O arqueólogo canalha e as antiguidades perdidas

Depois de Indiana Jones, o arqueólogo mais famoso do mundo é Zahi Hawass. A diferença é que, ao contrário de Indiana Jones, Zahi Hawass não é um personagem de ficção. Não há programa sobre o Egito Antigo em que ele não apareça, sempre com o mesmo chapéu, como o herói fictício — com o qual, aliás, gosta de ser comparado. Para quem assiste Discovery, NatGeo ou BBC, o doutor Hawass é uma celebridade, uma espécie de Jay Leno das múmias. Ele também pode ser visto no YouTube como cicerone de personalidades internacionais em visita às pirâmides, do presidente Obama, em 2009 (que achou muito inteligente) a Beyoncé (que achou absolutamente idiota). É que, durante anos, ele foi o todo-poderoso das antiguidades egípcias: de inspetor chefe das pirâmides passou a secretário geral do Supremo Conselho de Antiguidades, vice ministro da Cultura e, finalmente, ministro das Antiguidades.

Na televisão, Zahi Hawass passa a impressão de ser um scholar com um pé na aventura. É uma figura falante e cheia de entusiasmo, que descobre túmulos perdidos no Vale dos Reis e desenterra múmias, enquanto explica para os telespectadores quem é quem no Antigo Egito. Na vida real, porém, esse jeito competente e inofensivo não se sustenta. Para espanto dos ocidentais acostumados a vê-lo como o Egípcio Mor, assim que a revolução explodiu Hawass foi exposto como uma das pessoas mais detestadas do país: pesam contra ele acusações de corrupção e de uma intimidade malsã com a família Mubarak. Condenado à prisão, conseguiu evitar ir para a cadeia, embora continue impedido de viajar para o exterior.

Hawass foi defenestrado logo em seguida à derrubada de Mubarak; conseguiu voltar ao poder logo em seguida, fez uma turnê pelos Estados Unidos para chamar turistas de volta ao país mas, dois meses depois, sua situação ficou insustentável. Num dos processos a que responde, por exemplo, é denunciado por ter dado a uma empresa da qual é sócio a administração da loja do Museu Egípcio do Cairo. Esta empresa distribui chapéus iguais ao que usa nos programas de televisão e uma linha de roupas com o seu nome.

Zahi Hawass é acusado de sumir com antiguidades, de ter dado colares faraônicos para Suzanne Mubarak e de tratar os tesouros egípcios como sua propriedade particular. Arqueólogos queixam-se do sequestro de descobertas individuais, anunciadas como trabalho do Conselho ou do Ministério; egiptólogos denunciam falta de rigor científico. Entre outras coisas, descobriu-se que Hawass recebia cerca de US$ 200 mil anuais como “explorador em residência” da National Geographic para, supostamente, aparecer nos programas da emissora. A versão que se tem como correta hoje, contudo, é que ele impunha sua presença aos documentaristas que quisessem filmar os sítios arqueológicos, e que o seu cachê serviria, na verdade, para facilitar licenças de acesso.

Em suma: o homem tinha tudo para ser político no Brasil.

o O o

Pelo lado bom, Zahi Hawass foi uma das vozes mais atuantes em campanhas de repatriamento de peças faraônicas dispersas pelo mundo, como a Pedra de Rosetta, que está no British Museum, o busto de Nefertiti, no Neues Museum de Berlim ou o obelisco de Paris, que foi levado de Luxor. Esta reivindicação fazia todo sentido para mim, que sempre vi as coleções dos grandes museus como fruto da pilhagem mais descarada — até ir para o Egito e constatar, in loco, o risco que correm antiguidades num ambiente político volátil.

Falou-se muito em 2011 no cordão humano feito pelos revolucionários para proteger o Museu do Cairo durante as manifestações na Praça Tahrir, mas quase não se falou na invasão do museu e no roubo de mais de 500 peças, das quais menos de 30 foram recuperadas; eu mesma só soube disso no Egito. A quantidade de escavações ilegais explodiu por todo o país com o fim da polícia; o contrabando de obras de arte tem tirado o sono de egiptólogos do mundo inteiro. A restauração do Instituto do Egito, incendiado durante a revolução, ainda não saiu do papel; o fogo destruiu mais de 130 mil livros e documentos raros, entre eles o manuscrito da “Descrição do Egito”, gigantesca compilação levada a cabo, ao longo de vinte anos, pelos 150 estudiosos e cientistas que acompanharam Napoleão em 1789, ajudados por um time de mais de 200 artistas e técnicos.

O que eu tinha como certeza absoluta — bens arqueológicos pertencem aos seus países de origem — ficou menos óbvio quando tomei conhecimento disso tudo e, sobretudo, quando visitei o Museu Egípcio, entregue às baratas, com tesouros inimagináveis empilhados de qualquer jeito, sem placas de identificação, sem iluminação apropriada, sem nenhum cuidado de exposição.

