Perfil: Francesca Romana Diana

Foto de Camila Maia

Um dia, nos idos de 1984, uma jovem italiana veio ao Brasil, a convite de uma amiga que morava aqui. Trazia um Brazil Pass da Varig na bolsa, e com ele percorreu o país de Norte a Sul. Viu Trancoso quando ainda nem tinha luz elétrica, foi à praia em Búzios e, sem jamais ter visto o carnaval brasileiro, sequer pela televisão, desfilou pela Portela no Sambódromo recém-inaugurado. Claro que, depois disso, foi impossível voltar a viver em Roma, no que ela define como “aquela vidinha cinza”.

— Passei um ano em Roma pensando no Brasil, arrumando as ideias e juntando dinheiro para me mudar — relembra a hoje brasileiríssima Francesca Romana Diana. — Eu escutava som brasileiro o dia inteiro e cantava todas as músicas, sem ter noção do que estava dizendo. Comprava mangas, caríssimas, que comia chorando de saudades.

No fim daquele ano, ela voltou ao país, para ver se as suas lembranças conferiam. Conferiam. Francesca conseguiu um visto temporário e preparou a mudança. Restava a parte mais difícil: contar para os pais que ia embora da Itália.

Aqui cabe um parêntese para falar de Alfredo e Olga, os pais nada comuns de Francesca. Alfredo Marquês Diana, fazendeiro, ministro da Agricultura, foi o primeiro italiano a ser eleito para o Parlamento Europeu; Olga é filha da Princesa Grimaldi da Sicília — sim, os mesmos Grimaldi que reinam em Mônaco, mas dos quais a velha princesa mantinha distância por não gostar daquelas intimidades com Hollywood.

Não foi exatamente fácil comunicar a esta família que estava de partida para o outro lado do mundo. Francesca não chegou a ser deserdada, mas o pai deixou claro que não contribuiria com um centavo. Ele era um gato escaldado: teve uma fazenda de café na África, que foi desapropriada com a independência do Congo. Depois disso, passou a desconfiar de aventuras no exterior.

Na universidade, um mundo novo

Francesca atravessou o Atlântico com a roupa do corpo. Já estava acostumada a ser independente. Quando entrou para a universidade, conheceu um mundo muito diferente daquele ao qual estava habituada. Corriam os anos 70, e não se passava uma semana sem que os jovens protestassem por uma coisa ou outra. Ela tinha, em casa, um motivo perfeito para ir às ruas. O sonho da mãe era que se casasse com um rapaz de boa família; já o pai era da Democracia Cristã, partido político que a juventude abominava.

— Cada um é filho do seu próprio tempo. A minha geração era muito engajada. Éramos todos extremamente preocupados com a natureza, e meu pai fazia discursos a favor da energia nuclear! Não podia dar certo.

Pronto: Francesca fugiu de casa, e foi morar na casa da mãe de um ex-namorado.

— Ela era psiquiatra, e com ela vi como era legal uma mulher que levava para casa o seu próprio salário, que não dependia de marido para se sustentar. Foi a minha primeira tomada de consciência de que a vida não era só ser esposa de alguém. Logo comecei a fazer o que eu sabia fazer. Dava um duro danado enfiando colares mas, no fim do mês, tinha um dinheirinho para contribuir nas despesas da casa. Depois de um ano, já ganhava o suficiente para alugar um apartamento. Foi lindo! O apartamento era minúsculo, mas pela primeira vez eu tinha uma chave para fechar uma coisa que era minha, só minha.

As relações com os pais começaram a ser reatadas nesse apartamento. A mãe nunca aceitou os convites da filha, mas o pai foi almoçar lá. Hoje todos são amigos novamente, e eles volta e meia vêm ao Brasil.

— Tínhamos pontos de vista diferentes, mas meu pai sempre foi uma pessoa especial. Uma vez, quando eu era criança, uma tia se casou com um duque. E me lembro que, no carro, perguntei a ele quem era mais importante, se o conde, o duque ou o marquês. Ele respondeu: “O mais importante é o professor”. Nunca me esqueci disso.

Francesca em 1985, com o primeiro colar que fez no Brasil

Francesca em 1985, com o primeiro colar que fez no Brasil

O Brasil retribuiu a paixão da jovem italiana. Francesca se estabeleceu em São Paulo, sempre fazendo joias, quando a amiga de um amigo viu o seu trabalho. Ficou tão impressionada que lhe deu o telefone da compradora da H. Stern. Os protótipos agradaram: a joalheria encomendou duas mil peças.

A pequena empresa era tão recente que nem tinha notas fiscais impressas. Para complicar, a jovem dona da empresa não tinha sombra do dinheiro necessário para o material de produção. Lá se foi ela para Minas, conseguir mil fios de pedras do vendedor de quem, a duras penas, comprava uns poucos fios de vez em quando.

— Expliquei a situação. Perguntei se poderia pagar os fios quando recebesse pelo meu trabalho, e ele disse que sim! Imagina, uma menina que mal falava o português, pedindo — e conseguindo! — mil fios de pedras fiado… Essas coisas só acontecem no Brasil.

