O cego do Instagram

Da série “morro e não vejo tudo”: o Photojojo, simpático site de venda de quinquilharias fotográficas, informa que há cegos usando o Instagram. Um deles é Tommy Edison, que atende por @blindfilmcritic — porque é, como o nick indica, crítico de cinema. Acho fantásticas as pessoas que não se deixam vencer pelas suas circunstâncias, e achei excelente o papel de Tommy como crítico de cinema. Ele faz seus comentários em vídeo, de modo que outros deficientes visuais podem ouvi-los e, a partir deles, decidir se vale ou não ir ao cinema.

Antes da divulgação do Photojojo, Tommy tinha pouco mais de mil seguidores no Instagram; agora tem quase 4.500. Ele usa o aplicativo com as opções de acessibilidade do iOS, o sistema do iPhone, que obedece a seus comandos falados, transforma o que diz em legendas e lhe permite, de modo geral, a mesma experiência de qualquer outro usuário. Suas fotos não são muito diferentes das de 90% dos outros instagramers — @blindfilmcritic registra o seu cotidiano, as suas refeições, as suas idas e vindas pelo mundo.

A qualidade das imagens é zero, mas essa é a mesma nota que dou para muitos usuários que têm pleno uso da visão. Fotografia, na melhor acepção da palavra, é composição, enquadramento, deliberação. Registros visuais variados podem até prescindir disso, mas não vão muito longe como imagens.

É claro que à atividade de Tommy no Instagram falta ver e comentar as fotos dos amigos, um dos ingredientes essenciais da vida na comunidade. Mas acredito que, na medida do possível, ele está tendo um gostinho do programa, através dos comentários e da interação com seus seguidores.

o O o

E, este fim de ano, com a folguinha que tive para percorrer as galerias dos meus amigos de Instagram, mais uma vez me espantei com a facilidade com que as pessoas se revelam em imagens. Não me refiro, com isso, àquela revelação óbvia dos narcisos que só se fotografam a si mesmos; o fenômeno é mais sutil.

A simples escolha do tema para uma única foto já diz muito sobre a pessoa. Uma coleção como as do Instagram, que frequentemente ultrapassam a casa do milhar, pode ser o mais perfeito retrato do usuário.  As fotos revelam o que o texto muitas vezes esconde: é fácil dissimular uma personalidade e suas circunstâncias em palavras, mas quase impossível fazê-lo em figurinhas.

Há alguns meses acompanhei, por uns tempos, um indiano de Mumbai. Fui atraída por algumas fotos do interior da Índia. Depois de ver algumas dezenas de imagens, porém, tomei horror ao sujeito. Tudo o que está à sua volta tem grife. Se há uma caneta sobre a mesa é Montblanc; se o seu relógio aparece, podem apostar que será um Rolex ou um Breitling. Nem ao menos originalidade ele tem! A casa da família, gigantesca, é tão fria e inóspita quanto o seu espírito. Inversamente, encontro pessoas que vivem em casinhas miúdas e cheias de charme, que curtem a vida ao lado da família, dos amigos e dos bichos de estimação. Conheço pessoas tão apressadas, tensas e ocupadas que mal e mal conseguem fotografar algo que não esteja enquadrado pela janela do carro; outras são tão zen que podem se dar ao luxo de acompanhar o desabrochar das flores no jardim.

Esses são, naturalmente, casos extremos, quase caricaturas. Mas as imagens entregam tudo a respeito de quem as faz, do grau de cultura visual ao senso de humor, da posição social à profissão, das virtudes aos vícios. É sempre engraçado ver usuários paranóicos, que não mostram um centímetro da casa por medo de quem os possa estar vendo, postando dezenas de fotos feitas pela janela. Um interior pode estar em qualquer lugar do mundo; a vista de uma janela só pode estar num único lugar. Risco por risco…

No mais, mostrar quem somos e saber quem são as pessoas com quem compartilhamos as redes sociais é sempre divertido. Afinal, este é o seu maior propósito: fazer com que as pessoas se conheçam melhor.

 

(O Globo, Economia, 5.12.2013)  

 

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10 respostas em “O cego do Instagram

  1. Cora, você é fantástica. Em tudo… tem muito “bom escritor”, “bom jornalista” por aí que, como ser humano, é uma boa fraude. Eu já gostava demais dos seus textos desde que meu pai começou a assinar O Globo, ainda na minha pré-adolescência. Depois saí do RJ e perdi o contato com os seus textos. Alguns anos adiante, ali em meados de 2004, adotei um cãozinho e passei a postar fotos deles no Fotolog (ia dizer extinto Fotolog, mas o pobre é um ser moribundo, assim como o Orkut), e como eu seguia muitas pessoas ligadas à causa da proteção animal, acabei conhecendo a sua conta por lá e fiquei encantada. Exatamente porque, pelas fotos, pude ver exatamente quem era a Cora e ela era muito mais do que simplesmente a mulher que escrevia os textos que eu admirava. Lembro até hoje que as minhas fotos preferidas eram aquelas em que você mostrava pedacinhos da sua casa (sempre com os seus bichanos por perto) e das paisagens que você captava através das suas janelas.
    Bjs!

  2. Você é sempre surpreendente, @cronai e tem um humor saborosíssimo. É um prazer acompanhar suas peripécias pela WEB.
    Eu tenho paranóia do sistema de localização da Apple (menos) e do Google (bem mais). Toda vez que isso é acionado, algo na minha nuca arrepia e eu espero um míssil caindo, precisamente, na minha cabeça. É mais forte do que eu.
    Diante disso, o que é uma foto da janela? 😉

    • Acho que são você e pelo menos 50% do povo online… Não entendo isso! O que é que um sistema de localização pode fazer de mau? Antigamente todos tinhamos o endereço publicado nos catálogos telefônicos e ninguém jamais se importou com isso…

      • Se eu soubesse escrever como você aproveitaria o tema para responder sua indagação e produzir, pelo menos, meia duzia de livros de Ficção Científica, tendo estados totalitários e sistema de localização por tema central, com algumas variantes.
        Algo como um “Ubaldo, O Paranóico” (do Henfil) cibertético, fantasiando o futuro.
        Mas, infelizmente, escrever não é meu forte…

        • Eu não ignoro esses cenários; mas, por enquanto, vivemos numa democracia. Não somos criminosos em fuga. Nossas vidinhas interessam muito menos ao Grande Irmão do que gostamos de imaginar…

          • Mas eu não arrepio pelo presente, não.
            Tanto que me deixo localizar, na boa.
            É a intuição do futuro possível e talvez memórias de um passado político opressivo que pintam um quadro 1984- Ubaldino.
            E, certamente, não estarei viva para verificar se isto realmente acontecerá, ou não.
            Não colocar a casa online, acho que está, inclusive, relacionado a minha noção de pouca importância pessoal no quadro coletivo.

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