Saldo da semana

Gosto muito de carnaval. Posso me dar a esse luxo porque a Lagoa, onde moro, tem sido misericordiosamente poupada pela folia. Mas cada vez encontro mais gente com horror à festa, e por justa causa: morar em ruas de passagem dos grandes blocos é castigo que ninguém merece. Ouvi histórias preocupantes: gente que passou a semana praticamente toda sem poder entrar ou sair de casa; gente que foi obrigada a deixar de usar a sala por causa do fedor nauseabundo que vinha da rua; gente que assistiu da janela, impotente, à horda que estraçalhou os seus jardins e fez a entrada dos seus prédios de latrina.

Os funcionários do Zona Sul do Leblon descreveram a passagem de um bloco como uma praga de gafanhotos: vândalos roubando mercadorias, comendo tudo o que estava exposto, quebrando o banheiro. Quando o gerente proibiu o seu uso pelos foliões, para que o banheiro não sofresse mais danos, houve quem ameaçasse urinar nas frutas.

A prefeitura não é responsável pela boçalidade dos integrantes dos blocos, mas ao permitir desfiles de milhares de pessoas não pode deixar de levar em consideração este fator “cultural”.  Não é justo jogar o ônus da festa na conta dos cidadãos e fazê-los reféns da absoluta falta de educação alheia; nem é possível ver uma cidade linda como a nossa transformada nesse mix de esgoto e lixão. Desde quando alegria tem que ser sinônimo de vandalismo e imundície?

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Fiquei impressionada com a quantidade de silicone per capita do sambódromo. Não tenho nada contra um silicone usado com critério; mas esses peitos turbinados que o mulherio está usando são horríveis! Fazem par com as coxas de jogador de futebol. Mulher com corpo de mulher, que a meu ver é coisa muito mais delicada e bonita, deu para contar nos dedos.

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Os gatinhos do Gatil São Francisco de Assis foram transferidos com sucesso para a Fazenda Modelo, onde ficaram a salvo do carnaval. Eles estão sendo muito bem tratados pela equipe da FM e pelas suas protetoras.

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“Fui convidada pelo COB a visitar o Parque Aquático Maria Lenk, agora sob sua administração. Mamãe ficou interessada e veio comigo, para conferir o trabalho e tirar a péssima impressão que teve durante o campeonato que disputou lá. O parque foi todo reformado; recebeu, em caráter definitivo, os equipamentos que a prefeitura havia alugado e que haviam sido retirados. Está tão caprichado que a equipe olímpica brasileira treina lá.

Não há luxos desnecessários, mas tudo está limpo, prático e bonito. As piscinas estão nos trinques e há até salas de descanso para os atletas que treinam de manhã e de tarde. O subsolo, que tem uma grande área construída, foi aproveitado para a instalação de uma academia e para um amplo espaço para a equipe de taekwondo.

Já que estávamos por lá, fomos ver também o velódromo e o ginásio de ginástica olímpica, igualmente bem cuidados. Demos sorte e encontramos o Diego Hypolito, que estava chegando para o treino. Conversamos, e fiquei sabendo que ele está contentíssimo com as instalações, assinadas pela Spieth, a Mercedes Benz dos equipamentos de ginástica. Foi uma tarde ótima. Mamãe ficou radiante:

– É tão bom ver o esporte sendo levado a sério! A gente volta a ter esperanças no país.”

Escrevi isso em junho do ano passado. A opinião unânime de todos que encontramos durante a visita, tanto dirigentes quanto atletas, era que ali tínhamos, enfim, equipamentos de nível olímpico. Tanto que, na parede, um cartaz muito bem colocado dizia: “Centro de treinamento / Time Brasil”. Pois agora, logo antes do carnaval, o mesmo comitê que tão orgulhosamente me chamou para conhecer as suas belas instalações, chegou à conclusão de que aquilo ali não valia nada — e fechou o velódromo!

Isso significa que, a menos de quatro anos das Olimpíadas do Rio, os atletas do ciclismo e da ginástica olímpica ficaram sem ter onde treinar. Muito magnânimo com o dinheiro alheio, o COB informa que os ciclistas poderão, eventualmente, ser enviados ao exterior para os treinos.

Quer dizer: a prefeitura, o Comitê Rio 2016 e o Ministério dos Esportes gastam uma fortuna e constroem, com o nosso dinheiro, um belo centro de treinamento de atletas. Até aí, tudo perfeito. É para que o Brasil funcione e se desenvolva que pagamos os nossos impostos, e dar boas condições aos atletas faz parte do projeto. Mas, oito meses depois, o mesmo Trio Maravilha despeja os atletas e destrói o que construiu, sem dar qualquer explicação para os otários que pagaram a conta. É isso mesmo? Entendi direitinho?

Pois eu gostaria muito que alguém me explicasse o que mudou tão radicalmente de lá para cá, para que o que era motivo de orgulho em junho tenha se tornado estorvo em fevereiro. Pode ser, COB?

