A História e os cheiros

Acabou dando uma crônica… 🙂

Tenho algumas perguntas que nunca serão respondidas. Gostaria de saber, por exemplo, qual era o gosto da comida na Idade Média. Posso ler mil descrições, mas nenhuma jamais corresponderá à garfada que me esclareceria essa dúvida. Tenho certeza de que eu detestaria praticamente qualquer prato, já que sutileza não era uma marca registrada da época. Já participei de alguns jantares “medievais” na Europa, em que cozinheiros criativos tentaram recriar antigas receitas, mas faltava-lhes metade dos ingredientes e, imagino, boa parte da coragem para carregar nos temperos.

Tenho também muita curiosidade em relação ao cheiro do mundo. Quando passeio por encantadoras cidades antigas, em que tudo parece cenário de filme de época, nunca me esqueço que, no tempo em que  viveram seu auge, as noções de higiene eram bem diferentes das nossas. As ruazinhas estreitas que tanto me encantam eram melequentas e imundas. Bichos de todos os tipos circulavam entre as pessoas, de bodes e vacas a ratos e insetos; ninguém tomava banho; havia esgotos a céu aberto. Cavalos, bois e burros ocupavam as ruas, montados ou puxando carroças, e deixavam por toda a parte o rastro da sua presença. Queimava-se incenso nas igrejas não por motivos sagrados, mas para dar um trato no bodum de tanta gente junta: havia quem acreditasse que a fumaça afastava doenças.

Tive dois momentos de grande percepção histórico-olfativa, digamos assim. O primeiro aconteceu na Turquia quando, circulando pelo interior, fui parar numa aldeia minúscula que pouco tinha mudado com os séculos. As casas eram construídas em dois pisos. No térreo ficavam os armazéns e os animais; no andar superior, as pessoas. Entrei em várias delas e, embora estivessem limpas, o aroma era — para usar um termo diplomático — intenso. Estávamos no começo da primavera, o que significava portas e janelas abertas e espaços arejados. Não tive imaginação suficiente para fazer ideia de como seria no inverno.

O outro momento aconteceu em Delhi. Fui para a Índia bastante preocupada com os cheiros que encontraria; pois me preocupei à toa. Não cheirei nada no país que já não tivesse cheirado, e bem pior, depois da passagem de um bloco pelas ruas do Rio. A exceção foi na Jama Masjid, a grande mesquita. Em frente ao magnífico edifício havia uma muvuca completa, em que se misturavam no ar os cheiros dos perfumes usados pelos indianos, das frituras preparadas pelos vendedores de comida, dos animais que seriam sacrificados no dia seguinte (estávamos às vésperas do Eid) e de um esgoto nauseabundo. Fiquei em estado de choque nasal — e devo ter ficado também meio esverdeada, pois logo um rapaz me ofereceu um frasco minúsculo com um cheiro suficientemente forte para encobrir os demais pela módica quantia de cinquenta rúpias. Mal sabia ele que eu teria dado qualquer coisa por aquilo!

Ali, de frasquinho nas ventas, tive plena consciência de que estava o mais perto possível do cheiro com que a humanidade conviveu, universalmente, até descobrir as primeiras noções de higiene, há meros 200 anos.

Na sequencia eu ia a Varanasi, antiquíssima cidade à beira do Ganges, onde, além de todos os cheiros já descritos, me esperava, ainda, a fumaça das piras de cremação. Pelo sim pelo não, comprei mais um vidrinho de sais aromáticos do vendedor, que estava tendo um ótimo dia com os firangs. Cheguei a pensar em cancelar a viagem, o que teria sido um grave erro. Varanasi é a cidade mais impressionante que já visitei. É linda, está suspensa no tempo e cheira predominantemente a incenso e especiarias. Tem sua cota de ruas mal cheirosas, mas nada que se compare ao que encontrei em Delhi.

Quanto às piras funerárias, não cheiravam nem fediam. Os indianos dizem que isso se deve a Krishna; já eu acho que se deve à brisa. Só vim a descobrir qual é o cheiro que temos quando nos cremam em Pashupatinath, na área sagrada de Kathmandu, onde Krishna e o vento não trabalham, e onde não há incenso que dê jeito no ar. Muitos ocidentais mais sensíveis passam mal, mas eu estava curiosa demais para me dar a esse luxo.

