Um peixe chamado panga

A primeira vez que ouvi falar no peixe panga foi, se bem me lembro, em fins do ano passado. Recebi um email alarmista com toda a cara de hoax (“Mensagem urgente! Repasse para os amigos!”), apaguei e não pensei mais no assunto. Até que, de duas ou três semanas para cá, minha mailbox voltou a ser alvo de pisciterrorismo. Criei um filtro para a palavra panga e estava novamente em vias de esquecer o famigerado peixe quando, passeando pelo Facebook, encontrei a mesmíssima mensagem que recebi na caixa postal.

“Em um restaurante self-service, tive a curiosidade de ver melhor o peixe no meu prato. Ao abrir a posta notei que a massa estava impregnada de filamentos,” diz a mensagem. “Encostei o prato, retirei com um guardanapo parte do peixe e levei para análise. Os filamentos, na verdade, eram vermes de até dois centímetros.”

Mais lenda urbana impossível: a principal característica dos hoaxes, ou trotes de internet, é a falta de qualquer vínculo com a realidade. Quem mandou a mensagem inicial, aquela que as pessoas bem-intencionadas desandam a passar adiante? Qual foi o restaurante em que essa remota criatura encontrou o peixe? Em que cidade? Que espécie de análise foi feita? E será que um verme branco ainda tem cara de verme depois de frito ou cozido junto com um peixe igualmente branco? Pergunto porque acho que não saberia fazer essa distinção. Não seria a única; pelo visto, o cozinheiro do tal restaurante também não soube.

“Procurei me informar, lá mesmo no caixa, da origem do peixe, e fui informado que se tratava de peixe asiático.” Nosso informante deu sorte. Muitas vezes não consigo informação sobre a comida nem com os garçons dos quilos, quem dirá com o caixa…

“Após análise da porção amostrada tirei minhas conclusões que são coincidentes com as informações prestadas: peixe asiático de água doce, proveniente de rios extremamente poluídos de excrementos, dejetos e toda sorte de poluição biológica, física e química devido, entre fatores diversos, à maciça ocupação de barcos que servem de vias e moradias que constituem aglomerados populacionais de pessoas carentes de serviços sanitários e salutares.”

Mais científico impossível! O freguês coleta um pedaço do peixe, o caixa diz que o peixe é asiático e, ato contínuo, temos conclusões “coincidentes com as informações prestadas”.  E sim, vários rios asiáticos são mesmo muito poluídos, mas de que parte da Ásia estamos falando? Será que quem manda a mensagem adiante já se deu ao trabalho de procurar a Ásia num mapa? É um pedaço de terra que não tem tamanho, o maior continente do planeta, cortado por centenas de rios. Sem falar que um mesmo rio pode ser podre ou cristalino, dependendo de onde está.

” O nível de poluição dessas águas é de tamanha magnitude que as próprias pessoas que por lá convivem têm nojo e repugnância dos víveres dessa água” prossegue a mensagem, para concluir que, por causa disso, sobra peixe. Empresários inescrupulosos mandariam esse excesso para os países de terceiro mundo, Brasil y compris. Curioso é que eu já estive em lugares poluídíssimos — o rio Bagmati, no Nepal, é um caso tão extremo que por pouco não anda sobre as suas águas — e o que sempre me impressionou foi, ao contrário, como as populações ribeirinhas tendem a ignorar o grau de sujeira dos seus rios.

Fui ao Google. O peixe panga vem do Mekong, no Vietnam, onde é criado em fazendas. É exportado para o mundo todo, inclusive para a União Européia, que tem padrões de exigência elevados em relação aos alimentos que importa. E, curiosamente, é alvo de hoaxes muito parecidos por toda a parte. A turma da teoria conspiratória, que frequenta a internet em números ainda maiores do que o povo das mensagens alarmistas, atribui a campanha difamatória às indústrias pesqueiras locais, que não suportam o panga por causa da concorrência: onde quer que chegue, ele é invariavelmente o peixe mais barato.

Um segundo texto anexado às mensagens alarmistas que recebi fala da alimentação dos pangas, informando que comem uma farinha composta de “peixes mortos”, mandioca, resíduos de soja e grãos. Essa comida “mais não faz do que assemelhar-se ao método de alimentação das vacas loucas (vacas que foram alimentadas com vacas)”  É o samba do panga doido! Tirando peixes que devoram seus colegas de uma bocada e alguns chineses dados a práticas alimentares questionáveis, todos nós que comemos pescado nos alimentamos de “peixes mortos”.

Nunca comi um panga mas, só para contrariar o spam, fiquei com vontade de experimentar uns filés. Já soube pelas minhas amigas de Facebook que é preciso comprá-lo sem gordura, porque, como peixe de rio, ele tende a ser muito gorduroso, e aí fica intragável. Já soube também que “com gordura” ou “sem gordura” refere-se à forma de fatiamento do bicho. A Wilma Brito, lá de Salvador, escreveu que deu um almoço em casa em que o prato principal foi uma moqueca baiana de panga: “O almoço foi muito elogiado pelos convidados. Éramos 20 pessoas. Estava uma delicia, na comida baiana eu sou mais eu.”