As joias fizeram tanto sucesso na H. Stern que, durante os próximos seis anos, Francesca trabalhou quase que exclusivamente para lá. A parceria acabou em 1990, com o Plano Collor. Ela estava com uma encomenda pronta para ser entregue quando os fundos de todo mundo foram congelados. A saída foi levar as peças para a Itália. Lá, encarapitada na bicicleta do pai, mochila às costas, conseguiu vender toda a produção. Foi uma das poucas empresas pequenas do setor que sobreviveu àqueles tempos.

A partir daí, a marca, que na época se chamava Francesca Romana, foi crescendo. A essa altura, Francesca, a pessoa física, estava casada. Teve um filho (lindo) chamado Guglielmo, e seria feliz para sempre se a vida não tivesse outros planos. O casamento naufragou, e ela se viu na inusitada situação de ter de brigar na Justiça pelo próprio nome. O marido alegava que Francesca Romana, pessoa jurídica, era ele. Francesca, a pessoa física, ganhou. Mas até que isso acontecesse, houve muito desgaste, muita chateação e muito prejuízo para a marca.

Ela não estava disposta a perder, além do nome, o prestígio que conseguira através dos anos. A marca Francesca Romana ainda estava em disputa quando criou a Francesca Romana Diana, sua atual grife.

Para quem a conhece de longa data, é curioso constatar como o seu estado de espírito se reflete nas suas criações. A Francesca Romana dos tempos antigos era uma grife sóbria, com uma paleta de cores tradicionais. A Francesca Romana Diana de hoje é uma explosão de cores, materiais e ideias.

Um dos seus fortes está nas parcerias inusitadas. A primeira aconteceu em 2004, e foi feita com ninguém menos do que Oscar Niemeyer. Fascinada com as curvas da sua arquitetura, Francesca comentou com o amigo José Carlos Sussekind que tinha o sonho de criar uma linha de acessórios baseada nos traços do mestre, de quem Sussekind era, por acaso, calculista.

— Ele me perguntou por que eu não ligava para o Niemeyer. Simples assim! “Por que você não liga para ele?” Fiquei no maior espanto. Como assim, ligar para o Niemeyer? Mas liguei, e ele me recebeu com a maior gentileza. Aprendi com o Sussekind que sim, é só ligar.

Inspiração nos amigos

As peças da coleção Brasília foram um sucesso, e continuam em cartaz até hoje. Depois vieram parcerias com Lelli de Orleans e Bragança, que pinta a natureza como ninguém, com o fotógrafo João de Orleans e Bragança, primo de Lelli, e, mais recentemente, com Isabelle Tuchband, que adora animais e o universo cigano. Francesca usa o trabalho dos amigos como inspiração, mas a recíproca também é verdadeira: João ficou tão contente com os resultados das fotos para as pulseiras, que acabou trabalhando mais o tema e elaborando uma exposição.

Para Francesca, a palavra mágica é criatividade. Aí está o princípio de tudo, a vida em si mesma. Aos 52 anos, é uma mulher realizada.

— Acho que hoje sou muito mais criativa do que jamais fui. Primeiro, porque moro no Rio. Depois, porque convivo muito com artistas e porque estou feliz. E aí há um círculo virtuoso, porque a criação traz a felicidade. A minha criação é o que me sustenta moralmente e economicamente. É o meu hobby, o meu esporte, o meu ganha-pão.

(O Globo, Rio, 13.1.2013)

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8 respostas em “Perfil: Francesca Romana Diana

  1. Amei saber da vida dela. Suas jóias sao muito lindas e seu empenho e´cativante. Mas,deixa eu fazer uma brincadeira contigo, Corinha. A frase “Francesca atravessou o Atlântico com a roupa do corpo” e´um tanto exagerada. Com “a roupa do corpo” viajou um compadre meu, q comprou passagem p Lisboa indo primeiro ao Paraguai, Argentina e nao sei mais onde. pra ela poder ser paga em um ano. Por pura ignorancia de pobre, achou q a comida q lhe ofereciam no aviao tinha q ser paga, coisa impossível para ele e pra nao dar vexame nao levou os sanduiches q sua esposa fizera. Chegou verde em Lisboa, quase desmaiando de fraqueza e se nao fosse sua humilde malinha, eu poderia dizer agora “com a roupa do corpo” 😉

    P.S: Vc foi a amiga q a convidou ?

    • Não; naquela época eu a conhecia muito por alto, só a tinha visto uma vez na casa dos pais, em Roma. Só viemos a ficar amigas mesmo depois que ela veio pra cá. E tá, é verdade, exagerei um pouquinho… 😉

  2. Conheço Francesca desde que era adolescente em Roma. Ficamos amigas quando veio para o Brasil. Sou fã da cultura dela, da sua criatividade, da sua alma guerreira e, last but not least, das coisa lindas que faz. É uma amiga muito querida que me enche de orgulho.

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