Egito, um país de celulares

A história recente do Egito passa pela internet e passa, sobretudo, pelos celulares: boa parte das manifestações populares da Praça Tahrir foi coordenada através de midias como o Twitter e o Facebook, também usadas para dar ao mundo notícias em tempo real do que acontecia no front. O índice de lares conectados no país ainda é pequeno — 21% de usuários numa população de 83 milhões — mas o uso de celulares é amplamente disseminado. Como o Brasil, o Egito tem mais celulares do que habitantes: o número de aparelhos está em 90 milhões. A título de comparação, há menos de 9 milhões de linhas fixas no país, e elas são cada vez menos procuradas.

Aonde quer que se vá, aonde quer que se olhe, lá estão egípcios e egípcias falando nos seus aparelhos ou mandando torpedos uns para os outros. É muito difícil, se não impossível, esconder informações de uma sociedade tão antenada.

Hosni Mubarak, o ditador derrubado durante a “Primavera árabe”, não chegou a censurar a rede diretamente mas, durante seu governo, o país permaneceu na lista de “inimigos da internet” mantida pelos Repórteres sem Fronteiras. Blogueiros contrários ao regime eram presos por qualquer motivo e não era raro que permanecessem incomunicáveis durante meses.

Era de se esperar que o novo governo, liderado pelo presidente Mursi, tivesse mais apreço pela liberdade de expressão — mas não é isso que está se vendo por aqui. No primeiro aniversário da revolução, em março do ano passado, os Repóteres sem Fronteiras publicaram uma análise da situação:

“O primeiro aniversário da revolução egípcia foi celebrado em clima de incerteza e tensão entre uma autoridade militar contestada, um movimento de protesto que busca novo alento e islamistas triunfantes. Internautas que criticam as forças armadas têm sido perseguidos, ameaçados e, eventualmente, presos.

O Conselho Supremo das Forças Armadas, que dirige o país desde fevereiro de 2011, não só perpetuou as ferramentas de controle da informação de Hosni Mubarak como as fortaleceu. Jornalistas e blogueiros que tentam denunciar os abusos cometidos por membros das forças armadas durante o levante têm sido julgados por cortes militares e aprisionados por meses a fio.”

Rude golpe para quem sonhava com democracia! A garotada da Praça Tahrir, que não desiste e continua mobilizada nas tendas que ocupam a praça, aposta no caos administrativo para manter os canais de informação abertos. As lan houses agora são obrigadas a anotar nome e identidade dos fregueses, mas os smartphones — sempre eles! — garantem a comunicação instantânea.

o O o

Tanto os simcards quanto o seu uso são relativamente baratos no Egito. Por um pacote de 15Gb paga-se o equivalente a R$ 40, mas há ofertas que reduzem este custo pela metade. A burocracia para obter uma conta não é das piores: consegui comprar um chip para o meu smartphone apresentando apenas o passaporte. Nem o endereço de estadia me pediram.

Cheguei há cerca de duas semanas, comprei um pacote de 6Gb por cerca de R$ 25 e, apesar de conferir a mailbox e de ler notícias do Brasil, de postar fotos continuamente e de acompanhar Twitter e Facebookk,  ainda não consegui gastar sequer 2Gb.

A qualidade do serviço das operadoras — Mobinil, Vodafone e Etisalat — é desigual. No Cairo o 3G funciona relativamente bem em todas as três, ainda que com áreas mudas e momentos de queda. É quando se sai da capital que os problemas começam. A cobertura de voz funcionou em todas as cidades que visitei, mas a cobertura de dados deixou muito a desejar fora do Cairo e de Alexandria, a segunda cidade do país.

Nada, porém, que esta brasileira estranhasse.

 (O Globo, Economia, 2.3.2013)

 

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6 respostas em “Egito, um país de celulares

  1. Cada tempo com a sua arma. Adoro um torpedo. Já pensou quando precisava arrombar um portão com ariete egípcio pra entregar o recado?!

  2. Como eu disse há um ano atrás, são sempre de 180 graus as revoluções dessas paragens. O mais terrivel é que são os ditadores religiosos quem passam a brandir as armas. Intolerantes,
    letais, sanguinários…

    Tudo de bom para a D. Nora! Sinto-me desculpado pela falta de lembrança, por não ser ano bisexto:)

  3. Quando você colocou o papel moeda on-line eu fiz uma busca para descobrir a que país correspondiam: e, até o Irã eu investiguei, sem muito susto.
    O último país, que pesquisei, quando nada mais restava procurar, foi o Egito.
    Eu confesso que fiquei estatelada, quando vi que as notas eram daí.
    Não pelos belíssimos monumentos ancestrais, mas por causa da atual conjuntura política. Pelo visto, e infelizmente, não me equivoquei.

  4. Cora, soube que dia 29 foi aniversário da sua mãe, então muita saúde e parabéns pra ela, Dona Nora foi agraciada pela vida com uma família especial, marido e filhas , sem esquecer a disposição para encarar piscinas e torneios , quando muitos não encaram nem um riachinho… Tudo de bom para sua Mamãe!

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