambas as partes, sem lesar n ehuma, ou constranger, ou intimidar?

    • ooooopa! este pitaqueiro homem aqui, às vezes nem tão lhano quanto deveria, lava suas próprias cuecas e cozinha sim, e já foi a muita reunião de pais – tá certo que na condição de professor, 🙂

      preconceituosa essa mania de achar que só porque são maioria das contratantes, somente às mulheres caiba essa discussão sobre relação de emprego com trabalhadores domésticas. ai, ai, ai…

      no mais, nada se acrescenta à questão sem a devida isenção e um mínimo de distanciamento crítico, a menos que o objetivo seja transformar tudo numa lavação de roupa suja sem fim, e não é o caso, né? 🙂

  15. Parabéns pela sua coluna de hoje do O Globo. A sua conclusão é,exatamente, o que venho dizendo a todos. Questão de bom senso. Enquanto não houver escolas, hospitais e moradia decente para todos, continuaremos a ter subemprego e pessoas não qualificadas. Leis patrimonialistas são hipocrisia. Sim, também sou a favor do FGTS. Mas vamos ser honestos, o grande ganho será para o Governo na arrecadação de impostos. A migração continuará. Não há escolas e nem um mínimo de qualidade de vida para o povo do interior. E nem precisa ir ao meio do Norte, Nordeste, Centro do Brasil. Aqui mesmo, no Estado do Rio, presenciei o absurdo da falta de uma Escola primária para habitantes daquele pedaço. Tenho um amigo com um sítio entre Teresópolis e Friburgo. Havia uma escolinha (pobre,mto.pobre), que os filhos dos caseiros e outros da região frequentavam. O meu amigo ajudava a escola, colocou água potável, ajeitou muro caindo, etc..etc.. A professora dava aula lá algumas horas por dia para todas as séries juntas , ainda ensinava em 2 escolas mais, diariamente, para poder fazer um dinheirinho extra. A escola ficava perto de um rio que possuía uma ponte. Com aquele aguaceiro que destruiu Teresópolis e Friburgo a ponte ruiu. Está até hoje sem a ponte e em estado de destruição. As crianças ficaram sem escola. É possível ? Isto ali pertinho de nós.
    Um abraço, sua leitura assídua.
    Isa.

  16. Texto sofístico: nada disse sobre o assunto e saiu pela porta dos fundos. Como as empregadas domésticas…

  17. meu pitaco:

    trabalho doméstico é aquele feito em casa.

    casa, normalmente, é onde vive uma família.

    família, normalmente, é um grupo de pessoas interdependentes que mantêm, entre si, certo grau de afetividade e que, por conta disso, não costumam cobrar pelos serviços que fazem.

    aí começa o problema.

    quando os responsáveis naturais pela realização dos trabalhos domésticos não a pode assumir, a saída é outro familiar passar a realizar as tarefas adicionais. e assim, família é um grupo que costuma empurrar para quem puder os trabalhos domésticos até que… ninguém está disposto ou disponível. é quando surge: o empregado doméstico.

    empregado doméstico é, tradicionalmente, alguém que realiza o trabalho que deveria ser feito pela família, sem pertencer a ela.

    a confusão: como é um trabalho que pode sim ser feito por qualquer um da família sem se gastar nada, espera-se que o empregado doméstico não seja muito mais caro que um familiar… quem sabe até aceite trabalhar por um sorriso, um prato de comida, uma caminha de molas e um banho quente… ah… se for bem, bem legal mesmo, o empregado pode até trazer os filhos dele para a “nossa” casa.

    tradicionalmente é isso.

    uma relação cheia de afetividade… mas paga e com limites.

    o empregado doméstico é quase como um cachorrinho – não faz parte da família mas a gente gosta muito dele.

    desculpem-me, mas é assim para muita gente – pode não ser o seu caso, nem o meu.

    o que quero deixar claro é que o trabalho doméstico é sub-valorizado pela família. sempre foi. por isso mãe não recebe salário e pai reclama que ela não trabalha.

    quando a mãe sai para trabalhar, arranja uma empregada doméstica que vai lavar o banheiro para ela… e aí aparece até um certo ciúme: poxa, a empregada ganha para isso o que ninguém pagava para mim?

    e muita gente subvaloriza o trabalhador doméstico porque ele realiza um trabalho subvalorizado.

