A traição do Instagram

A semana foi do Instagram, que teve a péssima idéia de mudar o seu TOS (Terms of service, termos de uso) dando a entender que passaria a ter o direito de usar as fotos dos usuários, receber dinheiro por elas e não repassar nada aos autores. Óbvio que essas condições não agradaram a ninguém — e a reação nas redes sociais foi de absoluta indignação. Eis o que dizia o parágrafo que revoltou os usuários:

” Para nos ajudar a oferecer conteúdo interessante pago, patrocinado ou promoções, você concorda que empresas ou outras entidades podem nos pagar para exibir o seu nome, imagem, fotos (juntamente com todos os metadados associados), e/ou ações que você faz em relação ao conteúdo pago, patrocinado ou promoções, sem qualquer compensação para você”. (Tradução da Globo.com)

A grita foi geral. A revista Wired chegou a publicar um post ensinando aos leitores como baixar suas fotos e liquidar imediatamente a conta no serviço. Milhares de usuários cairam fora, outros fecharam suas contas para o público, milhões postaram imagens e/ou textos de protesto. No final da tarde de terça-feira, Kevin Systrom, um dos fundadores do Instagram, veio a público dizer que o texto havia sido “mal interpretado”.

Sua presença era mesmo necessária. Desde que o IG foi adquirido pelo Facebook, há grande desconfiança a seu respeito. Mas o que ele disse não chegou a tranquilizar ninguém. O caso é que não havia “má interpretação” do texto — apenas não havia outra leitura possível. Ali estava claramente escrito que o Instagram podia receber dinheiro pelas fotos dos usuários sem remunerar os autores. Ponto.

Quando um texto está só mal redigido, e dá origem a más interpretações, há sempre um número razoável de interpretações diferentes. Neste caso, todos — de publicações especializadas a advogados de direitos autorais, passando por usuários das mais diferentes formações e nacionalidades — interpretaram o texto da mesma forma.

A respeitadíssima revista “National Geographic” (@NatGeo), que tem 650 mil seguidores e que não tem por hábito agir intempestivamente, postou um quadrado preto, no qual se lê: “@NatGeo está suspendendo novos posts no Instagram. Estamos muito preocupados com a orientação dos termos de uso propostos e, se ela permanecer inalterada, poderemos fechar a nossa conta”.  Escrevo às 4h28 de sexta-feira e até agora este post continua lá — embora Kevin Systrom tenha se manifestado mais uma vez, agora mudando o tom, pedindo desculpas, voltando o TOS ao que era antes e dizendo que o novo texto estava “mal redigido”.

A “National Geographic” tem toda a razão em estar com as barbas de molho; no lugar dela, eu estaria também. Suas fotos valem ouro. Ao contrário do que escreveu Systrom, o texto não estava mal redigido;  estava claro até de mais. É o máximo da ingenuidade imaginar que ele foi produzido por uma pessoa bem intencionada mas confusa; os advogados que redigem essas coisas passam por excelentes universidades e sabem muito bem o que estão propondo. A verdade é que o Instagram agiu de má fé. Queria se tornar uma nova Corbis ou Getty Images às custas do trabalho dos usuários, e esperava que ninguém desse por isso, numa das manobras mais safadas que já vi na internet.

Não vou apagar a minha conta. Gosto do Instagram e gosto de ver as fotos dos meus amigos. Mas perdi a confiança no sistema e aquela sensação gostosa de que o Instagram era, de certa forma, “meu” (bastante abalada, diga-se, desde a compra pelo Facebook). Já passei pelo trauma de perder uma comunidade querida,  o Fotolog, o que me faz pensar duas vezes antes de sair batendo a porta, mas que me ensinou que a vida continua ainda que isso aconteça. Pelo sim pelo não, baixei o novo Flickr, que está muito bom, e começo a olhar a concorrência do Instagram. No momento, nenhum motivo real para isso — apenas um coração partido.

