A História e o cheiro

Tenho algumas perguntas que nunca serão respondidas. Gostaria de saber, por exemplo, qual era o gosto da comida na Idade Média. Posso ler mil descrições, mas nenhuma jamais corresponderá à garfada que me esclareceria essa dúvida. Tenho certeza de que eu detestaria praticamente qualquer prato. Sutileza não era uma marca registrada da época, e usavam-se como temperos ingredientes que hoje são considerados péssimos para a saúde.  Já estive em jantares “medievais” em que cozinheiros criativos tentaram recriar as antigas receitas, mas faltava-lhes metade dos ingredientes.

Toda a espécie de bicho circulava entre as pessoas, de vacas e cavalos a ratos e insetos. Ninguém tomava banho. Havia esgotos a céu aberto. Queimava-se incenso nas igrejas não por motivos sagrados, mas para dar um trato no bodum de tanta gente junta: havia quem acreditasse que o incenso evitava doenças contagiosas.Tenho também muita curiosidade em relação ao cheiro do mundo. Quando passeio por encantadoras cidades medievais da Europa, em que tudo parece cenário de filme de época, nunca me esqueço de que, na época em que foram construídas, as noções de higiene eram muito diferentes das atuais. As ruazinhas estreitas que tanto nos encantam hoje eram imundas.

Mas se o fedor do passado me interessa, mais ainda me interessa o perfume. Eu adoraria saber como cheirava Cleópatra, e quais eram os perfumes favoritos dos romanos. A resposta a essa questão está (quase) a nosso alcance: basta ir a uma perfumaria que trabalhe com óleos essenciais. Os cheiros extraídos de flores e madeiras continuam basicamente os mesmos — e assim permaneceram durante muitos séculos.

Primeira loja da Guerlain, na Rue de Rivoli, em Paris

O uso de ingredientes sintéticos é bem recente. Remonta a 1889 e foi ideia de Aimé Guerlain, filho do perfumista Pierre-François-Pascal Guerlain. O jovem Guerlain trouxe muitas novidades para a indústria, a começar por especiarias exóticas que, até aquele momento, ninguém no Ocidente considerara como matéria prima para perfumes. Nem todas, porém, funcionavam bem au naturel.

A solução? Criar “clones” daqueles cheiros maravilhosos.

Várias gerações de embalagens de Jicky

Com isso, Aimé Guerlain pode lançar Jicky, historicamente considerado o primeiro perfume moderno — o primeiro querompia com todas as tradições milenares dos cheiros bons. A adição de moléculas sintéticas ao perfumes apresentou à humanidade toda uma paleta de novas fragrâncias: o mundo nunca mais cheirou da mesma maneira.

Jicky existe até hoje e é moderno até hoje. E custa uma fábula, como convém a uma jóia atemporal.

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25 respostas em “A História e o cheiro

  1. Não precisamos ir muito longe para saber como era o cheiro da Idade Media. Em muitos bairros de periferia e das comunidades de baixa renda, o esgoto passando por vielas a céu aberto é comum e o lixo reina nas ruas. A noção de higiene privada mudou muito, mas da porta para fora, no espaço público… O final de uma feira de rua também é muito perfumado rsrsrs Algumas ruas do centro do Rio têm um cheirinho altamente medieval rsrsrsrs, sempre há algum problema na rede de esgoto. 😦

  2. Cora, em York tem um museu arqueológico que, além de mostrar o sítio e a recriação dele, recria também o cheiro, ocre, estranho, mas cheiro…

      • Que coincidência, Naty, eu tinha acabado de me lembrar desse centro. Chama Yorvik Viking Center e foi construído sobre um sitio arqueológico de uma vila viking. O cheiro é basicamente de bosta e tem aquelas animações mostrando a vida na época. É na área onde minha irmã mora. 😉

  3. Ótimo texto, Cora. Como sempre, inspirador e agradável. Também sou fascinado por História e Idade Média (acho que é porque sou muito curioso, rs). Sua curiosidade a respeito de sensações que as pessoas de outras épocas sentiam é a minha também, mas sabemos que nunca conseguiremos transpor para os tempos de hoje, com a cabeça que temos hoje, a experiência de quem vivia séculos atrás. A primeira vez que me dei conta disso foi lendo o excelente “A loja de pianos da Rive Gauche”, em que o autor fala, em determinado momento, que não ouvimos hoje em dia as músicas da era barroca, clássica, romântica, com os ouvidos da época em que foram compostas, bem como os instrumentos de hoje são bem diferentes dos da época original (ainda que hoje tenhamos um da época restaurado) etc. Ele compara à sensação que se tinha, na Idade Média, ao avistar Notre Dame, altissima, no meio de uma cidade de prédios baixos na época. Dava uma idéia de suntuosidade, como se estivesse realmente adentrando a casa de Deus. Impossível reproduzir tal sensação hoje, quando adentramos na Notre Dame, acostumados que somos a arranha-céus infinitamente mais altos!… Coisas muito interessantes de se pensar

  4. Sua cronica me fez lembrar de um livro otimo de uma escritora tao maravilhosa quanto sumida:Raquel Jardim (Cheiros e Ruidos),

    Se pudesse gostaria de ter frasquinhos com a essencia do fogao a lenha da casa da minha vo.Cheiro de infancia,infancia boa, gracas a Deus.As vzs,quando a saudade aperta,chego a acender um fosforo e

  5. Prá saber +ou- o que se comia na Idade Média o DaVinci nos deixou um “livrinho” com receitas do tempo em tinha um buteco as margens da “Dutra”. Já quanto a catinga que imperava nas vilas, cidades e até nos muquifos das zelites, é bom lembrar que os palácios franceses (Versailles) não tinham banheiros. Era tudo na base dos pinicos que de manhãzinha era tudo “pinchado” pela janela.