    é esse o ponto mais neurotizante dessa conversa toda.

    todos chegamos ao ponto em de querer um trabalhador doméstico com direitos trabalhistas reconhecidos… mas isso que fizeram é um exagero! oh! céus! como?

    a questão é que, antes que se chegasse ao ponto de o Estado assumir o papel tutelador de igualar empregados domésticos a empregados de empresas quaisquer, falhamos todos (empregadores e empregados) em chegar a um acordo.

    simples assim.

    o Estado resolveu do jeito que ele sabe: igualando. e, claro, vai receber muito dinheiro por isso.

    ninguém impediu associações de trabalhadores domésticos de encontrar uma solução antes. ninguém impediu associações de empregadores domésticos de fazê-lo. ninguém além deles mesmos impediu um acordo.

    o Estado aparece agora fazendo o que o cidadão (empregador e empregado) não fez, por exigência e incompetência de ambos.

    infelizmente é isso.

    porque, se estivesse tudo bem entre as partes em todas as casas, não haveria pressão para que o Estado legislasse sobre a questão, até porque não existiria a questão.

    que questão?

    pô! empregados domésticos querem fundo de garantia, férias, assistência médica e salário digno igual a qualquer outro trabalhador. quer plano de carreira, promoção, férias, décimo terceiro, décimo quarto, plano de saúde com cobertura familiar, carro funcional, crachá… pausa para o cafezinho.

    ah, pausa para o cafezinho sempre teve. lá na cozinha. lá no quintal. ou até na mesa com o patrão, a patroa, a amiga… mas…

    pois é, engasgamos quando misturamos o fator emocional: o empregado não é da família?

    não.

    mas é.

    só que a gente trata mal como trata mal a mãe que faz de graça, a irmã que faz de graça, o pai que faz de graça…

    eis a questão.

    sem solução.

    é triste, mas a justiça se faz assim: corrigindo erros. mesmo os mais fofinhos.

    é um erro tratar um empregado como alguém da família quando a família do empregado é outra e quando ele tem condições de vida diferentes das que a família tem.

    é um erro tratar emprego doméstico como coisa menor, que qualquer um faz, mas ninguém quer fazer.

    é um erro contratar alguém como se isso fosse um favor, ainda que seja a única chance profissional – seja vista como chance profissional, ainda que seja um favor.

    fato é que não sei, como a maioria de nós não sabe, direito, o que dizer, nem como resolver.

    como disse na primeira linha: meu pitaco.

    e só, por enquanto.

    pensando junto, sempre.

    até entender.

    beijos.

    • A R R A S O U !
      A turma que frequenta este blog é “fera”: escrevem tão bem que, normalmente, os “comentários” são novas crônicas, novos textos da maior excelência… Parabéns!

    • (não tenho dúvidas de gente equilibrada e bem resolvida saberá adaptar-se à nova realidade, sem perdas para a família nem para os empregados.

      também não duvido que haverá problemas justamente naquelas casas em que as famílias não são muito equilibradas. e que pesará mais o desequilíbrio emocional do que financeiro.)

    • Muito bem elaborada sua dissecação em torno dessa relação tão ambígua e antiga (para mim,resquícios de coronelatos,etc e tal),vi com outros olhos …
      Parabéns !

    • Senhoras!
      Quanto preconceito!
      O nº de empregados domésticos cai no Brasil como em todo o mundo civilizado. Muitos de nós já podem dispensar essa colaboração, mantendo só os diaristas.
      O que não podemos é discordar das leis trabalhistas atuais, que corrigem uma falha escravocrata histórica.
      É notável o atraso e conservadorismo das classes sociais mais favorecidas. Neste contexto encontramo-nos nos últimos lugares na classificação humanitária. Por similaridade, imaginem o preconceito arraigado contra os animais.

  18. Vou contar como é a minha diarista aqui nos EUA.
    Simpatica, bem apessoada (será que tornou-se politicamente incorreto falar assim?), ingles macarronico, imigrante não documentada vinda da Colombia para poder dar estudos aos filhos que acho eu ainda estão por lá.
    Chega de Honda Civic do ano, calça jeans costurada no corpo à la Marilyn Monroe, aspirador (velho) de pó em punho e executa faxina de 2 horas (no maximo) cobrando a simbolica quantia de 80 dolares.
    Ela finge que limpa alguma coisa e eu faço que não noto.

  19. Enfim um texto compatível com a realidade brasileira! Tão bom se a renda do trabalhador ou aposentado/pensionista pudesse na relidade cobrir todos esses encargos, muito justo para a classe dos domésticos mas, no caso, injusto para muitos que de agora em diante não poderão mais arcar com tais custos. Já pensou os idosos sem empregada e sem cuidadores?

