Histórias da História

Era uma vez uma princesinha triste que morava numa cidade mais triste ainda, um porto báltico chamado Stettin, no que era então conhecido por Pomerânia. Não precisava de madrasta: tinha uma mãe que cumpria com brilho este papel. Apaixonada pelo filho mais novo, ela nunca deu qualquer afeto ou atenção à menina, que cresceu retraída e solitária, observando as pessoas e aprendendo a conquistá-las a duras penas, já que pela beleza — dizia a mãe — jamais iria a lugar algum.

Em 1744, quando estava com 14 anos, foi convocada por Elizabeth, da Rússia, para se casar com o primo Pedro, sobrinho da imperatriz solteira e herdeiro do trono. Gostou da idéia. Via ali a chance de escapar de Stettin, da mãe e da vida medíocre que levava. Inteligente, com um jeito inato para agradar, logo caiu nas graças da imperatriz. Atirou-se com afinco aos estudos da língua e da cultura do país, e logo fez-se querida também do povo. Ao se converter da igreja luterana para a igreja ortodoxa, Sophia Augusta Fredericka von Anhalt-Zerbst foi batizada de Catarina — e com esse nome entrou para a História.

O casamento foi um desastre. Pedro era imaturo, grosseiro, pouco educado e, aos 17 anos, já alcóolatra. Ao contrário da esposa, insistia em falar alemão e em usar uniformes prussianos, coisa que, compreensivelmente, em nada agradava aos russos. A imperatriz Elizabeth sabia o desastre que tinha em mãos, e queria que o jovem casal produzisse logo um herdeiro para garantir o trono. O que poderia ser simples em outras circunstâncias, revelava-se, porém, uma impossibilidade. Pedro, que já não era nenhuma maravilha física, ficou desfigurado depois de ter varíola. Isso o abalou tanto quanto à futura mulher, e o casamento não foi consumado.

Anos depois, o herdeiro tão ansiosamente esperado por Elizabeth acabou nascendo — mas filho do primeiro dos doze amantes de Catarina. Esse pequeno detalhe não chegou a atrapalhar ninguém. O menino foi prontamente capturado pela tia-avó, que fez questão de supervisionar sua educação pessoalmente. Os outros dois filhos de Catarina (cada qual de um outro pai) tiveram sorte semelhante.

Pedro reinou por apenas seis desastrosos meses, durante os quais quis mudar a religião e exército russos. Foi deposto pela própria mulher, que tinha juízo e bons aliados e que, com o tempo, fez por merecer o epíteto que lhe deram: Catarina, a grande.

Eu sabia pouco a respeito dessa figura fascinante. Sabia que havia sido imperatriz da Rússia, que trocara correspondência com grandes iluministas como Diderot e Voltaire e que tinha tido uma quantidade absurda de amantes. Sabia também que foi a responsável pela criação do Hermitage, um dos grandes museus de arte do mundo. Mas não tinha idéia da sua dimensão de estadista, da sua visão do mundo, das questões políticas que a cercaram.

Fui salva da minha ignorância por “Catarina, a grande: retrato de uma mulher”, de Robert Massie (Editora Rocco, tradução de Ângela Lobo de Andrade). O livro chegou às minhas mãos no sábado. Atravessei o fim de semana lendo compulsivamente, sem conseguir me afastar da história. Dormi o mínimo possível, quase não saí de casa; cheguei ao fim das 640 páginas absolutamente encantada, tanto com a biografada quanto com o biógrafo.

A história de Catarina é daquelas que só podem mesmo acontecer na vida real; em ficção, seria exagero demais, impossibilidade demais. Por causa disso, aliás, não é fácil convertê-la em biografia. Sorte nossa que o historiador Robert Massie tenha, aos 80 anos, se dedicado a esse trabalho, para o qual está mais bem preparado do que ninguém. Ele recebeu o Prêmio Pulitzer de 1981 por sua biografia de Pedro, o grande, mas escreveu outros livros sobre a Rússia tzarista: “Nicolau e Alexandra”, que serviu de base ao filme “Nicholas e Alexandra”, e “Os Romanovs”.

“Catarina, a grande” é muito sólido historicamente. Em nenhum momento, porém, o autor cai na armadilha de deixar a pesquisa se sobrepor à qualidade da narrativa. O livro se lê com paixão, como um delicioso romance, do qual nos despedimos com pesar.

o O o.

.Outro ótimo livro histórico é “Inferno, o mundo em guerra: 1939-1945”, de Max Hastings (Editora Intrinseca, tradução de Berilo Vargas). Este me chamou a atenção pelo tamanho — 766 páginas — e pelo comentário do “Washington Post” reproduzido na capa: “A melhor história sobre a guerra escrita em apenas um volume”.  Ahn? Isso lá é elogio?!

Apesar dessa qualificação bizarra, descobri que o livro é mesmo extraordinário. Todos nós conhecemos bem ou mal os fatos, mas Hastings nos traz algo mais tocante: as pessoas que os viveram. O trabalho que realizou é assombroso. Para praticamente cada episódio da guerra, ele encontrou relatos em primeira pessoa de gente que estava lá. Sua descrição das batalhas é antológica, mas sua empatia com as vítimas do conflito é insuperável.

(O Globo, Segundo Caderno, 6.12.2012)

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14 respostas em “Histórias da História

  1. Cora, vim dizer que acabei de ler o livro essa semana e ADOREI! Agora vou ter que ler o livro “Pedro, o grande”, do mesmo autor, e controlar a vontade de pular no primeiro avião para São Petesburgo…;-) Obrigada pela excelente dica, que estou repassando pros amigos (aliás, vou colocar todos aqueles livros do seu post de livros de Natal na minha wish list, hah!). E numa dessas coincidências bacanas, eu estava em Houston semana passada visitando o museu de Ciência e História Natural da cidade (muito bom por sinal) e na coleção de gemas e jóias estavam 3 peças da coleção de Catarina, broches de diamantes que pertenceram a ela, as suas damas de companhia e uma das condecorações usadas durante o seu período. O timing foi perfeito 🙂

    • Que bom que você gostou! Eu me sinto muito responsável pelos livros que indico, quando alguém não gosta de um deles fico arrasada… Beijos, querida!

  2. Cora, acho que vc ia gostar de LILA, leitura fácil e emocionante. Conta a história de Liliana Syrkis, na Polônia, durante a guerra. Vale a pena.

  3. Eu tenho esse livro na minha estante kindle esperando para ser lido. Sou fan do Masie faz seculos ! Li Nicholas e Alexandra quando era adolscente e amei…. Os livros dele cativam a gente e nos nao sossegamos enquanto nao lemos o llivro inteiro…. Posso estar enganada, mas me lembro de ter lido que ele se interssou por escrever sobre Nicholas e Alexandra porque ele tb tinha um filho hemofilico. Otimo texto, as always, Cora!

  4. Gostei das resenhas – especialmente sobre Catarina. Vou conhecer melhor esses livros. Valeu a dica.

  5. Luisa, leia porque é muito interessante. 

    Enviado por Samsung Mobile”cora rónai | internETC.” escreveu:

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