Cenas da vida antiga

Nos tempos da internet a vapor, eu tinha uma conta na Well, charmosa comunidade online baseada em São Francisco. Hoje São Francisco fica ali na esquina; naquela época — estamos falando do final dos anos 80 — ficava muito longe, e telefonar para lá era um desvario financeiro. A Well, que começou como BBS, foi uma das primeiras comunidades online, se não a primeira; seus foruns eram frequentados por uma turma extraordinária de pioneiros. E eu precisava telefonar para participar disso porque o primeiro passo para uma conexão com a internet era uma chamada telefônica.

É óbvio que, não sendo uma multinacional ou um orgão do governo, eu não tinha dinheiro para tanto. A solução, felizmente, havia sido encontrada anos antes por hackers cheios de paciência e criatividade, e se chamava blue boxing. Os dois phone phreaks mais conhecidos eram uma certa dupla de Steves, o Wozniak e o Jobs.

Quando comecei a precisar de ligações grátis para São Francisco, o sistema já estava bem desenvolvido e funcionava através de alguns softwares que faziam essencialmente o mesmo serviço; o meu favorito chamava-se Blue Beep. Eles faziam o que, pouco tempo antes, era feito através de assobios ou engenhocas treinadas para emitir o tom de 2600 Hz que liberava as linhas da ATT. Fazia-se assim: ligava-se para a ATT e soltava-se o tom, que liberava a linha. Parece fácil e descomplicado hoje, mas estamos falando de uma época em que o simples ato de conseguir linha era uma áfrica.

O blue boxing era, naturalmente, considerado crime nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, porém, caia num vácuo legal interessante. A telefonia era monopólio do estado; todas as ligações interurbanas ou internacionais eram feitas pela Embratel. Logo, a ATT não existia no país. Seria crime usar  a linha de uma operadora fantasma?

Nenhum de nós estava muito certo da resposta, mas também nenhum estava disposto a abrir mão das suas chamadas. Corríamos o risco com gosto; se fossemos todos presos pelo menos estaríamos em boa companhia. Na verdade, nem os agentes da lei sabiam muito bem onde situar o blue boxing no contexto brasileiro. Havia alguns juízes e policiais muito influentes nas rodas de BBS que, na dúvida, divertiam-se como todos os outros.

Usar tecnologia, naqueles tempos remotos, era desbravar o desconhecido. Não éramos usuários, éramos exploradores no melhor sentido vitoriano da palavra, almas destemidas que se embrenhavam pelas novas paragens de um mundo em construção.

O barato do blue boxing acabou em meados dos anos 90, quando a ATT achou que a brincadeira tinha ido longe demais e mudou o tom de liberação das linhas. Mas aí a web já estava no ar e tudo estava mudando tão rápido que, logo, ninguém mais se interessaria pelo assunto.

Um livro que acaba de ser lançado nos Estados  Unidos, “Exploding the phone”, de Phil Lapsley, conta essa história dos bastidores da tecnologia. Lapsley, que é do meio — fundou duas empresas de tecnologia e tem 16 patentes — entrevistou inúmeros hackers que participaram do que era, então, um vibrante movimento de contracultura. Ele escreve com graça e conhecimento, deixando claro o que motivava os “meliantes”. Embora alguns lucrassem com o blue boxing, seu objetivo real era bater o sistema por pura diversão; a maioria nem tinha para quem ligar a longa distância.

Os dois Steves, por exemplo, gostavam de passar trotes para testar o seu produto: um dia ligaram para o Vaticano fingindo ser Henry Kissinger e pediram para falar com o Papa. Só não conseguiram porque Sua Santidade estava dormindo.

(O Globo, Economia, 16.2.2013)

Anúncios

6 respostas em “Cenas da vida antiga

  1. Muito legal, Cora. Eu também sou da era pré-internet. Não podia nem sonhar com ligações internacionais, mas, guardadas as devidas proporções, eu usava interurbano para acessar, muito toscamente (e ainda era Telerj) o BBS Yázigi, em meados dos anos 90. Fiquei absolutamente fascinado com a experiência de, no meu quarto, conseguir trocar mensagens com pessoas de outras cidades do Brasil, também conectadas com seus computadores naquele momento. Achei aquilo incrível. Um pouco mais tarde, em dezembro de 1996, comecei a acessar a internet. Discada, óbvio, e novamente interurbana, pois na minha cidade (na época ainda morava lá) não havia provedor, só em outra cidade maior da região… E aí esperava, se não me engano, até 1h da manhã, quando os interurbanos tinham 75% de desconto (de 1h a 5h da manhã). Naquela época, usava-se Netscape pra navegar e Eudora para ler emails. Redes sociais? Nem pensar… Por outro lado, a internet era bem menos vulgarizada e massificada também. Só quem viveu a internet daquela época (e os BBS pré-internet) é que sabe o quanto tudo mudou, pra melhor e pra pior!

  2. Cora,
    sua crônica me fez lembrar de uma conversa que ouvi hoje de manhã no metrô.
    Havia um casal bem jovem ao meu lado, e o rapaz estava contando pra garota (ambos menos de 30, ela possivelmente menos de 25) que quando era adolescente só acessava a internet de madrugada, pois a conexão era discada, e desse modo gastava-se menos. Daí ele ia assonado pra aula, com cara de quem não havia dormido nada, e não conseguia prestar atenção em aula nenhuma.
    A menina dizia que não lembrava de ter usado conexão discada.
    Ouvindo o que eles diziam fiquei pensando em como tudo evoluiu muito rápido nessa área.

    Quando eu me lembro da minha época de criança, na casa do meu avô, em que as ligações interurbanas e as internacionais eram pedidas para a telefonista que as vezes levava horas para conseguir completar; que quem queria falar com alguém em outra cidade ou país precisava falar gritando e alongando as palavras para ser entendido e ouvido do outro lado, isso nos anos 70. Hoje usamos Skype, falamos por um microfone e conseguimos não só falar como ver e ser vistos do outro lado do mundo.

  3. Só tenho a afirmar – na minha deliciosa insignificância! – que esta linguagem ”dela”, nossa ídola, rss.. é SABOROSÍSSIMAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Cora,sempre admirei isso em você,uma desbravadora nata e acima de tudo antenadíssima,
    sempre à frente em vários fronts,seja em mídia digital,com os gatos (duas das minhas paixões)
    e multi coisas …
    Você é demais !

  5. Que legal, Cora!
    Fui para o país das reminiscências.
    Guria (acho que era o1º emprego: Cia de Navegação), ‘sofri’ muito a espera do ‘tom’. Hoje parece tudo tão divertido. Só hoje! 😀
    Boa viagem, Norma

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s