    • esse é um ponto importante: quando a empregada e o cuidador fazem o trabalho que nenhum outro familiar, parente ou amigo da casa estão dispostos a ou disponíveis para fazer, além de estarem efetivamente trabalhando, estão ocupando uma função social, assistencial, além da econômica. só que a empregada e o cuidador não são adotados para isso, mas contratados.

      é um problema que vem se arrastando há muito tempo. é gente que vem tapando buraco. esparadrapo onde é necessário operar.

      sem dúvida, gente sem condições de manter um empregado não deveria ter um subempregado. simplesmente porque não é justo. mas a realidade é que tem. o correto seria que houvesse assistência social (assistência da sociedade em que a pessoa está inserida e, só em último caso, na ausência de organização dessa tal sociedade, uma assistência social estatal – mas digna – o que não sei se existe).

      se tem gente idosa carecendo desses subempregados é porque falhamos todos: eles (os idosos de hoje, que não se importavam com isso quando eram jovens), as famílias (se é que existem ou lembram que existem), os subempregados (que aceitaram esse papel para, depois, darem-se conta da roubada em que se meteram e passar a exigir os direitos que teriam em outro lugar, talvez por influência de uma tal sociedade falastrona que não sabe resolver-se mas adora meter o bedelho na aposentadoria dos outros), o Estado, os vizinhos etc.

      fato é que mexeram no vespeiro.

      é hora de buscar nova organização.

      mas muita gente vai sair depois das ferroadas.

    • ah, é ótimo sempre levantar essas questões, porque são reais, foram deformações construídas e mantidas por todos nós, que sempre fizemos vistas grossas para essas falhas sociais, e que estamos num momento de agramento dessa situação. temos de pensar sobre isso e, quem sabe, melhorar muito em nossas casas. o bom mesmo é se as crianças estivessem discutindo esse assunto, com suas mães, tias, avós e empregadas (e todos os masculinos correspondentes), nas escolas, aí sim, quem sabe, talvez, eles, os filhos dos nossos filhos, tivessem um mundo melhor… digo: uma casa melhor, sobretudo quando se tornarem os avós na história.

  20. Há alguns anos venho tentando organizar minha casa para ter apenas diarista: acabei com almofadas, cortinas (sou alérgica), potinhos, enfeites, etc.; enfim, procuro ser o mais prática possível, mas, o problema é que não dispomos de produtos que nos facilitem a vida. Quando vou comprar roupas, por exemplo, olho logo a etiqueta de lavagem e observo que a maioria ainda é para quem têm mil empregadas: “secar na horizontal, à sombra…”, etc.
    Antes da PEC já era complicado seguir a lei com relação à burocracia; tive acompanhante para a minha mãe e eram mil recibos, declarações, etc. Na época, recorri muito ao site direitodomestico.com.br que é excelente. Agora, só com o auxílio de um escritório pois, as dúvidas e a papelada vão aumentar…

  21. Nada é tão ruím que não possa ficar muito pior(sei, frase “inédita”, né?) Se vocês forem ao Senhor Google(cara bão esse) e pesquisarem quantas ?faculdades? de Direito(?) existem no país, verão que teremos que alargar as portas dos tribunais do Trabalho e dos Fóruns para dar passagem ao número de “causídicos” que essas “faculdades” despejam anualmente no mercado. Essa gente toda precisa de “trabalho”. Nem tudo que o Seu Google diz merece crédito, mas tem um tópico que, parece, quer me empurrar no tripado que Banânia sozinha tem mais escolas prá “divogado” que todo o restante desta bola azul que o Lula deseja cúbica (ele diz quadrada). É mole?

  22. Nunca me esquecerei de uma frase de Benedita da Silva alguns anos atrás, ao propor, relatar ou coisa que o valha esse projeto de lei: “Agora só vai ter empregada quem pode”. Ué, mas ela não é ex-empregada? Ou ela só queria se vingar das expatroas? Tem preconceito pra todo lado nessa história. Só sei de uma coisa: a lei parece de primeiro mundo, mas com burocracia de quinto. No mais, concordo inteiramente com o texto, principalmente quanto às sutilezas e delicadezas da relação patroa/empregada.