(O Globo, Economia, 22.12.2012)

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18 respostas em “A traição do Instagram

  1. Olá Cora !
    Fiquei extremamente indignada com esse golpe do Instagram,assim como milhares de pessoas,
    que ganância desmesurada ! Eu pessoalmente gosto justamente por esse aplicativo que dá um look old fashioned,meio que Polaroid e outras coisitas mais,no entanto,dois meses atrás baixei
    um aplicativo que justamente se chama Polaroid (no Baixaki) simples,grátis e faz o mesmo
    efeito ! Dá uma conferida …

  2. Onten, o IG liberou uma atualização e para quem mantém a privacidade das fotos, era automaticamente desligada. Depois de horas corrigiram o problema.

    O que me irrita agora, é o novo Álbum Instagram, que salva as fotos com filtro, mas também no rolo de máquina.

    É uma boa idéia, mas fotos em duplicata no iphone não faz sentido

  3. Assim Estragam tudo.
    Eu adoro o Flickr e nunca caí de amores pelo Instagram.
    Tomara que voltem todos pro Flickr querido.

    É meu album de fotos, meus estados de espírito, meu jeito de aparecer quando quero. É uma linha do tempo fácil de consultar, de rever. Eu acho o Instagram uma coisa pros outros, de todo mundo misturado, o Flickr é meu. Tipo casa, quatro paredes e uma janela mais discreta.
    Pode ter sido preguiça minha não pegar o jeitão e os horizontes mais amplos do Instagram. O Flickr tem menos poluição, menos ruído, menos símbolos, menos gente. Tudo simples.
    Eu implico da mesma forma com o Facebook.
    Acho que é tempo de menos que eu tenho pra perambular em redes.

    • Monca, você pagou sua renovação no flickr há poucos dias, como disse em outra mensagem, mas, se entrar em sua conta hoje, verá uma mensagem com um presente para você. clique nela e aceite, e eles lhe darão 3 meses adicionais na assinatura que você fez. não perca a oportunidade. se não clicar, pelo que eu entendi, você não terá o adicional. melhor não perder. ,

  4. Não confio em nenhuma destas redes que querem, porque querem, saber tudo de você.
    Uso o facebook com muito cuidado.
    Viajo o mundo todo, de cima a baixo, e somente publico fotos dos meus pés e da minha amada e, eventualmente, da nossa filha, em cima de tampas de bueiros das cidades.
    O problema é acharmos bueiros representativos com o emblema da cidade ou, em ultimo caso, o nome da cidade. É dificil.
    Coincidentemente, recebi um casal francês aqui no Rio de Janeiro, que resolveu nos imitar …. Cara, é impossivel. Não achamos sequer uma tampa com o nome da cidade, prefeitura, estado ou sei lá o que.
    Mas achamos um bueiro da CTB, Companhia Telefonica Brasileira ! Ô troço antigo, sô !

    • Rs… Eu só acho engraçado que você não confie nestas redes todas (eu também não) mas confie nas tampas dos bueiros a ponto de ficar- e colocar sua família -sobre elas. Aqui no Rio isto é arriscadíssimo.
      Boas festas!

  5. Oi, eu adicionei a sua conta ao meu Flirck: a com o avatar atual, com apenas duas fotos. E que tem a Monca por contato. É esta?
    Mas, sinceramente, espero que tudo continue normalmente e possamos partilhar bons momentos no Instagram.
    Gosto muito de todos os amigos, por lá.
    Fechei minha página, no susto, mas já reabri: detesto perfil fechado.
    Mas…
    Eu não tinha pensado na National Geographic… Nem no NYTimes… OGlobo… DKNY, MetropolitanMuseum… Gente… O Instagram realmente tentou dar o golpe do baú!
    E as ações deles, na Bolsa, devem ter despencado, depois da enorme evasão de usuários- que fiasco!
    Vexame.

    Foi ótimo você ter escrito a respeito, @cronai

  6. Por que não passar a utilizar o Twitter? Não entendo qual é “a grande novidade” que o Instagram trouxe. Serviços de compartilhamento de imagens existem aos montes na Internet há anos, alguns inclusive bem semelhantes ao instagram. O filtro “imagem antiga” do instagram, é conseguido (este filtro de dezenas de outros) com dois toques nos mais diversos aplicativos… E voltando à questão inicial, o twitter há muito é uma rede também de compartilhamento de imagens, e desde o “rompimento” com o Instagram, oferece o mesmo filtro e outros diretamente em seu aplicativo. O espírito lomografico (não pense, fotografe) nunca esteve tão forte e nunca precisou do Instagram.

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