Pesadelo com final feliz

Ponte aérea São Paulo Rio. O embarque ainda rolava, mas eu estava tão cansada que decidi desligar os celulares logo, para tirar um cochilo. Abri a bolsa… e só encontrei um deles, o iPhone. O Motorola Razr HD tinha sumido. Revirei a bolsa pelo avesso — e nada. Fiquei esperta no ato. E, nem preciso dizer, arrasada. Liguei para o aparelho, para ver se alguém atendia, mas o bichinho tocava,  tocava e caia na caixa postal.

Entrei no site do Prey Anti-Theft, bloqueei-o e pedi relatório de onde estava. Neste momento, as portas foram fechadas, foi dada ordem aos passageiros para desligarem seus aparelhos e, relutantemente, obedeci. Passei o vôo desconsolada, pensando no prejuízo. Quando perdemos um smartphone, a parte material não é a única a lamentar. Passei pelo menos duas semanas afinando aquele Motorola, instalando e desinstalando aplicativos, decidindo onde pô-los, escolhendo papéis de parede, toques e musiquinhas. Ele estava tão redondinho que, na noite anterior, eu havia dado o meu trabalho por concluído. Congratulei-me comigo mesma, liguei o despertador e botei-o na escrivaninha para carregar.

Parênteses: não entendo como ainda existem hotéis, construídos recentemente, que não têm pelo menos uma tomada ao lado da cama. Hoje é hábito quase universal usar o celular como despertador; também é hábito quase universal carregar os aparelhos à noite. Será que nenhum arquiteto, decorador ou gerente de hotel faz isso? Será que ninguém pensa? Fecha parênteses.

Tentei me lembrar da última vez em que vi o Motorola, e não consegui. Assim que aterrissamos, me conectei novamente com o painel do Prey para ver onde tinha ficado. Ainda não havia nenhum relatório, o que significa que o aparelho estava fora do ar. Liguei mais uma vez, de novo ele tocou, tocou, e nada.

No caminho para casa tuitei e chorei as mágoas. Fui reconfortada pelos amigos da rede. Minha esperança era que o tivesse esquecido no hotel. Liguei para lá, me identifiquei, perguntei se não haviam encontrado um smartphone assim e assado. Não senhora, mas iam ficar atentos e me avisar se ele aparecesse.

Em casa fui direto para o computador. Havia finalmente um relatório sobre o Motorola! Ele estava no Rio, na General Severiano. Ahn? Teria sido encontrado por um passageiro da Ponte Aérea? Pedi novo relatório e desfiz a mala. Decidi tentar a sorte mais uma vez e liguei novamente. E não é que a minha nécessaire começou a cantar?! O aparelho estava lá. Alívio, alívio! Até agora não entendi como isso aconteceu. Quem é que guarda celular entre shampoo e pasta de dente?

Voltei para o computador para informar ao Prey que o Motorola não era mais um aparelho perdido, e lá estava a sua nova localização: a minha casa. Foi um final feliz para uma história que me deu umas duas horas de angústia. Foi também uma espécie de teste para o Prey Anti-Theft — embora, claro, o celular não tivesse caído em mãos alheias.

o O o

Por falar em aviões e em aparelhos eletrônicos: nos Estados Unidos, instada pela FCC (Federal Communications Commission), a FAA (Federal Aviation Administration) deve estudar de novo a questão da proibição do uso de eletrônicos a bordo. Há uma grita geral entre os colunistas da área desde que os pilotos da American Airlines passaram a usar iPads na cabine, ainda no ano passado. Como é que o iPad deles não interfere com os instrumentos, e os nossos interferem? Algo está errado nessa equação. E tudo está errado com a proibição, que ou bem diz respeito a um assunto sério (e, nesse caso, deveria ser para valer, com celulares sumariamente proibidos a bordo) ou bem é uma palhaçada que insulta a inteligência dos passageiros.

(O Globo, Economia, 15.12.2012)

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10 respostas em “Pesadelo com final feliz

  1. Já aconteceu comigo, só que o objeto valioso era a carteira com vários cartões de crédito e do banco! Eu havia saído de carro, imagina o “périplo africano” que empreendi para procurá-la,rs, até constatar, dois dias depois, que caíra em casa! (Mas aí eu já havia cancelado os cartões,era tarde!rs) Fico feliz pelo final do seu caso! rs Vc é uma doce figura! Qdo está feliz, irradia alegria, q continue assim!rs Abç! F3

  2. Semana passada fiquei feito louca procurando meu celular pela casa toda, pelos lugares onde tinha ido, e achei o bichinho no console do carro. Bendito São Longuinho que me fez achar, pois foi o último lugar onde pensei – como sempre acontece.

  3. Vocês já ouviram falar no PIOI ? É a perversidade intransigente dos objetos inanimados, que faz com que você comece a procurar por cima algo que está em baixo ou faz com que as coisas nunca estejam nos locais que deveriam estar ! Estes objetos inanimados são terriveis !

  4. Sou mestra em não achar objetos. Como não confio muito em mim mesma para essas coisas, canso de procurar e não encontro. Qando fico mais calma, vou ao local em que o objeto (ou documento) deveria estar e não é que está, mesmo, no lugar? A semana passada ocorreu com meu IPTU (do qual precisei uma informação) e não o encontrava. Mas ele estava, em “berço esplêndido, no local de sempre: com os documentos do imóvel. Tenho organização mas não confio nela. Pode alguém ser assim?

  5. lembrou-me de quando eu perdi minha carteira de identidade, procurei-a por semanas, pois iria precisar dela para apresentar no vestibular e nada, até que desisti, fui ao instituto de identificação (ainda não existia o Poupatempo), peguei a senha e lá, sentado na espera, abri minha carteira e dei de cara com o RG desaparecido, assim, do nada. coisa de saci. só pode ser. eu havia aberto aquela carteira tantas vezes durante a procura… inexplicável.

  6. uma vez, por um motivo lógico mas de história longa, o meu foi parar dentro da geladeira. do mesmo modo, ficava ligando para ele, tocava, tocava e ninguém atendia. só consegui achá-lo quando coincidiu de uma tentativa no momento em que alguém estava abrindo a geladeira.
    []’s

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