Por baixo do pano

Vi uma mulher de burca pela primeira vez em Londres, em meados dos anos 70: na verdade, um coletivo de mulheres de burca. Eu estava chegando à Harrods quando alguns carros pararam na porta da loja. Deles saltaram umas dez mulheres cobertas dos pés à cabeça, acompanhadas por uns poucos homens de terno e gravata. Pareciam criaturas saídas das “Mil e Uma Noites” ou de uma aventura do Tintin. Fiquei imaginando se seriam as várias mulheres de algum sultão enquanto as observava fazendo compras. Elas mal e mal olhavam a mercadoria; apenas apontavam o que queriam e os homens que as acompanhavam faziam o pagamento. Nunca vi, nem antes nem depois, alguém comprar bolsa Vuitton a dúzia, e fiquei devidamente impressionada.

Anos depois — décadas depois! — fui à Turquia, e me espantei quando vi quantidades de mulheres com diferentes tipos de xales e véus na Mesquita Azul.

— Eu não sabia que as turcas usavam burca — comentei com o guia.

— Perdão, senhora Cora, mas onde a senhora está vendo turcas? — perguntou o Mustafá. — Essas são turistas, como a senhora.

Claro! Pontos turísticos atraem turistas, mas nem me havia passado pela cabeça que aquelas mulheres todas cobertas estivessem ali a passeio, se divertindo.

Voltei a encontrar muçulmanas conservadoras na Índia. Nas grandes cidades elas usam um xale comprido chamado dupata, e mal se distinguem das hindus, que se vestem da mesma forma. É no interior que os tipos mais diversos de cobertura aparecem. Em Agra e no mercado do Jodhpur vi mulheres até de chador, aquela burca preta do Irã — embora seja perfeitamente possível que, como as “turcas” de Istambul, elas também fossem turistas. O chador, que transforma a mulher numa forma escura e indefinida, triste espécie de ave de mau agouro, contrasta violentamente com a indumentária linda e colorida das indianas, que é sempre um prazer de se ver.

No Egito, porém, chamam a atenção as (poucas) mulheres que não usam algum tipo de véu. Todas se cobrem de uma ou outra maneira, embora a sociedade, como um todo, me pareça bastante tolerante (ainda!) em relação à forma como cada uma se veste. Durante todo o tempo da minha estadia levei um lenço na bolsa para a eventualidade de ter de cobrir a cabeça, mas isso não foi necessário nem nas mesquitas. Fiquei agradavelmente surpresa com essa postura: na Índia, que em tese é mais liberal do que o Egito, me fizeram vestir uma capa xexelenta para entrar na Grande Mesquita de Nova Delhi.

As egípcias usam de tudo. As moças da classe média mais ocidentalizada cobrem a cabeça com lenços; outras combinam roupas ocidentais com véus elaborados. No City Stars, o gigantesco shopping do Cairo, meninas de cabeça descoberta andam lado a lado com moças tão radicais que, além do niqab (que cobre o corpo todo, deixando uma pequena fresta para os olhos) usam até luvas. O que não se vê, exceto nas turistas sem noção, são saias curtinhas, shorts e blusas sem manga.

O mais estranho é que todas essas moças bem comportados consomem uma lingerie tão escabrosa que, aqui no Brasil, só seria aceita em sex-shops. No mercado popular de Alexandria, onde o uso do niqab é quase universal, as barracas de lingerie vendem peças tão ridículas que não dá para imaginar que alguém use aquilo fora de um cabaré cenográfico; e, no entanto, lá estão as mulheres, cobertas de preto dos pés à cabeça, comprando aquilo sem qualquer constrangimento. Vá entender…

É bom notar que, no Egito, o véu não significa necessariamente opressão. Vi por toda a parte incontáveis garotas de véu… e jeans e tops ultra apertados. Vi também garotas de preto, com véu na cabeça, namorando descontraídas pelos cantinhos. Vi ainda moças de niqab e luvas estudando, sozinhas, na Biblioteca de Alexandria.

A situação das egípcias é, claro, bastante diferente da situação das mulheres do Afeganistão, da Arábia Saudita ou do Irã, onde a polícia religiosa persegue e espanca as que não estão “adequadamente” vestidas. Em comparação com a maioria das mulheres do mundo islâmico, elas gozam de relativa liberdade: estudam, trabalham, saem sozinhas. Muitas usam véu ou niqab apenas porque se sentem mais seguras na rua com aquele pano todo.

Pudera não: desde a revolução de 2011, quando a polícia virtualmente desapareceu das ruas, os índices de violência sexual explodiram. Uma mulher não pode sair de casa sem ouvir gracejos estúpidos, sem ser bolinada nos transportes públicos, sem correr o risco de ser estuprada mesmo em meio a multidões — ou sobretudo em meio a multidões. Segundo ativistas ouvidos pelo “The Daily Mail”, de Londres, a Irmandade Muçulmana tem contratado gangues para estuprar ou abusar sexualmente de moças que participam dos protestos contra o presidente Mursi. Nem estrangeiras escapam: Lara Logan, correspondente da CBS, foi atacada por uma dessas gangues enquanto cobria uma manifestação na Praça Tahrir.

Pessoalmente, não tenho queixas. Fui tratada com cortesia e respeito durante toda a minha viagem, mas dei sorte: além de estar constantemente na companhia de dois amigos, já passei da faixa etária que precisa se preocupar com egípcios selvagens. Afinal, alguma vantagem a gente tem que ter ao envelhecer.

