Livros para o Natal

Fui atraída por “A garota da fábrica de mísseis”, de Lijia Zhang (Reler, tradução de Roberto Grey) por causa da semelhança do título com o do deslumbrante “As garotas da fábrica”, de Leslie T. Chang (Intrínseca, tradução de Clóvis Marques). Ainda que complementares, os dois são, no entanto, animais diferentes. Nas garotas plurais, a história — uma grande reportagem — é contada por uma jornalista americana; na garota singular, a autora, também jornalista, fala sobre os seus anos de formação trabalhando para uma fábrica do governo. As garotas plurais veem o emprego numa empresa particular como única forma de escapar da vida massacrante do campo; a garota singular, que estuda, vê a sinecura que a mãe lhe consegue como uma tragédia que a afastará da universidade. As garotas trabalham incansavelmente, num regime quase escravocrata; a garota vai para uma seção onde não há muito o que fazer, e onde pode ler à vontade.

Lijia Zhang, hoje com 48 anos, é uma mulher do seu tempo. Cresceu enquanto a China se transformava e, condizentemente, sua história é um relato de transformação e de crescimento. Como qualquer garota em qualquer canto do mundo, ela ama os homens errados e sofre. Como chinesinha obstinada, estuda apesar das adversidades, aprende inglês sozinha, vira jornalista.

“A garota da fábrica de mísseis” é o livro ideal para quem gosta de uma boa história e para quem se interessa pelo mundo lá fora.

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Por mais que se reclame de 2012, um ano em que se lançaram duas biografias espetaculares como “Matisse, uma vida”, de Hilary Spurling (Cosac e Naify, tradução de Claudio Marcondes) e “Van Gogh, a vida”, de Steven Naifeh e Gregory White Smith (Companhia das letras, tradução de Denise Bottmann), não pode ser de todo ruim. Ambas têm em comum a pesquisa rigorosa, o texto brilhante e a descoberta de novos fatos sobre duas vidas que todos julgávamos já bem conhecidas.

Ainda que se leiam como grandes romances, essas duas biografias são particularmente indicadas para quem gosta dos seus protagonistas e da época em que viveram.

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Há livros que só faltam gritar quando a gente entra na livraria: “Olha para mim! Olha como sou lindo! Sou o presente que você procurava!” Fico sempre em dúvida na hora de recomendá-los. Será que criaturas tão vistosas precisam de elogio? Por outro lado, nem sempre é possível ver tudo o que está exposto nas bancadas, e seria uma pena que presentes tão apropriados ficassem esquecidos.

Dois desses livros, que por acaso me conquistaram nas últimas semanas, habitam universos radicalmente diferentes. Além da beleza e da vocação para presente, eles nada têm em comum. Um é o atormentado diário de uma mulher extraordinária, o outro é um singelo livro de receitas.

“O diário de Frida Kahlo” (Editora José Olympio, tradução de Mário Pontes) estava esgotado há tempos e sua volta às livrarias é uma alegria. Ele abrange a última década de vida da autora e tem relativamente pouco texto: Frida “fala” também por imagens e pela maneira como escreve, sublinhando palavras, fazendo-as maiores ou menores. O nome Diego, a gratidão aos médicos, a dor, a solidão, a dedicação à causa comunista. Ninguém precisa ter qualquer conhecimento prévio da vida da artista para encontrar nas páginas do diário a pessoa apaixonada e excepcional que ela foi.

Este é um livro indicado para os fãs de Frida e para quem gosta de arte, de gente e de coisas bonitas.

O outro livrinho vistoso chama-se “Azeite de oliva: conhecer, amar, cozinhar” e foi escrito por Carla Bardi (Editora Melhoramentos). Traz uma pequena história do azeite, dicas para uso e conservação, e várias boas receitas. O que o distingue de outros do gênero é a originalidade da apresentação: ele vem numa latinha igual às latas de azeite e traz um pano de copa de brinde.

É perfeito não só para quem gosta de comer e de cozinhar, como para quem tem uma queda por design.

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Os personagens de “Livro”, de José Luis Peixoto (Companhia das letras), são portugueses simplórios, empurrados da sua vidinha rural para a França, às vezes sem entender direito o que lhes acontece. Um certo livro, presente já na primeira frase — é a quinta palavra do romance — acompanha a história dos imigrantes. Ele é mais do que um simples objeto, como se descobrirá adiante. Mais não digo, para não estragar o prazer da leitura. “Livro” foi um dos melhores romances que li em 2012, pungente no passado que evoca, curioso na originalidade da forma, delicioso na boa prosa portuguesa.

Um presente maravilhoso para quem gosta de ficção e aprecia ler com sotaque.

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Neste ano de boas leituras, destacou-se “Habibi”, de Craig Thompson (Quadrinhos na Cia., tradução de Érico Assis), monumental graphic novel de 672 páginas. Num Oriente contemporâneo — mas estranhamente atemporal — os escravos Dodola e Zam vivem a sua história de amor. Em torno dela há contos dentro de contos, lendas, textos sagrados, história, filosofia, tudo ampliado por um visual deslumbrante.

“Habibi” é ideal para quem gosta de livros. Desconfio, porém, que agrade até a quem não gosta.

(O Globo, Segundo Caderno, 20.12.2012)   

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6 respostas em “Livros para o Natal

  1. Cora, os posts de livros são dos que mais gosto no seu blog. Só perde, no meu ranking pessoal, pros posts de gatos (e capivaras). Mas estão ali, cabeça a cabeça….

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