Mas se o fedor do passado me interessa, mais ainda me interessa o perfume. Adoro incensos e gosto de imaginar que nos acompanham desde tempos imemoriais. Daria tudo para saber com que cheiro ficava  Cleópatra depois dos seus famosos banhos e quais eram os perfumes favoritos dos egípcios e dos romanos. Podemos ter uma vaga idéia disso indo às perfumarias orientais que ainda trabalham com óleos essenciais naturais. Os cheiros de origem animal, como o ambar gris e o musk, ou os extraídos de flores, de especiarias e de madeiras, continuam basicamente iguais.

Durante séculos e séculos tivemos uma paleta de fragrâncias mais ou menos imutável. Só começamos a cheirar de acordo com os nossos tempos em 1889, ano em que a Torre Eiffel foi erguida em Paris e em que um jovem perfumista chamado Aimé Guerlain inventou de usar moléculas sintéticas.

Mas isso já é outra história.

(O Globo, Segundo Caderno, 24.1.2013) 

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36 respostas em “A História e os cheiros

  1. É interessante como a memória “olfativa” não distingue cheiros bons e ruins para trazer as boas lembranças. As belas manhãs da minha infância em Ipanema trazem o cheiro do lixo queimando nos incineradores dos prédios; os bons anos que morei em Botafogo vêm com o cheiro de lixo azedo (morei perto do centro de distribuição de lixo da Comlurb da Mena Barreto), Hoje, morando em Curitiba, acostumei-me com o terrível cheiro de esgoto que sobe dos bueiros das ruas do Centro em épocas de estiagem. A pequena temporada que passei em Atenas é lembrada com a mistura do cheiro da fumaça do óleo diesel, o aroma do perfume Mauá e o ar frio do inverno. Felizmente, bons aromas também trazem boas lembranças: a dama da noite que hoje penetra em minha casa em Curitiba me traz as noites de verão em Teresópolis. Mas o mais interessante é o cheiro do ar: na primeira vez que vim a Curitiba, assim que saí do avião, senti o mesmo cheiro do ar que sinto em Teresópolis: cheiro de altitude (a altitude das duas cidades é de cerca de 900m).

  2. Além de suas crônicas maravilhosas, aqui, neste blog, ainda temos o privilégio de ler comentários como os de Nelsinho, Matilda e tantos outros… por isso, nunca deixo de marcar o “Avise-me sobre comentários seguintes por email”: não perco um!

  3. Manhã de domingo.
    Missa das dez em São Bento,
    canto gregoriano,
    incenso, sineta e sombra.

    Pedras antigas sob os pés.
    Luz coada pelas janelas altas,
    bancos de madeira escura,
    cheiro de angélicas.

    E sentir a alma leve
    depois de palavras
    não tão breves.

    E piscar os olhos
    na claridade da manhã
    e seguir, subir a ladeira

    Angélicas é o cheiro, junto com tabaco, que mais gosto atualmente, alfazema e lavanda também.
    Mas imagino o cheiro das ruas soteropolitanas por volta de mil e quinhentos e cinqüenta, barro, bichos, esgotos no meio da via publica, aquele riozinho de côcô correndo, ladeado por barro vermelho, águas de urinóis nas calçadas que existiam (deviam ser poucas), mamonas, damas da noite, aroeiras, mal-me-queres e bosta de cavalos, jegues, cães, bodes e, e ainda bem que nasci nos anos cinqüenta, já existia dendê, acarajés, banhos-de-cheiros com ervas do mato, chanel n.5, guaraná fratelli vitta, outros tempos, ou outros cheiros. O cheiro do passado era forte e ruim,vai ver que por isso morríamos cedo, para não cheirar.
    Me lembrei agora de Ana Maria Gonçalves, ela era fascinada por porta-buquets de prata que as senhorinhas levavam as mãos para disfarçar o cheiro das ruas, o museu Carlos Costa Pinto é cheio deles, super estranhos…