  6. na história dos perfumes, dois ingredientes são muito — vamos dizer — exóticos:

    – Amber Gris: tradicionalmente utilizado como fixador nos perfumes; é uma espécie de ‘furball’ (vômito, regurgitação) dos cachalotes que, quando fresco, é gelatinoso de cor clara com um leve aroma fecal. Como é mais leve que a água, bóia; e assim, exposto aos elementos, endurece um pouco mais, torna-se acizentado exalando um aroma marinho.

    – Almíscar/Musk: é o odor característico dos testículos (em sânscrito, ‘muská’) do Cervo-Almiscarado. Por isso, sempre foi considerado um aroma sexual.

  7. Acho que é o John Lukacs ou o Stefan Zweig que conta que a grande diferença das cidades do século XIX e princípio do século XX para o nosso tempo foi a desaparição do permanente cheiro a cavalo (e a bosta de cavalo) que impregnava as grandes cidades, quando os transportes eram todos de tracção animal.

    • bem lembrado, luis: em Petrópolis, na calçada ao longo do Museu Imperial, ficam estacionadas as turísticas charretes puxadas a cavalo. Antes da obrigatoriedade dos cavalos usarem uma espécie de ‘fralda’, era intenso o cheiro de bosta no local (para quem morou no interior, não é propriamente desagradável, mas intenso).
      Por isso, dá para ter uma idéia do cheiro predominante nas ruas das cidades pré-automóvel.

  8. Cora, viajeii com a crônica. Queria sentir o cheiro do Jicky Parfum…

    Fico imaginando que os romanos cheiravam a sálvia e a manjericão, já que, eram ervas presentes nas casas.
    Sei que era comum nas casas rurais da Itália as mulheres perfumarem as camas com essas ervas amassadas pelas mãos (a nonna de meu marido contava isso a meu sogro).

    Mas convém assinalar que aquele desodorante basiquinho devia fazer uma falta tremenda. Como devia fazer falta.

  9. Só a embalagem, já vale tudo, Cora. No site da Neiman Marcus tem. Guerlain Jicky Parfum
    BRL 719.40 mas ao lado tem esse aviso: We are sorry, but we are unable to ship this item to Brazil. Que pena, eu ia encomendar pra mim 😉

    • Marise, caso haja interesse:

      http://www.fragrantica.com/perfume/Guerlain/Jicky-103.html
      Ali aponta Ebay e Amazon.com – como tendo p/venda (ñ sei se é Eau de Toilette).e tb descreve os princ. acórdes.

      +++++++++++

      Cora,
      Belo post. Trouxe-me: bouquets das noivas (daí a sua origem: disfarce p/o mau cheiro – rs), O Perfume – A História de um Assassino, do P. Süskind, Vatel e o seu banquete p/o Rei Sol, apesar de quase 200 anos já terem se passado da IMédia e esses dados de files arq. no meu PC, caso seja do teu interesse:

      Cleópatra (e as rosas)
      Cleópatra, última rainha do Egito, representa o símbolo da sedução com seus rituais perfumados. Além de conquistar o coração do general romano Marco Antônio, conseguiu dele a promessa de uma aliança com Roma. Ao que parece, ela era muito mais atraente do que propriamente bonita, e sabia, acima de tudo, como perfumar-se. Untava-se com essências aromáticas dos pés à cabeça, criava em torno de si uma aura perfumada e recebia Marco Antônio em uma cama repleta de pétalas de rosas. Seus requintes eram incríveis: ela impregnava de odor de rosas até as velas de seu barco, e viajou ao encontro do amante inteiramente untada de óleos perfumados, como uma deusa em forma humana, deslizando sobre as águas. Deixava-se admirar recostada no trono de seu barco, que era envolto em nuvens de incenso. Em sua célebre visita a Roma, a rainha do Egito deixou um rastro de rosas por onde passou, e em sua última noite no mundo dos mortais, antes de envenenar-se, banhou-se e perfumou-se da cabeça aos pés com as mais finas fragrâncias. Quando os soldados romanos a encontraram morta em seus aposentos, ainda puderam sentir seu perfume inebriante, feito sob encomenda para seu status real.
      Fonte:http://raizculturablog.wordpress.com/2008/09/05/a-historia-do-perfume-da-antiguidade-ate-1900-part-1/

      Para te agradecer a bela ‘viagem’ que o teu Post me proporcionou.
      Fique bem, Norma

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