  23. É interessante o ressentimento que alguns têm e a raiva da profissão que abraçam. Muita gente substitui o termo empregada doméstica por “secretária”. Ninguém acha que com isto está “diminuindo” as secretárias, que precisam de estudo pra exercer suas funções, muitas vezes falando vários idiomas, administrando planilhas, enfim, qualificadas para o trabalho burocrático que exercem. Muitas empregadas contratam outras mulheres para cuidar de seus filhos enquanto trabalham e acham razoável que essas não tenham direitos, horários, carteira assinada. É só uma transferência da situação de uma nova classe para outra. Nos grandes centros as empregadas trabalham há muito tempo com carteira assinada e salários decentes. A ilusão de trabalhar no comércio, onde ganham menos, cumprem horários rígidos – até para ir ao banheiro tem hora marcada – é um reflexo dessa vergonha de ser doméstica.
    Minha irmã mora na Inglaterra, e a empregada chega toda arrumada, de carro, trabalha as 3 ou 4 horas estabelecidas e volta pra casa feliz com o que recebeu, sem carteira assinada, INSS ou fundo de garantia. Vai de férias para o exterior anualmente e quando se aposenta o governo lhe dá pensão, remédios gratuitos, desconto na calefação. Essa é a grande diferença. Aqui o governo rouba o dinheiro que deveria atender às necessidades da população e transfere o encargo para o cidadão, já tão sobrecarregado de impostos.

    • Endosso suas palavras completamente !
      E, a propósito, como diz o Ancelmo, “secretária” é o cacete…
      Que coisa mais ridícula ! E alguns ainda usam o
      termo “funcionária” lá de casa. Não é mole !
      Vera

    • Cara Marise, foi no cerne.

      Creio eu isso ainda vai acabar em muita confusão e como o Min. do Trabalho sempre, ou quase, favorece o trabalhador… já viu, não é?!

      Assisti, num canal de TV, um especialista dizendo que são 44 horas semanais. A patroa dizendo que a empregada não trabalha aos sábados, Ele retrucou que tal horas deveriam ser combinadas. A empregada não entendeu o mecanismo e bateu o pé dizendo que só trabalharia as 8 horas “porque me disseram isso”.

      Com o desligar da câmera, o circo ali deve ter pegado fogo!

  24. Não tenho e nunca tive empregada doméstica, apenas diaristas vez por outra porém me coloco na situação de patroa e uma preocupação me veio pois tenho um pequeno problema que é o fato de ter um raciocínio absolutamente lógico. Bom, estava aqui pensando (outro defeito, eu penso…) não é que eu seja contrária a quem trabalha ter direitos garantidos pelo contrário, mas algumas coisas me preocupam quando as coisas são feitas num ímpeto populista e eleitoreiro, tanto que agora começaram a pensar nos ajustes que deveriam ser “pensados” antes (a droga do pensamento lógico atacando de novo). Vamos raciocinar então: existem empregadas domésticas, inclusive as diaristas, que para poderem sair de suas casas para trabalhar pagam uma determinada quantia para uma vizinha tomar conta de seus filhos todos os dias. Isso tb é trabalho doméstico. Então a empregada vai ter de assinar a carteira da vizinha e pagar todos os direitos tb? Ou isso entra como auxílio creche e o patrão tb vai assinar e pagar o salário da vizinha?