(O Globo, Segundo Caderno, 22.11.2012)

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15 respostas em “Um peixe chamado panga

  1. Bom dia Cora. Vi a matéria no Globo Reporter ontem e, apesar de tudo, aquilo não me pareceu uma criação em escala de exportação. Porém, um professor meu, doutor em engenharia de pesca, me assegurou que as informações sobre o peixe não são hoax. Fui no Schoolar e achei material… http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1046/j.1365-2761.2002.00412.x/abstract;jsessionid=EA7CD7CCECF89B649DB7C219A35D7E9A.d04t01?deniedAccessCustomisedMessage=&userIsAuthenticated=false

    http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1046/j.1365-2761.2001.00308.x/abstract

    http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1365-2109.2010.02578.x/abstract?deniedAccessCustomisedMessage=&userIsAuthenticated=false

    Sds

    • NOSSA, o teu professor doutor deve saber que se fizermos uma procura vamos achar artigos similares para todos os produtos de origem animal consumidos, de peixes a gado, de frango a porco! Se ele não sabe peço que imediatamente dê a ele essa informação…. lol

  2. Há cerca de um ano pesquisei sobre o tema, em função de uma polemica surgida no condomínio onde resido. Resumindo uma história comprida: esse peixe é fruto de uma tremenda guerra comercial entre os produtores americanos e os vietnamitas. Envio o endereço de um artigo (infelizmente em inglês) que aborda o assunto com bastante clareza e isenção:
    http://www.chefs-resources.com/Is-Vietnamese-Swai-and-Basa-Safe
    Recentemente recebi um vídeo, cujo link segue abaixo, que coloca mais poluição sobre o assunto: http://www.vimeo.com/11817894
    Por essas e outras, go vegan!

  3. Pingback: Repassem se tiverem coragem: Hoax, CUIDADO COM AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES! - Funfa.blog.br

  4. Cora eu como panga direto. Vou te dar uma receita boa.. Faço ele de forno com legumes assados. Coloco muita cebola, alho porô, cenouras e tomates cortados em rodelas e rego tudo no azeite. Fica pronto em uma hora e o gosto é uma delícia.

      • Ah coloca um papel alumínio por cima ok? E uns 5 minutos antes você abre para dar uma corzinha.. Se tiver umas ervas de provence.. uma pimentinha do reino pode colocar um pouco também. Depois me conta se você gostou 🙂 Lá em casa é aposta certa.. Até os gatos ficam de olho no peixe.. risos

  5. Nunca comi panga, pois não é kosher. Não sou exatamente muito religiosa, mas acredito que os alimentos proibidos estão ali por algum motivo, independentemente de vermes ou gorduras. Ele é um peixe sem escamas. Por isso quando como na rua peixe sempre escolho o salmão, que tem uma cara e um gosto muito característicos. Acho que não dá para tapear.

    Acontece que depois do que a Marcela falou, acho que só comerei bacalhau!

  6. Gozado! Ninguém mais se interessou em falar sobre peixes!
    Confesso-me decepcionado, Cora, porque eu esperava discussão que levasse a que menos pessoas comprassem peixes chineses, valorizando os bons frutos do mar das ocidentais praias.
    Tá, eu sei, “bons mas caros demais”. Não há bela sem senão…mas peixo chino?!

    Por falar nisso: Passei numa cidade espanhola onde, à saída para a estrada, tinha um grande centro comercial cujo nome era “EL CORTE CHINO”!

  7. Comer peixe sem ser bacalhau salgado, ficou mais difícil para mim depois de ler seu post. Confesso que temos preconceito contra os peixes importados da China e redondezas. Quanto mais não seja, numa reação a favor do que se tem de qualidade por aqui em milhares de quilômetros de costa.

  8. Cora, sabe o bacalhau, que se chama cod por aqui? Pois é, aqui só se encontra o bacalhau como qualquer outro peixe, fresco ou congelado. Cheguei a perguntar porquê não vendem o cod salgado aqui, mas me explicaram que hoje em dia tem geladeira e que não é necessário salgar o peixe pra conservá-lo (dããã!, gente sem noção!). Não existe notícia de bacalhau salgado por estas bandas… bom, talvez em Vancouver, onde tem uma comunidade de portugueses pequena. Cod é um peixe barato aqui, quase tão barato quanto o salmão (que é o mais barato de todos). Eu sempre comprava. Uma vez comprei, aqueci o forno, botei o peixe no pirex e… vi alguns inquinos se mexendo em cima do filé. Pois o Garnite (a quem mais eu perguntaria sobre peixe?), na época, me explicou que quando se pesca um cod, deve-se deixá-lo na geladeira sem limpar. Ele disse que os vermes vão para os intestinos do peixe e, ao limpá-lo, os vermes vão junto com os intestinos. Se for pescado e imediatamente limpo, os vermes ainda estarão no meio da carne e os filés virão premiados. Pois é, a moral da história é: só coma cod à portuguesa, salgado mesmo! Muitos peixes tem vernes, e o bacalhau é um que provavelmente vai ter mesmo. Todo mundo me disse que o verme não mata nem o peixe nem quem come o peixe e o verme… mas, por via das dúvidas, eu devolvi os dois pro supermecado.
    Basta procurar “cod worm” no Youtube que tem um monte de exemplos: http://www.youtube.com/watch?v=ny65i307Rs0

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