Blade runner

Não existe viagem no tempo. Todos sabemos disso, mas nem sempre o que se sabe coincide com o que se sonha. Quando vim para o Egito, há cerca de dez dias, eu sonhava com faraós, túmulos e pirâmides, e com os feitos de heróis como o egiptólogo Jean-François Champollion e o arqueólogo Howard Carter; mas aterrissei num país que, embora dependa do passado para garantir o presente, está preocupado mesmo é com o futuro. O Egito de hoje é uma nação em crise, dividida entre liberais que sonham com a queda do presidente Mursi e radicais que querem um estado islâmico.

Minha alma laica e ocidental fecha naturalmente com os liberais, mais esclarecidos, mas amigos estrangeiros que acompanham a política local me alertam para o fato de que, nesta região, nada é tão simples. Aparentemente, há no país um descaso endêmico pela sorte das camadas mais pobres da população, que votam em massa na Irmandade Muçulmana porque nela encontram o único apoio que jamais receberam. Já os liberais, que estão certos em temer a islamização do Egito, pecam por ignorar os milhões de conterrâneos que vivem abaixo da linha de pobreza e pela falta de um programa que permita a criação de uma sociedade mais justa.

No Cairo, a famosa Praça Tahrir, que fica em frente ao Museu Egípcio, virou acampamento de revolucionários. Numa das várias tendas lá armadas foi montado um pequeno Museu dos Mártires, com fotos dos que tombaram nas refregas contra o governo. Em Alexandria, segunda cidade do país, o ponto nevrálgico é a principal mesquita, onde há protestos dia sim e outro também. O clima nas ruas é elétrico. A sensação de que alguma coisa pode acontecer a qualquer momento é permanente — mas, apesar disso, a vida segue. Os cafés, que correspondem aos nossos botecos, continuam cheios, e os mercados fervilham como sempre.

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Uma das consequências indiretas da revolução de 2011 pode ser sentida tão bem pelos turistas quanto pelos egípcios: o trânsito do Cairo, que já era considerado um dos piores do mundo, desandou de vez. Impossível ir do Ponto A ao Ponto B em menos de duas horas, quaisquer que sejam os pontos A ou B. O engarrafamento é permanente.

Acontece que a população decidiu interpretar a palavra “democracia” da forma mais ampla possível, e passou a fazer o que quer nas ruas, de onde os guardas virtualmente sumiram. A bandalha virou estilo de vida; carros estacionam em filas triplas ou quádruplas em qualquer lugar, estradas e viadutos inclusive, e conceitos como mão e contramão caíram em desuso. Nos cruzamentos segue em frente quem é mais destemido ou mais louco; para nos sinais quem tem gosto ou vontade. Para piorar a situação, a frota é antiquíssima, e volta e meia um Lada do Alto Império quebra e tranca tudo. Ônibus circulam com o capô do motor aberto, soltando densas colunas de fumaça preta. “Caos” é uma palavra simpática para descrever o que acontece na cidade.

O trânsito egípcio é incomparável com qualquer outro que eu conheça. Num primeiro momento, me lembrei do peculiar trânsito indiano, mas a comparação é injusta com a Índia, já que há um método naquela loucura. Carros — e camelos e vacas e cabritos — se movem juntos, numa espécie de sofisticado trabalho de grupo. Os motoristas indianos buzinam por gentileza, para alertar os outros da sua presença; devagarzinho, todos chegam ao seu destino.  Os motoristas egípcios buzinam de raiva; ninguém negocia, ninguém cede um milímetro. Dirigir é ir para a guerra.

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O trânsito infernal é apenas uma das pragas do Egito moderno. Cairo e Alexandria são dois desastres urbanos, dois amontoados de problemas insolúveis. Procurando com cuidado, é possível perceber nas duas cidades vestígios do esplendor da primeira metade do século passado; mas é preciso olhar com muita atenção. Os edifícios antigos, onde se distingue um detalhe arquitetonico aqui, uma intenção elegante ali, estão abandonados e não vêem tinta há décadas; os prédios novos estão inacabados. Não existem nem condomínios, nem fiscalização.

Logo depois da Revolução de 1952, os aluguéis foram congelados. Hoje não têm mais nenhum valor, e não há nada que os proprietários dos imóveis possam fazer; é claro que, nessas circunstâncias, a última de suas preocupações é a conservação dos edifícios. Já os inquilinos, mesmo quando têm condições, não têm interesse em investir na propriedade alheia.  Aí veio a Revolução de 2011. Com a queda de Mubarak, instaurou-se um período de vale tudo em que incontáveis casas e pequenos prédios vieram abaixo para dar lugar a edifícios que contrariam frontalmente o zoneamento. Assim, em áreas onde era permitida a construção de quatro ou cinco andares, ergueram-se estruturas de dez ou quinze, que permanecem no osso, inacabadas, apenas para ganhar o espaço no grito, num grotesco usucapião vertical.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, a cidade do Cairo é fascinante. Ela repele e atrai em igual medida, como uma esfinge moderna que propõe uma nova charada para os visitantes: Devora-me ou te devoro.