Hoje tendo a achar que, se a Pedra de Rosetta voltar para o Cairo, há, na melhor das hipóteses, uma forte possibilidade de que venha a ser apenas uma pedra velha no meio de outras pedras velhas, sem receber o destaque e a reverência que merece.

(O Globo, Segundo Caderno, 28.3.2013)

 

Anúncios

19 respostas em “O arqueólogo canalha e as antiguidades perdidas

  1. A impressão que tive do museu do Cairo foi tão ruim, justamente pela total falta de cuidado com as obras, como já disse aqui. Esperava sua opinião a esse respeito. Você notou que tem papiros retirados das tumbas, expostos nas paredes do museu, tomando o sol que entra pelas enormes janelas? E pensar que no Louvre as artes egipcias (pilhadas?) ficam em ambiente climatizado e perfeitamente protegidas, para alívio da humanidade…

  2. Cora,

    Como sabemos, as coisas nem sempre são o que parecem.
    Muito do que se diz do Hawass deve ser verdade, mas não devemos esquecer que o tipo de personalidade que ele tem atrai muita inveja e até mesmo brigas pelo poder nos bastidores da política.
    Sobre os artefatos históricos roubados e/ou levados para outros países, a história do busto da Nefertite é um bom exemplo. Por um acordo vigente na época, o produto das escavações devia ser dividido meio a meio com os egípcios. Borchardt, o arqueólogo alemão, sabendo que busto era de Nerfetite, o sujou com cal, deixou no fundo de um caixote, numa sala pouco iluminada, cercado de artefatos banais, e o catalogou como: “Busto de uma princesa desconhecida”.
    Claramente os egípcios foram enganados por essa manobra desonesta.

    Sobre essa mentalidade colonial de alguns comentários aqui: muita coisa seria melhor tratada na Europa e EUA. Então, abram as fronteiras para os bustos, mosaicos e os pobres…
    (8[>

    • …os pobres…bom esses pobres estão explorando as antiguidades egipícias há quase mil anos ou mais,..se ainda não ficaram ricos com o turismo, você há de convir que por falta de oportunidade é que não foi, pois não temos culpa se a cultura do povo “arabe” é assim, de só tirar proveito dos recursos do Antigo Egito e ponha muitos recursos e riquezas nisso, sem sequer pensar em investir pelo menos um pouco socialmente .Se não souberam aproveitar essas riquesas do Egito conquistado, pois estavam lá de graça pra eles…que culpa nós temos? …quanto as peças egícias que estão fora do Egito, estão muito bem cuidadas graças a Deus, pois creio que serão as únicas lembranças dessa maravilhosa civilização do passado, que está sendo tão maltratada no antigo Reino e Terra dos verdadeiros Faraós,então assim sendo sou totalmente favorável que elas não voltem mais ao Egito dos arabes, pois estou convicta que eles não condições nenhuma de cuidar dessas obras.

  3. (…)o fogo destruiu mais de 130 mil livros e documentos raros, entre eles o manuscrito da “Descrição do Egito”(…)

    Sem contar as outras peças roubadas. Deus! É de chorar……

  4. Cora, nunca senti que uma crônica fosse “tão para mim” como essa.
    Sempre admirei (e ainda admiro) o Dr. Hawass. Não pelos seus desatinos, escorregadas hollywoodianas, seu jeitão de Professor carrasco ou a aspereza como, assim me passa, dirige-se ao outro, mas por aquele detalhe que assinalou na crônica, seu entusiasmo voraz por mostrar ao mundo o Egito científico. É esse Hawass que admiro e que me faz ser tiete dele!
    Como Educadora que sou, sei que o entusiasmo pelo que faz é porta de entrada para sua felicidade naquilo que escolheu seguir na vida e, assim, contagiar outros, e Zahi Hawass passa isso em seus livros, artigos e documentários.

    Concordo com todas as suas colocações sobre, já sabia de muitas delas, até mesmo sobre o roubo das peças e que poucas foram resgatadas durante o episódio da saída de Hosni MubaracK.
    É obvio que, para poder estar, e chegar, ao status dele no Egito e sua política, virar ele próprio documentário em NatGeo, Discovery e segue por aí, santinho é o que ele não conseguiria ser. Evidentemente iria ser corrompido por algo (afinal, todos nós temos um preço. Todos!) e, se deixou-se levar por falcatruas em roubos de peças que pertencem ao povo egípcio, como ele tanto gosta de assinalar, pior ainda mil vezes.

    Já trabalhei em uma Fundação pública e sei o quanto tinha, e ainda existe, de “hawass” por essas bandas. Fiquei pensando, após ler a crônica, no que aconteceria, e no que acontece já agora, nessa Fundação se o NatGeo e o Discovery rumassem para lá.

    Parabéns pela crônica lúcida e que fez-me questionar sobre a devolução de tesouros egípcios.
    Beijo grande. Paula Regina.