  4. Ótimo texto… gosto muito de suas crônicas. Sempre penso nessa coisa de ‘odores’, principalmente ligado a lugares – e os cheiros acabam por nos transportar nessa viagem. Às vezes assisto com minha esposa à novela das 6h (que retrata o Rio de Janeiro no começo da República…) e fico me perguntando sobre os odores daquele Rio de Janeiro…

  5. os cheiros, os modos à mesa e a falta de higiene são fatores convenientemente desconsiderados nas estórias de Viagem no Tempo. Um viajante atual teria engulhos incapacitantes, para não falar nas doenças e alergias, se subitamente exposto à realidade histórica.

    x-x-x
    Por outro lado, é cada vez mais considerada a chamada ‘Hipótese da Higiene’, que atribui as alergias e doenças auto-imunes modernas à excessiva ‘higienização’ de tudo que a criança entra em contato (por isso, minha aversão ao anúncio do sabonete Protex, com substância supostamente bactericida, o triclosan, tb presente em pasta de dentes. Um sabonete comum é mais do que suficiente para lavar as mãos, sem a necessidade de antibióticos); como a criança não desenvolve anti-corpos pela exposição natural ao meio-ambiente ‘sujo’, o Sistema Imunológico ocioso passa a ‘mostrar trabalho’, atacando o próprio organismo.
    http://en.wikipedia.org/wiki/Hygiene_hypothesis

    • Concordo totalmente com você! Acho esses sabonetes bactericidas o fim! Criança tem mais é que se sujar, comer uma terra de vez em quando, viver, enfim. As pessoas são histericas com higiene, por um lado, e por outro emporcalham as ruas, jogam lixo pela janela dos carros, não se importam de fumar no nariz dos outros

  6. Assino embaixo da virginiareisr; quanto aos incensos, nem pensar (sou alérgica, muiiiiiiiiiito alérgica). Destaque para o seu texto que, como sempre, é DIVINO!

  7. Boa crônica, Cora!

    Em um único século, salvo em (nem tão poucos) lugares onde persiste e resiste um primitivismo atual, o planeta mudou de forma inimaginável para nós, natos na primeira metade do século passado. Na virada dos anos 40 para os 50, tenho plena lembrança, eu ia passar as férias de verão “na província”, em casa do meu avô materno, um dos cinco ou seis felizardos que na região possuiam automóveis naquela privilegiada povoação com luz elétrica e estradas de acesso. Dali, pequenino com os meus seis anos, era levado a cavalo para visitar outras pessoas em aldeias milenares perdidas no meio dos montes. Lembro de cruzar algumas ruas estreitinhas a que chamávamos de quelhas (ou quelhos), cujo calçamento era totalmente atapetado com palha seca que ia absorvendo a fezes dos animais. Era uma fábrica de fertilizante natural a céu aberto, em ruas onde o povo precisava circular a cavalo ou a pé. Quando vejo filmes de época em que é recreada essa malcheirosa e doentia realidade presente por toda a europa rural, sinto-me um ser pré-histórico por ainda haver tido oprtunidade de ver um pouco daquilo. Sua crônica propiciou a volta a essas recordações, que misturam mau cheiro, brincadeira solta, banhos no rio, broa de milho e queijo de cabra…

  8. Corajosa Cora! Eu simplesmente teria morte súbita…. DETESTO, simplesmente cheiros nauseabundos. Incompatibilidade total. Detesto cheiro de alho misturado com vinho, cheiro do Metrô de Paris … Imagina das aglomerações da Índia e outras tais. Argh.

    • Somos duas então! Não há, para mim, cheiro pior que o das axilas “vencidas”. É de arder os olhos.

  9. maravilhoso texto viajante! agora, estive num enterro no crematorio da vila alpina e sinceramente, o cheiro que senti foi exatamente o mesmo que sinto ao entrar em qualquer churrascaria rodizio

  10. Muito boa esta crônica. Uma coisa que eu sempre imaginei como deveria ser horrível (fedorento demais) os navios que faziam as grandes viagens nos anos de 1500 / 1600 / 1700 e por aí vai com aqueles homens sem tomar banho, sem escovar dentes, pescando para se alimentar, grrrrrrrrrrr… que inhaca …

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