 (O Globo, Segundo Caderno, 14.2.2013)

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15 respostas em “Saldo da semana

  1. Corinha, a praga dos blocos de rua tá pegando em Sumpaulo também. Particularmente não sou fã de carnaval, mas acho legal os blocos de rua, pois me parece uma manifestação realmente popular de uma festa que deveria ser popular. Desfiles de escolas de samba, com o preço que se cobra pelas fantasias e pelo ingresso, há muito tempo deixaram de ser populares. Do mesmo modo os blocos que vão atrás dos trios elétricos fazem uma divisão injusta entre os pagantes que compram abadás caros e os que não podem se dar a esse luxo. Mas, a sujeira, o vandalismo e o mal cheiro que ficam depois da passagem dos blocos é ridícula.
    O bloco “Vai Quem Quer” sai da praça Benedito Calisto e percorre as ruas do bairro onde moro, todas as noites do carnaval. Passam na rua transversal à que eu moro. No sábado de manhã o faxineiro do meu prédio estava lavando a calçada com água sanitária pra tirar o cheiro de urina que tinha ficado depois da passagem do bloco. A machiada tinha usado os postes, árvores e até o vaso com uma pequena árvore que fica na entrada do prédio como vaso sanitário (há outro nome mas esqueci, relevem). Mesmo assim ele (Chico o faxineiro do prédio) já está planejando o ano que vem comprar 2 isopores e dois carrinhos, encher de gelo e cerveja, trazer a mulher e vender a cerva pros foliões.

    Pelo visto o Brasil não gosta muito de ciclistas. Aí no Rio o pessoal do COB resolveu demolir o velódromo, aqui o Reitor da USP resolveu transformar o velódromo (único da cidade de SP pra provas de pista) num ginásio multi-esportivo. O detalhe é que o Velódromo da USP, o CEPEUSP e a Raia Olímpica da USP, foram construídos para abrigar os Jogos Pan Americanos de 1966, e ficaram para a Universidade – assim como o CRUSP, O Anfiteatro, a Colméia e todo esse complexo. O Reitor da USP não gosta muito de esportes, ele tenta restringir o uso da Cidade Universitária aos sábados por corredores e ciclistas.

  2. Já tinha quase acabado isso de desfile de bandas pelo Rio, aí começaram a falar em resgatar antigos carnavais de marchinhas, em fazer renascer a folia e coisa e tal, esqueceram que a cidade é enorme, a segunda do Brasil, milhões de pessoas querendo curtir (detesto essa palavra, me lembra couro de boi esticado no cortume) e arrasar e mijar e vomitar a cerveja, e bebida outras, destruir, enfim, o inferno na terra, aqui na rua fizeram um tal de Imbui Folia e quando terminou se via os riachos de mijo marcando o asfalto, um fedor mortífero, e era pouca gente, imagino por aí, com a multidão que vi em foto; bota os blocos para desfilar no sambódromo, as cidades crescem, os costumes mudam mesmo, onde eram cem hoje há mil e cacetadas, ou mijadas, não dá mais, é até anti-ecológico, esse mijo vai para o esgoto não tratado e vai para os emissários poluir as profundas do mar, acho que devia jogar spray de pimenta nos trecos ao vento e nas trecas também, aqui as moiçolas tambem mijam e sem paredinha, na maior tranqüilidade, para mim isso é involuçâo, no tempo das cavernas era assim, tudo podia, levamos milhões de anos e de canos e latrinas para isso, involuir?

  3. Bem… daqui de Máiâmi, nada de carnaval… Ufa !
    Aliás, nunca tinha estado nesta cidade, mas é interessante…quantos brasileiros !
    Quantos gays !
    Sabe quem vimos na rua ? O nosso vice-presidente com sua esposa e o filhinho. Numa boa, sem estresse, de camisa de manga curta.. tranquilão.
    Como diz o Dapieve, digressiono.. digressiono.. Peguei apenas UM bloco pré-carnavalesco que passou lá na José Linhares.
    Como moro no Leblon, por lá a coisa está muito feia… Meu sogro que o diga, mora em um prédio do outro lado da minha rua.
    Mas o que acho mais interessante é que é um Carnaval da Antartica.
    Não é um carnaval do Rio de Janeiro. É o carnaval da BOA… A Antartica.
    Por que é que a patrocinadora do nosso carnaval também não enche a cidade de banheiros quimicos e não organiza a segurança ? Porque a prefeitura é incompetente também neste quesito.