(O Globo, Segundo Caderno, 28.2.2013)

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31 respostas em “Blade runner

  1. Prezada Cora, boa noite Li agora sua coluna sobre sua estada no Egito. Estive ai no ano passado e tambem fiquei bastante surpresa com o transito ( surreal) e as construçoes inacabadas, no nosso entendimento. O guia explicou 2 coisas interessantes sobre este assunto e acho que vai gostar de saber: As familias constroem os predios ja com a intençao que seus filhos morem ali, quando crescerem irao adicionar mais um andar à construçao, entao a cobertura nunca esta finalizada. Junte a isto o fato financeiro, a carga tributaria é bem menor para construçoes inacabadas, dai vermos os predios sem acabamento externo para caracteriza-los como tal. Caso visite Luxor e tenha coragem de viajar de balao apos o tragico acidente recente verá que varias construçoes simples nao tem telhado. Como este passeio é realizado no nascer do dia tive a surpresas de ver varias pessoas dormindo em suas camas ainda, muito engraçado! Se quiser envio a foto para voce. Obviamente os casos acima sao relacionados a determinadas classes sociais… Enfim, espero ter contribuido e elucidado um pouquinho sobre esta questao. Desejo uma linda estada neste país maravilhoso. Deu saudades ate… Adoro suas colunas, obrigada por suas colunas.at. Renata i

  2. Cora, vc vai escrever algo sobre a renúncia do Papa? Gosto de saber a opinião de pessoas inteligentes e sensatas feito você, de pessoas bobas não me interessa.E é o que mais tenho ouvido/lido/sabido por aí…sei que vc tá aí no Egito, muita pirâmide, esfinge,muita coisa interessante pra ver, mas arranja um cadinho de tempo e escreva alguma coisa, vai…Até hoje fico pensando em como seria uma crônica sua sobre a boda do Príncipe William. Na época , a coluna foi sobre Instagram(!) Quase morri, rs. Mas aproveite bastante por aí,a luminosidade do lugar é linda(ou suas fotos é que são lindas, ah, enfim…)

  3. Esse texto é tão justo e reflexivo, sem falar nas fotos… Posso dizer que estou muito bem informada sobre as questões do Egito. Excelente comme d´habitude! Obrigada e parabens!

  4. Impressionante como a Cora tem essa capacidade de discernimento,esse olhar penetrante e que vai no âmago da questão,não é à toa que tem tantos admiradores …

  5. Eu descreveria essa sua crônica como um “choque de realidade” nas ilusões que temos a respeito do Egito.
    Acho que como conhecemos a história antiga do país quando nos deparamos com sua realidade atual ficamos bem chocados.
    Realidade essa que não é muito diferente da de outros países, em alguns aspectos até do nosso – muito da força das igrejas evangélicas neo pentecostais vem exatamente do auxilio que dão nas dificuldades pelas quais as pessoas passam (cestas básicas, roupas, remédios, etc).
    Onde o Estado não cumpre com seus deveres mínimos, e no caso do Brasil deveres constitucionais, outros usam esse vácuo para benefício próprio, e sempre granjeiam força política.

    • Mas Valéria, nem sempre a caridade é interesseira. E o Estado não é a mãe de todos.
      Em tempos prósperos, ou em tempos onde se construiu o que hoje vemos como glorioso, o pagamento por serviços escravos não passava de um prato de comida. A dificuldade era enorme e as benesses pra bem poucos. O que mudou é a quantidade de gente no mundo.

  6. Tive a mesma sensação da Heliana.
    Estou viajando junto a cada post e a vontade de conhecer o Egito só aumentava, mas sua crônica me fez colocar o pé no freio e refletir sobre…
    Não saberia, agora, afirmar se desejo tal carrossel de emoções. Fico nos livros do Dr. Hawass por enquanto.

      • Verdade , eu moro No Egito e sempre vou ao Cairo estive la Ontem ( 04/03/2013), mais uma vez, o transito e a Impaciencia das pessoas me surpreenderam , Mesmo meu marido ( um egipcio) está cada dia mais surpreso com tanta diferença Na cidade do Cairo. Mas como vc falou O Cairo tem seus atrativos ,e claro mesmo o transito do Rio de Janeiro ou outro lugar do mundo tem comparação com o Transito “cairiano’

  7. Adorei o texto, Cora! A prima da mamae, foi Embaixatriz do Brasil ai no Egito, acredito quue durante a decada de 60/70 (Celia B. Pinto). Aparentemente nada mudou muito por ai. Os dois Egitos continuam a existir….. Estou adorando nossa viagem. Voce entrou nas tumbas do Vale dos Reis?