  5. (Mal conheço o Brasil. O Egito sempre foi um destino entre os meus favoritos) Fiquei chocada. Conheci o moço num canal desses da vida e achei que ele poderia dar lições para nós. Em choque, ainda. Que a maldição da múmia recaia sobre ele.

    • Lembrou bem, Leonora! Mas, cá entre nós: nem a maldição da múmia parece ser confiável, atualmente…

  6. Depois de ler a sua crônica e os comentários de todos aqui no blog, só posso dizer que concordo que o melhor é deixar as relíquias nos museus onde estão: o Egito não consegue dar conta nem do bem estar da própria população…

  7. Rsrs… “Tinha tudo para ser político no Brasil” é bom demais!
    ***
    Eu tive um verdadeiro ataque quando me deparei com os frisos de Fídias- escultor que eu conhecia da infância, via Monteiro Lobato- no British Museum. Eu era uma jovem muito… Como direi?… Enfim, eram anos 70 e eu externei minha revolta em alto e bom som, como uma selvagem desgrenhada, loura e nada polite que eu era, num inglês bastante compreensível, pelo que me pareceu- e ainda hoje parece- um esquartejamento imperalista.
    Idem no Museu do Louvre. Tive um treco. Deu vontade de matar, pela pilhagem.
    Mas, depois dos Budas do Afganistão explodidos- primeira mensagem clara dos talibãs ao mundo- sou obrigada a concordar – em parte- com você.
    Mas, só em parte: os frisos do Parthenon ainda me dão arrepios. Brrrrrr…
    E, sei lá: ainda acho que se os povos querem se matar, destruir e delapidar seus próprios tesouros- como aqui fazemos com a Natureza- acho que devem ter autonomia pra isso. Não é direito nem dever de nenhum grupo de estranhos, impedir.

    • Não tenho tanta certeza. Pode-se argumentar que a herança das antigas civilizações não pertence a este ou aquele povo, mas à Humanidade como um todo — até porque, em muitos casos, os povos que hoje cuidam desse legado pouco ou nada têm a ver com seus construtores. A maioria da população egípcia atual, por exemplo, descende dos árabes que invadiram o país em meados do Século VII, e que têm tão pouco a ver com a civilização faraônica quanto nós…

      • Neste caso, poderíamos dizer, também, que a Amazonia brasileira pertence ao planeta Terra…? E como pertence!
        Que as nossas florestas seriam mais bem preservadas por um comitê internacional?
        O pior que seriam… Rs… Também tenho dúvidas, @cronai. Eu só tinha certezas aos 20 anos.

  8. Estive no Egito uma semana antes da revolta. Tudo ainda estava em paz, mas se podia notar o descaso com os tesouros arqueologicos. O museu maravilhoso, completamente sem proteçao. Qualquer um podia sentar nas reliquia, pegar pedaços passar a māo etc. se vc olhasse para cima veria um mezanino entulhado de peças, guardadas de qualquer maneira. A sala das mumias, espetacular e com a mumia de ramses, soube depois que havia sido invadido por vandalos, que quebraram os esquifes de vidro e profanaram as mumias. Nao sei se é verdade. Voce viu isto?
    Li depois um artigo interessante que afirmava que o atual povo egipcio nao é descendente daquele que construiu aquelas maravilhas que vc vê, principalmente em Luxor. Que este povo foi dizimado por varias invasoes, e que hoje habita o Egito um povo misturado descendente destes varios invasores e que seria incapaz de construir aquilo tudo. Nao sou tao boa em historia, mas me parece fazer sentido. Tambem acho q se devolvessem as obras, principalmente a de Nefertiti tudo seria destruido ou deixado “pra lá”.
    Graças à Deus fui antes, e foi a viagem mais linda que fiz na vida.

  9. Olha Cora,
    o jeitão do dr. Hawass sempre me incomodou. Na verdade me incomodava porque ele me parecia ser muito centralizador, e detesto gente assim. Quanto à questão da corrupção não fazia ideia.

    E, também porque nunca gostei da ideia da volta dos itens ao Egito. Por dois motivos: a) na época em que tais bens foram expatriados isso não era considerado errado, era a norma o bem ser do explorador que o descobrisse e de quem financiava a escavação, o conceito mudou ao longo do tempo, Não acho correto querer punir alguém por algo feito quando era considerado legítimo, mesmo que depois passe a ser considerado errado. b) Entre um bem ficar num museu bem cuidado e equipado da Europa ou EUA e num país como o Egito, mil vezes Europa ou EUA. Conservar objetos antigos é muito caro. Sem falar que eu iria até a Alemanha pra ver Nefertiti, mas não ao Egito.

    Acho que os sacerdotes do antigo Egito é que estavam certos: tem de esconder bem escondido os tesouros dos faraós, do contrário sempre haverá alguém pra roubar e comerciar com eles.

  10. Pelo amor de Ísis e Osíris deixem a Pedra da Roseta no British Museum. Se voltar pro Egito vão sumir com ela em 2 mimutos.

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s