  25. Já era uma morte anunciada a das domésticas, tanto que nessa casa coloquei tudo de modo que uma velhinha esclerosada como eu possa viver só, serei uma bruxa velha carregando um aspirador de pó, algo moderno, sei lá…
    Sou a favor da lei, de alguns direitos como creche paga por mim não, não e não; empresas só com trinta empregados que devem possuir creche, não sou empresa, sou idosa, creche e escola é obrigação do governo, nunca minha, hora extra tudo bem, é mesmo devido a todos, adicional noturno na cuidadora, se bem que o ideal é algo como um asilo ou casa de repouso,como lá nas estranjas, dizem, já avisei que quero uma com internet e coral, baile da saudade tocando rock, axé e twist, e quarto de casal, idosos não estão mortos, enfim, a minha empregada, a não-doce-e-sempre-com-uma-resposta-pronta-na-ponta-da-língua, um piercing no nariz, mega-hair, Janete, vai ficar, só preciso ajustar o tal do livro de ponto, a babá das crianças (sou velhinha adoravelmente explorada, cuido dos netos) também, nunca dormiu no serviço, o problema é a cuidadora da minha mãe, oitenta e cinco e num pós-operátorio difícil e da minha tia, noventa e um, e chata e insuportável como sempre foi, a velhice não amansa ninguém e nem toda velhinha é doce, e essa nem renda tem, sempre costurou para fora e só ganha o salário mínimo do governo para idosos, minha tia que morreu pagava o aluguel dela e o viúvo disse que não ia pagar nada pois ela é insuportável e ela veio morar com minha mãe e, graças a os deuses minha mãe não se deixa controlar, mais a cuidadora agora quer ganhar duplo, disse que vai ter uma filha e encetou um reino de terror nas minhas velhinhas, o aviso prévio já foi dado, um irmão recém-separado escalado para morar lá, cuidadora agora só de dia e eventualmente uma pela noite, quando preciso, como uma diarista de idosos, enfim, enfim, para ser sincera, uma garota que como eu foi criada com duas ou três babás sempre (éramos sete), cozinheira, arrumadeira, copeira, lavadeira, passadeira, jardineiro, motorista, um bigorrilho, um quintal, um jardim na frente, uma rua de terra, um passeio de pedras portuguesas, um Opala, um DKW e um Jeep na garagem de portões sempre abertos, onde tinha moleque de rua e não sacizeiro, um igreja cujo sino dobrava sempre, um terreiro que batia nas noites quietas de luar e festa, sítios onde íamos comprar frutas no final da estrada, enfim, eu evolui bastante, saí da bolha, sobrevivi, vamos sobreviver, vai ser difícil, perder mordomia ninguém gosta, mas a lei vai se ajustar sim, ou cair em desuso, aqui nem toda lei pega, enfim, vamos esperar, o céu da minha Bahia continua azul que dói, o calor arrasa, quando a educação “boa” for para todos, aí sim, a escravidão acaba, porque tem professor ganhado menos que Janete e isso sim é terror, enfim, tenho dito,é isso e não isso só…

    • Mas o problema é esse mesmo, Matilda. Na Inglaterra, meu cunhado quando teve câncer no cérebro foi uma outra história. Desde o início o hospital mandou um psicólogo para conversar com eles – era terminal desde que foi descoberto, daqueles sem nenhuma chance – e estabelecer o que seria feito. Como minha irmã se recusou a interná-lo, o hospital mandava uma enfermeira para dar banho, ajudar nos cuidados.Os remédios eram fornecidos pelo hospital e minha irmã só tinha que levá-lo quando tinha radioterapia. Enfim, envelhecer por lá é mais fácil, mesmo se você fica em casa consegue ter alguma assistência.
      A cuidadora das suas velhinhas tem competência para algum outro trabalho?

      • Teoricamente sim, ela tem um desses cursos não-reconhecidos pelo MEC de auxiliar de enfermagem, terá uma bela carreira dando café com leite na veia e outros trecos desses (sim, estressei total com ela), mas no diploma sim, ela é qualificada, só que seguro morreu de velho e ela sempre foi ‘urubiservada’ no “selviço”, mas pode sim achar outro local de trabalho, mas mesmo que não tivesse ia ser defenestrada, algumas atitudes revelam o caráter e para trabalhar nas nossas casas isso é essencial.

  26. Cora você só esqueceu de falar que com esta lei o governo se apropria de vantagem eleitoral. Se Getúlio Vargas é conhecido como “pai do povo”, se não estou errado por conta da CLT”, Dilma vira agora a “mãe”. Pior mesmo é que tem gente que acha que finalmente acabou a escravidão neste país e que esta lei vai trazer benefícios à todas as classes sociais. Em primeiro lugar, escravidão vai continuar existindo no Nordeste, no Norte, e nestes grotões onde nenhuma lei chega e em segundo lugar porque com o legislativo, executivo e judiciário que temos nenhum benefício de fato virá!

  27. O texto está impecável, Cora. Muito bom, mesmo.
    E o trecho “e que imaginam que ser ou não ser classe média é questão partidária, mais ou menos como ser ou não ser Flamengo. Eles decidem que não são, e isso lhes basta para julgar o mundo.” é uma pérola rara.

    Aqui, aparentemente nada mudou, pois tenho diarista 2x por semana. Mas, como o inconsciente existe, ela estraçalhou a mesa da sala de jantar, por conta do recibo que está assinando à cada vez. Vou ter que chamar um marceneiro.
    Rs… Problemas pequeno burgueses, soluções idem.
    🙂

    • também achei este trecho perfeito. tenho alguns amigos assim, que eu chamo de “socialista vintage”, adoram cuba, mas passeiam em paris.

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