  8. Encontrar fascinação no caos é um exercício de sobrevivência. É lembrar de Poliana enquanto o mundo se degenera. De certa forma, um jeito melhor de envelhecer – sem ficar repetindo que ‘bom mesmo era no meu tempo’.
    Que bom que você está aí pra contar a história, mas volta logo!

  9. Tenho a impressão que conheço um país quase igual a esse. Neste dito país, está sendo canonizado outro Cristo e uma santa… Que tristeza!

    • Só que nesse outro país as consequências do gasto abusivo do dinheiro do público tem demorado menos a acontecer. E a imprensa tem mais liberdade por lá (aqui). Quando li pensei a mesma coisa Lilly.

  10. Que bom que vc foi. Que vc está aí, vendo a história acontecer e nos contando.
    Para mim está valendo muito a viagem. Grata
    Bjo, Norma

  11. Só mesmo você, Cora, pode fazer uma crônica tão precisa sobre a situação atual do Egito e de seu povo. Estava esperando esta crônica e ela chegou. Imagino que em outros países – com maior ou menor intensidade – o caos também esteja presente…

  12. Olha… Me coloca fora desta !!! Caramba…e o máximo de transito insuportável que conheci foi Miami com todo mundo andando a 20 milhas por hora em avenidas larguíssimas e super conservadas ! Quase fui à loucura com aquela paradeira toda, mas perto deste seu relato… Nada é tão ruim ! Obrigado por ter apagado quaisquer minimas vontades de ir para o Egito !

  13. Como disse anteriormente, tudo fica pior e a saída, como vc diz, não é fácil. Os pobres se vêem apoiados pelos islâmicos? Como? A vida deles piora, eles, ignorantes, servem de “bucha de canhão” e a vida se deteriora.

    • Eles recebem ajuda concreta das mesquitas: dinheiro para uma viúva, roupas para as crianças, por aí. A Irmandade Muçulmana entra num vácuo deixado pelo governo, que não tem políticas sociais.

      • é mais ou menos (guardadas as devidas proporções) o que os traficantes e milícias fazem nas comunidades do rio?
        []’s

        • Olá!

          Me chamo Nenna Falchi e cheguei até você através do link no blog Carta da Itália, do Allan, de quem eu e meu marido somos fãs de carteirinha. E é sobre o Allan que gostaria de falar. Não conhecemos ele pessoalmente e não sei o grau de amizade de vocês, só sei que abri todos os links no blog dele para fazer esse pedido.

          Se você conhece o Allan, sabe que ele não é apenas o blogueiro mais zen da blogosfera, mas uma pessoa “naif”, gentil, disponível e sempre pronto a colaborar. Acompanhei o engajamento dele em causas – sempre nobres – de gente que ele nunca viu nem tinha ouvido falar. Ele sempre ajuda quem precisa sem esperar e sem receber nada em troca. O Allan é assim.

          Pois agora chegou o momento dos amigos, conhecidos e blogueiros do bem ajudarem o Allan. Você provavelmente sabe que ele finalmente publicou o livro que tinha escrito há anos. Sugeri que ele pedisse aos amigos e que divulgasse no blog dele o lançamento do livro. O looongo e.mail que recebi de volta era educado, diplomático e vago: “…não tenho ideia de como divulgar o livro. Aceito sugestões. Estou providenciando um post e ainda não decidi se e como pedir colaboração, mas vc será a primeira a saber. :)” Já repararam que ele sempre termina com um smile? Compramos o livro e rimos muito. Não vai revolucionar a literatura, mas o livro é divertido, bem escrito e foi revisado, coisa qua o Allan declaradamente não gosta de fazer. rss

          Decidi então fazer um pedido a todo mundo linkado no blog dele: Vamos promover o livro “Carta da Itália”.

          No dia 11 de março, uma segunda-feira, faça um post ou uma nota no seu blog ou site, falando sobre o livro com o link da editora:
          https://www.clubedeautores.com.br/book/141356–Carta_da_Italia

          Faça o mesmo no Twitter, Facebook e outras midias sociais (#carta_da_italia_agora_em_livro). Peça aos amigos para multiplicar, principalmente a quem tiver muitos seguidores. Vamos criar um viral! Não conte ao Allan, deve ser uma surpresa.

          Posso contar com você?

          Obrigada,

          Nenna Falchi
          nennafalchi@gmail.com

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