Hashtag não é legenda

O Instagram, como bem sabem os seus usuários, é cheio de projetos. Há projetos individuais: gente que se propõe a tirar um retrato por dia, a fotografar todas as suas refeições ou a roupa com que sai para a rua. Há  projetos coletivos: concursos sobre os mais variados temas, missões específicas e até “correntes” em que um passa para outro, ou outros, a tarefa de clicar determinado tipo de cena.

Pois um dos projetos coletivos mais interessantes, o @Rio365, começou justamente no Rio, e se propõe a documentar a cidade ao longo de um ano, através de 52 diferentes temas. Funciona assim: a equipe avisa qual é o tema da semana, os instagramers saem a campo, postam as fotos com a hashtag determinada (como #rio365_estilo) e, na sequência, um grupo de curadores faz a seleção. Ao cabo deste ano de atividade, o @Rio365 vai virar livro com as melhores imagens. O projeto, do fotógrafo André Galhardo (@andregalhardo), tem patrocínio da Light, e está movimentando a comunidade.

Junto com Nelson Vasconcelos, Daniela Name, Ricardo Freire e Jorge Espinho, fui uma das curadoras da semana Copacabana. Não foi um trabalho fácil. A semana fechou com quase duas mil fotos! Como selecionar apenas sete? E não basta que as fotos sejam bonitas; é preciso que sejam representativas do tema. Além de nos comunicarmos por email, tivemos uma ótima reunião — em Copacabana, naturalmente! — em que expusemos os nossos pontos de vista e defendemos as “nossas” imagens. O resultado pode ser conferido no próprio Instagram, na hashtag #rio365_copacabana, ou em rio365.tumblr.com.

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Ser curadora de um projeto amplo como o @Rio365 me pôs diante de uma das minhas grandes implicâncias no Instagram: fotos que fogem ao formato 1 x 1, característico do sistema. Nem tudo se presta a isso, é verdade, e há casos em que é melhor deixar margens nas pontas do que cortar as fotos. Mas isso se percebe imediatamente e, na verdade, são poucas as exceções que justificam outros formatos. Tenho certeza de que elas não chateiam ninguém. O que incomoda são as imagens que não foram cortadas por preguiça ou, pior, pretensão: “O meu trabalho é imexível!”.

O Instagram é um grande playground, uma pracinha onde todos vamos para nos divertir. Há gente fazendo arte de primeira em meio à brincadeira, como sempre acontece quando artistas de verdade se divertem, mas a comunidade não é lugar para nariz empinado.

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Outra das minhas broncas é o abuso das hashtags. Uma hashtag (o sinal # antes de uma palavra chave, como #praia, por exemplo) não é uma legenda, é uma etiqueta. Serve para que os usuários possam encontrar as fotos que procuram mais facilmente. Em tese, bastaria a quem busca fotos do Brasil procurar em #brasil. Mas só em tese. Graças à absoluta falta de compreensão do que vem a ser uma etiqueta, em #brasil encontram-se 1.172.136 imagens inaproveitáveis: adolescentes olhando para a camera, bichinhos de estimação, moçoilas mostrando os seus looks, besteiras de toda a sorte. Há casos piores. Em #me há 57.462.419 fotos de gente que houve por bem comunicar ao mundo que existe. E mais incontáveis imagens de comida, paisagens, sapatos… Haja paciência!

Muita gente usa hashtags na esperança de alavancar a audiência, e enche as suas fotos com as etiquetas mais absurdas, confiando em pescar incautos que estejam em busca de uma outra coisa qualquer. Quem é que já não viu as clássicas imagens seguidas de meio metro de ###?

O sistema, infelizmente, já foi para o brejo. A maioria das hashtags está sucateada, e não serve mais para nada. Só escrevi mesmo por desabafo — e na esperança de que, em algum sistema futuro, as etiquetas venham a ser usadas com um mínimo de maturidade.

 

(O Globo, Economia, 1.12.2012)

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4 respostas em “Hashtag não é legenda

  1. Não uso hashtags nas minhas fotos nunca, sei la, eu mostro a cidade ou lugares onde estou, coisas que vejo, acontecem, meus gatos, enfim, sou muito desligada, porque nunca nem percebi que existiam grupos, justamente porque vejo ouso das etiquetas pra tudo .
    Abraço, adoro suas fotos!

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