(O Globo, Segundo Caderno, 14.11.2013)

Anúncios

38 respostas em “Por baixo do pano

  1. Dona Córa,
    o seu comentário acima, “Por Baixo do Pano”, me fez lembrar quando estive em Pisa, na Itália, há alguns anos. Após visitar a famosa torre ( fui até lá ao topo, onde ficam os sinos – naquela época era permitido o acesso), fui visitar o batistério, uma belíssima construção que fica na mesma praça. Alí, entrei numa fila para ter acesso ao templo, onde no portal um padre controlava os turistas, talvez para não superlotar o ambiente.Quando, de repente, a fila pára de andar, pois o sacerdote começara a discutir com uma turista, impedindo-a de entrar no templo por ela estar usando uma blusa normal, sem mangas. Fila parada, turistas atrás reclamando, até que um senhor que estava próximo a mim, saiu da fila, retirou seu paletó e emprestou para a moça cobrir os ombros. Somente assim o padre permitiu que a moça entrasse naquele templo. Olha só, alí é uma igreja católica romana, ocidental, não é nenhuma seita islâmica ou qualquer outra.

    • Aconteceu com meu marido, num concerto na Universidade da Bahia em Salvador (há 40 anos)Ele foi impedido de entrar pq estava sem gravata, mesmo de paletó. Ele então pegou o cinto do meu vestido e fez uma gravata…

  2. Estive em Riyadh há 30 anos, fui a trabalho. Era um escândalo uma mulher ir assinar um contrato mas na falta de um homem mandaram a mim mesma. Claro que chegando lá a primeira coisa que fiz foi usar o chador. Meus interlocutores conversavam comigo através de um vidro afinal, eram todos homens. Uma coisa de louco. Mas o mais louco de tudo é que conheci uma inglesa, esposa de um dos engenheiros da empresa com a qual íamos trabalhar e ela me convidou para uma “festa de meninas” na casa dela. Um monte de mulheres árabes eram convidadas. Chegando à casa da inglesa elas tiravam o chador e por baixo usavam roupas ousadíssimas. Blusas decotadas, mini-saias realmente mini e muita, muita maquiagem. Claro que não havia nenhum homem presente mas ainda assim para mim foi um espanto. Minhas 72 horas em Riyadh foram a coisa mais louca que já vivi.

  3. Eu vi estas mulheres com burka e com chador em Munique. E eram muitas. Eu queeria fotografá-las, mas a minha irmã não deixou porque ela disse que a reação dos homens que cuidam delas poderia não ser boa.

  4. Ano passado, num verão de 40 graus na Turquia, eu tive vontade de dar uma de louca e sair arrancando aquele monte de pano das mulheres, principalmente daquelas que usavam chador… até na praia!!!
    A zeladora da Mesquita de Foz do Iguaçu, que me cobriu dos pés a cabeça, ficou perplexa ao saber que eu havia entrado nas mesquitas da Bósnia sem me cobrir…rs

    • Ano passado em Israel, no Mar Morto, um calor sufocante, o marido com as crianças tomando banho com calções e a mulher, de burka, apenas molhava os pés na beira da água…

  5. Acho este negócio de burca divertidíssimo. A primeira vez que vi estas figuras foi na Harrods e tirei um monte de fotos. Tem um tipo de burca que é muito parecida com a máscara do Batman, tem um lugar para os dois olhos, mas o nariz é coberto deixando apenas um espaço para a boca. Todas as vezes que vejo uma moça com uma dessas, tiro fotos !

  6. Nelas eu acho lindo o véu (burca não!). E, me parece, que até gostam de mostrar que usam. Mas, eu não sei em quais condições ficam a saúde dos cabelos e do couro cabeludo, tudo abafado ali.
    Umas cobrem a cabeça no Catete, ginastas dinamarquesas tiram a parte de cima do biquíni em Copa, genitália desnudada na Sapucaí, táxi noturno proibido por temer estupro… o mundinho difícil de entender huahuahuahua

    • LINDO?????É desconfortável e sinal total de opressão da mulher como gente de segunda categoria…

    • E vários tolos machistas morreram de rir dela, consequentemente, e soltaram as costumeiras piadas de “ela devia agradecer?”
      Tadinha….

  7. Nunca fui por aqueles lados, mas vi, há uns 20 anos, mulheres de burca aqui pelo Catete. Em pleno verão, um calor de bode e aquelas mulheres andando de preto da cabeça aos pés, como se estivessem no inverno europeu. Elas acabaram sumindo.

  8. Como eu também pertenço à mesma faixa respeitável e isenta de sustos que você sabiamente mencionou, me atrevo a perguntar:
    E as fotos destas barracas populares de Alexandria, refulgindo ao sol com calcinhas chocantes, exíguas e, provavelmente, cheias de fendas e bordados egípcios, ehm? Não tirou nenhumazinha, com a sua maravilhosa Sony RX-100, ou não considerou de bom tom nos mostrar?

  9. Com o fundamentalismo islâmico invadindo a Europa e o fundamentalismo evangélico invadindo a América, sobretudo a latina, meu porviroscópio ( obrigado M. Lobato! ) não me
    diz que o futuro será radiante. Era de se esperar que este obscurantismo retrocedesse…

  10. Afinal, alguma vantagem a gente tem que ter ao envelhecer.(sic)
    Bem, maneira de pensar. Tenho uma amiga de 76 anos, que não toma taxi à noite com medo de ser estuprada.!!!!!!!! Rs,rs,rs

  11. “Bolinada”? Cora? Há quanto tempo não vejo esta expressão, pensei que não se usava mais..e olhe que tenho 75 anos!!! Quando vi mulheres completamente cobertas foi tb na Inglaterra, há muitos, muitos anos..Lembro que reparei que elas usavam chinelinhos do Dr. School e compravam quilos de maquiagem pq só aparecia os olhos. Na Mesquita de Israel, a gente compra o lenço xadrês para visitar a Mesquita mas só pode entrar as mulheres de burka. Isto aconteceu ano passado

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s