  4. Nessas alturas eu dou graças à Deus por não morar no Brasil, esse meu país lindo. Detesto o carnaval e, ao ver as imagens e ler as notícias, fico cada vez mais surpreendida. As mulheres estão a ficar bizarras, cheias de silicone em tudo quanto é sítio e com mais músculos do que um boneco do Falcon (denunciei a minha idade, né?). O pior é que a moda está a chegar cá e, em pleno inverno, é ver algumas mulheres a desfilar com as mamas e o rabo de fora, a balançar os braços para aquecer e os lábios maquilhados com o azul do frio… De qualquer forma, o meu carnaval foi a trabalhar todos os dias e, à noite, a curtir filmes com a lareira acesa, mantinha, chá e, antes de dormir, uma papa de cerelac que o esforço de não ouvir nenhum baticum (apenas o silêncio da noite) é grande…

  5. Morando em Ipanema, confesso que eu gostava — ênfase no Pretérito Imperfeito — de ver a Banda de Ipanema passar. Era um divertido desfile de gente bonita, divertida, ou pitoresca. Mas o que era uma simpática brincadeira de rua tornou-se u’a massa informe e disforme espremendo-se por onde passa, oferecendo corpos suarentos como visão e lixo após a passagem.

    Fui checar minhas fotos e, desde 2007, nunca mais fui ‘ver o bloco passar’, nem sinto mais vontade; minha ‘hoipolloifobia’ (neologismo recém-criado: ‘hoi polloi’ + ‘fobia’) sinaliza que o espetáculo havia chegado no meu limite de aversão. E caí fora.

  6. Cara Cora,

    Compactuo com seus pensamentos.

    Mas não em 100%,, Discordo, pois acho que o Governo tem sua parcela de culpa sim. Se os safados gastassem nosso imposto regiamente pago em escolas, hospitais, infraestrutura e demais pertinentes não seriam tantos os vândalos.

    Quanto ao silicone, as ditas mulheres estão se tornando seres híbridos constituídos de carne, osso e silicone em proporções cada vez menos harmoniosas. Haverá o dia em que jogar mulher borracha na parede para ver qual volta mais longe, vai ser um esporte, ou confundí-las com bonecas infláveis uma constante.

    Leia mais em:

    http://papodecozinha2010.blogspot.com.br/

    Abraços,

    Geraldo

    • Gostei demais do blog este ( ao invés de ”blogueiro aquele”) – peraí, tou demonstrando minha, hã, erudição, só. Falando sério: muito bom mesmo, queria colocá-lo em favoritos. Grata a ambos, Cora + Geraldo!

  7. Cora, fiquei boquiaberta com o parágrafo que conta o que se passou no Zona Sul do Leblon.
    Vandalismo na veia. Chocante.
    Recebi pelo twitter da Lei Seca uma foto-flagrante de 2 guardas municipais bebendo cerveja enquanto “patrulhavam” um Bloco na orla. Compreendo calor de forno da CSN na semana, entendo até a dificuldade em administrar sede e a cerveja gelada passando ali, mas pegou muito, muito mal.
    Deixa um rastro de que tal comportamento é lugar-comum… e no momento que algo ocorre de mais grave, vide o supermercado em questão, os guardas estão altinhos.

  8. O Aterro, também, principalmente na região do MAM, deve estar destruído. Árvores que demoram anos para crescer, grama caríssima, isso sem contar com o habitat dos animais e os próprios animais.
    Foram mais de 100.000 pessoas, nesta região.
    Não vi uma foto sequer, comentando a respeito.

  9. Não que isto seja de responsabilidade dessas pessoas- não vamos inverter a situação!- mas se os moradores de IpanemaLeblon e dos bairros mais afetados- e altíssimos IPTUs- se unissem e colocassem online as fotos de :”Rio, vandalismo e lixo no Carnaval” via Instagram, Face e Twitter e isto saisse na imprensa internacional, eu ga-ran-to que no ano seguinte seria tudo diferente!
    No entanto, o gap cultural é tão imenso que beira a esquizofrenia e a auto-censura tão grande, que o único post falando mesmo sobre isto, (fora algo sobre praia suja e atrasos da Comlurb) foi mesmo aqui.
    E como eu- de pata quebrada- que desfortunadamente não botei o pé na rua, neste Carnaval, pergunto irônicamente: “Heimmm??? Que lixo? Que sujeira? Eu, eihm, Cora: só vi, neste Carnaval, lindos por-do-sol e gente bonita com muitoooo filtro!!!” 😉

  10. Todo o mundo que eu falo, tem horror a Carnaval..de onde então saem esta multidão sem fim?

  11. Assisti pouco do desfile. Mas a unica mulher que vi que tinha um corpo bonito, delineado e feminino era uma Argentina! Não sei o que deu nestas Brasileiras que entraram numa pira de virar o He-Man do Carnaval.

    • Já faz algum tempo que o mulherio siliconado parece ter se inspirado nos travestis, única categoria que, desde sempre recorreu a estes artifícios. E não só, também acompanham as sandálias de salto de 32 centímetros, cílios que mais parecem leques e outros quetais. Acho que rola uma espécie de insegurança dessas mulheres, sem saber o que fazer para chamar mais a atenção. Sem saber, estão virando uma caricatura.

    • Bomba bomba bomba! A Argentina bonita já foi um argentino – fez cirurgia de mudança de sexo!

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